Um estudo em Tiago

ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL – SECÇÃO MINAS GERAIS

UM ESTUDO EM TIAGO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, outubro de 2009

INTRODUÇÃO

Vou começar do bastante óbvio. Não é que eu despreze a inteligência de vocês, mas farei assim para compor o quadro organizadamente, indo do já sabido para o que podemos discutir. Tiago é a primeira das chamadas “epístolas universais” ou “católicas” (“católico”, todos sabemos,  significa “universal”). São um total de sete: Tiago, 1ª e 2ª Pedro, 1ª, 2a, e 3ª João, e Judas. Receberam o nome de “universal” porque as de Paulo foram cartas para comunidades localizadas ou pessoas específicas. Eram particulares, embora devessem ser passadas para outras igrejas lerem, como vemos em Colossenses 4.16.  E Hebreus, é fácil de ver pelo seu conteúdo, é mais um tratado teológico que uma carta. Alguns estudiosos do Novo Testamento dizem que Hebreus é, pela sua forma literária e estrutura de argumentação, um sermão. Na realidade, é uma peça literária muito bem estruturada. Se o livro de Hebreus foi um sermão, quem o pregou tinha fôlego, tinha um auditório paciente, e uma inteligência excepcional.

Mas mesmo que seja considerada como uma epístola, Hebreus é também uma mensagem localizada e tem público destinatário restrito: foi escrita para cristãos que tinham sido judeus.  Seus valores teológicos são universais, mas há aspectos bem específicos que não podem ser generalizados. Estas cartas católicas foram endereçadas a todos os cristãos, em todos os lugares. Por isto que são universais. Esta universalidade se entende também em termos de épocas, não apenas de geografia. São para hoje, também.

A REDESCOBERTA DE TIAGO

Redescobrir Tiago é extremamente necessário em nossos dias. Ele trata de religião prática e vivemos num misticismo que aliena muitas igrejas e muitos cristãos e desvirtua o significado do evangelho. Para muita gente, vida cristã é a pessoa e Deus, num relacionamento pessoal e estreito. Para piorar, a igreja eletrônica, que tem massificado seus conceitos, e “feito a cabeça” de muito gente, tem contribuído para aniquilar a comunhão dos santos, a koinonia cristã. A pregação neopentecostal típica da maior parte das igrejas via tevê, aliena o ouvinte do próximo e o faz pensar somente em suas necessidades pessoais. E seu relacionamento social praticamente inexiste. Ora, inexistindo o relacionamento social, a ética desaparece. Em muitas igrejas, a fraternidade e a solidariedade cristãs são exercidas quando, cantando algum corinho, as pessoas se cumprimentam. Mas fora daquele momento de culto suas vidas não se tangenciam. É algo teatral e forçado, item de um programa e nem sempre uma realidade vivencial.

Tiago trata de ética, de solidariedade, de religião vivencial. Por isso deve ser redescoberto. Deve ser estudado e pregado em nossas igrejas. Sem dúvida que ajudaria a preencher algumas lacunas muito visíveis em nosso cenário.

Esta epístola tem sofrido comentários injustos desde o início do movimento protestante. Preocupado em afirmar a doutrina da justificação pela fé, Lutero foi duro com a carta de Tiago.  Chamou-a de “epístola de palha” (eyne rechte stroerne Epistel), por causa de seu entendimento equivocado de 2.14-26, onde presumiu haver o ensino de justificação pelas obras [1].  Este entendimento errôneo de Lutero ainda permanece em muitas mentes. Mas deve ser entendido dentro do contexto em que as palavras dele foram proferidas. Elas constam de seu prefácio à primeira edição da Bíblia Alemã, onde ele se expressa sobre os livros que mais mostram a pessoa de Cristo. Após nomeá-los, disse Lutero: “Por isso, a epístola de São Tiago é uma epístola bem insípida (eyne rechte stroerne Epistel) se comparada às demais…” [2]. Este reformador, mais tarde, modificou sua posição. Assim se expressou Lutero, conforme nos diz George: “Quando S. Tiago e Paulo dizem que um homem é justificado pelas obras, eles estão combatendo a noção errônea daqueles que pensam que a fé sem obras é suficiente” [3].  Lutero, depois, veio a entender o significado de Tiago. Sua crítica aconteceu porque no Debate de Leipzig, em 1519, seu oponente, John Eck, citou Tiago 2.17 (“Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”) para rebater a posição de Lutero contra a justificação pela fé. Parece que isto causou um forte impacto emocional negativo no reformador, contra a epístola. Mais tarde, o reformador maturou suas idéias e modificou sua posição.

Outro injusto com Tiago é Champlin. Diz ele: “A epístola de Tiago certamente é um documento que representa o cristianismo judaico; e não erramos por dizer, representa o cristianismo legalista[4].  Ele despende um bom espaço para “provar” que Tiago e Paulo estão em oposição e que o primeiro escreveu para refutar, conscientemente, o capítulo 4 de Romanos.  Será que pregar Tiago é pregar contra nossa herança teológica, vinda da Reforma, da justificação pela fé? Temos dois cristianismos, no Novo Testamento, um paulino e outro judaizante? Creio que a resposta ficará clara um pouco mais à frente, mesmo que não abordemos, especificamente, esta questão.

