Eu Sou Dizimista…

Isaltino Gomes Coelho Filho

O dízimo é uma questão discutida entre nós. É aceito pela maioria dos membros da igreja, embora nem sempre esta o pratique. É contestado por alguns. Em meus anos de membro de igreja e de ministério pastoral nunca vi uma só pessoa se opor a ele porque queria dar mais. Os oponentes o são para dar menos ou não dar nada. Queda-me a impressão que os combatentes do dízimo se sentem incomodados em dar seu dinheirinho para a igreja.

Não tenho interesse em debater a questão. Sou dizimista. Prazerosamente. Sinto-me realizado quando vou à frente devolver meu dízimo (dízimo não se dá nem se paga; devolve-se). E não quero converter alguém ao “dizimismo”. A recusa em praticá-lo será acertada com Deus. Mas alistarei as razões pelas quais sou dizimista. Quem não as aceita, tudo bem. Mas assim como não recebe meus argumentos, não me dê os seus. Dispenso-os. Sou feliz em ser dizimista.

Entendo que dízimo não é questão de doutrina. Discutir se é da lei ou da graça não me é relevante. Nem me abalo com a idéia de que não está expresso no Novo Testamento. O primeiro dizimista foi Abraão (Gn 14.18-20). Ele não viveu sob a Lei, que veio 430 anos depois dele (Gl 3.17-18). Dízimo não é criação da Lei. Outro argumento, em linha oposta, é que o dízimo era praticado em religiões pagãs, antes de ser incorporado à Lei. A oração também era praticada por pagãos, inclusive pelos defensores de Baal (1Rs 18.26ss). Os cânticos também eram oferecidos às falsas divindades. Em “A epopéia de Gilgamesh” (personagem de 2.700 a.C.) há orações, músicas e ofertas às pseudodivindades. Recusar-se ao dízimo, alegando que estava entre os pagãos, e gostar de cantar, de “ministrar louvor”, que também havia entre os pagãos, me soa incoerente.

Minha primeira razão para ser dizimista é que dízimo é questão de vida espiritual. Fui batizado no dia em que completei 15 anos, e um mês depois me senti vocacionado para o ministério. Adolescente, ajoelhei-me ao lado de minha cama e entreguei a vida a Jesus. Se dei a vida, por que não daria 10% de meu salário? Quem deu o maior, dá o menor. Ao dar a vida como um todo, dei a vida material a ele. Sou dizimista porque me dei a Jesus. Dediquei a ele minha vida, meu casamento, meus filhos, meus talentos, que são o tudo, como não daria o pouco que são os 10% do que ganho?

Minha segunda razão para dar o dízimo é que dízimo é questão litúrgica, ou seja, é um ato de culto. Nosso cristianismo mundanizado, moldado pela cultura de uma sociedade materialista, entende que culto é receber coisas de Deus. Assim é que muitos de nós vamos à igreja para receber ânimo, orientação, apoio, bênçãos. Não é errado, porque precisamos de tudo isto. Mas se é só para isto, estamos mal. Culto não é pedir. Culto é dar. “E ninguém apareça perante mim de mãos vazias” (Êx 23.15). Culto é um ato de amor a Deus. E amor não são palavras, mas dar. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu…”. Quem ama dá. Quem cultua dá. Mesquinhos é que só querem receber e apenas pedem. Ser dizimista é cultuar com bens, não apenas com palavras.

Uma terceira razão é que ser dizimista é ser coerente. Creio que tudo vem das mãos de Deus (1Cr 29.12), e não de meu esforço ou habilidade pessoal independente dele. Creio que, se quiser, ele pode me fechar as portas ou me inviabilizar para ter meu sustento. Sendo dizimista, reconheço sua bondade e quero mostrar que dependo dele. Seria falso se dissesse que o valor do dízimo não me faz falta. Mas seria falso se não reconhecesse que com o dízimo honro a Deus, mostro minha dependência dele, minha confiança de que assim como ele me sustenta há décadas, continuará sustentando. Quero mostrar coerência entre minha fé e minha maneira de lidar com o dinheiro. O fariseu do tempo de Jesus deva o dinheiro, mas não dava o coração. O fariseu contemporâneo dá o coração, mas não dá o dízimo. Não quero ser um fariseu de ontem, efetuando um ato legalista, sem amor. E não quero ser um fariseu de hoje, fazendo declarações pomposas nos cânticos, mas sonegando a contribuição.

