Ensinando Para Transformar Vidas

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para o Congresso de Educação da Igreja Cristã Evangélica de Brasília, em 28.2.9

INTRODUÇÃO

Parece-me que o discurso de nossas igrejas sobre a autoridade das Escrituras e sua importância para a vida cristã não se coaduna com o pouco valor que o estudo da Bíblia tem em nosso meio. Conto duas historietas para ilustrar isso (sou um incorrigível contador de histórias). Amigo meu, hoje em outro país, contou-me que foi realizar conferências de aniversário em uma igreja, de sexta a domingo. Puseram-no como hóspede de uma família, o que é normal. Lá, ele teve que dormir no quarto de um adolescente, destes típicos, que deixam até roupa de baixo pendurada no lustre. Deram-lhe uma gratificação de R$ 300,00. No domingo à noite veio um conjunto musical que se hospedou em um bom hotel (foi uma de suas exigências) e recebeu um cachê de R$ 3.000,00 (outra exigência). Por favor, esqueçam a questão de valores. Não são os fundamentais. Eles são citados aqui para compor o quadro. Meu colega não é artista do púlpito nem vende sermões. É um homem íntegro, mas contou-me a história para que se visse o que as igrejas valorizam.

A segunda deu-se com “este que vos fala” (expressão nova, que por certo nunca ouviram antes). Fui pregar no aniversário de uma igreja, num culto em que um casal gritou oito mensagens musicais. Deram-me a palavra, após a gritaria, e o casal saiu para um lanchinho rápido. Preguei e o casal voltou para mais duas sessões de gritos. Eram artistas que não participaram do culto, e durante a mensagem que preguei, o auditório estava inquieto esperando o retorno deles.

Apesar disto e de outros eventos piores, continuamos dizendo que a Bíblia é a Palavra de Deus, e que sem ela não há crescimento espiritual. As igrejas investem em shows musicais, mas não na Escola Bíblica Dominical. Constantemente estão trocando aparelhagem de som, mas nem sempre investem em recursos educacionais para viabilizar o processo de ensino e aprendizagem da Bíblia. Já pensaram se o diretor da Escola Bíblica pedisse um retroprojetor para cada classe, e um multimídia para cada departamento? Seria deposto. É sintomático também que muitas igrejas tenham ministro de Música, mas não tenham um de Educação Religiosa. “Isto qualquer um pode fazer!”, já ouvi algumas vezes.

Mas se queremos igrejas fortes e sadias precisamos ser fortes no ensino da Bíblia. “Santifica-os na verdade; a tua Palavra é a verdade”, disse Jesus (Jo 17.17). A igreja de hoje tem programas e agitação, mas não tem santidade. E apresenta algumas das mesmas patologias do mundo. Porque falta-lhe base bíblica. Sem solidez bíblica a igreja corre riscos sérios.

Neste sentido, o processo de ensino na EBD é fundamental na vida de nossas igrejas, e sem exagero, creio que até para sua sobrevivência. Sei que a sobrevivência da igreja é sobrenatural e depende do Espírito Santo, mas quero me referir à sobrevivência sem descaracterização. O futuro da igreja, não como organismo social, mas como corpo de Cristo, depende, em grande parte, humanamente falando, de como ela está instruindo seus membros. Que tipo de cristãos estamos formando?

Algumas pessoas entendem pouco do processo de educação, e por vezes não conhecem bem como deve ser uma classe. Assim, fazem um miniculto, com cânticos e uma minipregação ao invés de lecionar. Outros conhecem bem o processo de educação, até mesmo por serem professores. Mas trazem para as igrejas os mesmos vícios de um processo educacional que não tem dado certo nas escolas. A educação brasileira, e não é de hoje, capenga e se arrasta dolorosamente. Mas seus executores transferem a culpa para os alunos, para o governo e para a sociedade. Recomendo aos interessados em educação que leaim a entrevista da Dra. Eunice Durham, na revista “Veja”, de 26.11.2008, intitulada “Fábrica de maus professores”. Ela critica com dureza os professores pelo seu corporativismo, e pelo alheamento por acharem que não são culpados pela péssima educação brasileira. Critica principalmente as faculdades de pedagogia que os entopem de conceitos esquerdizantes, repletos de chavões irrelevantes, numa visão totalmente anacrônica. Segundo ela, a preocupação é formar transmissores de ideologia, e não professores. Ao invés de formar profissionais, o sistema educacional quer formar “cidadãos conscientes”, geralmente sob ótica marxista. Cidadania é bom, mas não é o alvo do processo educacional. Neste sentido, a educação em nossas igrejas parece com a educação secular brasileira. Escassa autocrítica e por vezes, excesso de frases feitas, com mais ideologia eclesiástica que ensino cristão. E as deficiências continuam sendo ignoradas. Se o aluno não aprende e não passa por um processo de transformação, a culpa é dele.

