“NO COMEÇO DEUS” (Gênesis 1.1-2, LH)

“No começo Deus criou o céu e a terra. A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água”.

Isaltino Gomes Coelho Filho

Quanta solenidade nestas palavras! Ao mesmo tempo, quanta profundidade! Assim começa tudo. Não havia nada, tudo era um vazio. Mas Deus estava lá. O impacto de “No começo Deus” se vê em Isaías 46.10 e 48.12, palavras destinadas ao povo na Babilônia. No meio da multidão de divindades pagãs, o Judá cativo devia lembrar que seu Deus é que era o Criador, que estava no começo e estará no fim. Foi dele a primeira palavra. Será dele a última palavra.

Mesmo criada a terra, não havia ninguém. Nada vivo. Só a Vida estava presente. Só o Senhor e Autor da Vida.  A Linguagem de Hoje diz que “a terra era um vazio”. O hebraico é tohû wâ bohû. Um rico jogo sonoro! Tohû dá a idéia de algo que não se pode agarrar porque é informe. Bohû dá a idéia de vácuo, de vazio. A terra era um nada. Apenas uma massa ígnea, gases, ainda informe. Mas Deus já estava lá. Estava lá quando tudo começou. Estará quando tudo terminar.

Deus sempre está primeiro. Ao povo cativo na Babilônia, ele encaminha vários sermões anunciando que estava agindo primeiro. Em 48.12 se lê: “O Deus Eterno diz: Escute, povo de Israel, o povo que eu escolhi! Eu, o Eterno, sou o único Deus: sou o primeiro e o último”. Ele ainda era Deus. Não morrera nem se aposentara. Ainda era o mesmo Criador: “Com as minhas mãos, coloquei a terra no seu lugar e estendi o céu. Dei uma ordem, e eles começaram a existir” (Is 48.13).

Ele é o Senhor da história do universo. Ele o criou. E ao seu povo ele diz que é também o Senhor da história dos homens. Para os cativos, ele suscitou um homem, Ciro, e o usará, porque o Criador é o Condutor da história, aquele que governa todas as coisas: “Reúnam-se todos e escutem! Nenhum dos deuses anunciou que ia acontecer isto: o homem que eu, o Deus Eterno, amo fará o que eu quero e com o meu poder atacará a Babilônia. Fui eu mesmo quem o chamou; dei a ordem, e ele veio. Eu farei com que tudo o que ele fizer dê certo. Agora, venham cá e escutem o que estou dizendo: desde o princípio, nunca falei em segredo e tenho governado todas as coisas desde que começaram…” (Is 48.14-16).

Deus tem o controle. Do mundo, da história, de nossas vidas pessoais. Quanta ansiedade, quanto medo, quanta agitação porque queremos que as coisas sejam da maneira que nos parece a certa, quando poderíamos dizer: “Creio que o Senhor fará!”. Ele planeja e leva ao ponto que deseja. Somos ansiosos porque não cremos em seu poder e queremos que nossa vontade prevaleça!

O evangelho de João começa com “No princípio” (Jo 1.1, Almeida). João é o Gênesis do Novo Testamento. O Criador está no começo, como em Gênesis. Mas aqui seu nome é “a Palavra”, título dado a Jesus: “A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e de verdade. E nós vimos a revelação da sua natureza divina, natureza que ele recebeu como Filho único do Pai” (Jo 1.14). Jesus estava lá, no começo: “A Palavra estava no mundo, e por meio dela Deus fez o mundo, mas o mundo não a conheceu” (Jo 1.10) e “E agora, Pai, dá-me na tua presença a mesma grandeza divina que eu tinha contigo antes de o mundo existir” (Jo 17.5). Paulo disse que Jesus “é a revelação visível do Deus invisível” (Cl 1.15). A palavra “revelação” (LH) ou “imagem” (Almeida) é o grego eíkon, que deu “ícone”. Significa “espelho”. Quando Deus se olha no espelho, vê o rosto de Jesus. O Deus Criador tem o rosto de Jesus.

Jesus estava no começo, estava no meio (“Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” – Gl 4.4, RA), estará no fim (“Homens da Galiléia, por que vocês estão aí olhando para o céu? Esse Jesus que estava com vocês e que foi levado para o céu voltará do mesmo modo que vocês o viram subir” – At 1.11).

Deus estava no começo quando não havia nada. Ainda está. Quando não houver nada, ele estará. No começo, Deus. Jesus com ele. No meio, Deus. Jesus com ele. No fim, Deus. Jesus com ele. Jesus é o Criador, o Senhor e consumador da história. Não esqueçamos que o cristianismo é ele, que a vida é ele, que nosso futuro é com ele. E que nosso presente deve ser com ele.