Apresentação do livro O Fruto do Espírito

Pastor Renato Cordeiro de Souza

Fui criado no subúrbio carioca, numa igreja de gente simples. Na minha tenra infância, a minha primeira professora da Escola Dominical contou a história bíblica mais gostosa que já ouvi. Ela nos ensinou sobre o menino que trouxe cinco pães e dois peixinhos para Jesus, e como o Mestre multiplicou aquele sanduíche para uma multidão faminta. No final, cada criança recebeu um pedaço de pão com sardinha. Simplesmente inesquecível. Mas inesquecível mesmo era, já crescido, conversar com ela. Como uma senhora tão simples conseguia ser tão agradável e passar tanto conhecimento e sabedoria cristã? Uma vez, já com a vista bastante prejudicada, por causa da diabete, ela foi levada a uma consulta com um oftalmologista. Ao examiná-la, em tom amistoso, o médico lhe perguntou: “Como foi que a senhora perdeu esta vista?” Ela respondeu: “Ah, doutor, eu não a perdi. Gastei-a muito bem gasta”. Já tive o privilégio de participar de inúmeras semanas teológicas, e ouvir iminentes mestres, teólogos e pastores, mas, se fosse possível optar, preferiria conversar uma hora com ela, a ouvir o mais competente erudito falar uma semana sobre a fé cristã.

Comecei meu ministério pastoral no Rio Grande do Sul. Lembro-me ainda muito bem da primeira reunião da Ordem dos Pastores local de que participei. Estavam na pauta assuntos controversos. Aquele grupo de 20 pastores discutia, e não parecia chegar a um consenso. Lógico que eu era muito inexperiente para emitir qualquer opinião. Mas, junto comigo, também se apresentava à Ordem um calejado pastor, que devia já ter completado mais de 30 anos de ministério pastoral. No calor do debate, nossos colegas enxergaram, finalmente, o experiente colega, o tempo todo calado. O presidente até se desculpou: “Como ainda não havíamos consultado alguém com tanta tarimba pastoral?” Mas o velho pastor declinou sua participação. Ele estava ali só para aprender. Percebi claramente que estava diante de alguém especial. Então, me aproximei dele e pedi se poderia me mentorear, pois era muito novo e precisava de um conselheiro por perto, para me ajudar. Nos meus quatro anos de pastorado ali, ele foi meu pai espiritual. Fiquei enriquecido e vi bem de perto as muitas marcas do Cristo vivo na sua vida.

Anos depois, pastoreava a Igreja Evangélica Baptista de Graça, em Lisboa, Portugal, como missionário dos batistas brasileiros, quando lá chegou uma família oriunda do Brasil. Marido, mulher e seus três filhos. Após algum tempo empregado, aquele crente foi despedido. Por força disso, a família começou a passar por muitas necessidades. Também a prestação do aluguel ficou atrasada. Saía à procura de emprego, mas não o encontrava. Apesar disso, no seu rosto sempre havia uma expressão alegre e uma palavra de fé. Um dia, a família só tinha três maçãs para o café da manhã, uma para cada filho. Antes daquele desjejum, foram fazer o culto doméstico. Ele disse aos filhos que deveriam agradecer a Deus porque o Senhor era muito bom. O filho mais velho, perto dos 10 anos, disse: “Pai, nós não temos o que comer, o que vamos agradecer a Deus?” “Vamos louvá-lo e agradecer-lhe porque ele cuida de nós”, respondeu. As crianças saíram pra escola, e dentro em pouco chegou à sua casa um grupo da igreja com bolsas de compras, suprimento suficiente para manter a família amparada por um bom tempo. Ele nem conseguia falar. Só lágrimas e sorriso saíam da sua face. Pouco tempo depois, o dono do imóvel o chamou, dizendo: “O senhor não conhece alguém como o senhor para alugar outro imóvel que tenho num bairro aqui próximo?” Sem entender, ele respondeu: “Eu estou lhe devendo seis meses de aluguel e o senhor quer alguém como eu?” O senhorio lhe disse: “O senhor é um homem honrado. Só está me devendo porque ficou desempregado.” Mas, tão logo conseguiu emprego, despachou a família para o Brasil, e só saiu de Portugal após pagar todas as suas dívidas. Saiu deixando muitas histórias bonitas, e quando já não devia nada a mais ninguém.

Você pode perguntar: o que estas histórias têm em comum, e qual a relação delas com este livro? Todas falam de crentes que exibem forte caráter cristão. Eles simbolizam aquilo que há de mais bonito na vida de um cristão: o parecer com Cristo e apresentar no seu viver as nove virtudes do fruto do Espírito. São crentes que pregam o evangelho com suas vidas.

