A 1ª CARTA AOS CORÍNTIOS

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudos bíblicos

Corinto era uma grande metrópole de origem grega. Na realidade, apesar de Atenas ser a capital, era a cidade mais importante da Grécia, por sua localização geográfica. No tempo de Paulo, era uma das maiores cidades do Império Romano, com cerca de 400.000 habitantes, um número considerável, na época (hoje já é bastante!). Ficava a 80 km de Atenas, sendo rota comercial, uma espécie de encruzilhada do mundo da época (por isso que era a mais importante da Grécia). Era a capital da província da Acaia. Paulo implantou o evangelho ali (At 18.1-3), tendo ficado um ano e meio na cidade (At 18.11). Parece que conseguiu muitos frutos em seu trabalho (At 18.9-10).

De Corinto, Paulo foi para Éfeso (At 18.18-19), onde ficou por três anos (At 20.17 e 31). Foi de Éfeso que escreveu a primeira carta aos coríntios (1Co 16.8). Na realidade, esta primeira carta foi a segunda, pois antes ele escrevera uma, que se perdeu (1Co 5.9). Os problemas na igreja eram tantos que Paulo lhe escreveu mais de uma carta e pretendia voltar à igreja para uma segunda visita (1Co 16.5-8). Anteriormente, fizera uma que, parece, nada adiantou (1Co 2.1).Já tinha enviado Timóteo para ver se ele conseguia resolver os problemas da igreja (1Co 4.17). Como este não conseguiu resolvê-los, Paulo mesmo iria (1Co 4.19). Parece que isto também não resolveu, pois ele se dispôs a uma terceira visita (2Co 12.14). Os problemas eram bem sérios, mesmo. Aliás, à exceção de Filipenses, todas as cartas foram escritas para resolver problemas nas igrejas. Mas Corinto “abusava do direito de ter problemas”. Assim podemos ver que o mito da igreja perfeita se esboroa. Para alguns, a igreja de hoje é mundana, perdida, e precisamos voltar à pureza da igreja primitiva. Mas esta não era pura. Como veremos em Corinto, a igreja primitiva tinha problemas bem mais graves que os das nossas igrejas, hoje. Isto para nós é um alento. Nunca seremos perfeitos. Isto não deve nos desestimular na carreira cristã nem nos levar a nos acostumarmos com nossas falhas. Mas deve nos lembrar que não somos as piores pessoas da história do cristianismo e saber que Deus sempre usou servos imperfeitos e falíveis. Não é perfeição que ele procura em nós. É disposição de viver com ele, de amá-lo e de servi-lo.

O TESTEMUNHO SOBRE A IGREJA

O testemunho sobre a igreja de Corinto não era bom (1Co 5.1). Se a vida moral era baixa, o ambiente interno não era melhor (1Co 1.10-12). Era uma igreja imoral e briguenta, cheia de partidos. Corinto é realmente uma incógnita. É a igreja mais carismática, mais cheia de dons, mostrada como modelo em certos segmentos carismáticos contemporâneos, mas é a pior igreja do Novo Testamento. O procedimento dos cristãos de lá era pior que o procedimento dos pagãos, como  nós já lemos em 1Coríntios 5.1.

Uma reflexão séria deve ser feita aqui. Dons não significam, necessariamente, qualidade espiritual. Pode parecer estranho, mas este é o testemunho que nos fica das duas cartas aos coríntios. A santificação tem um aspecto ético que se sobrepõe ao carismático. Santificação não se relaciona a êxtases e a dons, mas ao caráter espiritual e moral da pessoa.

UM ESBOÇO DA CARTA

Para compreendermos melhor o material contido na primeira epístola, eis o seu esboço, que nos ajudará a “visualizar” o conteúdo:

  1. Saudação e cumprimento – 1.1-9
  2. Os partidos na igreja e a tentativa de incompatibilizá-lo com Apolo – 1.10 a 4.21
  3. Um caso grosseiro de imoralidade – 5.1-13
  4. A ida a tribunal de irmãos contra irmãos e casos de impureza – 6.1-20
  5. Ensino sobre casamento – 7.1-40
  6. Carne oferecida a ídolos e a autoridade apostólica – 8.1 a 11.1
  7. Irregularidade nos cultos, o uso de véu, festas religiosas, ceia do Senhor – 11.2-34
  8. Dons espirituais – 12.1 a 14.40
  9. Ensino sobre a ressurreição dos mortos – 15.1-58

10.  Instruções sobre a oferta, observações e saudações finais – 16.1-24

Vamos comentar estes tópicos, mesmo que sinteticamente, nesta ordem exposta.