Fiquemos, por ora, com o esquecimento de Tiago e até mesmo com a sua escassa pregação em nosso meio. É estranho que suceda assim. Aliás, cada grupo tem escolhido, hoje, que parte da Bíblia prefere pregar.   Os carismáticos têm se centrado em Atos e nos evangelhos.  Os tradicionais, nas epístolas. Os baixo-pentecostais, com a pregação da teologia da prosperidade levada às últimas conseqüências, valem-se do Antigo Testamento. Mas sua hermenêutica é estranha, considerando a Bíblia apenas como indicativa, e não normativa. Ou seja, é um livro que traz o registro de sinais e milagres, mais que revelação plena para as demais áreas da vida. De Tiago ninguém tem se lembrado, o que é bastante problemático. Isto significa que a ética anda com baixa cotação em nosso meio. E que relacionar fé com relacionamentos sociais e éticos está em desuso em nosso meio.

Redescobrir Tiago é necessário para os cristãos atuais e tentarei mostrar isto neste trabalho. Fala-se muito de ética (geralmente para se cobrar dos outros) e isto traz Tiago ao cenário. É um documento que sinaliza uma postura ética (não microética, mas ética social) para a igreja.

QUEM ESCREVEU?

Há cinco homens chamados Tiago no Novo Testamento. O primeiro é o pai de Judas, como lemos em Lucas 6.16. O segundo é um discípulo, filho de Alfeu (Mt 10.3). Este Tiago é irmão de Mateus (Mt 9.9 e Mc 2.14). O terceiro é chamado de Tiago Menor (Mc 15.40). Talvez fosse chamado de “Menor” por causa do seu tamanho, ou como substituto de Júnior. Há pais que gostam de colocar seus nomes nos filhos. O quarto é irmão de João e filho de Zebedeu (Mt 10.2). Este é o que os espanhóis gostam de dizer que é o Tiago de Compostela. Mas este foi morto no início dos anos quarentas, como lemos em Atos 12.2. O quinto é chamado de “irmão do Senhor” (Gl 1.19). Jesus possuía um irmão com este nome, como lemos em Mateus 13.55. Ele era incrédulo e julgava que Jesus era louco, como lemos em Marcos 13.21 e João 7.5.

Este Tiago, bem como os demais irmãos de Jesus, em Atos 1.14, aparece como um convertido. Como isto chegou a acontecer? Em 1Coríntios 15.7 Paulo diz que Jesus ressuscitado apareceu a Tiago. Presume-se que tenha sido a seu irmão, que veio a ser o líder da igreja de Jerusalém, como se vê no episódio de Atos 15, em que a palavra dele é tida como a palavra final, vinda, inclusive, de Deus. Segundo o historiador Flávio Josefo, este Tiago, que ele chama, inclusive de “irmão de Jesus” (História dos Hebreus, volume 6, p. 71), foi morto por apedrejamento no ano 62.  Tem sido prática corrente, ao longo da história da igreja, identificar o autor desta epístola com o irmão de Jesus. A Bíblia de Jerusalém, de edição católica, assim procede, também.

Era um homem respeitado no cristianismo da época. Paulo o considerava como apóstolo e coluna da igreja (Gl 1.9 e 2.9). Quando foi solto da prisão, Pedro mandou avisar a Tiago (At 12.17), o que parece indicar sua importância para a igreja de Jerusalém. E Judas, ao se identificar-se, apresenta-se como seu irmão  (Jd 1).

TEMA DA EPÍSTOLA

O tema central da epístola é o caráter cristão. A epístola é predominantemente ética, nada trazendo de assuntos doutrinários. Nada fala do Espírito Santo nem mesmo da doutrina da salvação. O autor trata disto: como um cristão deve se relacionar com as pessoas. Não trata de doutrinas, mas de conduta. Não há menção alguma a missões, a batismo, ceia, a cruz e suas implicações, vida futura, cerimônias do Antigo Testamento e seu relacionamento com a nova ordem, os gentios, etc. Tudo isto é omitido e a abordagem é totalmente prática: como viver? Como se relacionar com os irmãos e com os de fora?

O PROBLEMA DA ACEITAÇÃO

Já comentamos que Lutero impugnou a carta a Tiago e a chamou de “epístola de palha”. Isto porque a epístola parece defender a doutrina da salvação pelas obras. Voltemos um pouco a esta questão, porque ela é a origem de muitos equívocos cometidos contra esta carta.  Parece que a conversão de Lutero se deu em 1515, com a leitura de Romanos, particularmente Romanos 1.17, que declara que a pessoa é justificada pela fé. Em 1517 surgiu o protesto de Lutero contra a venda de indulgências por parte da Igreja Católica.  Esta data acabou sendo o marco inicial da Reforma Protestante, mas não era esta a intenção de Lutero. Apenas ele desencadeou um processo que levou alguns anos fermentando, até a ruptura final.  Em 1518, Lutero começou a pregação sobre justificação pela fé, somente. Em 1519, Lutero teve o debate com John Eck, sendo que este citou Tiago 2.17 para se opor à doutrina da justificação pela fé, usando o texto para defender a salvação pelas obras. Em 1521 veio o debate de Worms, em que Lutero e Roma romperam definitivamente. Foram proferidas aqui as suas famosas palavras: “Não posso nem quero me retratar porque não é seguro para um cristão ir contra a sua consciência. Se não me mostrarem pelas Escrituras que estou errado (porque não aceito a autoridade do papa nem dos concílios, pois é sabido que muitas vezes erraram e se contradisseram) não posso me retratar. Aqui fico. Que Deus me ajude”.