Em 1989, tive o privilégio de participar de uma semana de conferências teológicas com John Stott, em Portugal. Fiquei profundamente impressionado com o conteúdo das palestras, mas, sobretudo, fascinado com a sua simplicidade e caráter cristão. Numa de suas exposições, um amigo lhe fez uma pergunta, e ele, com bastante brandura, lhe disse: “Responder a esta pergunta vai me exigir muito tempo. Eu escrevi um livro sobre esse assunto. Se o irmão não se importar, deixe-me seu endereço que, chegando a Londres, eu lhe envio esse meu livro”. Achamos que ele se esqueceria daquilo. Duas semanas depois, lá estava o livro nas mãos do amigo, com a dedicatória do Dr. Stott. Anos depois, lendo seu livro “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”1, li que, nas suas devoções matinais diárias, há dezenas de anos ele tem por hábito citar para ele mesmo Gálatas 5.22,23 e orar para que o fruto se cumpra em sua vida.

No universo evangélico de hoje temos excelentes oradores que levam suas congregações ao êxtase e ao arrepio. A presença deles em qualquer congresso é sinônimo de casa cheia. Temos pastores dinâmicos, cujos modelos de administração e de estratégia eclesiástica são imitados por aí afora. Temos também doutores que, com pesquisas acadêmicas e análises criteriosas, nos apontam como nossas igrejas podem crescer e florescer no mundo. Temos cantores evangélicos que já atingiram popularidade igual ou maior do que a dos superastros da MPB. Temos pregadores e evangelistas que já conquistaram as principais emissoras de rádio e TV deste país. Temos crentes que não se cansam de exibir seus maravilhosos dons espirituais. Temos milagreiros que, com suas preces poderosas, oferecem, diariamente, aos mais combalidos enfermos, uma usina de saúde. Temos homens dotados de tamanho poder que prometem fazer do mais degradado esfarrapado a pessoa mais rica deste país. Mas, apesar de tudo isso, faltam-nos homens e mulheres de Deus que vivam uma vida cheia do fruto do Espírito. Escasseia-nos a presença de homens e mulheres de Deus com vidas santas. Infelizmente, falta-nos gente que ande tão perto de Deus e cujas vidas causem impacto à sua volta. Falta-nos o fruto do Espírito.

Com certeza nossas igrejas ficam eufóricas pelo seu crescimento numérico, mas isso não tem feito qualquer diferença na nossa sociedade. Alguém disse que nossas igrejas, no Brasil, têm oito milhões de quilômetros de extensão e um centímetro de profundidade. Se o mundo à nossa volta está desabando moralmente, a pergunta é: O que está acontecendo à igreja, que não detêm esse processo de apodrecimento da nossa sociedade? O sal não está salgando. Crentes de palavra, e da Palavra, que exibam frutos morais e espirituais, lamentavelmente são uma espécie em extinção. E porque não temos crentes com vidas santas, a nossa sociedade nem liga para o evangelho que pregamos. Você compreende, agora, a importância do livro que tem nas mãos?

Conheci o Pastor Isaltino Gomes Coelho Filho na minha pré-adolescência, no subúrbio do Rio, quando ele ainda era seminarista. Anos mais tarde, marcou-me muito o privilégio que tive de, como seminarista, ser convidado por ele para passar um mês em sua casa, em trabalho de férias com a igreja que pastoreava, na capital paulista. Acompanhá-lo nas suas lides pastorais diárias, e vê-lo no trato piedoso e alegre junto à sua querida família e igreja, foi um curso paralelo ao Seminário. Também nunca me esqueço que ele saiu de São Paulo para vir ao meu concílio de ordenação ao ministério pastoral, no Rio, onde foi o meu examinador. Daí nasceu uma amizade sólida, claro, muito mais proveitosa para mim. Anos depois, já trabalhando no Seminário Teológico Baptista de Queluz, em Portugal, tive oportunidade de convidá-lo para ir a Lisboa e ser o preletor de uma semana teológica de atualização de pastores. Por conta da sua competência, vida cristã, e da seriedade no trato com a Palavra de Deus, foi convidado para lá voltar outras vezes.

Este livro é simples e desafiador. O Espírito Santo não lhe será apresentado como um fio desencapado, pronto a dar choque espiritual na sua vida. Mas sim o Deus condutor de um relacionamento piedoso e amadurecedor com Cristo, a fim de que todos vejam as marcas da presença de Jesus em você. Após sua leitura, o seu maior anelo será deixar o Espírito Santo equipar sua vida com amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Então, que seja assim.

Pastor Renato Cordeiro de Souza

1 STOTT, John – Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, (ABU Editora, 1997), 1ª Ed, p. 163.