Isto não significa que invalido o trabalho dos professores de EBD. Pelo contrário. Os professores de EBD são pessoas de grande valor para a igreja de Cristo. Não devem subestimar seu trabalho e nem devem fazê-lo de qualquer maneira. São obreiros muito valiosos. Eu os respeito e é por isto que estou aqui neste congresso para educadores. Até começo com um sonho: seria muito bom se as igrejas dessem à educação a dimensão que dão ao louvor. Se gastassem com a educação o que gastam com som. Que impacto seria!

ESTABELECENDO UMA DIFERENÇA

Falei de educação secular, na introdução, mas a educação religiosa é de outro quilate. Ela tem um escopo que difere da educação secular. E, particularmente, prefiro chamá-la de educação cristã, porque não ensinamos valores religiosos, mas cristãos. E apresento três motivos me estabelecem esta diferença:

(1) A educação cristã não deve transmitir conceitos, mas fundamentalmente uma pessoa, Jesus Cristo. As bases da instituição da igreja, quando foram lançadas, o foram sobre esta pergunta: “E vós, que dizeis que eu sou?”. O cristianismo é Cristo. Tire Buda do budismo que não faz diferença. Os ensinos continuam lá. Tire Kardec do espiritismo, que não faz diferença. Os ensinos continuam lá. Tire Cristo do cristianismo e ele se acaba.

(2) Não deve transmitir uma ideologia, mas formar um caráter. O educador cristão pode parodiar Paulo: “Nós ensinamos a Cristo e Cristo crucificado”. Com isto quero dizer que todo o alicerce do processo de ensino cristão não é o moralismo, a integração social, a cidadania, mas a formação do caráter de Cristo no educando.

(3) A condição sine qua non no processo de ensino não é a formação acadêmica do professor, mas sua vida cristã. Seu conteúdo pessoal vale mais que sua formação acadêmica. Este diferencial está em acordo com a essência do cristianismo. Em todas as religiões, valem mais os conceitos que a pessoa do fundador. No cristianismo a pessoa do fundador é o substrato da fé. O conteúdo pessoal de Jesus é a garantia do cristianismo.

Estes três motivos estão subentendidos na declaração de Paulo em Efésios 4.11-16. A EBD deve formar o caráter de Cristo nos seus alunos. E, obviamente, o instrumento para isto é um professor que tenha o caráter de Cristo em sua vida.

COMENTANDO AS DIFERENÇAS

Algo já foi ensaiado no capítulo anterior, mas aqui amplio os comentários sobre as diferenças entre a educação cristã e a secular, buscando aplicar estas diferenças à prática do processo.

A primeira é esta: O principal conteúdo do ensino cristão é a revelação de Deus trazida por Jesus Cristo. Aqui há uma amplitude enorme de possibilidades, mas há uma restritiva: trazida por Jesus Cristo. Isto significa que mesmo quando ensinamos o Antigo Testamento, continuamos como cristãos. É o Novo Testamento, a revelação trazida por Jesus e continuada pelo Espírito Santo que ele enviou, que rege a nossa a vida. O Novo Testamento interpreta o Antigo. Nossa matéria é a revelação trazida pelo advento de Jesus. O Novo Testamento é produto do seu advento e o Antigo deve ser reinterpretado nele. O ensino na Escola Bíblica Dominical é a visão bíblica cristã que devemos ter do mundo. Há Isto não fecha a porta para estudos temáticos, como se só estudo bíblico livro por livro, versículo por versículo pudesse suceder. Em minha ex-igreja tínhamos uma classe de casais, que estudava assuntos relacionados à vida familiar. Mas a visão era bíblica. A matéria é Jesus e o livro texto é a Bíblia.