SAUDAÇÕES E CUMPRIMENTOS

Ele escreve a carta junto com Sóstenes (1.1). Este fora chefe da sinagoga em Corinto, antes da conversão, e pagou um preço alto por isso (At 18.17). Talvez tenha sido ele quem levou a notícia da igreja a Paulo, em Éfeso. Logo na saudação, o apóstolo procura mostrar aos coríntios que eles eram chamados para viverem em santidade (1.2) e para terem uma vida irrepreensível (1.8).  Não faltava nenhum dom à igreja (1.7), mas ela precisava lembrar que era chamada para santidade. Dons sem caráter não adiantam muito. Dons serviam de catarse, mas não aperfeiçoavam a igreja. A verdadeira espiritualidade deve se manifestar em caráter.

OS PARTIDOS NA IGREJA E A TENTATIVA DE INCOMPATIBILIZÁ-LO COM APOLO

Havia grupos na igreja (1.12). Um grupo era apegado a Paulo. Outro gostava mais de Apolo, que foi para a região de Corinto depois que Paulo saiu (At 18.24 e 27). O grupo judaizante, que tinha tendências para guardar o judaísmo, preferia Pedro. E havia os que se julgavam mais espirituais, que diziam ser de Cristo. Parece que a polarização era mais entre Paulo e Apolo (3.4-6). Este é um dos mais sérios problemas encontrados nas igrejas: as pessoas que se tornam donas da verdade ou do evangelho. Paulo entendeu que este o primeiro problema a atacar, a desunião na igreja. Ninguém deve se gloriar em nada, a não ser no Senhor (2.31).

Paulo tinha consciência de seu ministério e não se preocupava com a opinião dos coríntios sobre ele (4.3-4), mas corrigiu-os porque isto, emitir opinião sobre o ministério apostólico, era um problema para a igreja. Com lucidez, ele bem expôs o conceito que alguns fazem do obreiro (4.9-13). Na mente de muita gente, hoje, um pastor ou um missionário é um frustrado que não deu certo em alguma área secular e arranjou um jeito de se manter. Paulo lembra à igreja que foi ele quem os gerou espiritualmente (4.15). Como não o respeitavam? Como não valorizavam o trabalho dele? Era o mesmo que não valorizar a fé deles. Eles eram o que eram pela instrumentalidade dele. Então, seu trabalho tinha valor. A liderança de uma igreja não deve ser idolatrada, mas deve ser respeitada.

UM CASO GROSSEIRO DE IMORALIDADE

Um membro da igreja vivia amasiado com a madrasta (5.1). Paulo havia escrito pedindo que ele fosse desligado da igreja (5.9-11), mas não foi atendido. Aliás, isto mostra que houve uma carta anterior à que chamamos de primeira. Por vezes, a igreja é rápida em emitir opinião sobre as pessoas de fora e esquece as pessoas de dentro. Ele censura isto. Que a igreja cuide de si mesma, primeiro (5.12). Não apenas este caso, mas pessoas com o caráter descrito em 5.11 não deveriam desfrutar da comunhão da igreja. Por vezes somos rápido na crítica às outras pessoas, e descuidamos de nos analisarmos. Um bom lembrete.

O cidadão que vivia incestuosamente com a esposa do pai deveria ser “entregue a Satanás” (v. 5). Que significa isto? Satanás é o príncipe deste mundo (Jo 12.31 e 1Jo 5.19). A igreja deveria considerá-lo como pertencente a Satanás. Sua conduta não era de alguém pertencente a Cristo. “Entregue” deve ser entendido neste caso: a igreja é propriedade de Cristo e Satanás não tem poder sobre ela (1Jo 5.18). Sendo tirado da comunhão da igreja, esta o deixaria na mão do poder maligno, para que ele aprendesse como Satanás é mau e se arrependesse. Foi isso que Paulo fez com Himeneu e Alexandre (1Tm 1.20).

