A 2ª CARTA AOS CORÍNTIOS

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudos bíblicos

A data mais recente para esta carta é o ano 57, segundo a maioria dos estudiosos. É a data limite, pois muitos entendem que teria sido escrita antes disto. Paulo passara por Éfeso, pouco depois de escrever a primeira carta aos coríntios, que parece ter sido levada por Tito (2Co 12.17-18).  De lá foi para Trôade, onde esperava encontrar-se com o mesmo Tito, para ser informado do efeito que a sua carta causara na igreja (2Co 2.12-13). Não o encontrando, foi para a Macedônia, onde, por fim, o encontro entre os dois se deu. Foi aí que Paulo ficou sabendo como os coríntios se contristaram com o seu escrito. Aliás, é curioso como as pessoas nem sempre se contristam por andar erradas, mas se entristecem quando são corrigidas. Elas amam o pecado, mas resistem à correção. E, quando corrigidas, ficam tristes. Mas pior é quando as pessoas, ao serem corrigidas, se abespinham, se zangam, e tentam derrubar o obreiro. Muito pastor já perdeu pastorado por mexer em “casas de marimbondo” do pecado de alguém famoso ou de dízimo alto na igreja. Lembro-me da queixa de um pastor que, além de deposto do pastorado, quase foi agredido fisicamente, por não ter aceitado que o filho de um “poderoso” na igreja fosse traficante drogas. O filho do poderoso era membro da igreja e traficante…

Com base nesta receptividade, escreveu ele a segunda carta. Parece que Tito também foi o portador desta missiva (8.16-18 e 9.3-5). Paulo ainda tem queixas da igreja, principalmente porque os perturbadores contestavam sua autoridade apostólica. Ele dirá na epístola o quanto sofreu pelo evangelho e que nada custou, financeiramente, para a igreja. Serviu-a gratuitamente porque era sustentado por outras igrejas. Enquanto isto, seus acusadores exploravam a igreja (2Co 11.20). Em alguns momentos o apóstolo usará de ironia, principalmente ao enfocar esta questão. Esta é carta onde Paulo mais se expõe, mais abre o coração e mais fala de si.  É uma carta que entristece por se ver o desrespeito a um obreiro de valor. Infelizmente, isto não se restringiu á época paulina. Continua em nosso ambiente. Mas a segunda epístola aos coríntios não é só um desabafo. Também aparecem nela alguns princípios valiosos para a vida na igreja: como enfrentar dissensões, como tratar o obreiro, como provar a fé, a liberalidade cristã, a obra reconciliadora de Cristo. E outros mais, que veremos no decorrer do estudo. Muitas vezes ouvimos as igrejas se queixarem dos obreiros. Aqui, um obreiro se queixa da igreja. E com razão, como veremos.

UM ESBOÇO DA EPÍSTOLA

Para facilitar nossa compreensão da carta, vejamos um esboço resumido. Ele nos ajudará a entendê-la como um todo.

I. Introdução – 1.1-2

II. A experiência do apóstolo – 1.3-11

III. A explanação do apóstolo – 1.12 a 2.11

IV. O ministério do apóstolo – 2.12 a 7.16

V. A comunhão do apóstolo – 8.1 a 9.15

VI. A defesa do apostolo – 10.1 a 13.10

VII. Conclusão: uma despedida – 13.11-13

Como se vê, há uma ênfase “no apóstolo”, que é ele. Mas, como exporemos depois, embora ele fale bastante de si, não é ele o tema mais apaixonante desta carta. Embora o esboço nos ajude a compreender o que Paulo escreve, nossa análise, a seguir, não caminhará por este esboço, e sim pelos seus tópicos principais.

