Tem Cuidado Da Doutrina

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho e apresentado no Congresso da Ordem dos Pastores Batistas Fluminenses, 6 de maio/2009

“Tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino…” – 1Timóteo 4.16

INTRODUÇÃO

O Dr. Olavo Feijó tratou da primeira parte deste versículo, ao falar da saúde pastoral. Cabe-me falar da segunda parte, que é o pastor cuidar do ensino. O título de minha palestra é “Tem cuidado da doutrina” e a aparente discrepância entre texto bíblico e título da palestra será esclarecida daqui a pouco.

O conceito hebraico que corresponde ao nosso conceito de “doutrina” é leqâh, que traz a idéia de “o que se recebeu”. Pode ser uma herança ou um ensino, ou, ainda, uma tradição. Este termo se ajunta ao hebraico torah, que, desvestido do caráter sagrado que tem no judaísmo, tem a idéia de “um corpo de ensino revelado”. O primeiro termo parece ter um significado mais afável. O segundo parece ter um significado mais sagrado, mais canônico.

No Novo Testamento, a palavra é didaskalia, que no texto de nosso encontro, em 1Timóteo 4.16, foi traduzido pela Versão Revisada e pela Século 21 como “ensino” e pela Revista e Atualizada como “doutrina”.

Torah e didaskalia trazem a idéia de “uma revelação verbalizada e transmitida com autoridade” e não de insights ou vontade pessoal de alguém. Os termos aludem a um corpo de verdades expressas e transmitidas de uma pessoa a outra, dentro de um grupo. No Novo Testamento, mormente em Atos e nas epístolas, alude a um corpo de ensino visto como padrão de ortodoxia. Um hebreu fiel, no Antigo Testamento, jamais ousaria pensar em negar a Torah ou deturpá-la. A ruína de Israel e de Judá foi a não observância da Torah, da doutrina vinda de Deus. Mas me impressiona verificar que muitos cristãos, que têm uma visão da revelação completa, ousem discordar da didaskalia do Novo Testamento. Alguns a minimizam, atendo-se mais ao Antigo Testamento que ao Novo. Outros, fazendo uma releitura bíblica por correntes de pensamentos seculares. Outros, ainda, simplesmente, por não pautarem suas vidas pela didaskalia e por não ensiná-la com vigor e paixão às suas igrejas. É uma visão superficial ame parece até mesmo desrespeitosa da Revelação. Temos hoje muitos problemas com o uso da Bíblia, que como Francis Schaeffer gostava de dizer, é a revelação proposicional de Deus. Muitos são os motivos, mas na raiz de tudo está o fato de muitos confundem o livre exame das Escrituras com a livre interpretação das Escrituras. Todos podem examinar livremente as Escrituras, foi a proposta da Reforma e que os batistas encamparam. Mas ninguém está autorizado a fazê-la dizer o que ele mesmo deseja. Há um sentido no texto, captado ao longo de séculos e de milênios pela comunidade cristã, que é o corpo de Cristo. Não se pode dar outro sentido à Bíblia. Não se podem criar doutrinas a bel prazer. Nem rejeitar doutrinas a bel prazer. A Bíblia não é restaurante de comida por quilo, em que se paga o que se quer. Ainda mais que os dois termos se ligam, semanticamente, à existência do grupo. Por isso, “tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino…”

Ditas estas coisas, seguindo em frente, gostaria de corrigir alguns equívocos comuns em nosso meio.

