Para onde vamos após a morte?

Para onde vamos após a morte?

 

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para os pastores da Associação Batista Gonçalense, abril de 2008

 

INTRODUÇÃO

Saber o que nos acontece após a morte é uma curiosidade natural para quem crê na sobrevivência da alma. O materialista nada tem a especular aqui. Sua vida é pobre e se resume à sobrevivência física. Morrendo ele, tudo se acabou. Mas os que pensam em vida após a vida têm esta curiosidade. Para onde vamos após a morte?

A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é clara neste tópico (como o é em todos os tópicos). Diz ela, no item 16, intitulado “A Morte”, na sua quarta afirmação: Pela fé nos méritos do sacrifício substitutivo de Cristo na cruz, a morte do crente deixa de ser tragédia, pois ela o transporta para um estado de completa e constante felicidade na presença de Deus. A esse estado de felicidade as Escrituras chamam “dormir no Senhor”.  E alista as seguintes passagens bíblicas: Romanos 5.6-11 e 14.7-9, 1Coríntios 15.18-20, 2Coríntios 5.14-15, Filipenses 1.21-23, 1Tessalonicenses 4.13-17 e 5.10 e 2Timóteo 5.11. Vamos começar a partir daqui.

 

1. A MORTE COMO EVENTO UNIVERSAL

Mas antes de analisar a Declaração Doutrinária, comecemos pelo evento morte. Ela é universal. “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez” (Hb 9.27). Todos que existem morrerão. Esta é a única certeza da vida, a morte. Como disse o filósofo Kierkegaard: “O homem nasce para morrer, e começa a morrer quando nasce”. Com ele concorda Heidegger: "A morte é a maneira de ser que a realidade humana assume desde que passa a existir. Tão logo um homem começa a viver, já é suficientemente velho para morrer".[1]

A morte aguarda cada pessoa no fim da jornada. Disse Benjamin Franklin: "Há duas coisas inevitáveis na vida: a morte e os impostos".  Na realidade, a morte é a única certeza que se tem na vida. Ela é o mais temido adversário da humanidade.  Aguarda cada um de nós no fim de nossa experiência para uma batalha que nunca perde. Enfrentá-la tem sido motivo de muitas cogitações.  Epicuro, filósofo grego materialista, disse: "A morte não nos concerne, pois enquanto vivemos, a morte não está aqui. E quando ela chega, nós não estamos mais vivos" [2]. Esta questão foi posta em outras palavras: “Enquanto somos, a morte não é. Quando ela é, nós não somos”.

Cito Summers, que de forma poética, descreve a figura da Morte (assim, com maiúscula, como pessoa): “Com rosto lúgubre e garras de hárpia, a Morte anda no encalço de sua presa desde o início do registro da história do homem. Este aspecto da experiência humana entrou no mundo com uma nota trágica, em que um homem enraivecido contra seu irmão levantou-se para matá-lo. Desde aquela introdução, a Morte tem mantido os homens no temor do seu poder” [3]

Estou sendo lúgubre? É de propósito. Comecei o raciocínio mostrando o que temos que enfrentar. Agora posso citar o Novo Testamento, na palavra de Paulo em 2Timóteo 1.9-10: “… que nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas obras, mas por causa da sua própria determinação e graça. Esta graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos, sendo agora revelada pela manifestação de nosso Salvador, Cristo Jesus. Ele tornou inoperante a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho”. Por causa de Jesus temos a imortalidade, a vida eterna. Não somos filósofos ou pensadores sem esperança. Somos cristãos, com a bendita esperança trazida por Jesus.

 

2. DE QUE ESTAMOS FALANDO?

Compreendamos mais a questão. Quando falamos de “morte”, o que queremos dizer? Porque a Bíblia fala de "morte" em três sentidos: a morte física, a espiritual e a eterna.

(1) Física – Alude à separação entre o espírito humano e o corpo, quando cessam as atividades físicas e cerebrais: Eclesiastes 12.7. Todos passam por ela: Hebreus 9.27. Todos passarão por ela.