O CASO DE READMISSÃO DO MEMBRO QUE FORA DESLIGADO – Cap. 2

Parece que este capítulo trata, ainda, do indivíduo que vivera com a madrasta (1Co 5.3-5).  Aquela recomendação do apóstolo, de que a pessoa deveria ser desligada, desencadeou uma dura reação contra ele, o apóstolo. Tudo indica que Paulo fez uma visita à igreja, que piorou as relações (2.1). Parece que o apóstolo escreveu outra carta, que se perdeu, tratando apenas deste assunto (2Co 2.3-4 e 9). Seria uma carta entre estas duas, além de uma que ele escrevera antes da primeira (1Co 5.9). Esta segunda carta, então, seria a quarta carta escrita por ele à igreja. Corinto foi a igreja que mais trabalho lhe deu. Com todos os seus carismas, o que mostra que carisma não é sinal de santidade.

Tudo indica que esta carta anterior à segunda e depois da primeira,  uma outra carta perdida, foi bem dura. Tanto que os comentaristas a chamam de “carta severa”, à luz do que Paulo diz em 2Coríntios 2.3-4 e 7.8 e 12. A situação se voltou contra o indivíduo (2Co 7.11, NTLH). A pessoa se arrependeu e Paulo pediu que a igreja a perdoasse e a reintegrasse à comunhão (2Co 2.5-8). Se a igreja a perdoar, Paulo a perdoará (2Co 2.10). Ele reconhece a autoridade da igreja local para tomar suas decisões e acata sua decisão.  Faz isto para Satanás não se aproveitar e valer-se da situação (v. 11). Ele poderia aproveitar as brechas de relacionamentos na igreja. Uma boa lição: o Maligno sabe se aproveitar de nossas fraquezas. Principalmente as de relacionamento. Uma lição secundária, mas não menos importante, é a autoridade da igreja. Isto também se esvai hoje, lentamente. Quando alguém é contrariado na igreja, ao invés de submeter-se à sua autoridade, sai e organiza outra. Quanta igreja tem surgido porque o líder se pôs acima dela e não aceitou sua autoridade, mas colocou a dele acima da autoridade da igreja! Um pastor peca, a igreja o disciplina, e ele organiza outra, levando alguns seguidores, quando deveria, como crente em Jesus, acatar a autoridade da igreja!

Mas a questão aqui é simples e, ao mesmo tempo, bonita: se a pessoa se arrependeu, deve ser perdoada. Há igrejas que parecem odiar o pecador. A igreja apenas corrige sem massacrar. A disciplina é bíblica, mas o rancor e a maldade são satânicos.  E a igreja tem autoridade, sim, sobre os seus membros.

A DEFESA DE SEU MINISTÉRIO – Cps. 3-4

É lamentável que um obreiro competente como Paulo, fazendo a obra com seriedade e sofrendo para fazê-la, ainda tivesse que se defender de acusações maldosas. Presume-se que a pessoa errada em Corinto se aliara aos críticos de Paulo, que ele chamava de “falsos apóstolos” e que tentavam denegrir o seu trabalho. Assim, orquestraram uma campanha contra ele, visando desmoralizá-lo. Tais falsos apóstolos levavam cartas de recomendação de Jerusalém (dos cristãos judaizantes, cuja história já vimos no estudo de Atos) e apregoavam que Paulo não tinha tais cartas de recomendação de ninguém. Eles tinham credenciais e Paulo não tinha.

Além disto, eles o acusavam de falsidade (10.1-2) e de ser mundano (10.2-5). Os opositores de Paulo alegavam ter vida uma espiritual mais profunda que a dele (10-6-9). Diziam que sua presença era desprezível. Por isso ele faz sua defesa com tanto vigor.

