“FIQUEI COM MEDO…”

“Eu ouvi a tua voz, quando estavas passeando pelo jardim, e fiquei com medo porque estava nu. Por isso me escondi” (Gênesis 3.10)

Isaltino Gomes Coelho Filho

É a primeira vez que aparece a palavra “medo”, na Bíblia. É conseqüência da queda. A razão da queda foi o egoísmo: “Vocês serão como Deus…” (v. 5). O amor a si, o desejo de ser mais e maior, levou à queda. Egoísmo. Egoísmo é amor a si mesmo. O que motivou a queda do primeiro casal foi amor desfocado. Deixou de amar a Deus, de lhe dar o primeiro lugar, e colocou-se acima dele. O teólogo Manson definiu o pecado como sendo a rejeição dos dez mandamentos e a instituição do décimo primeiro: “Tu te amarás a ti mesmo sobre todas as coisas”.

Criado para amar a Deus, o homem sabe, instintivamente, que há algo errado consigo. O homem mesquinho pode se amar muito e sentir-se satisfeito consigo, mas é vazio e sabe, no fundo, que lhe falta alguma coisa. Jesus disse isso ao moço rico, que se presumia virtuoso: “Falta-te uma coisa…” (Lc 18.22). A vida egoísta produz esta sensação: falta alguma coisa. Não se alcança o almejado, como o primeiro casal descobriu.

Na queda, o homem ouviu o Tentador ao invés de ouvir a Deus. Quis ser como Deus, e se tornou parecido com o Tentador. Há um jogo de palavras aqui, que nos esclarece o porquê do medo.  A serpente era “esperta”, “sagaz” ou “astuta”, conforme as traduções. O hebraico é arum, foneticamente parecido, e segundo alguns, da mesma raiz de “nu” (eirum). Quis ser como Deus, mas ao pecar se tornou semelhante à serpente. O pecado não nos torna parecidos com Deus, mas com a serpente. E isto nos faz ter medo de Deus. O pecado nos afasta dele e nos faz temê-lo, porque nos assemelha ao inimigo.

Jesus Cristo é o segundo Adão. Ele inaugura a segunda criação, mas difere do primeiro Adão: “Mas existe uma diferença entre o pecado de Adão e o presente que Deus nos dá. De fato, muitos morreram por causa do pecado de um só homem; mas a graça de Deus é muito maior, e ele dá a salvação gratuitamente a muitos, por meio da graça de um só homem, que é Jesus Cristo” (Rm 5.15).  Em Adão, todos caímos. Em Jesus, todos podemos nos levantar. Por isso, quem está em Adão, ainda é primeira criação, e teme. Quem é de Jesus é a segunda criação, não tem medo.

O segundo Adão é o oposto do primeiro. Tentado, não caiu. Recusou-se a buscar seu interesse e colocou o Pai sempre acima dele. Em sua vida não há um único gesto ou palavra de egoísmo. Ele foi o homem para os outros. Sua vida consistiu em agradar ao Pai. E sua morte foi pelos homens. Ele é a personificação do amor. Ele pode nos conduzir a uma vida sem medo. Segundo o Dr. Taylor, o mandamento mais repetido de Jesus foi “Não temais”. Ele acalma quem crê nele. Ele dá coragem a quem se entrega a ele. Quando o amamos, não tememos: “No amor não há medo; o amor completo afasta o medo. Portanto, naquele que tem medo o amor não está completo, porque o medo mostra que existe castigo” (1Jo 4.18). Em Jesus não há culpa nem castigo: “Agora já não existe nenhuma condenação para os que estão unidos com Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Por isso, não tema. Creia, somente.