(2) Espiritual – É a situação da pessoa sem Cristo: Efésios 2.1. Por isso a pessoa precisa nascer de novo: João 3.3. Sem Cristo o homem está espiritualmente morto.

(3) Eterna – É a situação da pessoa sem Cristo após a morte física: Apocalipse 20.15. Podemos dizer que quem só nasce uma vez (físico), passa por três tipos de morte e morre eternamente. Quem nasce duas vezes (no sentido de João 3.3) só morre uma vez (Jo 11.25-26) e ressuscita duas (espiritual e corporalmente).

 

3. E QUANDO MORREMOS, O QUE SUCEDE CONOSCO?

Voltemos a Hebreus 9.27. Ele nos permite compreender o esquema de nossas vidas: nascimentoè vida na terraè julgamento e vida no além. Todos nascemos, vivemos e todos morreremos. Isto é óbvio. Mas surge a questão: para onde vamos após a morte?

Segundo Eclesiastes 3.20, há apenas um lugar para os mortos.  O termo hebraico é xeol. O termo grego correspondente é hades, que significa “o invisível”, de des, "ver", e o prefixo privativo a. É o termo que designa o mundo dos mortos. Chamamos de estado intermediário. Esta expressão nada tem a ver com o purgatório. É "estado" e não "lugar" intermediário.  A idéia de purgatório surgiu no século V de nossa era, com Agostinho, foi defendida por Gregório e definitivamente incorporada à teologia católica na 25ª sessão do Concílio de Trento, que aconteceu de 1545 a 1563, em reação à Reforma. O estado intermediário não intermedeia purgatório e céu, mas sim o estado desincorporado (em que existiremos fora do corpo) e o estado glorificado (quando seremos transformados, como diz 1Coríntios 15). Repito: é estado e não lugar intermediário. Todos os mortos estão em estado desincorporado, existindo fora do corpo. No xeol/hades/além há um lugar para os salvos e outro para os perdidos. Céu e inferno estão além. Não estão aqui. Uma outra ressalva que deve ser feita é que o lugar onde os mortos estão, xeol/hades/além, é definitivo, não sendo possível passar de um lugar para outro, conforme lemos em Lucas 16.26. Sei que temos aqui uma parábola e que firmar um ponto doutrinário nela é postura imprudente. Respondo que dificilmente Jesus contaria uma história que contivesse um ponto equivocado, principalmente quando o tema central da parábola é a suficiência da Palavra de Deus em matéria de orientação para a vida eterna. Neste caso, teria havido imprudência da parte dele, o que não se pode presumir. Mas uma observação de Summers sobre o estado intermediário nos ajudará mais a compreender a questão:

 

O Novo Testamento ensina que na morte o corpo volta à terra e o espírito entra num estado de existência consciente, na bem-aventurança ou no sofrimento. O Novo Testamento também ensina que o corpo será levantado e transformado, na ocasião da ressurreição, quando Cristo voltar à terra. Se essas duas proposições são ensinadas no Novo Testamento, segue-se que há um estado desincorporado de existência cônscia do espírito entre os dois eventos – a morte e a ressurreição. À luz da teologia é certo haver algum tipo de vida ou de existência nesse interregno [4].

 

Curiosamente, aquele que foi considerado o maior teólogo protestante, e reconhecido pela Igreja Católica como “teólogo cristão”, Karl Barth, defendia uma espécie de aniquilacionismo: “Em sua opinião, a morte do homem é total. Anula o homem, é a passagem do ser ao não-ser” [5]. Barth cria que o poder criador de Deus interviria, concedendo aos defuntos uma nova existência, a existência eterna[6]. Por isso, a terminologia “aniquilacionismo” não caiba bem ao seu argumento. È necessário, também,  ressaltar crer que ele defendia a existência do corpo, em outra dimensão. Mas, em linhas gerais, a sobrevivência imediata do homem após a morte é mantida por muitos outros teólogos cristãos.