CORRIGINDO EQUÍVOCOS – 1

Começo com uma afirmação óbvia: a doutrina não é invenção humana. Este é o primeiro equívoco a desfazer. Mas o maior equívoco que quero desmanchar é este: doutrina não é uma camisa de força para enquadrar ou engessar a espiritualidade. É falsa a dicotomia “vida cristã ou doutrina”. Afinal, o termo grego didaqué, que guarda laços semânticos com didaskalia é aplicado ao ensino de Jesus, em Mateus 7.28-29: “Ao concluir Jesus este discurso, as multidões se maravilhavam da sua doutrina (didaqué); porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas”. O ministério de Jesus não foi construído sobre milagres, mas sobre uma doutrina que os milagres autenticavam. Há uma visão romântica de alguns: não havia nada de ensino e de doutrina, Jesus surgiu do nada, impressionou com sua vida e seus ensinos e os homens criaram uma estrutura doutrinária ao redor dele. Não é o que Novo Testamento ensina. Jesus veio num contexto de didaskalia, que substitui a Torah. Com facilidade, ele dizia: “Ouvistes que foi dito; eu, porém, vos digo” ou “Foi dito; eu, porém, vos digo”. Ele tinha consciência de ser uma nova Torah. Na Transfiguração, quando Pedro tenta colocar Moisés e Elias em pé de igualdade com Jesus, o Pai retira Moisés e Elias de cena e diz: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo; e ele ouvi”. Ele tinha uma doutrina. Ele era uma doutrina. Ele mesmo disse sobre seu ensino: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo” (Jo 7.16-17). Sua didaqué vinha de Deus, e a maneira de saber isto era através da vida espiritual, ou seja, fazendo a vontade de Deus. Vida espiritual e doutrina se completam, nesta palavra de Jesus. Doutrina e espiritualidade não são antagônicas, mas complementares.

Bem cedo, a igreja começou a cristalizar sua doutrina. Ela não foi obra de concílios do terceiro ou quarto séculos nem de Constantino, quem leia o Código da Vinci, não tendo cultura história nem teológica, pensará que um bando de velhacos, na calada da noite, estabeleceu uma doutrina. Mas a Bíblia diz: “De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas; e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42-43). Os novos convertidos iam sendo inseridos num contexto de guardar uma doutrina que já estava sendo elaborada pelos apóstolos. Esta doutrina foi repassada a outros, numa seqüência que a manteve de pé e a definiu na história: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2Tm 3.14-15). Timóteo recebeu uma doutrina de sua mãe, que recebeu da mãe dela. Ela culminava em Jesus Cristo. “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho…” (Hb 1.1-2). Jesus é a Palavra final de Deus. É muita pretensão de qualquer pessoa pensar que suas palavras excedem ou suplementam as de Jesus. É um ego muito grande.

Os crentes já repassavam uma doutrina de geração em geração. Não havia fé cristã sem doutrina. Nunca houve. Não foram os tradicionais que a criaram.

Lemos em Romanos 6.17-18: “Mas graças a Deus que, embora tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e libertos do pecado, fostes feitos servos da justiça”. “Forma de doutrina” é o grego típon didaquês, com a idéia de uma doutrina que era padrão. Mais uma vez vemos que doutrina não aprisiona, não embalsama, mas a obediência a ela dá substrato para ser libertado do pecado. Ouvimos dizer “Cristo liberta!”. Creio nisto. Mas, como? Ele não vem libertar. A compreensão e a internalização de sua doutrina muda a visão de vida, produz arrependimento, fé e libertação, porque o Espírito trabalha na vida.

A doutrina não é uma abstração, mas serve para embasar a ética. Em 1Timóteo 6.1, a postura dos servos para com os senhores deve ser correta para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. Paulo junta o nome de Deus e a doutrina. E em seguida, nos versículos 3-5, diz-nos ele: “Se alguém ensina alguma doutrina diversa, e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, injúrias, suspeitas maliciosas, disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro”. Respeitosamente, digo que vejo isto. As pessoas que mais se indispõem contra doutrina parecem-me soberbas, desejando livrar-se de limites, e muitas delas tentam se livrar da sã doutrina para impor seus conceitos, que lhe trazem lucro.

