QUE ELE CRESÇA E EU DIMINUA

“É necessário que ele cresça e que eu diminua” – João 3.30

Eu estava na Igreja Memorial Batista de Brasília quando o Pr. Éber Vasconcelos, até então pastor da igreja, deu posse ao seu sucessor, o Pr. Norton Lages. O “Príncipe do Púlpito” entregava seu púlpito a um colega. É difícil esquecer Éber Vasconcelos. Quem o ouviu, nunca o esquecerá. O melhor pregador que já ouvi. Mas queria diminuir e que seu ex-rebanho seguisse agora outra orientação. Leu este texto e saiu pela porta lateral.

Um verdadeiro homem de Deus age assim. Não anseia por spotlight, mas sabe sair de cena. E sabe ocupar lugar inferior. Lembro-me de uma antiga oração dos crentes, que, ao intercederem pelo pregador, diziam: “Esconde teu servo atrás da cruz de Cristo”. Bonita oração! Hoje o culto à personalidade em nosso meio chega a ser asqueroso. Parece que a oração é “Esconde a cruz de Cristo atrás do teu servo”.

O Batista tinha convicção de que deveria passar para um plano inferior, em relação a Jesus. Ele não era digno de desamarrar as correias das sandálias do Mestre (Jo 1.27). Não disputou espaço com Jesus. Esta é a marca dos homens e mulheres de Deus: serem ofuscados para que a glória seja de Deus. Paulo também agiu assim. Sua paixão era Cristo, e não sua carreira.

Preocupa-me verificar que Cristo, em muitos momentos, não é o que há de mais importante na igreja. Há um programa a seguir, há atividades por manter e muito corre-corre que passa a idéia de uma comunidade atarefada pelo evangelho. E isto também promove gente pouco expressiva na vida social, mas que assim se torna “importantão” na igreja. Mas muitas vezes a atividade é pelo bom nome da organização e da pessoa, e não da glória de Cristo.

Há líderes que anseiam por notoriedade e buscam ocupar todos os espaços possíveis, tanto em nível de igreja como em nível de estrutura denominacional. Jesus passa a ser um pretexto para carreiras pessoais.

Nossa glória deve ser a de promover a glória de Jesus. Stott disse que Paulo era “um homem intoxicado de Cristo”. Isso deveria ser dito de cada cristão, e mais ainda de cada obreiro. Como é preciosa a expressão de Paulo em Filipenses 1.20: “Segundo a minha ardente expectativa e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a ousadia, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte”.

Cristo deve ser a paixão maior da igreja. Ela é dele. Ele a comprou com seu sangue (Ap 5.9). Nada do que fizermos deve diminuir a figura dele. E tudo que fizermos não deve contar ponto em nosso currículo. A nós, basta a certeza de que no dia final ouviremos: “(…) Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21).

Deus é soberano. Usa quem quer, quando quer, e não deve nada a ninguém por isso. Ninguém se enalteça por ser instrumento dele. E ninguém pense de si que é insubstituível. Apesar de um livro evangélico ter como título “Você é insubstituível”, os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. Só ele, o nome sobre todo o nome, é insubstituível.

“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31). Que ele cresça e que nós diminuamos. A glória é dele, sempre. A nós, basta-nos sermos instrumentos.