Em 1522, Lutero conseguiu terminar e editar a tradução de todo o Novo Testamento grego para o alemão. Foi nesta ocasião que, em nota de rodapé, chamou Tiago de “palha”. Tinha em mente o texto de 1Coríntios 3.12. Considerava Tiago inferior a Paulo. As razões para firmar esta sua posição foram três: 1a) Tiago não defende a justificação pela fé; 2a) ele não prega nem exalta  a pessoa de Jesus; 3ª) nada fala da paixão de Cristo, da ressurreição e do Espírito Santo.

Mais tarde Lutero abrandou sua posição. Tanto que, numa série de sermões em Tiago, ao falar no texto de 1.16 em diante, declarou que era “um bom ensino e admoestação”. Ele mudou sua maneira de ver a epístola. Já não tinha uma preocupação tão grande em firmar sua posição soteriológica e sua visão cristológica. Mas isso nos ensina uma lição muito grande. É problemático quando nos acercamos das Escrituras procurando apoio para nossas posições teológicas. Corremos o risco de subordinar a Palavra de Deus às nossas perspectivas.

UMA VISÃO GERAL DA CARTA DE TIAGO

A epístola, exatamente como Hebreus, é mais um sermão que uma carta, propriamente dita. Excetuando-se a saudação de 1.1 (“TIAGO, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde”), não há outro trecho que nos permita ver uma carta formal, como nos tempos antigos. É um sermão ou um ensino ou um tratado. Sobre seu estilo literário, fiquemos com uma citação de Metzger:

O tratado é epigramático em seu estilo, exortatório em seu conteúdo, havendo cerca de 60 verbos imperativos, num total de 108 versículos. O autor foi um homem prático, e seu trabalho é sobre a conduta cristã, com pouco ou nenhum ensino doutrinário. Seus parágrafos são curtos e não estão ligados por um desenvolvimento lógico de argumento, mas por “ganchos”, um recurso comum da mnemônica judaica para preservação de material, na tradição oral. [5]

A data da obra merece consideração. Segundo Baxter, “as indicações são de que foi o primeiro de todos os documentos escritos do Novo Testamento” [6]. Crabtree aceita esta idéia e faz a seguinte observação:

O tratado condena os pecados característicos dos primitivos cristãos judeus. Nos seus preceitos e ensinos é muito semelhante ao Sermão da Montanha. Não é polêmica, e sua discussão de fé e obras, no capítulo 2, mostra que o autor nada sabia dos problemas de Romanos 4 e Gálatas 3. Surgiram esses problemas depois da conferência de Jerusalém, realizada em 49. É plausível o argumento de Tiago haver escrito a sua homília aos judeus da dispersão antes de presidir a reunião de Jerusalém, quando surgiu pela primeira vez, a controvérsia sobre a doutrina da justificação pela fé. [7]

Esta data anterior de Tiago nos coloca diante do seguinte ponto: estamos diante do que pode ser a mais antiga produção literária em circulação, da primitiva igreja. Alguns problemas doutrinários que surgiram depois ainda não se faziam presentes na vida das igrejas (que ele chama de “às doze tribos que andam dispersas”, mostrando que via a igreja como herdeira e sucessora de Israel). Seu autor não é um teólogo, mas um pastor. Não faz teologia, mas apresenta ética. Vê-lo como oponente de Paulo é forçar uma situação que, provavelmente, nunca existiu. Se este Tiago é o líder de Jerusalém (e assim penso), tido como uma das colunas da igreja, lembremos que ele estendeu a mão direita, em sinal de aceitação e de comunhão, a Paulo e Barnabé, liberando Paulo para ir aos gentios, como lemos em Gálatas 2.9 (“E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão”). Ver contestação de Tiago aos escritos paulinos é um problema de datação. Se colocarmos Tiago como uma carta produzida entre 46 até 49 (data da conferência de Jerusalém), lembremos que ainda não havia escrito algum de Paulo, aceitando a datação de Stott, que coloca Gálatas como seu primeiro documento, no ano 50. Muitos dos problemas mostrados nas cartas paulinas, inclusive seu debate com os judaizantes, ainda não haviam aparecido. Não havia porquê tratar de algo que não acontecera. Assim, a afirmação de Champlin perde o sentido. Tiago não escreveu para refutar Paulo, porque escreveu antes dele. A linguagem de Tiago, por isto, é desligada deste contexto de debate sobre uma soteriologia correta.

Para esclarecer o aparente conflito entre Paulo e Tiago, lembremos da diferença de propósito dos escritores. A linguagem de um pastor, ao pregar um sermão doutrinário ao seu rebanho, é diferente da sua linguagem, ao pregar uma mensagem evangelística. A mensagem do pastor no culto de oração difere da mensagem pregada pelo mesmo pastor, no domingo à noite.