Paulo insiste em que a igreja deve desligar esta pessoa, a quem chama de iníquo (5.13). Há pessoas que não têm condições de serem membros da igreja e esta precisa permanecer atenta a isto.

A IDA A TRIBUNAL DE IRMÃOS CONTRA IRMÃOS E CASOS DE IMPUREZA

Membros de igreja têm problemas entre si. Isto faz parte da natureza humana. Mas deveriam resolver sem necessitar recorrer a tribunais humanos. Ele trata disto em 6.1-6. E faz uma observação em 6.7: só o haver demandas entre eles já era uma vergonha. Dissensões na igreja são uma vergonha para o testemunho.

Paulo associa este caso com a impureza moral da igreja (6.8-10). Parece que o padrão moral da igreja era baixo mesmo. A igreja não poderia ser assim. Tivera uma experiência com Cristo, como ele diz em 6.11. Quem teve uma experiência com Cristo não pode ter uma conduta pior do que a conduta de quem não teve. Temos falhas, mas não podemos ter uma vida mais baixa que a dos depravados do mundo sem Cristo.

Em 6.12 o apóstolo deixa um princípio importantíssimo para nossas vidas. Todas as coisas nos são permitidas, mas algumas delas devemos evitar. Nosso corpo é o santuário do Espírito (6.19). Isto não significa que o Espírito habita na nossa carcaça física. “Corpo” é o grego sômata, de sôma, a personalidade integral. Não é o físico, mas sim a integralidade da pessoa, sua psiqûe, o centro de emoções e decisões, mais do que mera estrutura física.  “Santuário” é o grego naós, que era usado para designar o lugar do templo de Jerusalém em que ficava a arca, onde só o Sumo Sacerdote entrava, e assim mesmo, uma vez por ano. Era a morada de Deus. É na nossa integralidade, na nossa psiquê, que Deus mora. Não é no corpo físico que ele mora. Se amputarmos um membro do corpo, isto não significa que Deus vai ficar com menos espaço para morar. Nem os magros e pequenos terão Deus mais apertado dentro de si. E os gordos e grandes não estarão com mais espaço para Deus viver mais confortavelmente dentro deles. Não é o corpo físico, como muitos pensam.

Se Deus morar na sôma, no centro emotivo e decisório da pessoa, não haverá lugar para imoralidade. Este é o princípio da santidade moral, a presença de Deus na nossa vida. Santidade não é externalidade nem grito no culto, mas o cultivo da presença de Deus na nossa vida, no centro decisório e volitivo de nossa personalidade.

ENSINO SOBRE CASAMENTO

Havia muita confusão sobre esta questão, na igreja.  O capítulo 7 é longo e trata do casamento, mostrando como a igreja tinha dificuldades nesta área. Ao mesmo tempo vemos como o mundo da época, mundo que a igreja copiava, também era confuso neste ponto.

A primeira declaração de Paulo é problemática (7.1). Ela se choca com Gênesis 2.18. por isso devemos entender que ele está dizendo. Conforme Morris: “Havia na antigüidade uma generalizada admiração pelas práticas ascéticas, incluindo-se o celibato. Pelo menos alguns dos coríntios partilhavam dessa admiração. Paulo faz todas as concessões aos pontos de vista deles. Concorda que o celibato é ‘bom’ e expõe algumas de suas vantagens. Mas considera o casamento como normal”.   É bom, mas não é necessário nem é moralmente melhor que o homem não toque mulher. Ele não defende o celibato. Aponta para o perigo de se procurar a prostituição (muito comum e vista como prática religiosa, pelos pagãos). Mostra que Satanás trabalha nesta área (v. 5).

Há deveres no casamento (7.3-5). Deve haver um acordo entre os cônjuges sobre questões sexuais.