CORRIGINDO EQUÍVOCOS – 2

Outros equívocos sucedem porque o cristianismo hoje tem sido dimensionado em termos de sensações e de experiências. É cada vez mais sentir alguma coisa ou experienciar alguma coisa do que crer em alguém que ensinou uma verdade, no caso, este mesmo alguém. Esta subjetividade, atribuída ao Espírito Santo (porque para alguns o Espírito fala ao coração, aos sentimentos, e não pelas Escrituras ou por circunstâncias evidentes), se opõe à objetividade das Escrituras. Uma das maiores vertentes hermenêuticas hoje é “Eu senti no meu coração”, e pronto, não se pode argumentar com a pessoa. E daí, que sentiu no coração? Desde quando o coração é padrão de certo ou errado? Desde quando o coração é confiável? Diz-nos Jeremias 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?”. A Bíblia deve ser o padrão normativo para nós e não as nossas sensações. Esta subjetividade permite dizer qualquer coisa sem que a pessoa possa ser contestada. Um exemplo disto se vê em uma declaração de uma episcopesa (que o pessoal teima em chamar de “bispa”), segundo a qual “Deus é uma coisa quente e fofinha”. Discordei desta declaração absurda e grosseira, em meu livro Neopentecostalismo – uma avaliação pastoral, e recebi um email furibundo e, como sempre, anônimo, de uma componente do fã clube da episcopesa. Se ela via Deus assim, quem era eu para discordar? O problema não é minha discordância. É que Deus não é mostrado como uma coisa, na Bíblia. Muito menos quente e fofinha. Ela se confundiu aqui. Se não temos doutrina podemos projetar qualquer conceito nosso sobre Deus, sobre Jesus, sobre a vida cristã como se fossem válidos. O cristianismo tem um corpo doutrinário, não há como negar. Ignorar isto é aniquilá-lo. É o que se tenta fazer, ao diluí-lo de um corpo de ensinos emanados de uma pessoa em sensações experimentadas pelas pessoas. O cristianismo não são sensações.

Quando sou examinador de algum seminarista candidato ao ministério da palavra, nunca começo perguntando pelo seu conceito de Deus. Minha primeira pergunta é: “Qual a fonte de autoridade em matéria de religião?”. Se o examinando não responder que é a Bíblia, podemos encerrar o concílio. Como vamos conversar? Porque a Bíblia é a Palavra de Deus e é doutrinal, porque é uma Torah, uma didaskalia e não um relato de experiências. Há, claramente, um ensino bíblico, há uma mensagem na Bíblia.

O cristianismo são fatos históricos sucedidos no tempo e no espaço. Deus interveio na história dos homens. O texto de Êxodo 3.18 tem sido considerado pelos estudiosos de Antigo Testamento como “a entrada de Deus na história” (… “O Senhor, o Deus dos hebreus, encontrou-nos…”). Iahweh interveio na história. Nesta intervenção, ele interagiu e revelou alguma coisa. Ele não revelou sentimentos, mas a si mesmo e ao seu Filho, que é a expressa imagem do seu ser (… “o qual é imagem do Deus invisível” – Cl 1.15). “Imagem” é o grego eikon, de onde nos vêm “ícone”. Era a palavra usada para “espelho”. Isto é fantástico! Quando Jesus olha no espelho, o rosto que ele vê é o de Deus. Quando Deus olha no espelho, o rosto que ele vê é o de Jesus. Não cante aquele corinho “Quero te ver!”. Quer ver Deus? Olhe para Jesus!

A Bíblia é o registro desta intervenção divina na história e do que ele falou em Jesus. O cristianismo é uma pessoa, Jesus, mas o Jesus mostrado no Novo Testamento. Alegadas visões de Jesus não significam nada para a verdade do cristianismo. Nem outras revelações alegadas que colidam com as Escrituras. E não há cristianismo secular, como queriam Altizer, Vahanian, Cox, Van Buren e Adolphs. O cristianismo é religioso, fala de Deus, de suas verdades, sendo uma revelação proposicional.