A linguagem ética do autor se evidencia pelo fato de que este é o livro do Novo Testamento com o maior índice de paralelos com o Sermão do Monte. O autor tem grande familiaridade com a literatura de sabedoria do Antigo Testamento, inclusive a apócrifa. Tiago 1.19 (“Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.”), por exemplo, é uma citação de Sirácida 5.11. A declaração de 4.14 (“Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.”) é citação do deutero-canônico Sabedoria de Salomão 2.4. Por esta razão, o livro é chamado de “Provérbios do Novo Testamento”. O estilo é o da hokhmâ (a literatura de sabedoria) do Antigo Testamento, fundamentalmente ética. Tiago é um hakhâm (um sábio) e não um teólogo.  Desta maneira, podemos compreender que procurar uma teologia da salvação em Tiago é o mesmo que procurá-la no Sermão do Monte ou em Provérbios.

UM GRÁFICO PARA AJUDAR A ENTENDER O “CONFLITO” ENTRE TIAGO E PAULO

_

fig1

A questão que intrigou Lutero e da qual tratamos no tópico anterior, pode ser bem definida nos seguintes termos: o contraste que para Lutero e ainda para alguns se torna um abismo intransponível, entre Paulo (em Romanos 4.3) e Tiago (Tg 2.21) é apenas aparente.

O contexto de Romanos e Tiago já nos ajudou. Mas resumamos para fechar a questão. Já sabemos que em Romanos temos um tratado teológico. Paulo está fazendo teologia, mostrando o que a pessoa deve fazer para ser salva. Com Tiago temos um tratado ético. Ele está tratando de conduta, mostrando o que a pessoa deve fazer após ser salva. Imaginemos Paulo como o pregador que apresenta uma mensagem evangelística, mostrando Jesus como Salvador. E imaginemos Tiago como o pregador que traz uma mensagem para os que já têm Jesus como Salvador. A linguagem será diferente, bem como toda a abordagem.  O gráfico a seguir ilustra o que quero dizer:

A linha vertical, com as letras NN, significa Novo Nascimento. Paulo está escrevendo do ponto de vista de antes do novo nascimento, ou seja, antes da conversão. Antes da conversão, as obras nada significam. Risque, pois a palavras “obras” debaixo da linha horizontal. Tiago está após o novo nascimento. O que ele está dizendo é que após a conversão, a fé sem obras nada prova. Risque a palavra “fé”  na coluna de Tiago, na linha superior. Assim podemos entender um pouco o que ambos estão dizendo.

OS GRANDES TEMAS DE TIAGO

Alisto a seguir onze dos grandes temas de Tiago, para nos permitir global do seu ensino, sem a preocupação de um esboço de argumentação linear. Aliás, seu livro é mesmo como Provérbios, salta de um assunto para outro, muitas vezes sem deixar um gancho.

O primeiro é como enfrentar provas e tentações. Está em 1.2-3 e 1.12-13. A provação deve ser encarada com alegria porque vencê-la nos leva à maturidade. Quem supera a provação é bem-aventurado. O termo grego é makarioi, que corresponde ao hebraico ashry, que traz a idéia de “estar em marcha, em progresso”. Vencer a provação é progredir. O vencedor acaba aprovado e recebe a coroa da vida (1.12, conferir com Apocalipse 2.10). O grego é stefanon (de onde vem Estefânia), que era a coroa dada ao vencedor dos jogos olímpicos. Quem vence a provação merece uma condecoração do próprio Deus.

O segundo é a necessidade de sabedoria. Os hebreus davam muito valor à sabedoria. Os pensadores hebreus diferiam dos pensadores gregos, os philosophoy, “amigos da sabedoria”. Sua busca não era especulativa, mas prática, de como viver bem, já mencionada hokhmâ. É o assunto de Provérbios e Eclesiastes. Tiago é chamado de “o Provérbios do Novo Testamento” porque trata de sabedoria para a vida aqui. Quem não a tem, deve pedir a Deus (1.5), que ele dá. Como em Provérbios, a fonte de sabedoria está em Deus. É espiritual e não cognitiva. Vem pelo aprendizado da Palavra de Deus, e não pela razão. A visão de Tiago é toda ela para a vida aqui, sem qualquer preocupação com vida futura.

O terceiro é a origem do pecado. A idéia está em 1.13-16. Não há um anjinho soprando coisas boas num ouvido e um diabinho soprando coisas ruins em outro, como nas histórias em quadrinhos.  Somos tentados por nossa “concupiscência” (desejo muito forte). Nossa natureza nos faz cair. A culpa é nossa e não do Diabo. Isto é significativo porque ele coloca o pecado dentro do homem, e não na cultura, na sociedade ou nas estruturas sociais e econômicas. Quando vemos tantos pregadores entusiasmados com Marx, é bom ver o que a Bíblia ensina. O pecado é interno e não externo ao homem.