Para se entender bem o conceito de morte no Antigo Testamento precisamos entender o conceito de homem. Ele se compõe de dois elementos: o basar (carne ou corpo, a parte material) e nephesh (alma). Embora alguns queiram ver o ruah (espírito) como um terceiro elemento, estudiosos como Knudson, Davidson, Delitzsch, entre outros, entendem que ruah é usado como sinônimo de nephesh, tendo ambos os termos o significado de princípio vital que resulta na vida psíquica do ser humano. O que sobrevive à morte passa para o xeol. Este é visto como um lugar de esquecimento (Sl 88.12) e de silêncio (Sl 94.17, 115.17), onde há certo grau de autoconsciência e possibilidade de movimento e comunicação (Is 14.19-20). Os seus moradores podiam ter certo conhecimento do futuro (1Sm 28.13-20), embora sejam denominados de "sombras" ou de rephains, termo hebraico que designa sombras da vida terrestre.  A idéia é de sobrevivência e não de aniquilamento. Os hebreus não tinham uma concepção bem definida de vida no além, por isso que o Antigo Testamento pouco fala sobre o assunto. Mas embora não houvesse uma teologia elaborada sobre a morte e a vida no além, os hebreus criam que havia algo do lado de lá.  Assim diz Thurman Bryant, em artigo sobre "O Corpo Celestial":

 

Há várias expressões da idéia de sobrevivência no Velho Testamento. Gênesis 35.18 relata que Raquel morreu no nascimento de Benjamin e saiu dela a alma ou nephesh. Eclesiastes 12.7 diz que ao morrer o corpo volta para a terra, como o era, e o espírito ou ruach volta para Deus. Também, a ocasião da visita da pitonisa de En-Dor a Saul reflete o conceito de sobrevivência após a morte. Outras passagens que afirmam a existência deste conceito são Jó 13.14-15, 19.25-27, Salmos 16, 17, 49 e 73. Há uma tradição hebraica antiga que quando o homem morre, sua alma parte do corpo, mas permanece perto dele durante três dias para partir de uma vez quando começa a decomposição. Dr. Summers acha esta tradição interessante em vista da declaração de Marta a Jesus que Lázaro jazia no túmulo já quatro dias (João 11.39). [7]

 

Segundo Page Kelley, a tradiçao judaica dizia que três dias era o tempo de viagem do ruah ao sair do corpo até o xeol. [8] No caso de Lázaro, pode significar também que Maria estava dizendo que o seu ruah já estava no xeol, de onde não se regressa.  Mas, independente da interpretação que se dê a esta passagem, o certo é que parece haver um desenvolvimento da idéia da vida após a vida terrena no Antigo Testamento, quando ele (o AT) está se encerrando.  Quando o hebreu tomou ciência de seu valor como indivíduo e não apenas como participante da nação, começou a refletir também sobre seu destino eterno como indivíduo. Numa segunda etapa, começou a refletir sobre a idéia de retribuição não apenas nesta vida, mas na vida além túmulo. Por fim, a noção de comunhão com Deus aqui na terra se espiritualizou também para o âmbito da vida após a morte. Mas o certo é que a teologia judaica, antes do fim do Antigo Testamento já cria numa vida além e até mesmo numa ressurreição dos mortos para receberem seu castigo ou sua recompensa, como lemos em Daniel 12.2-3. É com o cristianismo, no entanto, graças à obra de Cristo, que a vida no além assumirá um aspecto grandioso.

                       

4 . O LUGAR DO SALVO NO XEOL/HADES/ALÉM

Ao morrer, o crente em Jesus vai para o xeol/hades/além, num lugar que lhe é próprio. É chamado de “seio de Abraão” (Lc 16.22-23), de “paraíso” (Lc 23.43) e “campos elíseos" (literatura grega). São as moradas das quais Jesus disse que há muitas no céu, como lemos em João 14.2. É um lugar de glória, como lemos em Romanos 8.18. Vive-se com o Senhor para sempre, como lemos em Apocalipse 22.3-5. A palavra de Paulo em Filipenses 1.21-23 revela que a compreensão da vida após a morte é uma vida de qualidade bem superior à presentemente vivida. Deve ficar bem claro que o lugar do salvo, no xeol/hades/além é já de salvação. Na palavra de Paulo em 2Coríntios 5.7-8, morrer é estar ausente do corpo, mas presente com o Senhor.  Paulo deixa transparecer que a morte do salvo é o abandono do corpo material e uma entrada imediata na presença do Senhor. Este estado não é de inconsciência ou de sono. Pensemos nas palavras de Summers:

 

Em Lucas 23.43 Jesus assegurou ao salteador arrependido: “Em   verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. E em Lucas 16.22, a expressão "foi levado… para o seio de Abraão" é claramente  um termo descritivo que se refere  ao estado de bem-aventurança na presença de Deus. Nenhum gozo maior poderia ser contemplado por um bom hebreu do que ser recebido com um abraço no seio de Abraão, o pai da raça.[9]

    

            A promessa de Jesus ao ladrão, de estar no paraíso, merece mais observação de nossa parte. “Paraíso” é a transliteração do grego paradisos. No grego clássico designava um jardim ou parque, lugar de beleza e de recreação. Um lugar de delícias. Os tradutores da LXX o usaram para designar o jardim do Éden, em Gênesis 2.8. Flávio Josefo usou o termo para os jardins de Salomão, em Etã, bem como para os jardins suspensos da Babilônia. Associou-se ä figura de um lugar aprazível. O termo aparece no Novo Testamento na história do ladrão na cruz, na experiência de Paulo em ter sido arrebatado (2Co 12.4) e no Apocalipse 2.7, ao se falar da árvore da vida que está no paraíso. Tem a idéia de uma restauração à posição original de antes da queda. Esta impressão é corroborada pela figura de Apocalipse 22.1-2, onde o termo não aparece, mas a árvore da vida, sim.  Mais do que lugar geográfico, o termo parece indicar o lugar onde Deus habita.

A este lugar chamamos, costumeiramente, de céu. No judaísmo posterior se desenvolveu a idéia de dividir o céu em sete regiões diferentes, mas havia muita fantasia e nenhum registro bíblico nos ficou ·. O maior escritor judeu contemporâneo, Prêmio Nobel de Literatura, é Isaac Bashevis Singer. Sua obras, mesmo sendo ficção, revelam muito do mundo religioso dos hebreus. Em Shosha, que diz ele ser seu romance favorito, há esta observação feita por um de seus personagens: “Posso facilmente visualizar o Todo-Poderoso sentado no Trono da Glória no sétimo, Metraton à Sua direita, Sandafon à Sua esquerda…” [10]. É óbvio que não estou conferindo a uma obra de ficção o caráter de obra teológica, mas reconhecendo que Singer, em seus escritos, expressa a crença popular dos hebreus, no sua religiosidade popular.

Temos um possível resquício desta idéia de sete céus na palavra de Paulo, em Efésios 4.10, ao dizer que Jesus subiu acima de todos os céus, e de uma palavra sua ao dizer que foi arrebatado ao terceiro céu (2Co 12.1-4). Mas pouco aproveita para nosso raciocínio neste contexto.

O estado do salvo no hades/xeol/além é um estado de consciência, um estado fixo (no sentido de que o destino final da pessoa é definido aqui, como lemos em Hebreus 12.7), definitivo (no sentido de que não se alterará) e um estado incompleto. Incompleto porque deveremos ser revestidos do corpo celestial (2Co 5.2-4). Paulo desejava a ressurreição (Fp 3.10-11). O estado desincorporado é incompleto no sentido de que o homem, em sua inteireza, não foi devolvido ao estado original. Falta-lhe o corpo. Que ele receberá de volta, mas agora, glorificado.