Esta revelação proposicional, a Bíblia, exige cuidados em sua interpretação. Duas regras elementares para entendê-la são: (1) O Novo Testamento, que é o cumprimento, o clímax, interpreta o Antigo; (2) Cristo é, no dizer de Lutero, o cânon dentro do cânon. Ele é o eixo hermenêutico para se entender toda a Bíblia. A igreja não precisa de uma nova revelação. Ele precisa é de Jesus. Pastores que buscam algo além de Jesus não são mais espirituais, mas apresentam uma deficiência espiritual muito grande. “Cristo é tudo” (Cl 3.11). Uma cristologia fraca ou pouco enfatizada nos trará problemas doutrinários. No pentecostalismo, a pneumahagiologia triunfou sobre a cristologia. Com adventistas e testemunhas de Jeová o que aconteceu foi o triunfo da escatologia sobre a cristologia. No adventismo, Moisés triunfa sobre Jesus. No neopentecostalismo, como na teologia da libertação, o que houve foi que o fio de prumo hermenêutico passou ser a situação concreta do homem, e não mais Cristo. A antropologia triunfou sobre a cristologia. Deficiência cristológica produz desvios doutrinários.

O cristianismo é uma pessoa que se revelou, que se manifestou, que se pronunciou, e cujas palavras foram registradas por homens que foram usados pelo Espírito de Deus. Tudo isto gerou um ensino, uma doutrina, que deve ser respeitada.

O QUE É CUIDAR DA DOUTRINA?

Mas o que significa “cuidar da doutrina”? De que estamos falando? Não será que estou dando uma entortada na argumentação, confundindo a revelação escriturística com a doutrina batista?

Em parte sim, em parte não. Em parte não porque a Bíblia é maior que nossa concepção doutrinária. Ela é maior que nossa doutrina e nossa percepção da verdade. Em parte sim, porque associo as doutrinas batistas com a verdade bíblica. Não subsidiamos nossas afirmações doutrinárias com pensamentos de autores batistas no sentido de que a palavra deles nos seja autoritativa. A fonte de autoridade, para nós, são as Escrituras. Eventualmente algum teólogo, até mesmo não batista, poderá ter sido muito feliz em uma abordagem, e assim o citamos. Mas nunca colocamos sua palavra como fonte de autoridade. Sou batista porque creio que nossa doutrina é bíblica, é coerente, é um todo, não sendo uma visão fragmentária. Alguns grupos tendem a interpretar a Bíblia à luz de pressupostos hermenêuticos que são produto de uma visão fragmentária: ela é um relato de eventos miraculosos que podem ser repetidos hoje. Analisa-se a Bíblia e toda a fé cristã à luz de sinais e milagres. É interpretar o todo pela parte. A hermenêutica sadia interpreta a parte pelo todo. A Bíblia está acima dos eventos e não pode ser entendida por eles, mas apenas por Ele, Jesus. É por meio de Jesus que entendemos todo o plano de Deus. A doutrina correta precisa de um eixo hermenêutico indestrutível, e este eixo só pode ser cristológico. Ele é o Todo da revelação.

A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é um documento muito bem feito, e do ponto de vista bíblico, extremamente sólido. Ela contempla o todo, vê a fé cristã como um todo, e fundamenta suas afirmações nas Escrituras, não em um líder, não em experiências, não em sinais e prodígios, não em novidades eclesiológicas e nem em experiências litúrgicas. Temos uma doutrina que não é produto de um guru, mas que se cristalizou em dois mil anos de cristianismo. Não como um processo, porque não estou dizendo que ela se formou em dois mil anos, mas que se cristalizou. Cuidar da doutrina não significa cuidar da Declaração Doutrinária, mas significa cuidar do corpus christianus, do corpo de doutrinas cristãs, que os cristãos entenderam vir da parte de Deus, consubstanciadas na Bíblia. E que os batistas souberam, com propriedade, expressar, de maneira simplificada, em sua Declaração Doutrinária. E é preciso dizer: nossa Declaração é indicativa e não normativa. Ela indica o que cremos, não é nossa norma de doutrina. Ela se assenta sobre nossa norma de doutrina, a Bíblia. Em outras palavras: somos bíblicos e nossas doutrinas são produto de uma exegese bíblica criteriosa. Um pastor batista precisa entender isto, caso contrário sua maneira de ler sua igreja e seu ministério será prejudicada.