Outro tema em Tiago, o quarto, é a relação entre ouvir e falar. Para ouvir devemos ser “prontos” (o grego é taxy, de onde nos vem “táxi”). Para falar devemos ser tardios, bem como devemos ser tardios para nos irarmos. “Tardios” é o grego bradys, que dá a idéia de “retardado”, aquele que “custa a ver a ficha cair”. Isto porque nossa ira não faz Deus agir (1.20). Quem não sabe controlar a língua, engana-se a si mesmo e tem uma religião falsa (1.26). Ele usa a palavra “religião” no sentido de relação com Deus. A relação correta ele a mostra em 1.27.

O quinto é que não basta ouvir, mas é necessário praticar, como lemos em 1.22-23. Ouvir sem praticar é como se olhar num espelho e esquecer-se de como se é. Os espelhos eram de bronze e refletiam mal a imagem da pessoa, além de serem raros. Uma pessoa pobre passava meses sem se ver ao espelho. Quem ouve e pratica será bem-aventurado, como lemos em 1.25 (ele usa o termo pela segunda vez). Ouvir e praticar é estar em marcha. Quem cumpre a Palavra de Deus está em progresso em sua vida.

O sexto tema é que não se pode fazer acepção de pessoas. É o texto longo de 2.1-9, que devemos ler. O valor das pessoas não está nos seus bens nem na sua posição social, mas é intrínseco. Cada um de nós é, de per si, imagem e semelhança de Deus. Na igreja não existe o “irmão Dr. Fulano” e o “Zé Pereba”. Muitas vezes ouvimos em cultos: “Está conosco o Prefeito da cidade, o que para nós é uma honra” ou “Temos entre nós o Dr. Beltrano, que nos honra com sua visita”. Todas as visitas nos são honrosas porque mostram que as pessoas aceitam nosso convite. Mas ninguém honra um culto com sua presença nem honra o culto porque tem um título ou formação superior. A honra do culto é a presença de Deus. E ninguém torna nossa reunião mais brilhante que outra pessoa. Pobres e ricos são criaturas de Deus (Pv 22.2). Ninguém deve ser honrado e ninguém ser desprezado. Há, também, sistemas religiosos que agridem as pessoas de posses, como se estas fossem criminosas. A teologia da prosperidade fez da posse de bens o seu carro chefe. A teologia da libertação demonizou as riquezas e satanizou seus possuidores. O valor das pessoas está no seu caráter (Pv 22.1). E isto não depende de bens nem de sua ausência. A questão é ser e não ter. Isto Tiago deixa claro em sua epístola, que já sabemos que não é de palha.

O sétimo tema é a questão polêmica da carta. Está em 2.14-26. Já tratamos disto em momentos anteriores e podemos deixar de emitir mais considerações. Vamos apenas acrescentar isto: fé e obras são os dois remos de um barco. As obras não salvam, mas mostram a fé que salvou a pessoa. Cabem aqui as palavras de Jesus em Mateus 7.16-18. Uma pessoa arrependida mostra isto nas suas obras, como disse João Batista em Lucas 3.8.

Outro tema muito forte em Tiago é o oitavo: a guarda da língua.  É o texto de 3.1-12. O homem pode domar todos os animais, menos a sua língua (3.7-8). O forte cavalo é dominado pelo pequeno freio e o grande navio, pelo pequeno leme (3.3-4). Da mesma maneira é a pequena língua que domina o homem, e ela é um fogo incontrolável que é alimentado exatamente pelo combustível do inferno (3.5-6).

O nono tema é o domínio sobre os instintos, que ele apresenta em 4.1-5. Deus é ciumento, ou seja, deseja exclusividade em nossa vida. Não deseja que amemos o mundo (4.4), que aqui é “um sistema de valores organizado e direcionado contra Deus”. Para dominar os instintos, devemos sujeitar-nos a Deus e resistir ao Diabo (4.7).

O décimo tema é a falibilidade dos nossos projetos. Deus nunca deveria ser excluído deles nem eles, os projetos, serem elaborados sem ele (3.13-15). Nossa vida é como um vapor. A duração de nossa vida é dada como sendo de 70 anos (Sl 90.10). Que é isto diante da eternidade? Você sabe alguma coisa do seu tataravô? Seu tataraneto saberá alguma coisa de você? Não somos tão grandes nem tão poderosos assim. Depender da vontade de Deus é muito bom.

Há outros temas mais, mas ressaltaria apenas mais um, o undécimo, que é a mutualidade (5.13-16). Devemos ter interesse uns pelos outros, orar uns pelos outros, confiar uns nos outros. E, quando algum de nós estiver errado, em vez de apedrejá-lo, ajudá-lo, como lemos em 5.19-20. Esta mutualidade é extremamente necessária para a igreja, numa época de pósmodernidade, em que cada um cuida de si. E também é necessária para nossa vida denominacional, porque os batistas, ao lado da forte ênfase na autonomia da igreja local, sempre sublinharam a cooperação. Há muito pastor com vôo solo, com carreira individual, abstraído do grupo, mais preocupado em construir sua carreira que construir uma denominação. Mutualidade, eis um princípio a ser enfatizado nas igrejas e nas assembléias convencionais.

