A Virgem Sob Suspeita

A Virgem Sob Suspeita

Não estou suspeitando de nenhuma jovem, em particular. Este é o título de reportagem da “Veja”, de 10.12. 2008. A suspeita é do Vaticano sobre as aparições de Maria, na cidade de Medjugorje, na Bósnia. É o maior fenômeno de devoção católica nos últimos anos. Começou em junho de 1981, quando seis adolescentes tiveram visões da “Virgem Maria”.

            A “Virgem de Medjugorje” é famosa. Cerca de dois milhões de pessoas viajam anualmente ao lugarejo para receber conforto espiritual de “Nossa Senhora de Medjugorje”. No Brasil, a devoção também é expressiva: cerca de um milhão de pessoas. Mesmo assim, a Santa Sé questiona a veracidade das aparições. Os adolescentes que tiveram as “visões” hoje são adultos e fazem palestras sobre a “Nossa Senhora de Medjugorje”, cobrando, evidentemente. Algumas visões acontecem com hora marcada e, segundo a revista, “é possível promover espetáculos em torno delas”. Em uma visão, em 1997, o visionário conseguiu 70.000 dólares, “sob a forma de doações voluntárias”.

Os requisitos básicos para que uma aparição de “Nossa Senhora” seja reconhecida pelo Vaticano foram determinados no século XVIII, pelo cardeal Lambertini, que veio a ser o papa Bento XIV (1740-158). São eles: (1) O conteúdo das mensagens deve ser coerente com o evangelho; (2) Os videntes devem ser psiquicamente equilibrados; (3) As aparições devem resultar em milagres ou conversões. Além das dúvidas sobre as aparições, o Vaticano nutre reservas sobre o padre Vlasic, que foi o líder espiritual dos videntes. Vão desde sua postura moral até seu caráter manipulador.

E nós com isto? É que o Vaticano está sendo mais prudente, mais sensato, e mais equilibrado que muitos evangélicos. O que há de “aparições de Jesus”, “palavra de revelação” e outras do gênero, entre nós, é incrível. E não são examinadas, como diz 1João 4.1: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”. Da fé, os nossos passam à credulidade ingênua e enganada.

Se tivéssemos os mesmos princípios que o Vaticano tem sobre aparições, para medir as “revelações” entre nós, não veríamos absurdos, como o culto à personalidade em nosso meio (rejeitamos a idolatria católica, mas fazemos ídolos que são inquestionáveis e têm um imenso fã clube!). Por exemplo: como é possível levar a sério um pastor que diz: “Deus me disse hoje que o Senhor permite que um homem tenha várias mulheres, desde que com isso glorifique ao Senhor”? [1] Tal homem deveria ser imediatamente rechaçado pelos ouvintes, e não endeusado.

O que dizer de um pastor que diz que Jesus lhe falou o seguinte: “Eles me crucificaram por ter reivindicado ser Deus. Mas eu não reivindiquei ser Deus; apenas disse que andava com Ele, e que Ele estava em mim. Aleluia!” [2]. Este homem nega a divindade de Cristo e seus ouvintes concordam e o aplaudem?

Outro diz que colocou demônios sob juramento e eles lhe disseram que entram no corpo das pessoas através do sêmen ou do cordão umbilical [3]. Um pastor ensina como verdade algo que, pretensamente, teria recebido como uma confissão de demônios! As pessoas estão acreditando em mensagens de demônios pregadas como revelação!  Vibram com isto, e se zangam quando questionadas!

Antes que me chamem de ecumenista por concordar com os princípios do Vaticano (há quem procure chifre em cabeça de cavalo, e há os que não conseguem interpretar um texto) reafirmo minha postura de batista histórico, firmado no tesouro teológico de seu grupo. O fato é que os evangélicos estão perdendo o rumo. Porque estão perdendo a capacidade de analisar tudo pelas Escrituras. Há gente ávida por novidade, que não quer mais a Bíblia, não a lê nem a estuda. Que está deixando a simplicidade do evangelho e se envolvendo com o ocultismo neopentecostal (gurus, profetas e profetisas, novas revelações, caboclos evangélicos de reza forte de sexta-feira, etc.). Padecemos de ignorância bíblica e o que é pior: desprezo pela Bíblia. Já fui a cultos com uma hora de corinhos esfuziantes e depois me deram trinta minutos para pregar. Metade do auditório que ficou estava exausta e não conseguia acompanhar a pregação. A outra metade estava tão excitada que não acompanhava raciocínio algum. Só se eu gritasse (falo baixo) no mesmo volume dos decibéis dos instrumentos. Mas poderíamos entrar em transe ou em um momento de histeria pura. E era uma semana de estudos bíblicos! Ah, sim, acabado o “momento de louvor”, boa parte do auditório se foi.

Há gente deixando o alimento sadio das Escrituras e tomando sopa de colocíntidas. Assim, há morte nas panelas de nossas igrejas (alguns não saberão a origem desta metáfora).

Os princípios do Vaticano são apenas regras de bom senso. Que também deveríamos ter. Ou seja: (1) Nada pode vir contra o ensino claro das Escrituras. Tudo que vem contra ela está errado.  (2) Os “videntes evangélicos” precisam ser equilibrados. Simples! Eles, pregadores, cantores e dirigentes de culto precisam ser pessoas emocionalmente sadias. E também espiritualmente; (3) Se há conversões e edificação da igreja, o fenômeno pode ser bem avaliado. Mas isto não pode ser o critério último. Se há enriquecimento dos líderes (há “marajás do Senhor”) o movimento deve ser refutado. Para os jesuítas, “o fim justifica os meios”. Mas os meios devem ser tão lícitos quanto os fins.

Pelo menos aqui a Igreja Católica teve bem senso. Que muita gente entre nós não tem. E se escuda em uma torre de marfim de espiritualidade.  Retidão e integridade são exigências indispensáveis para a obra de Deus. Mais que movimentos e que números. Por isso, muita cautela com aparições, revelações e gurus.

E se quiser conhecer mais sobre o assunto, leia meu livro “Neopentecostalismo – uma avaliação pastoral”. Talvez lhe seja útil.


[1] ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em crise. S. Paulo: Editora Mundo Cristão, 1995, p. 42.

[2] HANEGRAAF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p. 49.

[3] SUBRITZKY, Bill. Demônios derrotados. S. Paulo: ADHONEP, s/d, p. 134