Uma quarta razão: ao ser dizimista, reconheço que estou fazendo o mínimo. O Novo Testamento não estipula o dízimo e faz apenas cinco declarações sobre ele. E nenhuma é uma estipulação. Em Mateus 23.23 e Lucas 11.42, textos paralelos, Jesus censura os fariseus dizimistas. Não por serem dizimistas, mas por não darem o coração. Faziam-no legalisticamente. Em Lucas 18.12, o dízimo é citado na parábola do fariseu arrogante, que o usava para se enaltecer. Em Hebreus 7.2,4, o dízimo é mencionado num contexto teológico de submissão de Abraão a Melquizedeque, tipos do sacerdócio judaico e do sacerdócio de Cristo. O Novo Testamento mostra que de nós se espera mais que o dízimo. Espera-se tudo: “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me” (Mt 19.21). Como domesticamos o evangelho e amoldamos Jesus à nossa perspectiva de vida, não entendemos que ele espera que tudo seja dele. “Então José, cognominado pelos apóstolos Barnabé (que quer dizer, filho de consolação), levita, natural de Chipre, possuindo um campo, vendeu-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos” (At 4.36-37). Barnabé deu todo o valor, e mesmo assim não se julgou “acionista majoritário” da igreja. Era servo de Jesus, servo da igreja. Deu todo o valor. Note-se ainda o elogio de Jesus à viúva que deu uma oferta ínfima, em termos quantitativos: “Vindo, porém, uma pobre viúva, lançou dois leptos, que valiam um quadrante. E chamando ele os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos os que deitavam ofertas no cofre; porque todos deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha, mesmo todo o seu sustento” (Mc 12.42-44). Avaliamos nossas ofertas pelo quanto damos. Jesus avalia pelo quanto ficou conosco. Elogiou a mulher porque não ficou com nada, deu tudo. Nunca vi alguém ser contra o dízimo porque quer dar mais que dez por cento.

Uma quinta razão: sou dizimista porque assim me disciplino. O dízimo me disciplina a ter um orçamento, a cuidar de meus bens, a por o coração na minha igreja (não estou pastoreando, no momento – sou ovelha de meu irmão, o Pr. Isaías Gomes Coelho), me faz saber que uma parte de meus bens está comprometida com um ideal espiritual. Disciplina-me espiritualmente por me ensinar (ensino sempre provado) que aquele valor será suprido por Deus, de outra maneira.

Por outro lado, reconheço que os dízimos devem ser bem administrados pela igreja. É dinheiro para a obra de Deus. Não pode ser malbaratado. Preguei em uma igreja no exterior e almocei com um irmão que tinha, em época da supervalorização do dólar, um dízimo de dez mil dólares. Ele estava em crise, querendo aplicar o dízimo em outro lugar. Sua igreja não sustentava um missionário sequer, não tinha uma congregação e sequer um ponto de pregação. Mas queria climatizar a quadra de esportes. Alegando ser estrangeiro, de outra cultura, esquivei-me de opinar e desviei a conversa. Mas eu também agiria como ele. O dízimo é santo na essência, na origem, na entrega, e deve ser santo no uso. Erra a igreja que esbanja recursos em banalidades, e não na obra. Mas o membro de igreja deve ser dizimista. Eu o sou. Isto não é mérito nem ostentação. É apenas um fato corriqueiro, tão normal, que sequer deveria ser mencionado. E se o fiz foi porque muita gente me pediu opinião sobre o dízimo após ter assistido um vídeo no Youtube combatendo-o.

Agora, sim, é ostentação. E com júbilo santo. Os que não querem devolver o dízimo, façam como meu filho, Beny. Ele tem um sonho: chegar ao ponto de reter o dízimo para si, e dar 90% para o reino. Se você acha que o dízimo não é para a igreja, dê mais que ele. Afinal, os privilégios e a responsabilidade de viver sob a graça são maiores.