Paulo alega que não precisa de cartas de recomendação (v. 1). A igreja era sua carta (v. 2). Ele a fundara (At 18.1, 8 e 11). Esta carta de recomendação, que era a igreja, que Paulo podia apresentar não fora escrita por homens. Era obra do Espírito de Deus (v. 3). Mas Paulo não se intimida e insiste em atacar os judaizantes. Foi ele, Paulo, quem provocou a reunião de Atos 15, o chamado “concílio de Jerusalém”, que separou definitivamente o cristianismo do judaísmo. Isto lhe trouxe muitos inimigos.  Mas ele combate os judaizantes. É ministro de uma nova aliança (v. 6), a aliança em Cristo que substitui a antiga, a de Moisés. A antiga aliança, o antigo ministério, ele chama de “ministério da morte” (v. 7), “ministério da condenação” (v. 9) e o declara como tendo sido provisório, sendo que a nova aliança, a feita em Cristo, é permanente (v. 11).  Até hoje, diz ele, os judeus têm um véu diante dos olhos, que só pode ser removido quando crêem em Cristo (vv. 14-16). Eles não conseguem enxergar. Os que querem a prevalência do Antigo Testamento sobre o Novo, de Moisés sobre Jesus, e do levitismo sobre a congregação têm um véu diante dos olhos.

No capítulo 11 ele fará uma comovente comparação entre ele e estes homens. Ele, Paulo, não é inferior a ninguém (11.5). A Linguagem de Hoje traduziu muito bem o sentido do texto grego: “Eu não acho que tenho menos valor do que esses tais superapóstolos”. Na tradução mais formal, podemos ter a idéia de que “excelentes apóstolos” se refira aos outros apóstolos de Jesus. E não é isto. Paulo está sendo irônico. Chama os judaizantes de “superapóstolos”.  Paulo não era tido como um bom orador, mas era um homem muito bem preparado (11.6). Sabia o que dizia.  Estes homens não são “super”, mas “falsos apóstolos” (no grego, pseudo-apóstolos), como lemos em 11.13. Em vez de ministros de Cristo, são ministros de Satanás (11.14-15). Se a linguagem parece dura, lembremos que Paulo tinha uma paixão: Cristo crucificado, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (1Co 2.2, Gl 2.20). Não admitia nada que diminuísse a pessoa de Jesus nem alguma possibilidade de salvação fora de Cristo, como os judaizantes faziam (alguns judaizantes contemporâneos ainda fazem), insistindo na observância da Lei (Gl 2.21).  Ele sabia que a estratégia era desmoralizá-lo, para poder desacreditar o que ele pregava. Mas Paulo pregava a Cristo crucificado e tinha suas credenciais. Entre elas, a vida gasta pelo evangelho. Outro lugar em que ele defende veemente a salvação exclusivamente por Cristo é em Gálatas. No fim da carta, parece que ele perdeu a paciência com os judaizantes e deixa a palavra de 6.17: “Daqui em diante ninguém me moleste; porque eu trago no meu corpo as marcas de Jesus”. Ele tem as marcas de Jesus Cristo em seu corpo. “Marcas” é o grego stigma, de onde vem “estigma”, aludindo a cicatrizes. Paulo tinha cicatrizes físicas e morais que provavam seu amor a Jesus.

A carta de recomendação de Paulo é a própria igreja, os convertidos que são frutos do seu ministério, e sua lealdade a Cristo. É por isto que ele não desanima (4.1). É fortalecido sempre por Cristo (4.7-11). Assim vai ele se gastando, dando a vida, morrendo na obra, para que a igreja viva (4.12). Novamente volta ele a dizer o porquê de não desanimar, em 4.16-18. Ele põe seu olhar no invisível, como, mais tarde, o autor de Hebreus dirá que Moisés fez (Hb 11.27).  É uma coisa quando olhamos para o visível, que são os problemas e as dificuldades pelas quais passamos. É outra, quando colocamos os olhos em Cristo. O texto de Hebreus 11.1-2 comporta muito bem aqui, neste contexto. A questão, no meio das lutas, é para quem olhamos. Pedro foi ter com Jesus, andando sobre as ondas do mar. Mas quando parou de olhar de Jesus e olhou para as águas afundou.

