O SÉCULO DAS TREVAS

Isaltino Gomes Coelho Filho

Mudar-me-ei para Macapá, Amapá, em julho. Leio diariamente dois jornais da cidade, pela Internet, para me familiarizar com meu futuro domicílio. Um dos jornais é o “Diário do Amapá”. Sua edição de 7.5.10 trouxe um editorial sob o título “Século das trevas”. O jornal comenta o assassinato de um homem de 37 anos, em Mazagão, interior do estado, com requintes de crueldade, por quatro delinqüentes.

O que é rotina nas grandes metrópoles ainda soa como novidade na cidade de Mazagão. O editorialista faz algumas observações que eu, particularmente, venho fazendo há anos. Ele se choca com o fato de que o século 21, que deveria ser o século das luzes, é a “Idade das trevas”. Parece ainda nutrir a visão do Iluminismo racionalista de que o progresso científico, econômico e social traria o novo Éden para a humanidade. É a visão ingênua que diz “Educai as crianças e não será preciso punir os homens”. Como os formadores de opinião são lentos em entender isto! Criaram uma visão mecanicista do homem. Ele é uma máquina que pode ser programada e condicionada e produzir os resultados que se esperam dele. Ele apenas responde a estímulos e a condicionamento social, quer sejam estes de ordem cultural ou econômica. Mas o articulista entende que o homem é corrupto e criminoso, apesar de receber educação.

A certa altura diz o editorial: “Vive-se hoje no Brasil, a mais a absoluta inversão de valores. O homem honesto é visto com desconfiança em muitos gabinetes oficiais. O homem correto, aquele que devolve ao dono aquilo que não é seu quando encontra, por acaso, uma quantia em dinheiro ou objeto de valor é chamado de otário. A mulher virtuosa é discriminada, como se a depravação moral que domina a sociedade fosse o correto e o normal”. Viu bem. Há uma absoluta inversão de valores. Cresce o cinismo e acua-se o que era visto como virtude. A maior parte das leis hoje, para exemplificar isto, é para tirar limites, e não para impô-los. Há uma espécie de “Liberou geral, galera!”, nos meios de comunicação e na cultura em geral. Se alguém discordar de minha posição religiosa, exerce seu direito de opção. Se eu discordar da opção sexual de alguém (eu achava que sexo não fosse opção, que viesse de “fábrica”) serei criminoso. Que radicalismo! Que parcialidade! Há um lento e laborioso processo de desconstrução de valores e da cultura, em geral. Acua-se cada vez a pessoa que tem valores e exalta-se quem os demole.

Caminho com o autor do editorial até um ponto. Dissocio-me da caminhada com ele quando ele diz que a causa de nossos males é a impunidade: “Infelizmente, a maior mazela de quantas se abatem sobre o Brasil de hoje e de sempre é a impunidade”. Creio que sua visão, aqui, foi pouco clara.

A impunidade é uma desgraça, mas não é a causa de nossas mazelas. Ela as amplia, mas nossas mazelas se devem ao pecado humano. A imagem de que o homem é bom, e que seus problemas são deficiências de educação e de bens, escassez de lazer e semelhantes, é um engodo. O século 20, que deveria ser o século das luzes, viu duas guerras mundiais. Viu monstros como Hitler, Stalin, Idi Amin, Bokassa, Mao Tse-Tung, etc. Não vimos o Éden. Vimos Treblinka e Auschwitz. Vimos Hiroshima e Nagasaki. Desde 1789, quando da Revolução Francesa, coroa do Iluminismo, não houve um só dia em que pelo menos duas nações não estivessem em guerra, na face da terra.

Não sou ingênuo e nutro uma péssima imagem do ser humano. E explico: sou um cristão, que crê na Bíblia, e ela menciona, repetidas vezes, que o homem é pecador, é mau, carrega a maldade dentro de si. Billy Graham disse bem: “O homem é exatamente que a Bíblia diz que ele é”. Não é a sociedade que torna o homem mau. Ele torna a sociedade má. Ele é um rei Midas às avessas. Tudo que Midas tocava se tornava em ouro. Tudo que o homem toca se arruína. A Bíblia diz que o homem é pecador e que seu problema é espiritual. Que ele precisa se acertar com Deus. Mas diariamente, quem crê em Deus, é ridicularizado. A fé cristã é mostrada como tolice de quem vive numa Idade das Trevas mental. A humanidade descrê de Deus, zomba de valores religiosos, apregoa que o homem é um macaco aperfeiçoado, apenas matéria, e espera que haja um comportamento digno do homem? Ora, se valemos tanto quanto um macaco, um feixe de capim ou um monte de estrume de boi, se somos apenas matéria, que dignidade há em nós ou no nosso semelhante? Se não há dignidade intrínseca do ser humano, por que esperar bondade dele? Por que praticar bondade? Por que esperar resultados morais se não há valores morais, por absoluta ausência de referenciais? Como bem disse Dostoievski, “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Sem um absoluto, tudo é relativo! Isto é acaciano! Destroem-se valores, zomba-se da retidão, reprimem-se os críticos da imoralidade, chamando-os de “fundamentalistas”, e se espera virtude? C, S. Lewis disse bem: “Caçoamos da honra e nos surpreendemos ao encontrar homens desonrados entre nós”.

E o editorial, bem escrito, termina com esta expressão: “E tal qual um novo Cícero, pergunto aos senhores da vida e da morte de todos nós: “Quousque tandem, abutere patiencia nostra…?”, ou seja, até quando – senhores da política – abusarão da nossa paciência?”.

Vou terminar parafraseando-o, também em latim: “Quousque tandem, abutere patientia divinae?”. Até quando os homens continuarão virando as costas para Deus, e acharão que são capazes de se curarem a si mesmos? Tentar resolver o problema do homem com recursos humanos é como tentar se levantar pelos cordões dos sapatos. O homem precisa de Deus. Precisa do evangelho de Jesus. Ele é tão corrupto e tão pecador, que muitos desfiguram o evangelho e o torcem para formar impérios econômicos. Se torcem coisas santas como o evangelho, por certo que com mais facilidade torcem os valores humanos.

O nosso século não é das luzes. É das trevas. E a Bíblia mostra que o pecado são trevas. Mostra, ainda, que Jesus é a luz. É num coração transformado por Jesus que o mundo pode ser melhorado. O resto é ingenuidade. O ingênuo não é o que crê no evangelho. Ingênuo, mesmo, é que não crê, que lhe vira as costas, e tenta mudar o mundo. É preciso muita fé para crer assim. E fé deste tamanho eu não tenho.