Mais uma lição dos pardais

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

         Os pardais de “Deus cuida dos pardais (mas eu dou comida para eles)” ainda rendem. Meu sobrinho fala dos pardais do “tio Isaltino”. Uma ex-ovelha me enviou e-mail dizendo que eles gostam de água de coco. Só me faltava esta: dar água de coco para pardal. Outro dia Meacir empurrava o portão da garagem e um dos pardais, empoleirado no alto da grade, “presenteou-a” com a emissão devidamente processada e expelida do resíduo da comida que lhes dou (quem lê, entenda). Ela me disse: “Seus afilhados precisam aprender a usar o banheiro”.

 

         Este artigo poderia se intitular ”Os pardais – o retorno”. Porque houve mais algumas lições que tirei do trato com eles. Um deles entrou pela porta da cozinha, que estava aberta, foi para a sala e não soube voltar. A porta da sala para a rua é de vidro blindex, que permite ver de dentro para fora, mas não o oposto. Sem saber o que é um vidro (que estava limpo), o pardal tentou sair e não conseguiu. Batia na porta e voltava. Para piorar, ele via os outros pardais (uns vinte) comendo, pertinho dele, e não conseguia chegar a eles. Agitava-se, aflito. Ouvindo o barulho fomos acudi-lo.

 

         O pardal se desesperou, ao chegarmos. Meacir tentou pegá-lo, sem sucesso. Ele se escondeu atrás do sofá. Mas a porta é corrediça e se retrai exatamente para trás do sofá. Receamos machucá-lo. Após algumas tentativas, ele saiu, voou para o outro lado da rua, esperou um pouco, e voltou para comer.

Drama pardalesco narrado, as lições:

  1. O lugar dos pardais é do lado de fora da casa. Na calçada, na frente, na garagem. Não dentro de casa. O pardal encrencado saiu do seu limite, indo aonde não devia. Do mesmo modo, quando não guardamos nosso espaço e vamos aonde não devemos, entramos em problemas. “Há caminhos que parecem certos, mas podem acabar levando para a morte” (Pv 14.12). O primeiro casal ultrapassou os limites e caiu. Satanás fez o mesmo e caiu. Há limites na vida que devemos guardar. As transgressões são cobradas.

  2. Quem ultrapassa seu limite corre o risco de não encontrar o caminho de volta. Termina em lugar desconhecido, aprisionado. Vê os outros livres, mas não consegue ser como eles. Seus esforços acabam sendo inúteis. Muito cuidado com as caminhadas. O pródigo seguiu um caminho errado, mas pôde voltar. Judas seguiu um caminho sem retorno.

  3. Quem está desorientado nem sempre consegue entender quem pode lhe ajudar, e foge dele. Meacir podia ajudar o pardal, mas ele fugiu dela. O pecador perdido foge de Cristo. O crente em pecado some da igreja, interrompe a sua comunhão com Deus. Quem poderia ajudá-lo tem dificuldade em fazê-lo. Pedro também entrou por um caminho errado, mas Jesus o recuperou. O pardal desviado me fez compreender um pouco mais o que é graça. Nossa intenção não era castigá-lo, mas ajudá-lo. A graça não castiga o transgressor. Ela é Deus vindo ao nosso encontro para nos socorrer. É a mão divina que ajuda.

  4. Última lição: a graça não bane o pecador. Não identificamos o pardal que não guardou seu limite. Continuamos dando água, farelo de pão, alpiste e painço a todos. Mas Deus sabe qual de nós passou dos limites que ele estabeleceu. E mesmo assim continua a amar e a cuidar de nós.

Muito espaço para os pardais, ao invés de coisas mais sérias? Aprendi com o Salvador. Suas grandes e profundas verdades não foram expressas em conceitos complicados, com termos pomposos. Ele falava de pardais, lírios, semeador, aves do céu, nuvens, fermento, o cotidiano, enfim. Sempre lhe peço que me ensine todos os dias. Ele usou os pardais. Sou lhe grato por isto.