GOLEIRO MEDIANO, MAU ATOR, CARÁTER DUVIDOSO

Isaltino Gomes Coelho Filho

Numa noite dessas, pouco antes de dormir, liguei a televisão para ver se havia algo que não fosse gente pulando. Passei por um canal, que transmitia Ponte Preta e Portuguesa de Desportos, pela 2ª. divisão. Não vi o jogo (nem sei qual foi o placar), porque há muito que perdi o interesse pelo futebol. A seleção do Dunga contribuiu para isso. Além isso, Ponte e Portuguesa só mesmo para os apaixonados pelos dois. Mas nem minha filha Nelya, pontepretana, se interessou.

Liguei no exato momento em que um jogador da Ponte se chocou com o goleiro da Portuguesa. Estendeu-lhe a mão para se desculpar, mas ele, ostensiva e grosseiramente, a recusou. O atacante da Ponte pôs-lhe a mão no braço, para lhe falar, o goleiro se desviou, deu dois passos e se jogou nao chão, segurando o braço como se tivesse levado uma navalhada, contorcendo-se em dores. Cena ridícula! Queria cavar a expulsão do adversário.

Isto virou moda no futebol. Ao invés de mostrarem talento futebolístico, os jogadores querem mostrar talento teatral. Geralmente faltam-lhes ambos. Parece que a preocupação é mais a de conseguir a expulsão de um adversário do que fazer um gol. Não pensam que assim são desleais com um colega de profissão. Torcedores desequilibrados vêem o outro time como inimigo, mas os jogadores são colegas de profissão. Poderão estar no mesmo clube amanhã. Não pensam nisso. Nem que estão mostrando falta de caráter. Mais que falta de talento, o jogador da Lusa mostrou falta de caráter.

Há uma crise de caráter em várias esferas da vida hoje. O político mente, diz que não sabia de nada, que não sabia que depositaram dinheiro em sua conta, e por aí vai.  Algumas igrejas evangélicas recebem visitas de políticos que lhes prometem favores em troca de votos. São políticos aborteiros, e que tentam enquadrar discordantes do homossexualismo como se fossem criminosos, mas que ao visitar as igrejas que se posicionam contra aborto e casamento homossexual, mentem, se calando. Como mentem as igrejas que sabem disso, mas não perguntam, ou ignoram, mesmo cientes da posição contrária à sua, porque querem favores.

Falta caráter a obreiros que mentem às igrejas, ocultando suas posições doutrinárias, e depois tentam dar um golpe, mudando tudo para se beneficiar. Aliás, muitos desses obreiros não têm convicções doutrinárias. É até difícil dizer em que crêem. Querem apenas uma estrutura já organizada para montarem sua franquia religiosa. Muita gente quer ter “seu ministério”, que em algumas ocasiões parece sinônimo de  “seu negócio próprio”.

A pregação se torna adocicada, para atrair pessoas. A igreja deixa de “anunciar todo o conselho de Deus” (At 20.27), e se torna emitente de um discurso parecido com o de uma ONG religiosa cuja finalidade é deixar as pessoas felizes. É assustador o que estão fazendo com o evangelho, com a igreja e com o nome de Jesus! É uma ânsia por elevar seu próprio nome que chega a lembrar o rei de Babilônia, ao dizer “acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono” (Is 14.13). Há gente querendo elevar seu nome!  É uma luta por espaço que deixa atônito! É uma petição de dinheiro que choca! Há, por exemplo, um vídeo circulando na Internet de um obreiro pedindo 30% de oferta do valor do aluguel que o cidadão sem casa própria paga, que assim Deus lhe possibilitará o sonho da casa própria. É chocante! Meus Deus, a que ponto chegamos! Usar a carência e a miséria alheias para arrancar dinheiro! Será mesmo de Deus explorar a fé e a ingenuidade das pessoas? Cevar-se na sua carência é algo espiritual? Casos assim se multiplicam, e o pior é que quando se aponta isso, tais pessoas se abespinham, endurecem o coração, sem sequer orar: “Deus, estou fazendo o correto?”. Elas nunca pensam que podem estar pecando, mas à semelhança do goleiro da Portuguesa, quem esbarra nelas é seu inimigo, que deve ser posto à margem. Seus discordantes são pecadores, frios, inimigos da obra. Não lhes passa pela cabeça que Deus pode estar falando por eles, para os trazerem de volta ao bom senso! Assim, se colocam acima da crítica, o que nunca é bom para um obreiro.

O goleiro da Portuguesa, cujo nome ignoro, queria mais cavar a expulsão de um competidor do que ser um jogador sério. Fez um papelão, mostrando uma absoluta ausência de dignidade. Mentiu escandalosamente, para prejudicar alguém e tirar partido disso, ao invés de cumprir sua missão de jogar futebol. Mas piores que ele são os que se preocupam mais em tirar proveito pessoal do que cumprir sua missão de liderança religiosa. Um líder cristão tem a missão de ser servo. De Deus e da igreja. Há gente usando o nome de Deus em vão, e usando a igreja para montar império econômico. Isso é blasfêmia. Alegam que não devem ser criticados porque são “ungidos do Senhor”, mas não evidenciam temor ao Senhor que dizem que os ungiu, na sua voracidade por dinheiro e publicidade. O homem que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9.58) tem se tornado pretexto para enriquecimento pessoal. O evangelho foi transformado em um negócio rendoso. O mundo sabe disso porque vê isso e, assim, deixa de levar a igreja a sério. Apenas alguns crentes ingênuos levam isto a sério e se zangam, alegando que se deve ter respeito com os exploradores. Alguns até perdem até o respeito no trato com os que denunciam os sem lisura. Respeito, para eles, é só para proteger seu ídolo de pés de barro.

O goleiro da Portuguesa foi um péssimo ator, e um caráter duvidoso. Não sei se na área espiritual quem age como ele, tentando dar o golpe, é melhor.

Ah, antes que me digam “Não julgueis!”, cito “Pois, que me importa julgar os que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro?” (1Co 5.12) e “Ou não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo há de ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas?” (1Co 6.2). Devemos julgar os que são de dentro e devemos julgar os que estão usando o nome de Jesus para enriquecer.

A crise da igreja é uma crise de caráter. Que Deus tenha misericórdia de seu povo! Que o Espírito de Deus quebrante sua igreja e seus obreiros, trazendo-os de volta ao caminho sem escândalo. Sejamos íntegros, sem querer obter vantagem sobre os demais. Creiamos no poder do Espírito Santo. Ele não é um fio desencapado dando choque nas pessoas para elas gritarem nos cultos. É Jesus conosco, orientando, abrindo portas, e conduzindo. Ele produz retidão e integridade. Quando o Espírito dirige, o mundo respeita porque vê Deus agindo. Mas quando manipulamos pessoas, tiramos da igreja sua credibilidade e enxovalhamos o nome de Deus. Não suceda isso conosco.