 

5. O LUGAR DO PERDIDO NO XEOL/HADES/ALÉM

Há, também, um lugar de perdição, como lemos em Lucas 16.23-25. Algumas vezes é chamado de “inferno” (tradução de hades, como em Lucas 10.15). Outros nomes que este lugar recebe: “abadom”(“destruição”), em Jó 26.6, onde é diferenciado do xeol e em Apocalipse 9.11 é o nome do anjo Apoliom, em grego; “abismo” (a morada de demônios, em Lucas 8.31 e Apocalipse 9.11); “geena” (inferno de fogo, em Mateus 18.9). Este último vem de Gê-Hinnom, vale de Hinom, onde se ofereciam crianças a Moloque, como lemos em 2Crônicas 28.3 e 33.6. Depois, este lugar se tornou um crematório. Animais mortos e lixo eram ali queimados. Tornou-se um símbolo de julgamento, como lemos em Jeremias 7.31-32. Em 2Pedro 2.4 o “inferno” em que os anjos foram lançados é o “tártaro”, que no pensamento grego era o lugar mais baixo para os perdidos. Outro nome dado é “castigo eterno” (Mt 25.46). A situação do perdido é esta: ele vive agora sob o domínio do Maligno (2Co 4.4 e 1Jo 5.19). E viverá com ele na eternidade: Mateus 25.41.    

            O fundamental é que o perdido está separado eternamente de Deus. Verifica-se isto em Lucas 16.23. Há um "grande abismo" separando o perdido do lugar onde Deus se encontra e há uma impossibilidade de se passar de um lado para outro.  Este estado do perdido é de consciência, também. Não é um estado de sono ou de aniquilação. O episódio do rico perdido nos ensina isto. O texto de 2Pedro 2.9 permite entender que os injustos, reservados para o dia do juízo, já estão sendo castigados.

 

6. A RESSURREIÇÃO DO CORPO

A idéia de ressurreição corporal não é uma novidade neotestamentária. No texto citado de Daniel 12.2-3 se vê que o conceito já estava presente, mesmo que não muito elaborado, no judaísmo posterior. O autor de Hebreus declara que Abraão, quando decidiu que deveria oferecer Isaque em sacrifício, esperava por sua ressurreição (Hb 11.19). Pode-se alegar que esta é a exegese do autor de Hebreus e não, necessariamente, o pensamento de Abraão. Em resposta pode-se dizer que o autor é profundo conhecedor do Antigo Testamento e, que se não está autorizado a falar por Abraão, por certo que tinha noção do que dizia.

Mas é o Novo Testamento que ensina de maneira bem clara a ressurreição do corpo.  Pensemos nestas palavras de Erb, comentando o pensamento de Kantonen em The Christian Hope:

 

A questão da vida depois da morte tem sido argumentada como uma questão de demonstrar a imortalidade, a capacidade da alma para resistir à morte. O corpo tem recebido pouca importância […] Mas o credo cristão não diz "creio na imortalidade da alma". Diz "creio na ressurreição do corpo". O corpo não é a antítese da alma […] É difícil conceber um contraste mais completo que o entre Platão e Paulo a respeito deste ponto. O Novo Testamento reconhece o corpo e a alma como dois aspectos diferentes, mas não antitéticos da existência humana […] A alma não é uma parte separada do homem com substância própria.  [11]

           

Erb nos traz para o campo fundamental: a razão da esperança cristã não é a sobrevivência da alma, mas sim a questão da ressurreição do corpo.  O homem não é uma alma aprisionada num corpo, como pensava Platão. O homem é uma unidade, como ensina a Bíblia e como o ensino paulino sobre a ressurreição deixa claro. Na seqüência de seu argumento, Erb começa citando Niles em Preaching the Gospel of the Ressurrection, e segue depois com suas observações:

 

O homem não é uma alma imortal em um corpo mortal. O homem é corpo e alma – uma pessoa completa – em uma imortal relação com Deus.  A morte quebra, então, uma unidade e uma integridade que devem ser restauradas com a ressurreição do corpo. O cristão não quer desfazer-se do seu corpo como se fosse algo mal. Quer tê-lo redimido e glorificado pelo mesmo poder que produziu o corpo de Cristo após a ressurreição. Como Paulo, quer que o poder da ressurreição, que agora atua por ele por meio do Espírito de Cristo, continue e complete o processo de última e final salvação: corpo e alma, o homem completo à imagem de Cristo [12]

           

            Nesta observação se entende que a ressurreição é a devolução do homem ao seu estágio antes do pecado. É ele vivendo como deveria viver, antes da entrada do pecado no mundo e, conseqüentemente, antes da entrada da morte no mundo.

