QUANDO A IGREJA É AFETADA PELO QUE HÁ DE PIOR NA CULTURA DO MUNDO

Isaltino Gomes Coelho Filho

Fui com a esposa à costureira, num ateliê ladeado por duas igrejas evangélicas, e outra em frente.  Da BR 040 até a quadra onde resido, a distância é de 2,3 km. Há treze igrejas evangélicas. Porque uma fechou. Após minha quadra há uma área de preservação ambiental. Na quadra seguinte, mais seis igrejas. Sem retórica: há mais igrejas que bares.

A proliferação de igrejas deveria ser saudável. Mas preocupa, pois boa parte delas não tem conteúdo. A placa “igreja” pode abrigar um grupo longe do conceito bíblico de igreja. Pode ser apenas um lugar onde pessoas se reúnem e cantam cânticos de auto-ajuda, fazem catarse, ouvem um discurso estimulante, mas sem alusão ao conteúdo do Novo Testamento, sem menção a Jesus. Às vezes paro na porta e observo o que se canta, prega e faz. Faixas de propaganda (a competição é feroz!) anunciam semana de posse, recuperação de bens, vitória sobre o Devorador, felicidade, prosperidade, cura, saúde, etc. Uma anunciava a semana para recuperar um amor perdido. É a teologia da dor de cotovelo. Outra dizia para levar peças de roupas, que seriam ungidas. Neste frenesi, uma anunciava “óleo ungido”. Como se unge óleo?

Perguntei a um obreiro de uma dessas igrejas por que não ficara em sua denominação, que é séria, e se ofereceu para dirigir um ponto de pregação, e crescer com o trabalho. Ele disse: “Quero ter o meu ministério!”.

Eis o ponto. As pessoas querem ter seu ministério. Parece que Jesus deixou uma franquia, gratuita por sinal, que qualquer um pode assumir. A ênfase hoje é nos ministérios de apóstolos, bispos e pastores. Eles lutam entre si, por poder, e alguém sai atirando contra seu grupo, e faz seu ministério. Ataca ex-colegas, a ex-denominação, e vai “servir a Deus por conta própria, conforme a visão que Deus lhe deu”. Julga-se um novo Lutero. Mas com causa pessoal.

Na realidade, três aspectos da cultura secular atual influenciam a proliferação das igrejas: (1) O individualismo e a seqüente rejeição de autoridade; (2) A superficialidade cultural; (3) A busca de felicidade. Comentarei cada um, rapidamente, vendo sua participação.

1. Sobre o individualismo: há uma ênfase exagerada no indivíduo sobre a instituição. Há muitos ministérios pedindo dinheiro para se manter. Não se subordinam a igreja alguma. Não se sabe a quem prestam contas do dinheiro e de suas atitudes. São autonormativos. Contornam a autoridade da igreja, pondo-se acima dela. Pegam carona na má vontade de crentes irados com a igreja, alguns com dificuldades de relacionamento e subordinação. Mas Deus não deu missão a pastores, e sim à igreja. Ele deu pastores à igreja, para ela cumprir sua missão (Ef 4.11), mas não deu a missão a pastores. No Novo Testamento, pastores são servos e não senhores da igreja. O primeiro envio de missionários foi feito pela igreja de Antioquia (At 13.1-3). A ênfase hoje é no obreiro. Há um forte culto à personalidade. Muita carreira solo. O sujeito perde uma eleição na sua denominação, funda seu ministério. Peca, recusa correção, funda seu ministério. Briga por dinheiro, funda seu ministério. Cultua-se o obreiro, e assim, homens são endeusados. A marca mais forte do individualismo é o foco na pessoa, recusando cooperação, solidariedade e subordinação. Os líderes de ministérios se atacam, brigam em bastidores, são dramáticos (um deles se dizia ameaçado de morte). Ninguém está acima da crítica nem é dono da igreja. Quando disseram a Lutero que seus seguidores estavam se chamando de luteranos, ele disse: “Quem sou eu? Quem é Lutero, para dar nome à igreja de Cristo? Eu sou um saco de vermes!”. Fica-me a impressão de que estão loteando a igreja de Jesus, erigindo impérios econômicos, à sombra de uma teologia manca segundo a qual, como filhos do Rei, temos direito ao melhor. Os pastores, elite dos filhos do Rei, merecem mais ainda. Os pastores somos servos de um homem que optou pela austeridade material: “Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20).

