Mudança Boa, Mudança Ruim…

Mudança Boa, Mudança Ruim…

A Reforma Protestante mudou drasticamente o cristianismo degenerado da época. Ela devolveu a maneira correta de relacionar-se com Deus, razão de ser da igreja: ao invés dos sacramentos, pôs a ênfase na Palavra de Deus. O que habilita alguém para relacionar-se com Deus não são os sacramentos, administrados pelo clero. É a conformidade ao ensino da Bíblia. Ela testemunha de Jesus Cristo, tendo-o como centro e finalidade, e orienta sobre o propósito de Deus. Lutero deu a Bíblia ao povo e os protestantes se notabilizaram como o povo do Livro.

Os batistas surgiram nesta esteira. No cemitério dos pioneiros, em S. Bárbara do Oeste, SP, estão as sepulturas dos membros da primeira igreja batista no Brasil (organizada em 1871). Em quase todas há uma Bíblia esculpida. O povo nos chamava de “bíblias”, no passado.

Uma mudança equivocada surgiu nos últimos tempos. A Bíblia foi substituída pelas emoções e pelas sensações. O importante não é mais a voz de Deus, mas o que as pessoas sentem. A Revelação deu lugar à sensação. O importante é ter uma experiência, e não crer. É experimentar alguma coisa, ter sensações, ao invés de aceitar a Palavra de Deus.

Uma cultura antropocêntrica penetrou na igreja. Em muitos cultos, o centro é o homem, não Jesus. O importante não é o que a Bíblia diz, e sim como as pessoas se sentem. Exemplo disto se vê na declaração feita por um carismático: “Não importa o que a Bíblia diga, eu tive uma experiência”.

Preguei em dezenas de congressos de jovens, em meu ministério. Desisti de continuar. No último houve mais de uma hora de exibição de bandas ditas evangélicas, com música dita evangélica. Após o show (foi assim anunciado, e não como culto) deram-me a palavra. Mais da metade foi embora porque não viera cultuar, mas dançar. Os que ficaram estavam exaustos. Pouquíssimos tinham Bíblia. Nos cânticos, Jesus foi o grande esquecido, e as bandas eram ovacionadas, aplaudidas e vaiadas, pela torcida. O valor mais forte hoje não é a Bíblia ou Jesus, mas o sentir-se bem e ter bons momentos.

A igreja do século 21 tem o mesmo desafio da igreja do século 2: a necessidade de afirmar a centralidade da Bíblia. E Jesus como a base de tudo. Ser cristão não é ter sensações, mas ter Cristo como Senhor da vida e pautar-se pela Bíblia, cujo fio de prumo hermenêutico é Jesus. Liberar emoções é uma coisa. Adorar a Deus é outra.

O evangelho tem sido amoldado às nossas expectativas de vida e à nossa cultura. Muitos confundem contextualizar a igreja com domesticá-la e amoldá-la à cultura prevalecente. O evangelho pode ser comunicado em toda cultura. Um ocidental convertido a Jesus não precisa se vestir como um oriental. Mas o estilo de vida consumista, sensualista (que enfatiza os sentidos) e materialista não pode moldar o evangelho e a igreja.

Quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, o culto foi descaracterizado. O olhar da igreja não deve ser para a cultura local, mas para Cristo. Um evangelho utilitário, que lisonjeia pessoas, ao invés de anunciar todo o conselho de Deus, é falso. Um dos itens de nossa filosofia de ministério é “A igreja celebra a sua fé sem rigidez, mas sem artificialismo”. Porque o importante não é a contextualização, mas o miolo, o cerne, a substância: a glorificação da pessoa de Jesus Cristo. Sem isto, a igreja se desvia do rumo.

Firmemo-nos em nossa herança histórica e teológica. O culto é para louvar e honrar a trindade, e não para catarse, expurgo de emoções.

Isaltino Gomes Coelho Filho