“Profeta, não dê palha ao povo!”

“O profeta que tem um sonho conte o sonho; e aquele que tem a minha palavra, fale fielmente a minha palavra. Que tem a palha em comum com o trigo?, diz o SENHOR.” – Jeremias 23.28 (Almeida Século 21).

No meu tempo de aluno do Seminário do Sul, quando os alunos do primeiro ano iam pregar seu sermão de prova, os veteranos se alvoroçavam. Os calouros eram por eles chamados de “palhudos” e exortados a não pregarem palha. Na sala de aula de Homilética, um pequeno salão de cultos, com púlpito e tudo, aparecia o texto de Êxodo 5.7: “Não deis palha ao povo”. Era uma brincadeira que servia de laços de união. Eram tempos bons, também. Ninguém queria ser chamado de “palhudo”, que denotava o pregador fraco, relaxado. Os candidatos a pastores queriam pregar bem.

Deus não gosta de pregadores palhudos. Não do pregador fraco, mas de outro tipo de palhudo. Não é a palha de Êxodo que o incomoda, mas a palha da qual ele falou a Jeremias, os devaneios humanos.  Ao profeta, ele compara os sonhos com a palha e sua Palavra com o trigo. Havia gente pregando seus sonhos, tantos os oníricos como os devaneios, como se fossem Palavra de Deus. Como hoje: há gente trocando a Palavra de Deus, a Bíblia, sua revelação verbalizada e proposicional, pelos sonhos humanos. São púlpitos que têm vergonha de ecoar a Bíblia, porque a acham ultrapassada, e ecoam o coração humano.  E deixam de ser apaixonados pela Palavra e por Jesus, o fio de prumo para interpretar a Palavra, e se dizem apaixonados por Tillich, Nietzsche, Marx e outros confusos e fracassados. Sonhos humanos são palha, por mais bem intencionados que sejam. A Palavra é o trigo.

Há os que sonham e atribuem seu onirismo a Deus. Seus sonhos são revelação de Deus. Acham-se novos Josés (tanto o do Antigo Testamento como o esposo de Maria) e que o produto de sua mente é revelação divina. Normalmente tais pessoas fazem um conceito muito baixo da Bíblia. E não me parecem sadias.

Palha é falso alimento. A pessoa mastiga substância que não alimenta. O trigo é o vegetal símbolo do alimento. Ele gera o pão e as massas, por exemplo. Dá substância. Os pregadores têm direito de sonhar e de ter escritores e pensadores prediletos, mas nunca de querer alimentar o povo com eles. Nossos sonhos são sonhos, e o que alimenta o povo é a Palavra.

Há muitos crentes que gostam de palha. Em uma igreja que pastoreei, uma senhora a freqüentou por três meses e depois disse que não seria membro da igreja. Nós dávamos muita ênfase à Bíblia e ela queria uma igreja que desse mais ênfase às experiências. Nós éramos muito tradicionais, porque ensinávamos a Bíblia. Ela queria sonhos e revelações. Foi tão desdenhosa que me levou a dizer: “Fico muito agradecido por não tê-la como ovelha!”.

Quem quer comer palha por certo que terá fornecedores de palha para enganá-lo. Vá e encha sua barriga. Mas o crente sincero deve rejeitar palha e exigir trigo do seu pastor. Quando Deus comissiona um homem para ser pastor não o faz para ele se aproveitar do rebanho ou para projetar seu nome em algum projeto, mas para alimentar o povo com o trigo da sua Palavra. Ele acertará as contas com os fornecedores de palha. E os pastores devem ser sérios. Não devem dar palha ao povo.

Ovelha, não aceite palha! Profeta, não dê palha ao povo!