Ter recursos é melhor que a penúria. Mas Jesus não pode ser pretexto para formação de riquezas. Pastor não fez opção pela pobreza, mas não pode usar o ministério para enriquecer. Há gente querendo enriquecer, orgulhando-se, e dizendo que a prova de que Deus está do seu lado é sua riqueza material. Muito da dignidade do ministério se esvai pela ganância e voracidade material. Ouvi esta conversa, numa loja (tive que ouvir, a pessoa gritava no celular): “Irmã, aqui é a missionária Beltrana. Sabe aquela televisão? Tem aqui na loja Tal. Se quiser me dar, eu aceito!”. Isto é deprimente. Um obreiro de Jesus não coage pessoas a lhe presentearem. Tem dignidade. Deus cuida do obreiro fiel, e nada lhe falta. Mas ele não manifesta cupidez por coisas.

Os fiéis seguem o líder. Querem suas carências atendidas, sem compromisso. São assistentes, sem se engajar na igreja. Não são servos de Jesus e da igreja, mas filhos do Rei. O ministério do Pr. Sicrano lhes presta um serviço: satisfaz sua necessidade de adoração (leia-se: colocar suas emoções para fora), massageia-lhes o ego com mensagens tipo “Quem mexeu no meu queijo?”, espera contribuições e não pede engajamento na obra. Não prega o abandono do pecado. É a religião ideal: a pessoa paga e recebe o produto, um bem inelástico, que a deixará satisfeita. O fiel imita Mica: faz seu credo pessoal, escolhe seu sacerdote, paga, e espera a bênção (Jz 17 e 18). Mas no final, como Mica, poderá ficar sem dinheiro, sem seu sacerdote, e frustrado.

O individualismo triunfa sobre o grupo “igreja”. Tanto para o líder, posto acima da instituição (apesar dos seus defeitos, a igreja é instituição divina), como para o fiel, que paga para receber o que espera. O foco não é Cristo crucificado. É o homem. Não é o projeto de Deus. É o da pessoa.

2. Sobre a superficialidade cultural: o mundo é medíocre e promove uma cultura aguada. Isto se reflete no tipo de evangelho pregado e vivido nas igrejas. Honestamente: muitas vezes tenho vergonha de me dizer evangélico. O termo é sinônimo de ignorante, no meio secular. Seguimos a toada do mundo. Temos pregações fracas e cânticos medíocres, na letra e na música. A pobreza musical da maioria de nossos corinhos, pomposamente chamados de “louvor”, é tão notória que dispensa argumentação comprobatória. Só uma geração de poucas letras e fraco gosto musical se deleita com a maior parte eles.

A banalização midiática, aliada à visão de que toda manifestação cultural é rica, cheia de significado, nos fornece uma tranqueira pobre, dimensionada como bem cultural. Pichar é arte. Espancar uma bateria é arte. Borrões em tela são arte. Ajunte-se a preguiça cultural, pois nossa época é de fast food. Não se pesquisa, mas copia-se da Internet. Baixam-se sermões da Internet. O gerundismo mostra a dificuldade de se lidar com o idioma. Não se usa mais o verbo no infinitivo nem reflexivamente. É um tal de “você”, que aborrece. A obstetra dizia, em entrevista, ao repórter: “Quando você sente as dores do parto”. Nem querendo o repórter poderia sentir dores de parto. E vem o comentarista da Globo: “Quando você treina essa jogada, você sabe como é difícil”. Eu não treino jogada nenhuma, cara pálida. Escrevo uma coisa, o sujeito lê outra, e me desce o tacape por eu ter dito o que não disse. Bem, apenas 23% dos brasileiros conseguem ler e interpretar um texto. O nível cultural é fraquíssimo.

Pastor que estuda é ironizado. O professor é um fracassado. É melhor dar uma bola de futebol ao filho que colocá-lo a estudar. Neste contexto, as pessoas não têm capacidade de análise. Aceitam qualquer coisa. Afinal, como disse um político, livro é como aparelho de ginástica: a gente vê e corre. Ninguém quer ler. Quantos crentes lêem a Bíblia diariamente? Quantos já a leram toda? Soou-me absurdo uma pesquisa mostrando que mais da metade dos pastores nunca leu a Bíblia toda. Quantos lêem livros teológicos, estudam, preparam mensagens? Temos púlpitos fracos, de um lado, e gente desinteressada em ouvir alguma coisa, de outro. As pessoas não querem ler, nem ouvir. Querem falar e se soltar. Isto explica o “louvorismo” de nossas reuniões. Ele fornece sentimentos e sensações, mas nenhuma substância. O evangelho se torna um amontoado de sensações, e não a fé na pessoa de Jesus.