O PASTOR COMO GUARDIÃO DA DOUTRINA

Segundo Paulo, o pastor é o guardião da doutrina. É mandamento bíblico. Foi isto que ele recomendou a Timóteo. Isto não significa ser um cão de caça, mas um guardador. Que significa isto?

(1) Significa ter uma profunda firmeza nas Escrituras. Há muita superficialidade bíblica em nosso meio. E há muita gente empolgada com outras fontes que não a Bíblia. E submetendo a Bíblia ao pensamento humano, ao invés de submeter o pensamento humano à Bíblia. Tenho me surpreendido em ver análises marxistas do evangelho, análises terceiromundistas do evangelho, o evangelho por uma perspectiva feminista ou dos oprimidos. Isto é tão lícito quanto uma análise capitalista do evangelho (o que já vemos em alguns programas evangélicos), uma análise primeiromundista do evangelho, o evangelho por uma perspectiva machista ou pela ótica dos opressores. Precisamos de mais conteúdo bíblico e sempre por um eixo cristológico. Não podemos praticar um reducionismo da doutrina bíblica, submetendo-a a um viés humano. A Bíblia é senhora e não serva, é juíza e não ré. O pastor deve ser um homem da Bíblia, apaixonado por ela, dominado por ela, expositor dela. E deve imergir a igreja na Bíblia. E deve imergir-se a si, também. No passado, éramos chamados de “bíblias” e nossas igrejas tinham como símbolo distintivo uma Bíblia insculpida ou pintada em suas fachadas. Hoje nosso símbolo distintivo é uma caixa de som com que atazanamos, deseducadamente, a vida de nossos vizinhos.

(2) Significa ter vigilância quanto aos ensinos. Pastoreei uma igreja onde houve um episódio curioso. No meu segundo mês de pastorado houve batismos de convertidos antes de minha chegada. Na profissão de fé, uma pré-adolescente insistia em que o batismo era necessário para sua salvação. Embora lhe fosse explicado na hora que o batismo não salvava, ela insistia na sua afirmação. Intrigado, pedi sua revista de Escola Bíblica Dominical. A igreja estava usando a revista de um grupo que afirma que o batismo é necessário à salvação. Houve um cochilo na doutrina. A igreja usava uma revista que se opunha à sua doutrina. É responsabilidade do pastor saber o que se estuda em igreja, o que circula em sua igreja e o que sua igreja canta. No passado, nossos problemas doutrinários vieram em forma de doutrina. Hoje vêm embalados em liturgia. Cantamos letras que colidem com nosso credo, mas aceitamos porque o ritmo é empolgante e o povo gosta. O pastor não é um garçom, dando ao povo o que o povo quer. É um servo da Palavra de Deus e deve dizer o que ela diz. Como cantar um cântico que pede que Deus derrame seu fogo e nos conceda a segunda bênção? Como cantar um cântico que diz que o Espírito vai visitar a igreja (Visitar? Ele mora nela!) e operar libertação. Cantamos que declaramos, que reivindicamos, que queremos nossos direitos e depois nos queixamos disso? A maior fonte de problemas doutrinários está nos cânticos de pessoas bem intencionadas, mas despreparadas e que não pedem orientação a ninguém. Julgam-se auto-suficientes.

(3) O pastor deve encarnar a doutrina na sua vida. Deve manifestar coerência entre sua conduta e o ensino bíblico. Deve viver o que ensina. Alguém me falou de um pastor que não era dizimista. Não acreditei. O pastor deve viver a Bíblia, viver a sã doutrina. Se não tem convicção, não permaneça no ministério porque estará violentando sua consciência e isto é ruim diante de Deus e prejudicial para sua própria saúde moral, espiritual e psicológica. Tenho visto obreiros que ridicularizam a doutrina batista, mas não procuram outra denominação. Isto me soa como non sense. Muitos só saem quando conseguem, pouco a pouco, mudar as doutrinas, estatutos, e a mente do povo. Isto também não me soa muito honesto. A doutrina é a verbalização do que se crê. Viver a doutrina é viver o que se crê. Deve haver coerência entre doutrina e vida até mesmo porque a doutrina e a ética caminham juntas. Não se pode dissociar o credo da vida. A ética é a doutrina encarnada, assumida e praticada.