Ele defende o casamento sem rompimento (7.10-11), mas reconhece que, quando é tomada a iniciativa por uma das partes, a outra está livre (7.15). Havia um grupo, na igreja, que defendia o celibato. Paulo diz a eles que fiquem como estão. Não se casem. Querem ser celibatários? Que o sejam. Mas se alguém quiser casar, que se case (7.27-28). Mas muitos dos conceitos emitidos por Paulo foram pronunciados por ele na perspectiva de que a vinda de Jesus estava bem perto (7.29). Isto deve ser levado em conta. Um exemplo disto se vê no celibato que ele praticava e que gostaria que outros praticassem. O próprio Paulo tinha o dom de poder viver sem esposa, por isso podia se dedicar totalmente à obra de Deus, em longas viagens missionárias e prisões pelo evangelho, porque não tinha família para cuidar (7.7 e 32-34). Na perspectiva de uma vinda iminente de Jesus, como se presumia numa fase em que o pensamento teológico da igreja ainda não fora completado, poder dedicar-se à pregação como ele fazia, era muito bom. Todo o capítulo traz um pano de fundo escatológico, ou seja, de que se viviam os últimos tempos da história.

CARNE OFERECIDA A ÍDOLOS E A AUTORIDADE APOSTÓLICA

Esta é a maior seção da epístola. Em Corinto havia muitos templos pagãos. Havia o culto a Poseidon, o pseudodeus do mar. Havia o culto à pseudadeusa Roma, o culto ao imperador e o templo a Afrodite, a pseudadeusa do amor, com mil sacerdotisas prostitutas, que eram tidas como santas, por dedicarem seus corpos à divindade em ritos sexuais. Neste templo havia o dom de línguas frenéticas, ou o dom de línguas como praticado em algumas igrejas pentecostais hoje.

Muitos templos tinham cultos em que carne era sacrificada aos ídolos. A carne era vendida no açougue pelos sacerdotes. Eis a questão: comer ou não comer carne? Afinal, podia estar se comendo coisa sacrificada a ídolos. Ora, o ídolo não existe, não é nada, não tem poder algum (8.4-6). Deus sabe quem o ama (8.3) e não seria comer carne que, eventualmente, foi consagrada a um ídolo que faria diferença (8.8). Apenas não devemos ir a uma festa pagã para comer a carne (8.10) por causa do testemunho. Devemos evitar servir   de tropeço uns aos outros (8.13).

A seguir, mudando de assunto, mas seguindo no mesmo ritmo, Paulo começa a defender sua autoridade apostólica. Assim como alguns pensavam no seu direito e não do outros, ele defende seus direitos também. Parece que alguns não concordavam com sua orientação e se julgavam mais espirituais ou com mais autoridade do que ele. Paulo defende o direito de ser sustentado por pregar o evangelho (9.7-11). Ele trabalhava, fazendo tendas, quando fundou a igreja (At 18.3). Ele nunca se valeu do direito de ser sustentado por pregar o evangelho (7.12), mas tinha este direito, como lemos em 7.7, 13-14. E explana bem a questão, nestas passagens.

IRREGULARIDADE NOS CULTOS, O USO DE VÉU, FESTAS RELIGIOSAS, CEIA DO SENHOR

É uma seção longa (11.2-34) e trata de questões litúrgicas. Muito do que aqui está nos parece sem sentido porque seu contexto é cultural, em grande parte. Este é um desafio para nós: o que é princípio de valor temporário e o que princípio de valor permanente, na Bíblia?

Aquilo que está totalmente ligado à cultura é de valor temporário, não sendo princípio eterno. No Oriente antigo, a mulher não deveria aparecer de cabelos soltos ou descobertos. Isto não acontece hoje. Quando estudei no Seminário do Sul, e tínhamos aulas de pregação, devíamos ir de terno e gravata. O professor examinava nossa indumentária. Perdi pontos por usar sapatos sem cadarços, e isto era inconcebível para um pastor. Sapatos sem cadarços eram tido como esportivos, não combinando com terno. Em muitas igrejas estas questões ainda permanecem: cumprimento de roupa, maquiagem, corte de cabelo, etc. Há igrejas que, em pleno século 21, ainda proíbem homens e mulheres de sentarem juntos, como se fazia no século 19.

O princípio fundamental nas instruções de Paulo é o respeito pelo local de culto e pelo culto, propriamente dito. A questão de ausência do véu servia de escândalo. Que se evitasse o escândalo! Os cultos dos coríntios eram motivo de escândalo. Faziam mais mal do que bem (11.17).