Despreparado, o rebanho se torna prato cheio para líderes sagazes. Formatado por imagens e não por letras, o indivíduo despreza a leitura. Gosta de tevê, com luzes, sons e movimentos. Somos uma cultura cada vez mais icônica e cada vez menos letrada. Todo o processo de educação religiosa de nossas igrejas se perde diante da imagem com movimento e som da igreja eletrônica.

A mediocridade do mundo migrou para a igreja. Ao invés de ser modelo, ela é cópia de um mundo pobre, de valores banais. A geração na qual fui adolescente, a dos anos sessentas, queria reformar o mundo. A atual quer o melhor do mundo. A igreja age assim. Ela quer o melhor do mundo, um mundo medíocre, e não mudá-lo.

3. A busca de felicidade. O mundo quer felicidade. Os crentes também a querem, e a igreja, para fidelizar clientes, a oferece. Não no céu, que vai demorar, mas aqui na terra. Esta busca infantil de felicidade, como se fosse uma mercadoria vendida em loja, é responsável por pregação que não corrige nem chama à santidade. Os cultos são roteirizados para que as pessoas se sintam bem, e saiam satisfeitas. A imperfeição e o desagradável devem ser varridos para baixo do tapete. Nos tempos do revival, muitas igrejas tinham os “bancos de confissão”, onde as pessoas que queriam confessar os pecados a Deus se sentavam, mostrando publicamente seu arrependimento. Hoje as pessoas são chamadas para receber a “oração poderosa que quebrará as correntes dos males da vida”.

A proclamação da cruz sumiu diante do oferecimento do trono. A situação de servos de Deus recuou diante do status de filhos do Rei, que reivindicam seus direitos. Embora haja vinte e quatro ocorrências no Novo Testamento sobre “vontade de Deus”, pregadores adoçam a boca de seus ouvintes dizendo que pedir segundo a vontade de Deus é falta de fé. Devemos exigir nossos direitos. Direito é mérito. Temos graça, não mérito. São a graça e a bondade de Deus que nos mantêm vivos. Há um evangelho antropocêntrico, com um Deus que nos deve e se vê obrigado a nós. Este baixo conceito de Deus fere sua dignidade, e distorce toda a teologia. O mantra de Tetzel, “Deus nosso Senhor não é mais Deus; confiou todo seu poder ao Papa”, se transmutou. Agora é “Deus nosso Senhor não é mais Deus; confiou todo seu poder ao ministério Tal”.

Esta visão responde pela perda de santidade e pelo triunfalismo infantil de tantos.   Confunde-se fé com arroubo e auto-suficiência. As pessoas firmam seus sonhos pessoais como sendo a vida cristã. Não anseiam pela vontade de Deus, nem aspiram à santidade. Querem ser felizes, alegam ter direitos, e ditam a agenda para Deus.

A mesquinhez de uma sociedade egoísta moldou a igreja. Quando uma igreja não contribui para fim denominacional ou missionário algum, não tem um missionário sequer, um ponto de pregação sequer, e gasta uma fábula com sua quadra de esportes, podemos perguntar: “Qual o conceito de igreja desses crentes?”. Buscam alegria, festa, bem-estar, felicidade. Encontrarão isto fora do projeto de Deus para eles? Há felicidade fora do ensino bíblico?

Alternativa? Sim, há. Uma igreja se reformando à luz da Escritura. Buscando seu rosto no Novo Testamento. Analisando sua prática litúrgica e todo o seu modo de ser à luz da Palavra. Uma volta ao Novo Testamento. Pastores e teólogos devem analisar suas pregações e ensinos à luz da Escritura. A Bíblia não pode ser interpretada pela cultura do mundo. Nem pela cultura da igreja. Estas devem ser avaliadas por ela. Precisamos retornar à Bíblia, ao evangelho da cruz, ao Cristo Exaltado, à pregação de um Deus santo e soberano.

As opções são uma nova Reforma e um novo Reavivamento (que não significa gritaria). Como disse Schaeffer: “Reforma se refere ao restabelecimento da doutrina pura; reavivamento se refere à restauração da vida cristã (…) Os grandes momentos na vida da igreja sucederam quando essas duas restaurações aconteceram simultaneamente: quando a igreja retornou à pura doutrina, e a vida dos cristãos conheceu o poder do Espírito Santo” (Death in the city, p. 12).

Precisamos de homens e mulheres comprometidos com a Bíblia, que amem a igreja, de espírito serviçal, que queiram glorificar ao Senhor Jesus. Assim, a cultura secular não triunfará sobre o evangelho, e o evangelho verdadeiro será conhecido no mundo.