OS SOFRIMENTOS DE PAULO – Cps. 4, 6 e 11

Deus disse a Ananias que Paulo deveria sofrer muito pelo evangelho (At 9.16). Talvez boa parte dos vocacionados para o ministério e dos seminaristas pularia fora se ouvissem isto, quando de sua chamada. E também boa parcela dos membros da igreja desistiria se soubesse que sua vida cristã seria de lutas. Todos querem resultados imediatos. Isto é tão real  que até o bispo Macedo, em programa de televisão em 16 de fevereiro de 2001, pregou dizendo que os fiéis que freqüentam a Universal não devem esperar resultados imediatos, mas continuar enfrentando os seus problemas, dando um tempo para Deus.  Segundo ele, talvez leve algum tempo para a situação mudar. Porque todos querem evitar problemas. E, quando os têm, querem resolver de imediato. É a fé fast food.

Os sofrimentos anunciados por Deus começaram logo, quando do início de ministério de Paulo (At 9.22-25) e se estenderam, sem interrupção alguma, por mais de 30 anos, todo o tempo de seu ministério. Se há algo que impressiona, humanamente, em Paulo, é sua jubilosa capacidade de sofrer por Jesus.  Ele se regozijava em meio aos sofrimentos, como lemos em Colossenses 1.24 e exibia seus padecimentos como credenciais: 2Timóteo 3.10-11. Tanto que recomendou Timóteo a sofrê-las, como ele: 2Timóteo 4.5. E ele deixou bem claro que seguir a Cristo pode trazer aflições para a pessoa, como lemos em 2Coríntios 1.5-7. No entanto, é nesta carta que ele mais fala do que sofreu. Mas podemos fazer um retrospecto dos seus padecimentos, com base em Atos.

Logo depois de ser descido pelo muro da cidade dentro de um cesto, para escapar da fúria dos inimigos, Paulo foi pregar em Jerusalém e lá tentaram matá-lo (At 9.29). Foi expulso de Antioquia (At 13.50) teve que fugir de Icônio, para não ser apedrejado (At 14.5-6). Em Listra foi apedrejado até a inconsciência e arrastado para fora da cidade, porque pensaram que estava morto (At 14.19).  Em Filipos ele foi espancado com varas e colocado num tronco (At 16.23-24). Em Tessalônica, sua pregação provocou tumulto (At 17.5). Em Beréia, precisou sair às pressas (At 17.13-14), Em Corinto foi levado ao tribunal (At 18.12). Em Éfeso provou um grande tumulto que gerou a prisão de Gaio e Aristarco e só foi poupado porque os irmãos o impediram de sair (At 19.29-31). Em Corinto sua morte foi planejada (At 20.3). Em Jerusalém, só a atitude enérgica dos soldados romanos impediu que ele fosse morto (At 22.22-24). Por fim, foi preso como um malfeitor (2Tm 2.9) E condenado à morte (2Tm 4.6). Para os padrões de nossas igrejas, hoje, Paulo não seria aprovado em nenhuma Comissão de Sucessão Pastoral. Não era um relações públicas eficiente… Além de ser velho.

Além da declaração feita a Timóteo, em texto que já lemos, Paulo apresenta seus sofrimentos como credenciais também em 2Coríntios 11.23-27. Mas parece que quem mais o machucou foi a igreja. Ele deixa transparecer isso, em 2Coríntios 11.7-9, onde mostra estar bastante sentido com a atitude dos coríntios. Ele deveria ter sido elogiado pela igreja, e não combatido por ela (2Co 12.11). A igreja o fez chorar (2Co 12.21), mas ele continuava amando-a: 2Coríntios 6.11. É consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que os maiores sofrimentos de Paulo foram com esta igreja. Infelizmente, alguns membros de igreja sabem machucar com rara eficiência. Todos devemos cuidado para evitar isto.