Havia uma refeição comum nas igrejas, chamada de ágape. Era um momento de comunhão. Parece que se seguia à ceia, que era a parte última do culto. As pessoas traziam sua comida de casa. Parece que em Corinto fundiram a ceia e o ágape. Os ricos traziam muito e exibiam finas iguarias, e os pobres passavam necessidades e havia bebedeiras (11.20-22). Paulo diz que isto não era a ceia (v. 20) e passa a explicar a ceia. Ele recebeu esta forma de celebração da ceia. Fica em aberto se a recebeu do Senhor Jesus ou de outros apóstolos, mas fica certo que pelo ano 50 de nossa era, a igreja já seguia esta prática de celebrar a ceia. Ela é um ato memorial (vv. 24-25), ou seja, ela lembra o sacrifício de Jesus na cruz. Oportuna lição! A igreja nunca pode perder de vista o sacrifício de Jesus, nunca deve deixar de comemorá-lo. Ela existe por causa dele.

A ceia exige por parte de seus participantes um exame retrospectivo (11.27-29), um exame de consciência. Paulo associa a doença e a morte de alguns membros da igreja como castigo divino por sua irresponsabilidade e leviandade espiritual (v. 30). Isto pode nos soar estranho, mas deve receber nossa reflexão. As realidades espirituais, que são sagradas, devem receber de nossa parte o maior respeito. E nossa participação no culto deve ser feita com seriedade.

DONS ESPIRITUAIS

A seção sobre dons espirituais vai do capítulo 12 até o capítulo 14. O tema é o mesmo nestes três capítulos. O capítulo 13 não é parêntesis, como se quebrasse a argumentação que surge em 11 e 12, mas é a apresentação do maior dom, que é o amor. Pode se ter todos os demais, mas sem este, nenhum vale coisa alguma (13.1)

Novamente precisamos ter em conta, para um bom entendimento do assunto, que a igreja estava em formação, que o Novo Testamento estava sendo escrito, e que as características daquela época eram bem diferentes das nossas. Os apóstolos eram poucos, as distâncias entre as igrejas eram enormes e, conseqüentemente, os contatos das igrejas eram escassos, os meios de transporte eram lentos e a comunicação era precária. As igrejas estavam infestadas de falsos mestres fazendo afirmações que Jesus nunca fizera, e sem respaldo algum (por isso, o dom de discernimento, mostrado em 12.10 (veja, principalmente, na NTLH).

O que domina a discussão nos capítulos 12 e 14 é o dom de línguas. Como é mostrado em Corinto, parece mais uma algaravia de sons extáticos que o que realmente houve no dia de pentecostes, conforme relato de Atos dos Apóstolos. Em Atos 2, no dia de pentecoste, as línguas foram inteligíveis (At 2.8), e em Corinto não o eram (1Co 14.9 e 16). Em pentecoste, as línguas falaram aos homens (At 2.6-8) e em Corinto, falavam a Deus (1Co 14.2). Em pentecoste não houve necessidade de intérprete (At 2.8) e em Corinto havia (1Co 14.5 e 14.13). Em pentecoste houve edificação das pessoas (At 2.11) e em Corinto havia dissensão, orgulho e escândalo (1Co 14.23). Em pentecoste, o falar em línguas ajudou a muita gente, preparando-as para a mensagem de Pedro, e levando-as à conversão (At 2.41), e em Corinto ajudava apenas o falante (1Co 14.4 e 14.17). Tecnicamente, em pentecoste houve um caso de xenoglossia (falar línguas estrangeiras) e em Corinto, um caso de glossolalia (falar sílabas desconexas, em êxtase). Mas o texto de Atos 2.8 nos deve levar a uma consideração: a ênfase não estava no falar, mas no ouvir! Não era como os discípulos falavam, mas como os ouvintes entendiam em sua língua. Foram idiomas ou dialetos compreensíveis, entendíveis.

