Seja o melhor e faça o melhor

Seja o melhor e faça o melhor

 

            Michael Horton, no livro O cristão e a cultura, cita um advogado cristão que, querendo consagrar sua vida a Jesus, disse “Eu só quero servir a Deus” e queria largar a profissão, “virando as costas para o mundo” e “entregando a vida a Jesus”. Horton diz que vivemos numa cultura que precisa ser salgada pelo evangelho, e que não é bom abandoná-la, pensando que só se serve a Deus como pastor ou missionário. Tem razão. Conheço gente que como profissional secular é um excelente cristão, com um vibrante testemunho de fé, e que não seria um bom pastor ou missionário. É um equívoco presumir que só pode se servir a Deus no ministério eclesiástico.

       Horton cita um episódio de Lutero. Um sapateiro convertido perguntou-lhe o que deveria fazer para servir bem a Deus. Talvez esperasse o conselho de fechar seu negócio e tornar-se pregador do evangelho.  Lutero respondeu: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”. Ele serviria a Deus sendo um profissional competente e honesto. Esta foi a lição de Lutero: um seguidor de Jesus deve ser bom no que faz, e deve ter caráter. Deve ser o melhor e deve fazer o melhor na sua área. Pode ser uma pessoa simples, iletrada, de profissão humilde, mas não pode ser medíocre. Deve ser bom. Nós devemos ser os melhores no que fazemos.

            Horton lembra que foi Lutero quem disseminou no Ocidente a idéia de uma família piedosa. A espiritualidade medieval achava que se dedicar à família era algo mundano, e os cristãos piedosos deveriam se abster dessas preocupações e ocupar-se da piedade cristã. As relações sexuais eram um mal necessário para a procriação. Lutero causou grande escândalo ao dizer que eram motivo de prazer e de comunhão conjugal, e que cuidar da família e dedicar-se a ela não era atividade secundária. Diz Horton: “Os relatos que temos da vida do lar de Lutero estão cheios de retratos de uma família sentada em volta da mesa orando, lendo a Bíblia e cantando, tocando instrumentos e jogando, brincando” (p. 21). Lutero tirou o foco do serviço a Deus como algo a acontecer num prédio chamado “igreja” e colocou o foco na vida que vivemos no lugar chamado de “mundo”.

            Servir a Deus não é algo que se faz apenas na igreja. E o serviço a Deus não é tarefa só de pessoas com curso teológico e assalariadas para isto. Todo cristão deve servir a Deus em sua profissão, fazendo dela seu púlpito. E deve ver-se como um missionário naquele lugar onde Deus o colocou. Toda a vida é um dom de Deus. E “o campo é o mundo”, não apenas o mundo geográfico, mas o mundo social do cristão. Na Igreja, fico feliz ao ouvir de alguns membros o que fazem em suas profissões (lojistas, secretárias, médicos, dentistas, professores) para viverem como cristãos. Não abandonaram sua carreira para servir a Deus. Servem-no na sua profissão.

            Uma ex-ovelha de Bauru, Alice Queiroz, ensinou-me isto. Era paciente terminal e fui visitá-la no hospital. Encontrei-a sentada na cama, testemunhando junto às enfermeiras. Ela mesma era enfermeira, e, quando podia, saía para conversar com outros doentes. Disse-me: “Esta cama é meu púlpito”. Onde está um seguidor de Jesus está um púlpito. Para mostrar o que o evangelho fez na sua vida. O desejo de ser o melhor e de fazer o melhor. Um cristão melhora o mundo, inclusive com sua vida profissional. Honra a Deus onde está.

 

            Isaltino Gomes Coelho Filho