“O ETERNO PÔS UM SINAL EM CAIM”

“(…) Em seguida o Eterno pôs um sinal em Caim para que, se alguém o encontrasse, não o matasse” (Gênesis 4.15)

Isaltino Gomes Coelho Filho

Adolescente, crente novo, gostava de ouvir irmãos mais experientes para aprender. Logo descobri que não podia levar todos a sério. Houve um que, judiciosamente, me explicou que a raça negra era maldita, pois Deus a amaldiçoara em Caim. Deus pôs nele um sinal, que era a cor negra, e ele foi para a região da África. Por isso a África era atrasada.

É certo que a África enfrenta problemas econômicos. Que nada têm a ver com Caim. Nem ela é maldita por causa dele. Diz Gênesis 10.32: “São essas as famílias dos filhos de Noé, nação por nação, de acordo com as várias linhas de descendentes. Depois do dilúvio todas as nações da terra descenderam de Noé”. As raças descendem de Noé, e a povoação de toda a terra se dá após o dilúvio. O exotismo não é boa hermenêutica e a Bíblia não pode oferecer suporte para perspectivas estrambóticas de novidadeiros. Respeito à Bíblia, à África e à boa exegese faz bem.

Que sinal foi este? A Bíblia não diz e o bom senso manda que calemos. Quando ela fala, nós falamos. Quando ela se cala, nós calamos. A palavra hebraica é ‘ôt. Significa sinal, marca, prodígio, evento. O termo abarca seis categorias diferentes de uso. Aparece em Gênesis 1.14, quando o sol e a lua são sinais. Em Gênesis 9.13 e 17.11, onde o arco-íris e a circuncisão são “sinal” da aliança. É o termo para “sinal”, em Josué 4.6, para as pedras tiradas do Jordão. É usado para os sinais do Egito, figura de juízo. O termo é muito amplo para se definir um sentido. Quando mais para receber uma caracterização tão radical, de estigmatizar uma raça.

O sinal não foi maldição, mas proteção. Quem encontrasse Caim não deveria matá-lo. Tampouco Deus o ameaçou com morte por causa de seu pecado.  Caim temeu que, sendo peregrino, fosse presa fácil para salteadores. O que chama a atenção no episódio não é o castigo de Deus, mas seu cuidado para com um pecador. Deus já o punira: seria errante. Mas não competia a ninguém matá-lo, por qualquer motivo. Deus pode odiar o pecado e pode trazer juízo ao pecador, mas isso é atribuição sua.

O episódio de Caim nos fala da santidade de Deus.  As obras de Caim eram más. O Targum Palestinense, paráfrase aramaica usada na sinagoga, relata que Caim não cria na moralidade do mundo nem no governo de Deus. Há um eco desta versão em 1João 3.12: “Não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e matou o próprio irmão. E por que o matou? Porque o que Caim fazia era mau, e o que o seu irmão fazia era bom”. O pecador não tem como permanecer na presença de Deus. A expulsão de Caim mostra isso, como a de Adão e Eva já mostrara.

O sinal de Caim nos fala da graça: Deus ama e cuida do pecador. Ele se preocupa com a integridade do pecador. Haverá juízo, mas este compete a Deus, e não aos homens. Por pior que seja o pecado, Deus estende sua graça ao pecador. O ladrão arrependido na cruz prova isso. Ele blasfemava de Jesus, e pouco antes de morrer caiu em si, num rasgo de fé. Jesus lhe deu a gloriosa promessa de que ambos estariam juntos no paraíso, no mesmo dia.

Boa lembrança para nós. Alguns segmentos da igreja parecem odiar o pecador. Aliás, alguns segmentos da igreja são autofágicos: parecem odiar a própria igreja. Não devemos amar o mundo moral (1Jo 2.15), mas devemos amar o mundo gente, o mundo pessoas. Deus ama o mundo (Jo 3.16) e lhe deu um sinal, o maior de todos, para provar seu interesse por ele: a cruz de Jesus. A cruz é o grande sinal de que Deus se interessa pelos “caims” de hoje, e deseja salvá-los. Não aceita seu comportamento, eles não podem viver na sua presença, mas ele se interessa pelos pecadores.

O sinal de Caim é proteção e não julgamento. É graça, não juízo. Assim é Deus. Gracioso com todos os pecadores. Assim deve ser a igreja: santa, mas manifestadora da graça de Deus ao pecador.