Mas tudo em Corinto resvalava para dissensões. Os dons, que deveriam edificar, serviam para fragmentar a igreja. Por isto, no meio da discussão, o capítulo 13. Já vimos muita vigília de oração para se receber o dom de línguas. Quando veremos uma vigília e a proclamação de jejum, para aprendermos a amar?

Mas observemos os dons, como relatados nos versículos 8-10: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curar, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas. Mas o ponto central da discussão deve ser o capítulo 13 porque o amor relativiza todos os demais dons.

ENSINO SOBRE A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

É o trecho de 15.1-58. Este é, sem dúvida, o mais grandioso capítulo de toda a Bíblia. Vale a pena lê-lo todo, em seqüência. É a pedra de toque da esperança cristã. Se Jesus fosse Deus, tivesse nascido de uma virgem, tivesse morrido pelos nossos pecados na cruz e tudo se acabasse na sepultura, não haveria cristianismo. Isto é obvio.

Mas a igreja, tão cheia de dons, era cheia de erros doutrinários. Conforme o v. 12, havia gente que negava haver alguma coisa como ressurreição de mortos. Mas Paulo é muito enfático e afirma com segurança que se não há ressurreição de mortos, o cristianismo não faz sentido algum (vv. 13-19).

A pregação da igreja repousava sobre algumas verdades inconfundíveis; (1) Jesus era o messias esperado; (2) ele fora morto; (3) ele ressuscitara; (4) ele voltará. No primeiro sermão da igreja, Pedro deixou isto bem claro (At 2.31) e voltou a reafirmá-lo em um segundo sermão (At 3.15) e insistiu nisto (At 4.2 e 11). A base de tudo é que Jesus ressuscitou. Esta é a nossa garantia de nossa ressurreição (1Co 15.20-23).

A ressurreição de Jesus é fato bem documentado. Além das várias aparições aos apóstolos, isolados ou em grupos, numa vez ele aparecera a cerca de 500 pessoas, sendo que alguma delas ainda vivia (v. 6). Era como se Paulo dissesse; “Vocês não acreditam? Vão lá e perguntem aos que viram!”.

A ressurreição de Jesus é a garantida nossa (15.20-28). Paulo faz uma analogia com Levítico 23.10-11.  Os primeiros frutos que o lavrador trazia para serem ofertados a Deus como as primícias anunciavam a colheita próxima. A ressurreição de Jesus é assim: o prenúncio da ressurreição de todos os crentes. E depois argumenta com Gênesis 3.17-19. Assim como a morte entrou no mundo por Adão, a vida entrou no mundo por Jesus (v. 22). Ele venceu a morte porque era sem pecado. Na conversão nós somos identificados com ele, ligados a ele. Seremos tornados sem pecado (1Jo 3.2) e ressuscitaremos para viver para sempre.

Um aspecto confuso é o da questão do batismo pelos mortos (vv. 29-34). Quando alguém estava se preparando para o batismo e morria, um parente ou amigo recebia esta cerimônia por ele. Paulo não aprova nem desaprova o ato. Apenas o menciona, como argumento ad hominem, para levá-los a aceitar a ressurreição como fato. Eles criam, com esta prática estranha. Como negavam com palavras?

A ressurreição do corpo ocupa longa seção (vv. 35-49). O argumento paulino é simples. Cristo ressuscitou com um corpo que pôde ser visto e apalpado (Lc 24.36-43 e Jo 20.27). Foi uma ressurreição física, não algo místico. Já sabemos que Corinto era uma cidade grega. Para os gregos, o corpo não tinha valor, sendo apenas a prisão da alma. Por que ressuscitá-lo? A idéia de ressurreição pregada pelos cristãos era motivo de zombaria dos gregos (At 17.31-32). Mas para os cristãos, a matéria não é má, como era para os gregos. O corpo não é mau. Deus assumiu um corpo, na pessoa de Jesus! E assim Paulo faz quatro afirmações:

(1ª) O corpo presente é corruptível; o corpo futuro será incorruptível;

(2ª) O corpo presente é desonra; o corpo futuro será glória;

(3ª) O corpo presente é fraco; o corpo futuro ressuscitará em poder;

(4ª) O corpo presente é natural; o corpo futuro será espiritual.

