Tadinha da Maísa!

Tadinha da Maísa!

 

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

 

            A mídia tem fome de ídolos. Ela os cria, usa e, se perdem o viço ou deixam de render dividendos, ela os execra. Bem disse Darci Ribeiro: a preocupação da mídia não é com informação, mas com venda. Neste afã, ela produz imagens novas e as alardeia. Recordo-me de uma cantora, não sei se ainda canta, que de repente, em todos os órgãos de informação era chamada de “o furacão Fulana de Tal”. O furacão virou brisa mansa.

            Agora é uma menina chamada Maísa, a nova coqueluche. Quase que diariamente há uma manchetezinha solta, aqui e acolá, para divulgar seu nome. Em uma, ela embaraçou Sílvio Santos. Na outra, ela é irreverente. Em outra, muito esperta. Fico sabendo que venceu a Xuxa (só li a manchete e não sei em que, exatamente, ela venceu a Xuxa). Vi uma propaganda da menina outro dia, na televisão. Com uma boneca. Não brincando, mas vendendo. Ela virou boneca, é marca de boneca. A menina que deveria brincar com bonecas (os fundamentalistas de esquerda vão me chamar de formador de estereótipo) virou marca de boneca e serve para vender boneca. Ela não brinca. Ela fatura. Que pena! Sua infância está se esvaindo.

            Em outro programa, uma menina de uns oito anos, no máximo, toda produzida para perecer sensual, de minissaia, de bota, meias pretas, maquiada como se fosse mulher adulta, remexia o corpo no que deveria ser uma dança sensual. Se fosse uma mulher adulta, seria lasciva. Sendo uma criança era grotesco! A sexificação precoce me chocou. A mãe dizia depois, eufórica, que vale tudo para ver a filha ter notoriedade. Não guardei o nome da menina, mas seja qual for, é uma outra Maísa. As crianças estão sendo usadas por seus pais para ganhar dinheiro, e isto é tão chocante quanto o ato de pais ou adultos que usam crianças para pedir esmolas no semáforo. São pais que usam crianças para arrancar dinheiro do sistema. É uma infância perdida. Alguns pais não estão desejando para seus filhos a formação de um caráter sadio, mas querem transformá-los em máquina de ganhar dinheiro. Se eu ainda tivesse 16 anos diria: “são sinais de uma sociedade burguesa e decadente”. Mas, bafejado pelo tempo, digo apenas: “Como o pecado é forte e como destrói a percepção de valores das pessoas!”.

            Maísa me lembrou a turma do Balão Mágico, Dominó, New Kids on the Blocks e outras crianças e adolescentes usadas e descartadas. E o Pixote, que foi incensado pela mídia por causa do “filme denúncia” ? Muitos dos que o incensaram ganharam dinheiro e bastante. O menino, não. Ficou na pobreza.

            Talvez haja pais invejando o status da Maísa. Gostariam que sua filha estivesse lá. Os quinze minutos de fama, expressão criada por Andy Warhol, são a busca de muita gente. E muitos outros lutam para prolongá-los. Talvez isto explique muito do esgarçamento do tecido social de nosso tempo. Os valores estão se apagando, e a busca de dinheiro, poder, notoriedade e fama se sobrepõem a eles.

            Qual é o papel da igreja, de pastores e educadores cristãos nesta situação? Por vezes me frustro por ver que a igreja apresenta os mesmos sintomas do mundo. Ganância, busca de poder, desejo de notoriedade, abandono dos valores cristãos (há líderes mais apaixonados por pensadores mundanos que pela Bíblia, que traz o pensamento divino). Se fosse escapista, diria que está na hora de Jesus voltar. Se bem que se ele voltasse agora seria fantástico! Mas como quem procura refletir sobre a igreja, como quem ama a igreja, digo apenas que está na hora de uma profunda reavaliação dos valores que a igreja desfralda. De uma mudança radical de propósitos e de visão. O mundo está, na frase de um personagem de Sartre em “As mãos sujas”, “rebentando por todas as juntas”, mas muitos setores da igreja estão apaixonados pelo mundo.

            Para que não haja mais Isabellas, Joões Paulos, Maísas e outras crianças, algumas assassinadas no físico e outras feridas na infância que se vai embora pelo dinheiro, é hora de uma ação bem séria da igreja. De pregação comprometida com os valores de Jesus, sem receio de parecer anacrônico, sem o desejo de agradar o mundo. Porque nós temos o que dizer ao mundo. E se não o dizemos, ninguém dirá. Por amor a um mundo desorientado, está na hora da igreja se reaprumar e firmar solidamente seus valores, vivê-los e anunciá-los.