Cada um é livre para fazer o que quer

Há pouco tempo atrás, em um programa de televisão que recebe a opinião dos ouvintes para decidir o seu final, uma pessoa disse o seguinte: “Cada um é livre para fazer o que quer”.

A frase encerra uma declaração que deve ser analisada. Realmente, cada pessoa é livre para fazer o que deseja. O ser humano é dotado de capacidade de pensar e tomar decisões. É responsável pelos seus atos. Não se pode impor a alguém uma religião ou uma ideologia, por exemplo. Pais escrupulosos nunca imporão a seus filhos uma profissão, também. A vocação e as habilidades das pessoas devem ser respeitadas. Neste sentido, a frase tem muita razão. Cada um faz o que quer de sua vida, sendo por isso responsável. Assim, neste sentido, a liberdade é plena.

Mas nem sempre somos livres para fazermos o que queremos. Gostaria de passar minhas férias em Paris, mas não posso. Gostaria de ter uma Mercedes 09, mas não posso.  Neste sentido, não somos livres para fazer o que queremos. Querer não é poder. Podemos querer coisas que não podemos ter.

Há coisas que não apenas não podemos fazer, mas nem mesmo devemos fazer. Um homem pode desejar ter todas as mulheres do mundo, mas ficará apenas no sonho. Alguém comentou que Deus é muito mal humorado porque boa parte dos dez mandamentos começa com um não. São proibições de coisas boas que gostaríamos de fazer. Por isso diz uma música popular que “tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda”.  As coisas boas são proibidas. Deveríamos poder fazer e ter todas as coisas que gostaríamos. Abaixo as leis, abaixo os conceitos moralistas, abaixo as religiões com suas regrinhas, abaixo o moralismo de fachada. Viva a anarquia, vivam os desejos, vamos fazer o que queremos fazer e chega de conversa.

Mas isso funciona? Foi por querer a mulher de Urias que o rei Davi planejou a sua morte. Fez o que quis: adulterou e idealizou um assassinato. Mas pagou um preço muito alto pelo que fez.  Pode-se fazer o que se quer ou é necessário ter regras? Liberdade é o direito de fazer o que se quer? O que uma pessoa quer e pensa ser seu direito pode ser a transgressão do direito de outra.

Quando Deus colocou tantos nãos nos dez mandamentos não foi por ser mal-humorado, mas por saber que somos maus e que somos pecadores. Estamos tão acostumados com o conceito humanista de que o homem é bom, que não nos damos conta da incoerência desta declaração. Se o homem é bom, por que a maldade e tantas desgraças? Dizer que ele é bom e que a sociedade o corrompe é uma falácia. A sociedade não é pau ou pedra. É gente. Se ela é má é porque as pessoas são más.  Foi isso que Davi tinha em mente, quando, arrependido do que fez com Urias, escreveu no Salmo 51: “Eu nasci em iniqüidade”. Com isso ele estava falando do que os teólogos chamam de “depravação, a capacidade inata no ser humano de buscar o mal”.  O homem não é bom. É pecador. Como bem disse Billy Graham: “O homem é exatamente aquilo que a Bíblia diz que ele é”.

Por ser pecador, o homem não pode fazer o que deseja, pensando que assim é livre. Disse o apóstolo Paulo: “O bem que quero, esse não faço; o mal que não quero, esse eu faço”.  Quando queremos fazer o que desejamos, seguindo nossos instintos e paixões, não nos elevamos, mas nos rebaixamos. Deixamos o nível da racionalidade, da capacidade de fazer leis e princípios que orientam nossa vida, e nos tornamos como os irracionais, que não têm capacidade mental e seguem o instinto. E nos damos mal.

Fazer o que se quer não é ser livre. É ser escravo. Dos instintos. De uma natureza corrompida. Por isso Jesus disse que “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”.  Não somos livres quando fazemos o que queremos e tampouco regras e princípios são um par de algemas. Imaginemos um trem que quisesse trafegar fora dos trilhos para poder ser livre. Saísse dos trilhos e entrasse pelo gramado, cheio de flores, de sombra, alegre e festivo. Ele afundaria, com seu peso. Há um lugar para ele transitar e fora deste lugar ele se imobiliza.

A verdadeira liberdade não é o direito de se fazer o que se quer. O pensador cristão Elton Trueblood disse, em um de seus livros, A Vida Que Prezamos, que “liberdade não é liberdade para, mas liberdade de”. Ou seja, somos livres não para fazermos o que queremos, mas somos livres de alguma coisa.

Jesus também ilustrou isto muito bem em outra palavra sua: “Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”. Liberdade é a capacidade de poder gerir a sua vida. É a capacidade de viver sem ser escravo de vícios, de paixões vis, de drogas, da ansiedade, do medo do futuro. Desde quando uma pessoa escrava de um pedaço de papel com mato dentro, um cigarro, é livre? Desde quando alguém que não consegue livrar-se de uma garrafa é livre?  Livre é a pessoa que pode dizer: “Isto me faz bem e eu aceito. Tenho forças para fazê-lo, mesmo não gostando”. É assim que tomamos injeção. Livre é a pessoa que pode dizer: “Isto é agradável, mas me trará más conseqüências. É agradável, mas tenho a capacidade de rejeitar”. Liberdade é o direito de saber usar bem a vida, de saber discernir entre o que se deve e o que não se deve.

Voltemos à palavra de Jesus: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. Ele dá discernimento espiritual e moral para sabermos o que buscar e o que evitar. Ele dá poder para vencer o que é agradável mas daninho. Ele torna a pessoa livre. Muita gente censura os evangélicos dizendo que são escravos, que não podem fazer uma porção de coisas. Não é que não podemos. É que não as queremos. Não significam nada para nós. Volto à questão do cigarro: que coisa ridícula um adulto chupando sofregamente um mal cheiroso invólucro de papel com mato dentro, sem poder parar de fazê-lo, embora muitas vezes tenha planejado e desejado fazê-lo. Coisa triste um bêbedo, caído pela sarjeta, escravo do álcool. Coisa deprimente e triste, um casal se separando, com os filhos prejudicados, por causa da infidelidade conjugal de uma das partes.

Não somos escravos nem vivemos debaixo de regrinhas. Vivemos na liberdade que Cristo nos deu. Ele abriu nossos olhos e capacitou nossa vida para lutarmos contra o mal que desgraça e pelo bem que exalta.

Convidamos você a ser livre. Você pode ser livre. Pode deixar de fazer o que está lhe prejudicando e passar a fazer o bem que sabe que deve fazer.   De verdade. Basta confiar em Cristo, fazendo dele seu Senhor, cedendo-lhe sua vida, confiando-lhe a direção do seu viver. Fazendo assim você descobrirá o que Jesus quis dizer com “e conhecereis a verdade e verdade vos libertará”. Jesus é a verdade que liberta. O resto é mentira. Seja livre. Assuma um compromisso com Cristo.