A segunda é esta: Não devemos amoldar a Bíblia à nossa visão cultural. Via de regra, a cultura se apossa a revelação e a ajusta à sua concepção. Os evangélicos são, em grande parte, hoje, pessoas de classe média. Temos visto um amaciamento das Escrituras para fazê-las consonantes com nossa concepção de vida. Tenta-se, em muitos círculos, fazer a Bíblia confirmar nosso estilo de vida. Temos uma determinada percepção dos fatos e da vida e queremos que a Bíblia sancione e legitime nossa percepção. Mas ela deve corrigir e modelar nosso estilo de vida. A formação de um caráter cristão deve ser o objetivo do ensino. Isto já nos abre uma questão. Muito do trabalho em classe é a “exegese achista”: “Eu acho assim, ó” ou “Eu penso assim, ó”. Isto não é relevante. O relevante é “a Bíblia diz assim”. Escola Bíblica não é o âmbito da expressão “Eu acho que..”, mas sim da expressão “A Bíblia diz que…”. O eixo hermenêutico para lermos o mundo é a Bíblia, não nossa visão e nossa cultura.

A terceira é esta: A personalidade do professor é indispensável no processo de educação cristã. O seu caráter cristão e sua piedade pessoal endossam seu ensino. O professor precisa ser pessoa integrada na igreja, solidário com ela, servo e amante dela. Precisa ser uma pessoa genuinamente cristã. Sttot disse que Paulo era um homem “intoxicado” de Cristo. O professor da EBD precisa ser uma pessoa “intoxicada de caráter cristão”. Obesamente cristã. Com isto defino que o ensino na EBD é mais que cognitivo. É personalístico, ou seja, é para formar a personalidade de Cristo no aluno. Preferi personalístico a transformador porque quero ressaltar bem que é para formar a pessoa de Cristo no educando.

Quero, a seguir, apontar alguns princípios bíblicos que podem nos ajudar na visão correta do processo de ensino na EBD, e depois apontar sugestões metodológicas. Não de forma exaustiva, porque metodologia educacional demandaria um semestre letivo, mas numa forma que permita o lançamento de bases e a discussão do exposto.

O MÉTODO DE ENSINO DE JESUS

Jesus é considerado o mestre por excelência. Gostaria que nos centrássemos nele, em nossa avaliação. Creio que nossa educação sofre por copiar modelos seculares, e não os bíblicos. Certa vez, em uma reunião de professores de Teologia perguntei por que havia, entre eles, uma fixação com Paulo Freire e não com Jesus ou Paulo, como educadores. Não preciso provar a ninguém que não invalido a cultura secular, mas me incomoda que desprezemos a rica cultura bíblica em muitos momentos, em detrimento da visão secular. E não sou desconhecedor da educação teológica. Trabalhei na administração de dois seminários, recusei trabalhar na administração de um terceiro, estou, presentemente, convidado para um quarto, fui presidente por 6 anos da ABIBET (Associação Brasileira de Instituições Batistas de Ensino Teológico, que congrega mais de quarenta seminário batistas). A questão é que não consigo entender porque, tendo toda a riqueza do modelo de Jesus e do modelo de Paulo, copiamos métodos seculares. Hoje se escrevem livros sobre Jesus como líder, Jesus como psicólogo, Jesus como mestre, Jesus como administrador, mas nós queremos ver pensadores seculares regendo nosso processo de pensamento.

Na própria personalidade de Jesus descobrimos muito de seu método. Pensemos um pouco nele. Nele, o homem é o método.

(1) Qual foi a sua filosofia de ensino? A autodoação. “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10.45). Ele não transmitia idéias, mas transmitiu-se a si mesmo. Sem megalomania, mas na profunda consciência de que era o Salvador. O bom professor precisa nutrir esta consciência de seu valor como agente do Reino. Ele não transmite idéias, mas sim a vida que há em Cristo e que deve haver nele. Ele precisa dizer: “Não mais eu vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Ele precisa se doar a Cristo e se doar ao magistério bíblico.