A RELAÇÃO ENTRE TIAGO E JESUS

Stott relaciona, em um de seus livros, vinte pontos de coincidência que mostram o ensino de Tiago refletindo o pensamento de Jesus. É interessante verificar estes pontos porque estas coincidências devem afastar, de vez, a idéia de que a epístola que ora estudamos é inferior aos escritos paulinos. O autor pode não ter o brilho intelectual de Paulo, mas seu conteúdo em nada difere do que o Salvador ensinou. E, dos apóstolos, ele foi o que mais tempo viveu com Jesus. Pelo menos a infância e adolescência dos dois foram juntas.

  1. O cristão que sofre provações é abençoado: Tiago 1.2 e Mateus 5.10-12.
  2. Deus deseja que sejamos perfeitos: Tiago 1.4 e Mateus 5.48
  3. Ele dá generosamente aos que lhe pedem: Tiago 1.5 e 42, Mateus 7.7-8
  4. Mas somente o Pai tem poder para dar boas dádivas: Tiago 1.17, Mateus 7.9-11
  5. E, neste caso, ele dá somente aos que têm fé: Tiago 1.6, Marcos 11.22-24
  6. Devemos não apenas ouvir a palavra, mas praticá-la: Tiago 1.22-25; Mateus 7.21-27
  7. Devemos tomar cuidado com as riquezas, porque os pobres é que herdam o reino de Deus: Tiago 2.5, Mateus 5.3 e Lucas 6.20.
  8. Devemos amar o próximo como a nós mesmos: Tiago 2.8 e Marcos 12.31
  9. Devemos guardar os mandamentos: Tiago 2.10 e Mateus 5.19

10.  Devemos mostrar misericórdia, para recebermos misericórdia: Tiago 2.13, Mateus 5.7 e 18.33-35.

11.  É a árvore que determina o fruto: Tiago 3.12, Mateus 7.15-20.

12.  Os pacificadores serão abençoados: Tiago 3.18 e Mateus 5.9

13.  Não é possível servir a dois senhores. Cada um deve escolher entre Deus e o dinheiro: Tiago 4.4 e 4.13-15, Mateus 6.24

14.  Quem se humilha será exaltado: Tiago 4.6 e 10, Lucas 18.14. Compare isto com Tiago 1.9-10 e Lucas 1.52.

15.  Não devemos falar mal uns dos outros ou julgar uns aos outros: Tiago 4.12 e Mateus 7.1. Êpa, aqui ele cortou o esporte predileto de muito crente!

16.  Não devemos elaborar planos gananciosos e mundanos para obtermos ganhos, esquecendo-nos de Deus ou do próximo: Tiago 4.13-17, Lucas 12.16-21

17.  As riquezas não duram. Elas se corroem, as roupas são consumidas pelas traças, e o ouro fica embaçado com a ferrugem: Tiago 5.1-3 e Mateus 6.19-21

18.  Por isso, ai dos ricos: Tiago 5.1, Lucas 6.24 e 16.19-31. Eles colocam, como neste último texto, a sua confiança em bases incertas.

19.  Quem crê, que espere pacientemente e esteja pronto para a vinda do Senhor, pois ele está perto, às portas: Tiago 5.7-9, Lucas 12.35-40 e Marcos 13.29.

20.  Os cristãos não devem jurar, nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro meio de juramento. Sua palavra deve ser confiável. Seu sim deve ser sim, e seu não deve ser não. Suas palavras não podem ter duplo sentido: Tiago 5.12 e Mateus 5.33-37. Para ele, o caráter de uma pessoa está nas suas palavras. É o conceito oriental de que as palavras são uma continuação da pessoa.

O VALOR DE TIAGO COMO FONTE DE PREGAÇÃO EM NOSSO TEMPO

Creio que o maior problema da igreja em nosso tempo é de ordem cristológica. Temos uma questão curiosa: um Cristo fraco e demônios fortes. A pessoa é de Cristo, mas fica endemoninhada. É de Cristo, tem o Espírito Santo, mas está cheia de maldições: do nome, das palavras proferidas por outros, etc. O evangelho é mostrado como insuficiente e o poder de Cristo parece ser incapaz de encher a vida da pessoa. Ela precisa de gurus para quebrar suas maldições, como na Igreja Católica se necessita de um sacerdote. Na realidade, é a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos, que está sendo negada. O sacerdotalismo católico-medieval está ressuscitando no baixo-carismatismo (alguns sociólogos de religião têm usado este termo para designar igrejas no estrato mais baixo do neopentecostalismo). Tudo isto deriva de uma visão incompleta da obra de Cristo.

Cristo está perdendo o impacto sobre a igreja, que está mais fascinada por demônios que por ele.  Não exagero. Quantos sermões vocês ouvem na televisão sobre a pessoa de Jesus, e quantos sobre a obra de demônios? Numa livraria evangélica, certa vez, procurei um livro sobre Cristologia e não achei um sequer. Mas contei 42 sobre demônios, guerra espiritual, maldições, etc.