O QUE ISTO REQUER?

Isto requer pelo menos três atitudes.

(1) Requer uma vida de estudo da Bíblia. Não por profissão, mas para aprender e ser enriquecido por ela. É o livro mais fascinante do mundo. O pastor precisa lê-la, estudá-la sempre, internalizá-la. Requer conhecimento das doutrinas do seu grupo e da história do seu grupo. “História dos Batistas” não deveria ser uma disciplina optativa ou eletiva em nossos seminários, e sim obrigatória, e não apenas como dois créditos. É preciso conhecer o ensino bíblico e o histórico do grupo no qual estamos inseridos para proclamá-la ao mundo. Há pastores que não têm a menor noção de quem sejam os batistas e do seu surgimento no mundo. Como guardarão a doutrina batista? E sem um relacionamento passional com a Bíblia, como guardarão a sã doutrina? Temos um Livro Santo que precisamos conhecer. E temos uma história que não podemos ignorar. istória Nem devemos, porque é rica e edificante.

(2) Isto requer o estudo de bons livros, o exame de bom material. Há uma indisposição, em muitos setores, com o pastor que estuda. É chamado, desdenhosamente, de “pastor de gabinete”. Muitas vezes esta indisposição esconde um complexo de inferioridade e uma incapacidade ou falta de humildade para aprender. Manifesta a arrogância de se presumir conhecedor de tudo e que nada mais há para aprender. O pastor de igreja não pode ser um acadêmico oco e pernóstico, mas também não pode ser um ativista irrefletido. Há igrejas que se exaurem em programas, mas que não têm nenhuma saúde bíblica e, por conseqüência, saúde espiritual. Porque programas e atividades não dão saúde, mas só as raízes fincadas nas Escrituras. É um frenesi de movimento, mas ausência de doutrina, de ter o que dizer. Há crentes muito agitados, mas de ignorância bíblica de dar dó. Eles refletem o que aprendem, ou o que não aprendem. Não houve doutrina. Sem doutrina é difícil haver maturidade cristã.

(3) Isto requer também sobriedade, bom senso. Não invente o evangelho. Não invente a fé cristã. Há gente reinventando a igreja e recriando Jesus, com muita constância. O evangelho é simples, bem simples: Cristo crucificado, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. E a partir daqui algumas implicações. Mas não queira ver o que jamais alguém viu em dois mil anos de cristianismo. Não seja fogueteiro. Seja servo. Não apareça. Trabalhe e deixe que Jesus apareça. A boa doutrina aponta para Jesus.

CONCLUSÃO

Há 39 ocorrências da palavra “doutrina”, no Novo Testamento. Elas têm um âmbito muito grande, mas mostram, de modo geral, que há uma doutrina pela qual se deve zelar: “Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasse em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa, nem se preocupassem com fábulas ou genealogias intermináveis, pois que produzem antes discussões que edificação para com Deus, que se funda na fé… (1Tm 1.3-4). E também mostram que nos tempos finais os homens não a quererão, e dela se descartarão, buscando suas conveniências: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. (2Tm 4.3-4). Mostra ainda que homens arrogantes tentarão se livrar dela em nome de interesses pessoais escusos: “Todos os servos que estão debaixo do jugo considerem seus senhores dignos de toda honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. E os que têm senhores crentes não os desprezem, porque são irmãos; antes os sirvam melhor, porque eles, que se utilizam do seu bom serviço, são crentes e amados. Ensina estas coisas. Se alguém ensina alguma doutrina diversa, e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, injúrias, suspeitas maliciosas, disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.1-5). Mas também mostram que o obreiro sadio deve falar a sã doutrina (“Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” – Tito 2.1), e nela deve ser um exemplo (“Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós” -Tito 2.7).

Por tudo isso, “tem cuidado da doutrina”.