(2) Qual foi o seu alvo? As pessoas. “E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (Mt 4.23). Seu ministério foi voltado primeiro para Deus, mas seu alvo eram as pessoas. O alvo do professor não deve ser um programa de um ensino ou a transmissão de um conteúdo. Isto é secundário. O principal são as pessoas. No processo de educação, o aluno é o principal. Há educação sem professor, mas não há educação sem aluno. O professor de EBD tem que ver as pessoas como o alvo do seu trabalho. Numa igreja em que fui pastor, o professor dos adolescentes se chamava Jorge Henrique de Azevedo Miranda. Hoje é pastor no litoral paulista. Recordo-me da sua alegria quando batizei mais dois adolescentes. E ele me disse, jubiloso: “Eram os dois que faltavam entregar a vida a Cristo”. Ele via as pessoas, não uma tarefa ou apenas “a classe”.

(3) Qual foi sua ferramenta? A sabedoria. As multidões se admiravam de sua sabedoria e diziam que ninguém falara como ele. Os doutos ficavam embaraçados com suas respostas e mais ainda com suas perguntas. Foi a mesma ferramenta de Estêvão (At 6.10). Mas estabeleçamos que sabedoria é diferente de cultura secular e de formação acadêmica. Vem de Deus (Pv 2.6). E quem não a tem, deve pedi-la a Deus que dá a quem pede (Tg 1.5). Sabedoria é conhecer seus limites, conhecer suas limitações, ter dependência de Deus, ter o que dizer, saber quando falar, saber quando calar. Isto tudo estava na vida de Jesus. E deve estar na vida do professor da EBD.

(4) Qual foi a sua estratégia? A empatia. Empatia é a capacidade de se sentir como a outra pessoa. Tive um amigo que, quando a esposa engravidava, ficava com vômitos. Isto é que é empatia. Mas a empatia divina é a maior de todas: Jesus se fez carne e andou entre nós. Ele foi como nós, exceto que sem pecado. Há professores que se colocam num pedestal, muito acima dos alunos. Ele sabe e eles, não. Ele tem espiritualidade e eles, não. Alguém se queixou de um missionário norte-americano que tratava os alunos brasileiros como se estes tivessem descido das árvores há pouco (eu fui um dos queixosos). O bom professor se identifica com os alunos. Envolve-se com eles. Tem o que dizer, mas não do alto de um pedestal. Isto é mais que estar no meio deles, mas entender como e porque são assim. Principalmente professores de juniores, adolescentes e de jovens.

O professor da EBD é um professor de vida cristã não pode ter outro modelo que não seja este. Nem outro método que não seja o método o Mestre dos mestres. Afinal, este método deu certo. E lembremos que por mais que venhamos a utilizar métodos seculares (eles não são pecaminosos só por serem seculares) os métodos e modelos bíblicos têm um valor enorme.

DE QUE PRECISA UM PROFESSOR?

Qual era o material empregado de Jesus? Hoje ele seria depreciado pelos educadores porque seu método era a saliva. Nem mesmo giz possuía. Mas seu impacto foi muito mais profundo que o causado por muita gente com tecnologia educacional de primeira linha.

Aparentemente ele estava desfavorecido, em relação às modernas técnicas de ensino e de comunicação atuais. Mas na realidade estava muito bem provido. Em primeiro lugar, ele tinha uma revelação da parte de Deus. Em segundo lugar, ele tinha um bom conhecimento do ser humano, pois conhecia o que se passava no coração humano (Lc 9.47). Estes são os dois elementos fundamentais para um bom professor bíblico. Conhecer a Palavra de Deus e conhecer as pessoas a quem ministra.

Um bom professor precisa, acima de tudo, conhecer a revelação de Deus em Jesus Cristo. Do ponto de vista material, seria recomendável ele possuir umas três traduções bíblicas bem seguras. Respeitosamente, indicaria a Versão Revisada, da Imprensa Bíblica Brasileira, Almeida Século 21, a NTLH e a King James em português. Indicaria também a Bíblia de Jerusalém, de produção católica. As notas de rodapé da KJ e da BJ são excelentes. Deve ter uma boa concordância bíblica, como a da SBB, e um dicionário bíblico (neste caso, “O Novo Dicionário da Bíblia”, da Vida Nova). E um dicionário secular, obviamente. Mas nunca perdendo de vista que o material de ensino é a revelação em Jesus Cristo.

Depois deste alicerce, sem o qual a casa rui, ele precisa conhecer os alunos. A igreja deveria fornecer estudos ou material aos professores sobre o modo de ser das diversas faixas etárias e de receber informações dos diversos grupos etários, para instrumentá-los. E os professores não podem ter um conhecimento meramente dominical de seus alunos, mas ter um relacionamento pessoal com eles, fora do ambiente eclesiástico.

