UM Fenômeno Corporal E NÃO ESPIRITUAL (uma reflexão sobre o cair no espírito)

Pr. Jurandir Marques – [email protected]

Textos: Efésios 4. 1-16; 1 Cor. 14.33.

É uma prática que perdeu a sua ênfase anos atrás, mas que agora volta. Nas reuniões praticadas pelo nascente grupo Templo dos Levitas, em Tangará da Serra,  MT, alguns batistas, saudosos dos encontros que reuniam centenas de irmãos, lá voltaram e encontraram uma realidade diferente. O acampamento não é mais “aquele”! Houve práticas que alguns estranharam e que outros se assustaram. Solicitaram meu ponto de vista.

Este comportamento recebe os mais variados nomes, tais como: desmaio no espírito, prostração, arrebatamento.  Segundo alguns observadores, trata-se da terceira onda. A primeira foi o surgimento do pentecostalismo clássico e a segunda o neopentecostalismo. Começou em Toronto, no Movimento da Vinha, liderada por John Wimber. Nas reuniões, além do desmaio, ocorria o que denominavam de “gargalhada santa” e havia imitação de animais como expressão de comunhão. O fato ocorreu nas décadas de 80 e 90.

Os que defendem esta prática justificam como sendo um instrumento para salvação de almas que, atraídas pela curiosidade, acabam se decidindo ao lado de Jesus.

Em nosso meio mais provoca confusão que salvação, e também produz igrejas divididas, famílias divididas, etc.

O primeiro ponto é o fato de considerarem experiências acima da autoridade bíblica e quase incorporá-la ao nível de doutrina, adjetivando que os que não caem estão resistindo à ação do Espírito. Porém existe uma grande diferença entre experiência e doutrina. Doutrina não muda. Experiência é temporal, vem e vai deixando atrás rastro de confusão e interrogações.

Experiência, seja ela de quem for, jamais deve merecer o mesmo valor que se dá à doutrina. Experiência é mais produto pessoal, emocional, psíquico. Experiência não tem o mesmo valor que as revelações bíblicas registradas nas Sagradas Escrituras.

A. W. Tozer disse: “… se um arcanjo… oferecer-me alguma verdade nova, eu lhe pediria referência [bíblica].”

A Bíblia é a única referência em termos de valores espirituais. Porém um fato curioso é que hoje vive uma geração analfabeta de Bíblia. À semelhança do Cantor Cristão que alguns rotulam de “preto velho”, a Bíblia, para esta geração, é também “preta velha”, não faz mais sentido. O importante são as experiências dos profetas contemporâneos

Há onze relatos de casos semelhantes, mas não iguais nas Escrituras. Em todas elas há uma distância muito grande do que acontece hoje em algumas igrejas. A experiência narrada pelo profeta Daniel 10.9 é um exemplo. Diante da visão celestial, que tinha uma força impressionante, Daniel prostrou-se com o rosto em terra. Na experiência contemporânea as pessoas caem para trás. Não é entranho? Não houve mediação humana e ninguém para amparar Daniel em sua queda. Deus foi glorificado!!!

Os que voltaram do retiro acentuavam a pessoa que produziu a performance e não Deus.

Ezequiel assemelha-se a Daniel na experiência. Caiu também prostrado com o rosto em terra, em atitude de adoração, (Ez 1.28; 3.23). Porém outros homens bíblicos tiveram a mesma experiência e não caíram. Se fosse uma norma ou prática a ser seguida, outros certamente cairiam, o que não ocorreu com Isaías (Is 6) e com a igreja primitiva reunida em Jerusalém diante do fato histórico mais surpreendente após a ascensão do Senhor Jesus: a inauguração do ministério do Espírito Santo. Atos 2.2 diz que todos estavam sentados quando o fato ocorreu. Ninguém caiu!!!!

Paulo caiu diante do impacto da visitação do Senhor (At 9.4). Não ficou imóvel. No momento comunicou-se com Deus e recebeu instruções que transformaram a sua vida radicalmente. Um fato que se observa com muitos que reiteradamente tem essa experiência é que pouca coisa ou quase nada muda em sua vida. Não se transformam em fiéis dizimistas, cumpridores de suas obrigações, melhores esposos (as); melhores filhos (as), amantes da obra missionária, dedicados ao serviço do Senhor. A vida continua a mesma. Fato dessa natureza deveria provocar transformações eternas e não provoca. Em toda reunião a pessoa está caindo e nunca fica de pé para obedecer ao Senhor.

Diante da presença de Jesus, homens caíram inclusive um pseudodiscípulo (Jo 18.6). Era um grupo formado de pecadores que foram prender o Senhor. Caíram e mesmo assim não confessaram seus pecados.

Como legítimos representantes de Deus, quando crentes caírem por terra, devem glorificar o nome do Senhor. E não exaltar como superespiritual o mediador ou o paletó do mediador.

Toda experiência tem que ter base bíblica. Cair não pode ser visto como plenitude do Espírito Santo e nem como uma vida consagrada de quem cai ou de quem derruba. Diante de cada prostração deve-se investigar a procedência; se glorificou a Deus ou o homem; como foi provocada; se prejudicou a boa ordem da adoração. Interrompeu a adoração?

Toda experiência de prostração na Bíblia se deu em razão da adoração e temor diante da glória do Senhor (Ap 5.14). Experiência não deve ser elevada a mesma categoria de doutrina.