Parte disto é obra do misticismo contemporâneo. Só que o misticismo está centrado em demônios porque estão dão mais ibope do que Cristo. Como efeito secundário do movimento nova era, estamos vendo entidades espirituais em tudo. Uma jovem me perguntou se podia comer acarajé, na Bahia. Perguntei-lhe qual era a questão. Ela ouvira dizer que as mães de santos colocam um demônio em cada acarajé.  Outra me indagou sobre a homeopatia porque soubera que na manipulação nas farmácias se colocam demônios nos remédios. Este misticismo exacerbado se aliou com o estrelato do demônio que começou com filme O exorcista e pegou uma igreja sem doutrina, sem fundamentos bíblicos, mais preocupada com sentimentos e sensações do que com conteúdo. Uma igreja que se vale mais do marketing do que da teologia. E isto faz um estrago terrível na vida evangélica. Temos muita espiritualidade e pouca ética. Como pode ser isto?

Tiago nos ajuda a por os pés no chão. Nós vivemos neste mundo. Somos a Igreja Militante, apesar do triunfalismo que mostra a Igreja Triunfante já aqui na terra. Se a Igreja Militante quiser ser Triunfante, aqui na terra, corre o risco de desaparecer.  Ouçamos Kierkegaard:

Aqui no mundo não é o lugar da tua Igreja triunfante, mas somente da Igreja militante. Mas, se esta combater, ninguém a poderá jamais expulsar do mundo, porque tu te fazes dela fiador. Se, ao contrário, ela cisma dever triunfar neste mundo: ai de mim, ela então é culpada se lhe subtrais a tua assistência, se ela desaparece, pois que se confundiu com o mundo. Estejas tu com tua Igreja militante, de modo que jamais acontecer (e esta é a única maneira possível) que ela seja cancelada da face da terra por ter-se tornado Igreja triunfante [8].

A igreja corre risco. Quer deixar de ser Militante para ser Triunfante. Está trocando o testemunho pelas finanças, pelo poder material. Está mais focada na matéria e na grandeza aos olhos humanos do que na vida autêntica, não artificial. Prevalece hoje a mega-igreja e não a comunhão dos santos em busca da Canaã celestial. Tiago precisa ser redescoberto como material de pregação às igrejas. É esta a proposta desta palestra. Mostrar que Tiago está sendo esquecido injustamente e deve ser redescoberto como possuidor de conceitos necessários para a igreja.

Ele não desenvolve uma cristologia, mas os pontos de contato entre ele e Jesus são úteis porque mostram a praticidade e praticabilidade dos ensinos de Jesus. Tiago reafirma Jesus como um homem com um ensino prático e praticável. O cristianismo é vida e não sensações. Vida correta com Deus que se evidencia em vida correta com os homens.

Tempos atrás escrevi um trimestre de lições de EBD para a Convenção Batista Fluminense sobre o sermão do monte. Tive que ler muito sobre o assunto. Escandalizei-me em ver como tantos pensadores evangélicos negam a autenticidade do sermão do monte e até mesmo sua aplicabilidade, dizendo que ele foi uma construção da igreja primitiva para criar uma ética de emergência para os tempos em que ela vivia, que eram iminentes à vinda imediata de Jesus. Tiago assume o sermão do monte, e em seu arrazoado apresenta muitos dos seus conceitos, e deixa claro que era uma ética permanente e não emergencial. Seu teor mostra que as idéias do sermão do monte foram assimiladas pela igreja. E ele escreve antes de Mateus. Se Mateus quis mostrar uma ética restrita a um tempo, tal idéia não aparece no livro de Tiago, anterior a ele.

SE TIAGO OCUPASSE O PÚLPITO CONTEMPORÂNEO

Se ocupasse nossos púlpitos, que diria Tiago aos membros de nossas igrejas? Fosse falar num encontro de pastores, que diria ele? Em nossos púlpitos, que nos diria ele?

Pregaria contra a espiritualidade descarnada, enfatizando a necessidade de fé mostrada por obras (2.14-26).  Este é um dos males da igreja contemporânea. Vida cristã passou a ser algo que acontece num determinado dia, num determinado lugar, sob o comando de determinadas pessoas. Vida cristã é o que fazemos num momento chamado de “culto”.  Achamos que participar de um culto e cantar corinhos ingênuos, com um ar beatífico é o maior sinal de sermos cristãos.  A fé se mostra nas obras. “Pelos frutos os conhecereis”, disse Jesus (Mt 7.20). Não foi “pelo seu louvor os conhecereis”, mas “pelos seus frutos”. Uma igreja sem obras, com uma fé intimizada, sem objetividade no mundo, é uma incoerência. Igreja não é gueto, é agência de transformação. Precisamos tirar a vida cristã de dentro dos templos e coloca-la funcionando nas ruas.

Diria também que não podemos fazer acepção de pessoas, como disse em 2.1-9. Há comunidades cristãs que fazem claramente distinção social. Algumas igrejas são guetos de uma classe média que se julga importante e que amoldou o evangelho às suas expectativas sociais. Um dos nossos grandes problemas hoje é “diferencialidade”. Como apregoamos nossa diferença! Há igrejas que, mesmo recebendo uma pessoa de outra igreja da mesma fé e ordem, exigem que ela vá para uma classe especial, uma classe de reeducação, porque aquela igreja é diferente. Em outras palavras: “Somos melhores que sua igreja e você precisa aprender nossa cultura particular”. Não sou uma toupeira teológica, mas há igrejas em que seu eu quisesse me ligar a elas, teria que passar por uma classe especial de adaptação. Vaidade, orgulho, mundanismo. Igrejas e denominações que se julgam acionistas majoritárias do céu e das promessas de Deus.