Jesus tinha um método de interpretar as Escrituras. Aparentemente, num exame superficial, ele seguia o método rabínico. Mas erram feio aqueles que vêem em Jesus um mestre rabínico. Ele não seguiu este método. Seu modelo era novo, completamente distinto de tudo que se vira até então. Ele reinterpretou as Escrituras na sua pessoa. Ele era o novo intérprete da Torah. E isto a tal ponto que Lucas 16.16 diz que “A lei e os profetas duraram até João…”. Ele dizia com muita naturalidade: “Ouvistes o que foi dito, eu, porém vos digo”. O professor deve interpretar as Escrituras pela pessoa de Jesus Cristo. A igreja de Cristo vive um momento delicado hoje por sofrer um processo de rejudaização, que se vê na presença nos templos de símbolos do judaísmo, na nomenclatura (há gente se intitulando de levitas, hoje) e nos cânticos. Como se canta o Antigo Testamento, no meio de cânticos! Isto sem falar daquelas letras que eu, pelo menos, não sei o que significam. Acostumado com raciocínio linear, por vezes não vejo sentido no querem que eu cante. Jesus usou o Antigo Testamento, mas o reinterpretou em sua pessoa. Não pretendo ministrar um curso de hermenêutica aqui, embora reconheça que os professores de EBD deveriam ter alguma orientação nesta área. Mas deixo duas regras elementares de interpretação da Bíblia aqui: (1) A Bíblia interpreta a Bíblia. Por isso não aceite esta atitude de gente que gosta de “pegadinhas” e de jogar um versículo bíblico contra outro. Ela é um todo coerente; (2) O Novo Testamento interpreta o Antigo e Cristo é o cânon dentro do cânon, como Lutero bem afirmou. Cristo é o fio de prumo para se entender a Bíblia, pois ele é a palavra final de Deus, a Palavra que se fez carne (Jo 1.14, Hb 1.1-12 e 2Jo 9). Nós somos filhos da revelação completa, e não da revelação parcial.

Um bom professor precisa de algum material básico, mas precisa principalmente de uma postura: ele é um cristão e por isso deve ater-se à pessoa de Cristo, e formar uma cosmovisão cristã. Isto é mais importante que qualquer material didático. Lembremos que Paulo só foi ter com os apóstolos quando seu ministério estava em andamento há anos. Mas eles nada lhe acrescentaram nem ele havia ensinado algo errado antes disto (nem ensinou depois). Paulo tinha uma forte cosmovisão cristã. Ele enxergava o mundo a partir de Cristo. Precisamos, como líderes, retornar a esta visão.

COMO É QUE SE APRENDE?

Deixei este tópico por último não porque seja irrelevante, mas para mostrar sua importância e que conhecer o processo de aprendizagem determina o método de ensino. Cada professor deverá identificar em sua classe a facilidade ou dificuldade com que os alunos aprendem. Um educador disse certa vez que “se o aluno não aprendeu, o professor não ensinou”. É uma dessas frases que nos pegam de jeito. É como aquela pergunta: “Você já parou de bater na sua esposa?”. Qualquer resposta que o sujeito dê o deixa encrencado. O ensino pressupõe aprendizagem e se um aluno não entendeu nem nada aprendeu, o ensino não sucedeu. Mas a frase pode colocar a culpa no professor. Ele pode saber ensinar e ensinar bem. Em uma classe sempre haverá alguém que não entenda e que não quer entender. Muitas circunstâncias que não comportam aqui podem explicar isto.

Não basta saber ensinar nem ter o que ensinar. É preciso saber como as pessoas aprendem, para ajuntar as duas pontas. Quando isto acontece, o processo de ensino e o processo de aprendizagem se amalgamam e produzem efeito.

A aprendizagem sucede quando há a assimilação do que foi transmitido. Em um determinado momento pode parecer que a pessoa não aprendeu, até mesmo porque não há como mostrar que assimilou. Aprendemos usando nossos sentidos para processar dados, fatos, números, figuras, conceitos, exemplos, etc. O uso dos sentidos se chama percepção sensorial. Aprendemos pelos sentidos. Um cego não aprenderá distinções de cor, nem um surdo compreenderá distinções sutis de tonalidade. Só vivos podem aprender. Neste sentido, compreendemos que realidades espirituais dependem muito, em seu ensino, da atuação do Espírito Santo. É ele quem transmite vida.

