Reflexos de uma teologia EQUIVOCADA

Isaltino Gomes Coelho Filho

Parece-me haver um debate teológico em nossa denominação, enfocado de maneira equivocada e com rótulos pouco acertados. Vejo que alguns dividiram o cenário entre “conservadores obscurantistas fossilizados” contra “intelectuais arejados, sintonizados com novos tempos”. Li, um dia, que sou o líder do fundamentalismo batista, “tendência tolerada pela CBB”. Não sei quem me constituiu líder, e talvez a pessoa que me rotulou não sabe o que é um fundamentalista. Parece que ela se vê como um intelectual sintonizado com os novos tempos. Mas nada é mais fundamentalista que um intelectual sintonizado com os novos tempos. Fora do seu esquema não há salvação. Nem vida inteligente. É o detentor do saber e da erudição teológica, embora mais douto em sociologismo e filosofismo que em teologia.

Um livro de Charles Colson, “O Cristão na cultura de hoje – desenvolvendo uma visão de mundo autenticamente cristã”, me ajudou a entender um pouco mais a questão. Segundo ele, há três doutrinas teológicas básicas para uma visão correta do mundo: Criação, Queda e Redenção. A Criação fala de nossa origem, de nossa dignidade e do propósito de Deus para a raça humana. A Queda mostra que somos pecadores, que há algo errado com o mundo, e que necessitamos de redenção. A Redenção mostra os atos de Deus para nos levar de volta ao Éden. É fascinante que em Apocalipse 22, a árvore da vida, que fora vedada ao homem, reaparece para ser usada. A obra de Cristo está escatologicamente consumada.

Alguns segmentos trocaram a Criação pelo Surgimento Acidental, tornando o homem um evento despido de valor teológico. Com isso, aceitam o jogo darwinista e freudiano, de nos tornar sem valor espiritual, apenas mecanismos biológicos. E aplicam ao homem critérios de avaliação e soluções completamente seculares.  A doutrina da Queda foi substituída pela visão iluminista, romântica e ultrapassada, da bondade inata do homem: o problema do homem não é ele, mas a sociedade. Assim, a doutrina da Redenção perde seu valor e é substituída pela discurseira humanista que ouvimos. O secundário é posto como fundamental, e o fundamental é banido.

Nesta visão, a Bíblia deixa de ser os óculos pelos quais devemos enxergar o mundo e é analisada por correntes de pensamentos de pessoas não regeneradas. Não é de se estranhar que em muitos currículos teológicos haja mais espaço para filosofia e sociologia que para teologia e Bíblia. Alegar que aquelas permitem entender estas é um equívoco. E a Bíblia não é estudada, mas sim teorias sobre a Bíblia. Estudar a Bíblia e estudar teorias sobre ela são coisas diferentes. Participei, com satisfação, de um projeto teológico que privilegiava o estudo das Escrituras. Fomos ironizados por alguns que nos chamavam de “instituto bíblico” e de EBEDEZÃO. A que ponto chegamos: ensinar a Bíblia é antiintelectualismo.

Perdendo a visão destas doutrinas como espinha dorsal de nossa conduta, a igreja se secularizou. Passou a ser vista mais como empresa, e a depender mais de métodos eclesiológicos e litúrgicos que do poder de Deus. O púlpito se ocupa mais de emitir conceitos que de expor a Palavra de Deus e aplicá-la aos ouvintes. Com isso, a igreja perdeu a espiritualidade, e tenta suprir isto animando o auditório com um “culto contextualizado”.

Precisamos retornar às Escrituras. Os seminários precisam ser casas de ensino das Escrituras. O púlpito precisa ser o local de proclamação das Escrituras. A igreja precisa ser a comunidade das Escrituras. Chocou-me ouvir de alguns crentes que o púlpito de sua igreja trocara o ensino bíblico por comentários de livros de Augusto Cury. É sintomático. A auto-ajuda tomou o lugar da proclamação de “todo o conselho de Deus”. O evangelho parece incomodar profundamente a igreja. Tanto que muitos de nossos cânticos se lastreiam no Antigo Testamento, procurando criar um estado de euforia no culto. Nem uma nem duas vezes, ouvi mensagens em que o nome de Jesus, a cruz, a salvação, pecado, vida eterna, os grandes temas da Escritura nem foram mencionados. Perda de visão das três doutrinas pilares da fé cristã em nosso contexto cultural.

Sem diagnosticar e sem julgar, indago-me se muito da crise de nossas instituições de ensino teológico não se conecta à perda daquele charme, de que os seminários eram casas de profetas e de pregadores da Bíblia. Um dia desses comparei um pouco mais de uma centena de revistas teológicas que tenho. Algumas, da década dos cinqüentas e sessentas, escritas por Crabtree, Bratcher, Dr. Oliver, Dr. Purim, Jerry Key, Page Kalley, e outros, com temas bíblicos, teológicos e eclesiológicos. Comparei-as com as atuais. Não citarei nenhuma, para evitar problemas, mas notei que a ênfase é mais na interpretação sociológica da teologia e das Escrituras. É um tal de “o olhar do outro” ao invés do “olhar de Deus” que fico perplexo. A Bíblia deixou de ser o microscópio e passou a ser o objeto examinado. É triste ler um artigo teológico em que Jesus se torna o Cristo interno, de Huberto Rohden, e não o Redentor, e é nivelado a Buda e a Maomé. Talvez isto explique o porquê do desencanto de tantos jovens e tantas igrejas com os seminários. Não creio que temos crise de vocações. O projeto Radical da JMM e os projetos “trans” mostram um grande contingente de jovens dispostos a servir. Mas não a receber “preparo teológico”. Muitas igrejas não se sentem estimuladas a investir na educação teológica. Elas são sempre criticadas, mas nunca lhes perguntam por que agem assim. No entanto, creio que devem ajudar os seminários, e depois, então, expor seu desejo de que as coisas mudem, como tenho ouvido em muitos retiros de pastores, onde tenho sido preletor.

Não quero avaliar seminário nem deixar a idéia de que acuso alguém. Se ficou esta imagem, perdoem-me. Fui mal entendido ou expressei-me mal. Quero chamar a atenção para um fato: à volta à ortodoxia bíblica é um excelente antídoto a muitos de nossos problemas. E deixo uma palavra aos jovens: A teologia não é inimiga da fé, a ortodoxia não é indigência mental e o liberalismo teológico (mesmo que seus autores não tenham coragem de assumi-lo) não significa erudição. O verdadeiro saber teológico produz piedade. E o que afasta da piedade não é o saber, mas o pecado de desprezar a autoridade da Escritura, e subordiná-la ao saber humano. Não esqueçamos deste valor teológico: Criação-Queda-Redenção. A saúde e o saber teológicos dependem dele. E se isto é ser fundamentalista, eu assumo, com satisfação.