Tiago falaria da “língua solta”, doença comum em nosso meio (tanto nas igrejas como, infelizmente, em algumas vezes no ministério pastoral) e que ele mencionou em 3.1-12 e 4.11. Como se fala mal da vida alheia nas comunidades cristãs! Como se ataca a reputação dos outros! Muito dos bastidores eclesiásticos e denominacionais em nada difere dos bastidores do mundo. Em 37 anos de ministério, sofri mais com a língua dos irmãos e dos “colegas” do com a dos incrédulos. Estes sempre me respeitaram. Os crentes e colegas… Bem, isto é outra coisa.

Falaria da avareza social de muitas igrejas, como fez em 5.1-6. Há igrejas buscando riquezas e fugindo do sofrimento. Querem o trono sem a cruz. É novamente a questão de Militante e não Triunfante. Mas falo, agora, da vista grossa à bandalheira social deste país. Da orgia com verbas públicas usadas para projetos fantasmas, ranários fantasmas, fazendas fantasmas, mensalão, dólar em cueca, etc. O pobre depende de hospitais de baixa qualidade para se tratar. Acho estranho que governantes de outros estados, quando têm problemas graves de saúde, irem a S. Paulo para se tratarem. Por que não se tratam nos hospitais que dão para seu povo? Uma classe política que vive nababescamente, votando salários miseráveis para o povo é, muitas vezes, adulada por igrejas que cortejam o poder público. Votos são trocados por tijolos ou concessões outras. Tiago lembraria uma frase em Amós 6.6: “Não vos afligi com a ruína de José”. Os zés da vida não são considerados. Tiago falaria contra a opressão aos zés. Alguém disse que “A igreja não está no mundo para fazer relações públicas, mas para entregar um ultimato”. A carta de Tiago é um ultimato.

Esta avareza social seria mostrada em salários miseráveis pagos a zeladores e funcionários de igrejas. E também em salários pagos a alguns pastores e missionários.  Em direitos trabalhistas que igrejas e instituições evangélicas negam aos seus funcionários. No esforço que se faz para se driblar leis que trazem benefícios. Tiago falaria do perigo das riquezas. A igreja de Laodicéia era rica, mas aos olhos de Jesus era mendiga (é este o sentido do termo grego empregado). Há comunidades que amam o poder econômico.  Até mesmo nossos critérios para avaliar uma igreja são quantitativos e empresariais: quantos membros têm e qual a sua receita, não qual o seu impacto na sociedade. Isto evidencia um cristianismo mundanizado, que se choca com o espírito de sua epístola.

CONCLUSÃO

Tiago não é palha. Tem conteúdo e bastante. É uma epístola aparentemente “sem sal”, como disse alguém, porque muitos querem coisas espetaculosas ou lucubrações teológicas, mas nem sempre querem uma vida coerente com o caráter cristão.

Lembremos que ele era irmão de Jesus, talvez o mais velho depois dele. Deve ter ouvido o irmão muitas vezes, estranhado seu jeito de ser, e se indagado a si mesmo porque ele era assim. A descoberta de quem seu irmão era deve ter sido um impacto profundo em sua vida. Ele sabia o que estava dizendo.

Lembremos também que ele não helenizou o irmão nem a mensagem dele, mas expressou-a dentro da sua cultura e da cultura de seu irmão. Por isso é uma epístola que merece ser pensada.

Tiago tem grande validade para nosso tempo. Nós nos preocupamos muito com microética, questões de varejo na área da conduta. Deixamos de abordar questões maiores, não de costumes, mas de caráter. Ela cuida do macro e outras coisas. Tiago talvez fosse incômodo. Nos o ouviríamos ou faríamos como Ananias, o sumo sacerdote em Jerusalém, que segundo Flávio Josefo, mandou apedrejá-lo[9]?  Ouviríamos Tiago ou nos descartaríamos dele?


[1] STOTT, John. Homens Com Uma Mensagem. Campinas: Editora Cristã Unida, 1996, p. 18

[2] LUTERO, Martinho. Da Liberdade do Cristão – Prefácio à Bíblia (Edição Bilíngüe). S. Paulo: Fundação da Editora Unesp, 1997, p. 81.

[3] GEORGE, Timothy, in “A Right Strawy Epistle: Reformation Perspective on James”. Louisville: Review and Expositor – A Baptist Theological Journal, vol. LXXXIII, no. 3, 1986, p. 371

[4] CHAMPLIN, R. N. . Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. S. Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1991, vol.  6. P. 536.

[5] METZGER, Bruce. The New Testament, Its Background, Growth, and Content. Nashville: Abingdon Press,  1965, p.  252.

[6] BAXTER, Sidlow J. Examinai as Escrituras – Atos a Apocalipse.  S. Paulo: Edições Vida Nova, 1989, p. 309. O itálico é de Baxter.

[7] CRABTREE, A . R. Introdução ao Novo Testamento. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 4ª ed., 1963, p. 316.

[8] KIERKEGAARD, Sören. Das Profundezas – Preces. S. Paulo: Paulinas, 1990, p. 83

[9] BAXTER, op. cit., p. 307.