A Obra do Espírito Santo

A Obra do Espírito Santo

 

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a aula inaugural da EBD da Igreja Batista do Cambuí, 6 de abril de 2008

 

 

INTRODUÇÃO

Qual é, exatamente, a obra do Espírito Santo? Há muita confusão em nossos dias sobre este assunto. Para alguns, vivemos na “era do Espírito” e ele se manifestou a algumas poucas pessoas, que lideram ministérios evangélicos que muitas vezes trazem escândalos,  e que vivem fora do controle das igrejas e dos crentes. Mas a Bíblia diz que Jesus é o clímax da revelação (Hb 1.1-2), e não o Espírito Santo. E que Deus escolheu a igreja, não ministérios específicos nem homens especiais, para manifestar sua sabedoria ao mundo e às potestades espirituais (Ef 1.10). O cristianismo é Jesus, não o Espírito. O propósito de Deus passa pela igreja, não por apóstolos autonomeados ou por ministérios cujas finanças ninguém acompanha e que são dirigidos de forma imperial.

 O Espírito Santo tem sido blasfemado por pessoas que dele se aproveitam para formar impérios ou levantar movimentos pessoais, à parte de qualquer controle dos crentes.

Qual é a função do Espírito Santo? Dar choque nas pessoas? Energizar o culto, trazendo euforia às pessoas? Levá-las a uma segunda bênção? Muitas afirmações são feitas, mas poucas têm embasamento bíblico. A resposta deve ser buscada na Bíblia. Afinal, em questões teológicas, se somos cristãos evangélicos, a fonte de autoridade não é a palavra de algum pastor iluminado ou o que alguém sentiu. Nossa fonte de autoridade deve ser sempre a Escritura Sagrada, a Bíblia. O testemunho que ela mesma dá a seu respeito é contundente: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Ela discerne nossos pensamentos e intenções, está acima deles. Ela é a verdade, no dizer de Jesus: “Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). O que ela diz ser a obra do Espírito Santo? Esta é a questão: o que a Bíblia diz?

            Neste trimestre estudaremos o que Jesus ensinou sobre o Espírito Santo. Não será um estudo na base de “O Senhor me disse”, “O Senhor me revelou”, “Eu acho”, “Eu sinto”. Na realidade, estas afirmações são espiritualmente arrogantes e, ao mesmo tempo, irrelevantes para o evangelho. O que importa é o que a Bíblia diz. Ela é a Palavra de Deus, e não os nossos insights e as nossas intuições. Nesta linha de observar o que Jesus ensinou sobre o Espírito Santo, estudaremos os capítulos 14 a 16 de João. Neles está a única dissertação bíblica sobre o Espírito, e proferida pela boca do mais autorizado Mestre, Jesus. E veremos, então, a obra do Espírito Santo. Esta será a matéria do trimestre.

            A presente palestra não é uma síntese do estudo do trimestre, mas uma abordagem adicional, para ampliar os horizontes do aluno da EBD e firmá-lo no ensino da Palavra de Deus. Ela foi dividida em duas partes, apenas, esperando-se que possa ser apresentada em uma hora de preleção. Mas nestas duas partes, a linha seguida foi esta: a Bíblia fala mais que o homem. Sem a Bíblia aberta e sem sua leitura, a palestra é inócua. As duas partes são: (1) Qual é a obra do Espírito Santo?; (2) Como ele faz sua obra em nós? Esperamos que outras questões sejam respondidas durante o trimestre

Com isto em mente, vamos adiante.

 

1. QUAL É A OBRA DO ESPÍRITO SANTO?

            Fixemo-nos na pergunta que vem do título da palestra. Podemos definir a obra do Espírito numa sentença: “A obra do Espírito Santo consiste em manifestar a presença ativa de Deus no mundo e em especial na igreja” [1]. Parece um contra-senso dizer que nos cingiremos à Bíblia e citar um teólogo. Sua declaração não substitui a Bíblia, mas procura expressar o que a Bíblia diz. Citamos uma afirmação sua, e agora passamos a verificar se ela resiste à Bíblia.

            No Antigo Testamento, a presença de Deus se manifestou nas teofanias [2]. Nos evangelhos, o próprio Jesus manifestou Deus aos homens (“Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, e tu mos deste; e guardaram a tua palavra” – Jo 17.6). Mas desde que Jesus subiu aos céus, na época da igreja, esta manifestação é feita pelo Espírito Santo. Ele continua a obra de Jesus: João 14.26, 16.12-13 e Atos 1.8 (onde ele capacita a igreja para continuar o ministério de Jesus – o Espírito e a igreja continuam o ministério de Jesus).

            O Espírito Santo é a pessoa da Trindade por meio de quem a Divindade manifesta sua presença entre nós, na nova aliança. O Espírito foi derramado sobre a igreja, no dia de pentecoste, veio para ficar com ela para sempre (Jo 14.16) e trabalhará na terra até o dia final. A obra do Espírito Santo é continuar a ação da Divindade na terra, pela igreja, na vida dos crentes pelo crescimento deles, e procurando levar os incrédulos ao conhecimento do amor de Deus e rendição a ele (João 16.13-14 – sua obra nos crentes – e  16.8-9 – sua obra nos incrédulos).