Quando alguém assimila informações, está usando um dos sentidos. Vejamos, então, os diferentes tipos de assimilação de informações.

  1. Auditiva. Na assimilação auditiva, a pessoa aprende ouvindo orientação verbal. Há pessoas que aprendem mais assim. Inclusive, quando lêem, repete em voz alta o que leram. Elas têm memória auditiva, assim seu ensino se processa melhor assim. A Bíblia reconhece a força da aprendizagem auditiva: “Ouve, ó Israel…”. Neste caso, quem ensina precisa ter voz clara, boa dicção, vocabulário assimilável pelos ouvintes e conceitos bem expressos. Há preletores confusos, com sentenças gramaticais longas, voz mastigada, cheia de apócopes e aféreses. Quem ensina com a voz deve tê-la bem clara e bom vocabulário.

  2. Visual. Na assimilação visual, a pessoa aprende mais vendo. Por isto, o uso de multimídia, flanelógrafo e demais recursos visuais. Lembre-se que vivemos numa geração icônica (visual) mais que letrada. A televisão forma uma geração que não lê, mas apenas vê figuras. Não é de se estranhar que a geração mais nova tenha dificuldades em ler e interpretar um texto. Como nem sempre se podem usar figuras, use figuras verbais, a linguagem pictórica. Jeremias era mestre nisto: criar figuras de imagem que ajudavam as pessoas a “ver” o que ele falava. Quem aprende mais por figuras precisa associá-las a palavras, por isso o multimídia é um bom recurso. Jesus usou o método visual: “Isto é o meu corpo…”, por exemplo. Ele ensinou uma lição através de um elemento visual.

  3. Sinérgica (ou Sinestésicas). Na assimilação sinérgica, a pessoa aprende quando se envolve fisicamente e age, efetuando alguma tarefa ligada ao transmitido. É a pessoa que têm dificuldades em concentração, precisa sempre estar em movimento. É o aluno agitado, que associa o recebido com movimentos e objetos ou uso do corpo. Jesus também foi sinérgico em seu ensino. Quando pegou uma toalha e lavou e enxugou os pés dos discípulos, ensinou-lhes a lição da humildade, que já transmitira por palavras e atitudes. Quando pegou uma criança e a colocou no meio dos discípulos e disse que eles deveriam ser como crianças.

O professor deverá observar os tipos de alunos e a maneira como aprendem. Deve mesclar seu ensino para alcançar todos, se possível. Notará que, assim como alguns se desligam das informações verbais haverá outros que se desligarão das visuais e das sinérgicas. Ele nunca conseguirá uma eficiência de 100%, mas poderá se esforçar para ser o mais eficiente possível. Vimos que a Bíblia nos transmite lições orais, visuais e sinérgicas ou sinestésicas, como dizem alguns (ou, ainda, encarnadas).

CONCLUSÃO

É evidente que em uma palestra não podia suprir todas as áreas. Talvez nem tenha tocado em questões que os irmãos julgam as mais necessárias. Mas cá está nosso ponto de partida. Saindo daqui vamos desenvolver algumas idéias, aprofundar nossas questões, sempre em busca de melhora. Se lhes fui útil fico grato a Deus. Se não pude ajudar muito, pelo menos poderão exercer uma virtude cristã: a misericórdia. Sejam, pois, misericordiosos.

Aos professores presentes neste encontro (e até aos que depois lerão este material), fica a lembrança da exortação bíblica: “ (…) se é ensinar haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7b).

Sejam instrumentos para glorificar o NOME sobre todo nome.

APÊNDICE

COMO ENSINAR?

Agora entro na questão de métodos de ensino. Normalmente usamos mais a palestra, quando o professor prepara um roteiro, seguindo algum material que lhe foi apresentado, e o comenta diante da classe, com eventuais perguntas e questionamentos.

Gostaria de apresentar algumas técnicas de ensino, em termos gerais, que devidamente adaptadas, podem ser empregadas em nossas igrejas. Muitos já as conhecerão.

