OS PARDAIS NOVAMENTE

Isaltino Gomes Coelho Filho

Escrevi três artigos sobre os pardais: “Deus cuida dos pardais – mas eu dou comida e água para eles”, “A volta dos pardais” e “Os pardais e a filosofia”. Este é o quarto, mas a lição veio de um colega, o Pr. Sérgio Vaz, presidente da Convenção Goiana, pastor da PIB de Urias Magalhães, em Goiânia. Em conversa comigo e com Meacir ele falou dos pardais que faziam ninho em sua varanda, onde estávamos. Alguém lhe recomendou que tirasse os ninhos, mas ele se recusou e deu as razões, que alisto a seguir.

A primeira razão é que ele viu um ninho de pardal. Disse que é uma bagunça, feito com lixo da cidade. Tendo se tornado urbano, o pardal pegou o que há de pior na cidade. Seu ninho tem de tudo. Além disso, ele não tem a arte do joão de barro, e faz um ninho muito feio. Mas entra e sai de casa cantando. O Pr. Sérgio comprou um colchão ortopédico, e ainda assim, segundo ele, por vezes deita e acorda sem muito humor. Como muitos de nós. O colchão do pardal é antiestético e não é ortopédico, mas ele vai dormir cantando e acorda cantando.

De manhã o pardal sai para procurar comida para si e os seus. Sai cantando para o ganha-pão. Há gente que sai resmungando. Ache comida ou não, ele volta para casa cantando. Numa padaria próxima à minha casa vi um pardal, num vôo rasante, pegar uma barata que saíra do monte de lenha, e levá-la para seu ninho. Um de meus genros, Renato Nishida, que é biólogo, me explicou que barata tem proteína, e o pardal a pica e distribui com seus filhotes. E eu reclamei de minha mãe que queria que eu comesse verduras!

O vento destrói o ninho do pardal, e ele, cantando, faz outro. Nunca se abate. E olhe que seu canto não é o do uirapuru. É um chilreio sem encanto. Mas o pardal canta, sempre canta, sejam quais forem as circunstâncias.

Há um corinho que eu gostava de cantar. En pasant, canto corinhos. Não canto bobagens nem heresias. Nem participo de tentativas de perpetrar assassinato contra a última flor do Lácio, inculta e bela.  Como Fernando Pessoa, digo que “a língua portuguesa é minha pátria”. Os corinhos não precisam ser banais, de teologia errada nem espancar a língua portuguesa. Mas voltemos ao corinho que eu cantava. Diz ele, se me lembro bem, porque a moda hoje são rios fluindo, correndo, e a gente bebendo deles (ainda terei barriga d’água com esses corinhos!):

Canta uma canção quando a noite chegar.

Quando em provação, ou em aflição.

Fácil é cantar quando brilha o sol.

Deves tu cantar quando o mal surgir.

É uma lição dos pardais. Mais uma. Devo-a ao colega goiano. Os pardais sempre cantam. Em qualquer circunstância. Por isso, nada de queixas ou de resmungos. Cantemos, pois o Deus que cuida dos pardais também cuida de nós. E, no dizer de Jesus, valemos muito mais que pardais, para o Pai celestial. Por que não cantar?