 

CONCLUSÃO

            Voltemos à Declaração Doutrinária da CBB. Eis todo o item XVI, sobre “A morte”.

 

Todos os homens são marcados pela finitude, de vez, que em conseqüência do pecado, a morte se estende a todos (1). A Palavra de Deus assegura a continuidade da consciência e da identidade pessoais após a morte, bem como a necessidade de todos os homens aceitarem a graça de Deus enquanto estão neste mundo (2). Com a morte  está definido o destino eterno de cada homem (3). Pela fé nos méritos do sacrifício substitutivo de Cristo na cruz, a morte do crente deixa de ser tragédia, pois ela o transporta para um estado de completa e constante felicidade na presença de Deus. A esse estado de felicidade as Escrituras chamam “dormir no Senhor” (4). Os incrédulos e impenitentes entram, a partir da morte, num estado de separação definitiva de Deus (5).  Na Palavra de Deus encontramos claramente expressa a proibição divina da busca de contato com os mortos, bem como e negação da eficácia de atos religiosos com relação aos que já morreram.

 

(1)   Romanos 5.12, 6.1; 1Coríntios 15.21, 26, Hebreus 9.27; Tiago 4.14

(2)   Lucas 16.19-31 e Hebreus 9.27

(3)   Lucas 16.19-31; 23.39-46, Hebreus 9.27

(4)   Romanos 5.6-11 e 14.7-9; 1Coríntios 15.18-20; 2Coríntios 5.14-15; Filipenses 1.21-23; 1Tessalonicenses 4.13-17, 5.10; 2Timóteo 2.11; 1Pedro 3.18; Apocalipse 14.13

(5)   Lucas 16.19-31; João 5.28-29

(6)   Êxodo 22.18; Levítico 19.31, 20.6, 27; Deuteronômio 18.10; 1Crônicas 10.13; Isaías 8.19 e 38.18; João 3.18 e 3.36 e Hebreus 3.13.

 

Estudando-se as passagens mencionadas e refletindo com o coração aberto, podemos render graças a Deus por Jesus Cristo. Por causa de Jesus temos esperança. Como disse um teólogo escocês: “Se vivo agora, Cristo está comigo; se morro, estarei com ele. Que bênção inaudita!”. Isto é o mais importante. Não nos esqueçamos disto.

 


[1] AUBERT, Jean-Marie. E Depois…Vida ou Nada? S. Paulo: Paulus, 1995, p. 11.

[2] GAARDER, Jostein. Vita Brevis. S. Paulo: Cia. das Letras, 1998, p. 143

[3] SUMMERS, Ray. A Vida no Além.  Juerp: Rio de Janeiro, 1971, p. 19. Uma observação: este é o mais completo e mais coerente livro sobre o assunto, em português. Pena que a falência da Juerp nos tenha privado de sua circulação.

[4] Ib. ibidem, p. 31. 

[5] AUBERT, Jean-Marie. E Depois… Vida ou Nada?. S. Paulo: Paulus, 1995, p. 136.

[6] Ib. ibidem, p. 137

[7] BRYANT, Thurmon. "O Corpo Celestial" in  Teológica, ano 1, no. 1, p.  4.  Foi uma publicação da Faculdade Teológica Batista de S. Paulo que, infelizmente, não logrou continuidade. Neste artigo, o Dr. Bryant translitera ruach em vez de ruah, como prefiro fazer. Respeito sua posição.

[8]  KELLEY, Page. Mensagens do Antigo Testamento Para Nossos Dias. Rio de Janeiro: JUERP,  1980, p. 90.

[9] SUMMERS, op. cit.  p, 32

[10] SINGER, Isaac Bashevis. Shosha. S. Paulo: Francis, 2005, p.158.

[11] ERB, Paul. El Alfa y la Omega. Buenos Aires: Editorial La Aurora, 1968, p.  135.

[12] Ib. ibidem, p. 136.