  1. Debate. Duas pessoas (até três, mas precisa haver muita direção) que são especialistas num assunto debatem o tema diante do auditório. É preciso haver um acerto anterior para se evitar o bate-boca (como em debates políticos) e orientação ou firmeza do coordenador para evitar a torcida da platéia.

  2. Seminário. É o estudo de um assunto em reuniões devidamente planejadas. Os membros do grupo, sem informações prévias (ou até mesmo com elas), pesquisam o assunto, em sistema de cooperação. Depois apresentam as conclusões. É um método tradicional, que traz informações de vários ângulos, mas enfrenta entre nós o problema de bibliografia e tempo. Por isso que a pesquisa prévia pode ajudar. Um estudo específico sobre divórcio, novo casamento, como ajudar alguém em uma situação específica, por exemplo.

  3. Simpósio. Nos tempos gregos, simpósio era o lugar aonde as pessoas iam para beber. E lá discutiam vários assuntos. O simpósio é uma abordagem de assuntos por especialistas, que enfocam aspectos variados. O público pode ver a questão por vários ângulos. Quando bem elaborado é poderosa ferramenta, pois elucida muito.

  4. Painel. Parece-se com simpósio. Um determinado tema é debatido por especialistas. Difere, no entanto, porque os “painelistas” debatem entre si. E às vezes se preocupam mais em debater que orientar o público. Mas bem elaborado é também poderosa ferramenta de ensino.

  5. Mesa redonda. Segue o mesmo esquema do simpósio. Pessoas diferentes abordam aspectos diferentes de um tema. Mas no simpósio a palavra é dirigida aos ouvintes. Na mesa redonda, como no painel, o debate é entre si. Acho que a diferença é a mesa…

  6. Workshop. Conhecido também como oficina ou laboratório. Um tema é entregue a um grupo e cada componente pode falar durante certo tempo. Há um coordenador que prepara uma resenha do que foi tratado e apresenta a um grupo maior. Geralmente os workshops são grupos dentro de uma assembléia.

  7. Entrevista. Uma pessoa, bem preparada, com perguntas bem elaboradas, entrevista outra que conhece um assunto. As perguntas podem ser colhidas em encontro anterior com o grupo, sabedor este que virá um preletor para abordar um assunto de interesse geral.

  8. Fórum. O grupo debate um assunto. Todos podem fazer perguntas. Há um coordenador, incumbido de distribuir a palavra, administrar o tempo, coletar informações por escrito. Deve haver um secretário que organize as idéias debatidas, no final, expressando a opinião geral do grupo.

  9. Estudo de casos. O grupo analisa de uma forma detalhada uma situação real, trocando idéias entre si. Usei muito este método para abordar ética cristã em estudos com jovens, em uma igreja que pastoreei. Usava um personagem bíblico que viveu um problema (José e a tentação sexual, por exemplo) e analisava com eles as alternativas e os princípios para hoje.

  10. Preleção. É o modelo mais conhecido entre nós. Não é uma técnica ultrapassada. Mas requer que o preletor domine o assunto e tenha domínio de auditório. Ele deve saber se expressar e deve falar com segurança. No final desta apostila insiro um capítulo sobre falar em público, extraído de uma de minhas apostilas de Homilética. A preleção pode ser mesclada com outros métodos, para ser mais dinâmica.

  11. Phillips 66. Grupos de seis pessoas discutem um assunto em seis minutos (daí o 66: 6 pessoas em 6 minutos). Depois apresentam os resultados. Isto obriga à objetividade e ajuda a controlar os mais faladores.

  12. Estudo dirigido. Uso muito este método em provas (evito mensurar o aluno por perguntas prévias). O professor prepara um roteiro e leva os alunos a estudarem ou pesquisarem o tema, em sua presença. Ele precisa estar presente, orientando, apontando rumos, mostrando falhas, sugerindo bibliografia, etc. Leva o aluno a pesquisar e a disciplinar-se nesta área. Dá mais trabalho ao professor, mas é muito funcional.

Há muitos outros métodos, pois não os esgotei aqui. Mas estes são os mais usados e mais fáceis de praticar em nossa estrutura. Dois bons livros que podem ajudar são: “Cartilha para líderes”, de Ford, editado pela Juerp (que falta nos faz!) e “Andragogia em ação – como ensinar adultos sem se tornar maçante”, de Bellan, editado pela Socep.