Daqui passa ele para a conquista da morte (vv. 50-58). É um trecho de magnífica poesia épica. Precisamos ser transformados, mas não devemos temer isto. Nem todos morrerão porque quando Cristo vier, os que estiverem vivos serão transformados (v. 52). Os mortos ressuscitarão primeiro, mas os vivos serão transformados. Será o fim da morte. Isto deve suscitar duas atitudes em nós. A primeira é gratidão a Deus por este final tão glorioso que teremos (v. 57). O segundo é que devemos continuar firmes na fé, sem nunca desanimar (v. 58). Nosso trabalho e nossa carreira cristã não são sem sentido.

AS INSTRUÇÕES FINAIS

O capítulo 16 traz as instruções finais, começando por uma orientação sobre a oferta que aqueles cristãos, de melhor situação financeira, deviam fazer pelos menos favorecidos, os da Judéia, que enfrentavam grande perseguição e tinham seus bens confiscados (16.1-5).  Há um princípio aqui que deve reger nosso relacionamento: nossos bens servem para beneficiar outros, principalmente nossos irmãos desfavorecidos. Devemos viver em mutualidade.

Os capítulos finais das cartas paulinas são muito enriquecedores e até mesmo cheios de ternura. Aparece seu relacionamento pessoal com os crentes, as palavras de saudações, estímulo e reconhecimento do caráter de muitos deles. Paulo expressa o desejo de visitá-los, não apenas de passagem, mas permanecendo algum tempo com eles (vv. 5-7). Havia uma fraternidade, uma vivência de relacionamento entre aqueles crentes que nossas igrejas perderam hoje. Cada um de nós assiste um culto e sai para sua vida em seu apartamento, sem viver em relacionamento com os demais. Eles se visitavam, se hospedavam, se socorriam, se envolviam uns com os outros.

O apóstolo está entrado em anos, mas continua pregando e embora tenha oposição, não faz conta disto (vv. 8-9). Ele tem uma missão e quer cumpri-la. Não busca aplausos, mas apenas deseja cumprir seu dever para com Cristo. É um modelo de obreiro: trabalhar até morrer sems e preocupar com os críticos.

E ainda tem tempo de orientar a igreja no trato com dois obreiros, Timóteo e Apolo (vv. 12-12). Timóteo foi o substituto de Paulo na organização das igrejas, na administração dos missionários. Na época das cartas era o assistente de Paulo.  Apolo foi o grande orador, pregador itinerante. A igreja precisa de burocratas, administradores, e de missionários. De pessoas mais tímidas, como Timóteo parece ter sido, e pessoas mais exuberantes, como Apolo parece ter sido. Somos diferentes, mas todos temos espaço para servir a Deus dentro de sua igreja e do seu reino.

Nas recomendações finais, elogios a Estéfanas, que, tudo indica, era o pastor da igreja (vv. 15-16). Se não era o pastor, era diácono ou um líder expressivo. Sua liderança deveria ser acatada e ele tinha visitado Paulo, acompanhado de mais dois irmãos (v. 17). E que bonita expressão sobre eles: “Gente como essa merece elogios” (v. 18, Linguagem de Hoje). Não devemos servir a Deus para receber elogios, mas pode se dizer isto a nosso respeito, que merecemos elogios?

Áquila e Priscila estavam lá, em Éfeso, e a igreja se reunia na casa deles (v. 19). As igrejas não tinham templos e se reuniam em casas. Na realidade, o lar de cada crente em Jesus deveria ser uma igreja, um pólo de irradiação do evangelho.

CONCLUSÃO

A carta começa com dureza e termina com ternura, nas saudações. Mas o final textual é muito bonito. Paulo escreve a oração que era feita pela igreja primitiva: Marana Tha, expressão aramaica que significa “Vem (com sentido de rapidez), nosso Senhor!” (v. 22). O desejo pela volta de Jesus deve ser nossa oração. E ele conclui com uma bênção, como fez em todas as cartas: que a graça de Jesus estivesse com eles, e o amor dele, Paulo, estava com eles.

Suas últimas palavras são estas: “Pois estamos unidos com Cristo Jesus!” (v. 24). Que os seguidores de Jesus Cristo nunca se esqueçam disto: estamos unidos com Jesus.