A PESSOA DE CRISTO

Mas seria injustiça presumir que o assunto desta carta de Paulo seja ele mesmo ou seu ministério. Ele defende seu ministério, mas não por sua causa e sim por causa da pessoa de Cristo. E tampouco apresenta os sofrimentos como se fosse um coitadinho de quem todos devessem ter medo. Mas sofre conscientemente, por amor a Jesus. O assunto principal da epístola não é Paulo. É Jesus.  Se ele sofre por causa de Cristo, é consolado por Cristo (1.5). No meio das dificuldades, ele é conduzido em triunfo por Cristo (2.14). Por isto, cabe bem a pergunta: quem é Cristo, nesta carta de Paulo?

Ele é o reconciliador de Deus com os homens: 5.19. E isto não de forma passiva, como se ele fosse um instrumento inconsciente usado por Deus, mas ele é o próprio Deus. Esta nota é uma das mais brilhantes do Novo Testamento e de toda a mensagem cristã: Deus estava em Cristo. A idéia da encarnação da Divindade em uma pessoa é uma das pilastras da mensagem cristã. Cristo não era tão somente um enviado divino para realizar uma obra, mas o próprio Deus reconciliando o mundo consigo mesmo. A idéia de reconciliar é a de juntar duas partes que antes estavam separadas. Em Cristo, Deus e o homem podem se unir, novamente. Em Paulo esta consciência era tão forte que ele se sentia incumbido por Deus de exortar os homens à reconciliação, como lemos em 5.20.

Em 5.21, Cristo, que não conheceu pecado, foi feito pecado por nós. Deus o tornou uma oferta pelo nosso pecado, é o sentido do texto. A NTLH traduziu bem o sentido do texto, no original. No Antigo Testamento, o pecador precisa oferecer uma oferta para se tornar aceitável diante de Deus. Nós não podíamos oferecer nada, mas Deus ofereceu Cristo como oferta pelo pecado, por nós. Aquilo que nós não podíamos fazer, Deus Pai fez.

Jesus é o Filho de Deus (1.19) que ele anuncia. É também a imagem de Deus (4.4). “Imagem” é o grego eikon, que significa “espelho”. Jesus é o espelho de Deus. Quando olhamos no espelho, nós nos vemos exatamente como somos. Paulo faz uma boa ilustração, ao usar eikon. Quando Deus se olha no espelho, ele vê a Jesus. Da mesma forma, quem quiser ver a Deus, olhe para Jesus. Não faz sentido aquele corinho “Quero te ver”. Quer ver a Deus? Olhe para Jesus! Ele é Deus.

Cristo morreu por todos para que todos tenham vida (5.14-15). Sendo rico, ele se tornou pobre por amor de nós para nos enriquecer (8.9). Por isto Paulo submetia todo seu pensamento, toda a sua cultura a Cristo (10.5). Suas palavras em Colossenses 3.11 se aplicam à sua vida, como um todo: Cristo é tudo em todos.

A QUESTÃO DA OFERTA – Cps. 8 e 9

Paulo toca em uma questão que hoje nos é bastante delicada, a das ofertas. Mas era algo muito normal naquela época. Tão normal e tão aceita que praticamente não se fala sobre o assunto. Era ponto tranqüilo. Ele comenta que a igreja de Corinto levantava ofertas para os cristãos pobres da Judéia. As igrejas da Macedônia, que eram bem pobres, economicamente falando (8.2), também haviam levantado uma oferta para os cristãos da Judéia. Parece que Paulo tentou dissuadi-los, achando que eles mesmos eram economicamente necessitados, mas eles pediram a Paulo para contribuir, vendo isto como privilégio (8.4) e não como fardo. Em 8.5, Paulo deixa claro o fundamento da mordomia, analisando a atitude deles: primeiro a pessoa se dá ao Senhor. Depois dá os bens. O fundamento da mordomia cristã parte daqui: autodoação. Estas ofertas mencionadas não eram as ofertas para o sustento do culto, que naquela época se fazia nas casas, mas para ajudar os cristãos que começavam a ser expulsos das sinagogas, com as viúvas e órfãos precisando de sustento, e para o trabalho missionário.

