EM DEFESA DO LIVRO E DE QUEM LÊ

Isaltino Gomes Coelho Filho

Pedi à boa amiga Westh Ney que fizesse a apresentação do meu livro “O Pai Nosso: a oração que Jesus ensinou”. Competente e mais bondosa ainda (seu esposo, o amigo Marcelo, sabe bem disso), Westh caprichou e saíram elogios além da conta. Uma das coisas que ela disse foi sobre o número de livros que eu leio por ano.

Barbaridade, como isso rendeu zombarias! Foi aí que descobri que meu país e meu povo, o povo batista, são mais curiosos do que eu imaginava. Fui ironizado por ler e estudar, que é o que se espera de quem ensina! Bem, isto não é estranho num país onde o supremo mandatário, que deveria dar o exemplo aos estudantes, diz que livro é como aparelho de ginástica, a gente olha e foge. Se ele não disse exatamente isso foi algo parecido, porque são tantas parvoíces que a gente se perde. E o povo batista é curioso. Reclama de suas deficiências e investe para aumentá-las.

Não estou preocupado em me defender. Minha postura com críticas destrutivas é esta: “Pegue a senha e vá para o fim da fila. Seu número é 2819. Um dia lhe atendo. Tem muita gente na frente.”. O que me motivou foi hospedar em casa um pastor do Piauí e este dizer que um colega de sua terra disse: “Olha, Fulano, o Isaltino lê tantos livros por ano. Não faz nada na vida!”. Lembrei-me de um professor de Homilética, que disse ter certeza que os detratores da pregação são exatamente os que não sabem pregar ou pregam mal. Mutatis mutandis, os críticos de quem lê e da leitura são os preguiçosos e o que não gostam de ler nem têm vontade de aprender.

Não tenho vergonha de ler. Teria vergonha de ir para o púlpito e dizer “Vamos ficarmos de pés” ou “Vamos lermos a Palavra de Deus”. Teria vergonha de ficar “gerundiando”: “Vamos estar cantando”, “Vamos estar lendo”, e etc. O idioma é a ferramenta de comunicação de um pregador. É um absurdo que ele não saiba as mínimas regras de seu uso, e espanque a “última flor do Lácio inculta e bela”. E mais absurdo ainda é que diga que quem respeita o idioma é “metido”.

Será que um pastor que lê é mesmo ocioso? Nunca negligenciei minhas tarefas pastorais. Nunca comi o pão da preguiça. Jamais deixei de visitar doentes, gente com problemas, de atender em gabinete, de ir a congregações e pontos de pregação. Porque sempre vendi a alma para o ministério. Nunca fui burocrata, com hora e dia de trabalho marcados. Sempre trabalhei sete dias por semana, e sempre fiquei antenado o dia todo, com a igreja. Sempre cheguei cedo ao gabinete pastoral. Minha esposa lecionava, eu a deixava no colégio antes das 7 da manhã e ia para a igreja. Voltava à tarde. À noite estava em visitas ou em cultos. Trabalhei sempre três expedientes por dia. E sempre tive tempo para ler.

Dia de quarenta horas? Não, televisão desligada. Internet só para o necessário, sem horas de navegação a esmo. Já houve tempo em que a televisão ficou desligada por seis meses, em nossa casa. Há gente que não tem tempo para ler, mas conhece os enredos de todas as novelas e sabe as escalações de todos os times de futebol e assiste a todos os jogos pela tevê. Não acompanho nem os da seleção brasileira. Já vi gente que levou televisão portátil para o gabinete pastoral para acompanhar o jogo até antes de começar o culto. E que disse, com orgulho, que ia para o púlpito com a camisa de seu time de futebol por baixo da camisa que vestia. Não acompanho futebol, novela, nem perco tempo.

Ler muito não é difícil. Experimente ler apenas vinte páginas por dia. No fim do ano você terá lido mais de cinqüenta livros. E vinte páginas não lhe tomarão uma hora diária. Menos do que se gasta vendo todos os telejornais para se manter informado, ignorando que eles são repetitivos.

Levo o ministério muito a sério para ser uma pessoa despreparada. Minhas falhas são enormes e me frustram, mas a leviandade não é uma delas. Uma das maiores demonstrações de falta de zelo que já ouvi foi um pastor dizer para sua igreja que não tinha sermão naquela manhã porque passara a noite vendo o “Corujão” da Globo. É deprimente saber que há pregadores que, ao invés de estudarem a Bíblia, a teologia e a vida cristã com afinco, baixam sermões da Internet ou pedem esboços a colegas. Ou compram livrinhos com “esboços de sermão de poder” (como se coloca poder num esboço?). Como professor de seminários e faculdades teológicas nunca entrei para uma aula despreparado, em mais de trinta anos. E não fiz mais que minha obrigação. É minha responsabilidade. A denominação me confia a tarefa de ensinar seminaristas e estes pagam pelas aulas. Nunca disse: “Hoje vamos ter um debate”, para esconder a falta de preparo.

É frustrante saber que há gente que ironiza o pastor que estuda. Eu leio, sim. E, para escândalo de alguns, quase oitenta livros por ano. Mas nunca fui um ocioso. Batizei mais de 1.100 pessoas e organizei cinco igrejas. Comecei uma delas como congregação e fiquei ali sete anos. Inspirei dezenas de jovens que estão no ministério. Nada fiz que mereça elogios. Apenas o que devia. Sou, sem falsa modéstia, servo inútil. Mas dói saber que a ignorância é vista com orgulho e sinal de utilidade. Quem lê não é vadio. Apenas aproveita bem seu tempo. Vadio é quem é sustentado para dar tempo integral à igreja e gasta a maior parte do tempo não servindo à igreja, mas em ócio. Não investe na igreja nem em sua vida. Apenas deixa o tempo passar.

Para mostrar que não estou zangado, apenas perplexo, parodio uma música popular brasileira. Conheço-a de tanto ouvir pelas ruas, porque não gosto de seu estilo musical: “Eu leio, sim, e estou lendo. Tem gente que não lê e está morrendo”. Morrendo de vazio, de falta de conteúdo, de sentido para a vida. Quem lê, tem vida interior. Nunca está só, nunca está frustrado, sempre recebe coisas boas, e sempre tem o que dizer. Quem não lê, morreu, e não sabe. E, o que é pior: vai matando as pessoas que deveria ensinar.