Time culpa juiz pela goleada em clássico

Esta é a manchete do jornal “Folha de S. Paulo”, de 10 de fevereiro, referindo-se ao Santos Futebol Clube. Sou santista, porque como carioca adolescente que viu Pelé jogar, na década dos sessentas, aprendi a torcer pelo Santos. Já fui apaixonado por futebol, mas descobri que estava prejudicando minha vida espiritual. No domingo me ligava mais no jogo que na igreja. Fiz um corte necessário e providencial. Assim, minha relação com times de futebol é a de não acompanhar e nem saber quem são os jogadores. Na realidade, nem jogos da Seleção acompanho. Vez por outra viajo em algum vôo com algum time, e fico sem saber quem são. Um dia desses viajei com o time do Barueri. Até me impressionei: educados, falando baixo, sem a algazarra infantil, e quase retardada, dos jogadores de futebol. Mas já viajei com times chamados “grandes” e desconheci todo mundo.

Vamos ao que interessa. O Santos tomou, como se diz na gíria esportiva, “uma chinelada” do Palmeiras: perdeu de 4 a 1. E culpou o juiz! Puxa, se fosse 1 a 0, com uns dois gols a seu favor sendo anulados, vá lá. Mas tomar de 4 e reclamar do juiz!

Juiz de futebol é um personagem fantástico. Se não existisse, deveria ser inventado. É sempre culpado da incompetência alheia.

É a famosa “síndrome de Adão: “a mulher que tu me deste”. Numa só frase, nosso ancestral culpou a mulher e Deus. A mulher se saiu pela tangente: apontou para a serpente. A serpente não tinha dedo, não pode apontar para ninguém.

Acusado por Natã, Davi imediatamente reconheceu seu erro: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12.13). E apesar de muitos pregadores evangélicos não perdoarem Davi, Deus o perdoou: “Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás” (2Sm 12.13). Outro pecador que caiu em grave falha foi Pedro, ao negar a Jesus por três vezes. Três vezes teve a oportunidade de declarar seu amor ao Salvador e recebeu dele a incumbência de pastorear as ovelhas. A graça de Deus o faz perdoar os pecados que são confessados com sinceridade (1Jo 1.9). Deus é bondoso e grandioso em sua misericórdia para conosco. Ele quer nos perdoar. O obstáculo a recebermos o perdão é a síndrome de Adão, ou, contextualizando, a “síndrome de time de futebol quando perde”: não tenho culpa ou a culpa é dos outros. Mas confessar os pecados é uma extrema necessidade em nossa vida espiritual. Uma vida espiritual realizada começa quando paramos de estender o dedo na direção dos outros, dizendo “Pecaram!”, e batemos no peito, dizendo: “Pequei!”. A vida do pródigo foi radicalmente transformada quando ele confessou: “Pequei contra o céu e diante de ti” (Lc 15.18). Nesta parábola enfatizamos sempre o perdão do pai, mas nem sempre lembramos o arrependimento do filho. Arrependimento dos pecados é indispensável no relacionamento com Deus. E é a condição sine qua non para o perdão.

Andando pelo interior do rico e operoso Goiás, indo da bela Luziânia para casa, ouvia músicas de Feliciano Amaral, em um cd que me foi enviado pelo amigo Pr. Israel, de Maceió. Em uma das faixas, o “rouxinol de Croslândia” (que tanto me edificou na adolescência e ainda me comove) canta: “De joelhos imploro”. Comentei com Meacir que esta é a grande diferença no conteúdo dos hinos de ontem e dos corinhos de hoje: nos corinhos (pomposamente chamados de “louvor”) somos exortados a levantar as mãos. Nos hinos antigos, a dobrar os joelhos. Com toda humildade, sem desejo de parecer um gigante espiritual, prefiro dobrar meus joelhos a levantar minhas mãos. Mas parece que nossos cânticos e muitas pregações se esqueceram dos temas pecado, confissão, pedido de perdão, quebrantamento. Como recitávamos 2Crônicas 7.14, e em contrapartida, como citamos “louvai ao Senhor com danças” (Sl 149.3).

Mas não é de liturgia que quero falar. É de atitude. Hoje, a igreja reivindica, não confessa. Celebra e não se quebranta. Quer voar com os querubins e não chorar ao pé da cruz. A atitude de festa inconsequente, o tempo todo, me incomoda. Não por questão de estética, mas por entender que o evangelho é mais que celebração. É vida, é busca de Deus, é confissão de pecados, é acerto de contas com Deus, é procurar uma vida limpa. Talvez este novo eixo explique a escassez de santidade na igreja de hoje.

É preciso parar de culpar os outros, de desviar o foco de si, e assumir culpas e pecados, se alguém deseja crescimento espiritual. Sobre esta atitude de culpar os outros por suas mazelas, cito Adams, em um de seus livros sobre aconselhamento, ao transcrever uma canção de Anna Russel. O surrealismo deste procedimento se vê principalmente nos dois últimos versos:

Procurei meu psiquiatra
Para ser psicanalisada
Para ver porque matei uma gata
E deixei meu pobre marido com seus dois olhos machucados.

Num divã me fez recostar,
Para ver o que em mim achar.
E eis aqui o que, lentamente,
Extraiu do meu subconsciente:

Quando eu tinha só um ano
A minha mãe me agrediu
Porque escondeu num baú
Minha boneca de pano.

Esta é a razão, com certeza,
Por que vivo em bebedeiras.

Quando eu tinha só dois anos,
Vi meu pai beijar, um dia,
A empregada. Então fiquei
Sofrendo de cleptomania.

Quando eu estava com três anos,
Os sentimentos que eu tinha
Para com os meus irmãos
Eram sempre ambivalentes.
Essa é a razão suficiente
Pela qual, com minhas mãos,
Envenenei os meus amantes.

Mas agora sou feliz
(embora ache muita graça),
Que a lição aprendi bem:
Sempre existirá alguém
Culpado do mal que eu faça.

Voltemos ao time do Santos: uma equipe com mais qualidade será mais útil que queixas do juiz. E terminando conosco: confessar os pecados e pedir perdão é sempre melhor para nossa vida que culpar os outros e praticar a autoindulgência.