Paulo diz que é aceitável segundo o que a pessoa tem e não segundo o que a pessoa não tem (8.12). Deus nunca nos pede o que não temos, mas espera de nós o que podemos fazer.

A igreja de Corinto, neste ponto, também é bastante consciente (9.1-20). Na realidade, a questão de contribuição nunca foi um problema sério para os judeus, a não ser no tempo de Neemias e de Ageu, que criticaram seus conterrâneos pela sua omissão. No caso de Neemias, sem sustento, os levitas foram para o campo e o culto foi esquecido. No caso de Ageu, a construção do templo foi abandonada.  Mas ofertar fazia parte do culto judaico, e depois, do cristão. Era algo enraizado na própria liturgia judaica. E se enraizou na liturgia cristã.

O texto de 9.7-8 se tornou um texto clássico, no cristianismo, para o ensino de ofertas. Primeiro, o fato de que Deus ama ao que dá com alegria. E, segundo, a bênção de dar: nunca faltam recursos a quem dá. Os versículos 10 e 11, a seguir, dão a medida disto.

A CONCLUSÃO

Chegando ao fim do escrito, Paulo deixa uma recomendação aos coríntios que deve servir para todos nós, em 13.5. Ele, Paulo, tem certeza de que não é reprovado, como diz em 13.6. E nós, aqui? “Este que vos escreve” receia que passaria “raspando”, com a nota mínima. Precisa melhorar, e muito.  Deus me incomode com isto e me dê força para melhorar. Mas cada um deve dar-se sua nota. Até mesmo porque não há segunda época.

Mas, além disto, podemos observar três lições maiores podem ser tiradas de 2Coríntios e aplicadas às nossas vidas:

1. Há necessidade de se respeitar os que trabalham na obra de Deus, nela gastando suas vidas. Quem escreve estas linhas repete isto sem mágoa e sem ressentimento, mas em nível de constatação: os obreiros sofrem mais nas mãos das pessoas do lado de dentro do que das pessoas do lado de fora. Volto a dizer: a igreja machuca mais os pastores que o mundo. É uma pena. A maior credencial de um ministro são as vidas transformadas pelo trabalho que ele realiza. Ele é apenas um instrumento, humano e falho, mas Deus se dignou a usá-lo.

2. A necessidade de liberalidade na contribuição. Não deve haver exploração nem manipulação, mas profunda consciência de que nossos recursos fazem a obra de Deus andar. A igreja não deve ser nem ter um império econômico, mas precisa de recursos financeiros. Que não devem vir de bingos e quermesses, mas de contribuição dos crentes. Há muito crente mesquinho que não contribui, e muito crente que é autoritário, que acha que dízimo é dele e que ele pode usar como deseja. Não se submete à autoridade da igreja.

3. O mais importante é o que Paulo mostra sobre a obra de reconciliação efetuada por Cristo. Por causa desta obra somos novas criaturas, fomos perdoados por Deus Pai, tornados seu povo e comissionados e proclamar a mesma reconciliação que provamos. A igreja é a comunidade reconciliada que proclama ao mundo que em Cristo Deus nos reconcilia consigo.

A conclusão, por fim, é em 13.13, com o texto que alguns chamam de “bênção apostólica”, que só Paulo usa, e só aqui. Na realidade, não há uma  bênção apostólica, no Novo Testamento. Nós convencionamos que o pastor deve despedir a congregação com esta frase de Paulo, que alguns adornam, e que chamamos de bênção dos apóstolos ou bênção apostólica.  Se o suporte bíblico é precário, a prática não é antibíblica. Deixe-se fazê-la. Mas a questão central é esta: apesar de tão magoado com a igreja, pode se despedir dela abençoando-a. Mas fiquemos com as palavras de 13.11: “Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco”.  Elas nos são um bom conselho.