            Evitemos dar ao Espírito uma função indigna de sua majestade e glória. É pecado de blasfêmia o que muitos fazem. Há adivinhações e “profetadas” atribuídas ao Espírito. Sua missão é digna. Como ele é. Que ele não seja rebaixado nem blasfemado.

 

2. COMO ELE FAZ SUA OBRA?

             Vamos alistar aqui algumas maneiras pelas quais o Espírito faz sua obra na igreja e no mundo.

(1)    Ele faz sua obra dando vida – Veja-se o Salmo 104.30. Em rodapé da Bíblia de Jerusalém, lê-se: “O espírito de Deus está na origem do ser e da vida”. Sem ele há apenas a ausência de vida, a morte: Jó  34.14-15. Ele é o Criador. Junto com o Pai (Gn 1.1) e com o Filho (Jo 1.3 e 14).

(2)     Ele nos inicia na vida cristã. Ele nos converte e nos regenera: 1Coríntios 12.3. Quando confessamos a Jesus como Senhor foi por causa do Espírito. Ele nos faz nascer de novo: João 3.5-6. Veja também Tito 3.5.

(3)    Ele santifica – Veja-se 1Coríntios 6.11. O fruto dele em nossa vida é bem descrito em Gálatas 5.22-23. Estas características são as qualidades que refletem o caráter de Jesus. O Espírito trabalha para reproduzir em nós o caráter de Cristo.

(4)    Ele faz sua obra dando poder – Ele capacitou Jesus para o seu ministério (Lc 4.14 e 4.18-19). Dá poder à igreja para cumprir sua missão: At 1.8-9. Tanto à igreja como grupo como aos indivíduos: At 6.5, 8 e 10. Ele engrandece a Jesus, e não aos homens.

(5)    Ele produz uma atmosfera digna de Deus ao manifestar sua presença – Por confundir suas emoções com a voz do Espírito, muita gente entra em descontrole e diz ser ação do Espírito. Será que ele faz as pessoas caírem no chão, rolarem, gargalharem? É esta a evidência de sua manifestação? Como ele é Santo, ele produz  convicção de pecado, justiça e juízo, ao se manifestar (Jo 16.8-11). Como Deus é amor e o Espírito é Deus, ele produz amor em nossa vida (Rm 5.5, 15.30). Há muitas outras marcas da manifestação do Espírito e o espaço aqui seria desproporcional, mas lembremos algo: o Espírito é Santo, é Digno, não deve ser confundido com histeria e descontrole emocional das pessoas. Sua marca maior é o caráter, e não catarse emocional.

(6)    Ele dá segurança – Ele nos faz sentir-nos seguros, amados por Deus e  cuidados por ele. Vejam-se  Romanos 8.16 e 1João 3.24.

(7)    Ele une a igreja – A igreja é o corpo de Cristo. Ele vivifica o corpo, une a igreja. A promessa de sua vinda em Joel 2.28-32 mostra isto: jovens, velhos, servos e servas seriam unidos pelo Espírito. No dia de pentecoste havia várias nacionalidades presentes(At 2.7-11). Assim, com esta multiplicidade racial surgiu a igreja. O Espírito não divide igrejas. Quem divide é a carnalidade humana, produto da ausência do Espírito: Judas, v. 19.

(8)    Enchendo nossa vida de sua presença – Efésios 5.18 diz isto. Mas corrijamos um equívoco: ser cheio do Espírito não significa ter uma fatia maior dele em nós, mas sim ele possuir mais de nós. Significa deixá-lo agir em nossa vida, dominando mais e mais nosso querer. Por isto a recomendação de 1Tessalonicenses 5.19.

 

CONCLUSÃO

                        O presente estudo não foca a questão de dons. Eles foram objeto de estudo em outra ocasião. E também, a maior necessidade da igreja não são dons. Parece até haver alegação excessiva de se possuir dons. O que falta à igreja de Cristo é caráter. Como disse alguém: “carisma sem caráter é a desgraça da igreja”.

            E encerro com as palavras de outro teólogo, Erickson: “ (…) mais importante que receber certos dons é o fruto do Espírito. Essas virtudes são, no entender de Paulo, a verdadeira prova de que o Espírito está atuando nos cristãos. O amor, a alegria e a paz na vida de um indivíduo são os sinais mais inequívocos de uma experiência vital com o Espírito. Em particular, Paulo destaca o amor, considerando-o mais desejável que qualquer um dos dons, por mais espetacular que seja” [3].

            Uma vida cheia do Espírito não será, necessariamente, barulhenta. Terá caráter, o caráter de Cristo. É isto que o Espírito faz em nossa vida, como disse Jesus: “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará” (Jo 16.14). Uma vida onde o Espírito está trabalhando manifesta cada vez mais a pessoa de Jesus. Se o foco foi posto no Espírito houve equívoco. E se o homem foi engrandecido, o Espírito foi blasfemado.


[1] GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. S. Paulo: Vida Nova, 199, p. 530.

[2] “Teofania” é nome que se dá a qualquer manifestação temporária e normalmente visível de Deus. Compõe-se de Theós, “Deus”, e phanei, “aparecer”. Aparecem muito em Gênesis em alguns momentos decisivos na revelação bíblica. “Anjo do Senhor”, por exemplo, é uma teofania.

[3] ERICKSON, Millard. Introdução à teologia sistemática. S. Paulo: Vida Nova, 1997, p. 364.