A ética manifestada pelo choro

“Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados.”

Mateus 5.4

O que tem ética a ver com choro?  A Ética trata da conduta ideal da pessoa. No estudo passado, dissemos que falaríamos da ética cristã pelo estudo do sermão do monte. Sobre ele, dissemos o seguinte: “Se todas as pessoas, inclusive nós, cristãos, o praticassem, o mundo seria um paraíso. Ele é considerado ‘a constituição do reino de Deus’. Logo após a tentação no deserto (Mateus 4.1-10), Jesus veio pregando o reino de Deus. Ele começou a pregar, e a pregar o reino de Deus. O sermão do monte estabelece as regras de conduta do cidadão do reino.” Mas o que o choro tem a ver com a conduta ideal da pessoa?

Neste estudo, veremos a palavra de Jesus contida na segunda bem-aventurança:

“Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados.”

Mateus 5.4

Será que Jesus se expressou direito?

“Bem-aventurados os que choram” não faz sentido. Nosso estilo de vida é orientado para a felicidade. Nós a queremos, e muitas pessoas chegam a pisar nos outros para buscá-la. Se Jesus dissesse “bem-aventurados os que riem”, vá lá, mas quem chora? Choro lembra sofrimento, e sofrer é ruim. Quem gosta de sofrer é ruim da cabeça.

Ele disse que os que choram serão consolados. Mas ainda há uma dúvida. Consolo do céu não basta para muita gente. Elas querem ser felizes aqui e agora. E têm uma certa dose de razão. Vivemos aqui. Logo, seria bom que vivêssemos sem sofrer. E, se sofrêssemos, seria bom que o sofrimento parasse logo. O que Jesus quis dizer com isso então?

“Os que choram”

A dificuldade é maior porque Mateus usou, para “choram”, o verbo grego peintein, que significa o choro forte, do luto. Não é o choro manso, de melancolia ou de dor poética. É o choro aflito. Mas choram aflitos por quê?

Os que choram” refere-se aos que choram sua dor, qualquer que seja, abrindo o coração para Deus.

Muitos confundem fé com estoicismo, filosofia que ensina que as pessoas não devem demonstrar sentimentos nem sentir qualquer dor. Um filósofo estóico, Zenon, foi feito escravo. Seu senhor, para ver se ele levava a sério o que pregava, torceu seu braço até quebrá-lo. Zenon disse apenas: “O meu senhor quebrou meu braço. Agora não poderei servi-lo bem.”

Ter fé não significa não sentir nem mostrar que a situação está difícil. Seguir a Jesus não significa reprimir os sentimentos. Devemos combater os maus sentimentos que conduzem ao pecado, mas podemos chorar e dizer que está doendo.  Jó se queixou. Não perdeu a fé, mas reclamou muito. Você pode seguir a Jesus sem perder sua humanidade. Não deve se tornar um robô.

“Os que choram” são pessoas que choram a dor do seu pecado. Davi chorou quando Natã apontou seu pecado. Nos salmos 32 e 51, ele chora sua dor. Quem é sensível chora seu erro. Quem é duro apenas aponta os erros alheios, mas o sensível chora os seus. O apóstolo Paulo lamentava-se pelo que fizera aos cristãos antes de sua conversão.  Os erros do passado, mesmo perdoados por Deus, nos entristecem. Isto é importante, porque algumas pessoas pensam que o culto é sempre uma festa.  Nossos cultos não devem ser um velório, mas precisam mostrar também nossos sentimentos de contrição e de arrependimento diante de Deus.

Bem-aventurado quem chora também pelos outros.

Jesus chorou por Lázaro e pela cidade de Jerusalém. Um cristão de verdade chora pela dor deste mundo, onde há violência, maldade e gente passando fome, enquanto outros desperdiçam recursos em tolices. O cristão chora pelo pecado que faz com que alguns sofram em decorrência da exploração de outros.

Temer a Deus e fazer tudo certo é bom, mas é preciso também se preocupar com a situação social e espiritual daqueles que vivem sem Cristo.

“Serão consolados”

Jesus não disse “vão se consolar”, mas sim “serão consolados”. A consolação vem de fora. Não é algo psicológico, tipo “chorar faz bem”. Jesus disse que alguém consolará quem chora.  Deus quer o nosso consolo, conforme lemos em Isaías 40.1: “Consolai, consolai, o meu povo.” Ele não quer nosso sofrimento, embora o permita por vezes. Sendo assim, quem  vive corretamente diante de Deus sempre é consolado por ele na hora da aflição.

Mas quem consola a pessoa que chora? Em João 14.16, Jesus disse que rogaria ao Pai para que ele nos enviasse um “outro Ajudador”. O termo grego para “ajudador” é Paráclito, que tem a idéia de alguém “que vai ao lado”. Esse alguém é o Espírito Santo. Deus nos oferece a sua companhia pelo Espírito Santo. Jesus disse “outro” porque ele também nos ajuda em nossa vida. Nos momentos difíceis, ele continua caminhando conosco. Ele consola quem chora seus pecados, seus próprios erros, quem chora a dor alheia e a miséria que há no mundo. Deus se condói de nós.

O choro tem mesmo a ver com a Ética?

Tem, e muito! O sermão do monte é o código ético do reino de Jesus. E o choro é citado na segunda bem-aventurança. Uma pessoa ética precisa ser sensível. A verdadeira ética não brota da cabeça, mas sim do coração. É muito bom ter idéias certas, mas é preciso ter sentimentos corretos. Nosso choro por nossos erros e nossas dores, pelos erros e pelas dores do mundo, mostra que somos pessoas sensíveis, abertas para a graça de Deus. E só quem é aberto para a graça de Deus pode ter uma vida correta, porque ele corrige e conforta.

Conclusão

Se o choro é por culpa nossa, lembremo-nos de 1Pedro 4.15 e corrijamos a vida! Recomenda o apóstolo: “Que nenhum de vós, entretanto, padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se entremete em negócios alheios.” Se o choro é porque somos fiéis, lembremo-nos de 1Pedro 4.16, que diz: “Se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste mundo.”

Não se envergonhe de chorar. Se o choro é justo, é glória para você. Jesus disse que são “bem-aventurados os que choram”.