A MONARQUIA EM ISRAEL

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, para a PIB de Nova Odessa, em 2 de julho de 2002

A visão bíblica sobre a monarquia em Israel é um pouco ambígua. Há duas posições bem nítidas, é forçoso reconhecer, sem escamotear a verdade. Uma é a que vemos no primeiro livro de Samuel. Em 1Samuel 8.6, ao receber o pedido do povo por um rei, ele se desgostou. Havia certa lógica em seu sentimento. Era o sacerdote, sem dúvida alguma, o grande sacerdote de Israel. A forma de governo era sacerdotal, e ele perderia parte de seu poder. Ele até viu como rejeição a si, pessoalmente, como lemos na palavra que Deus lhe dirige, em 8.7, que o agravo não é a ele, Samuel. Talvez isto explique, humanamente, o choque entre ele e Saul, que, no fundo, foi a luta entre um poder que saiu e outro que entrou. Mais ou menos como os conflitos que vemos, hoje, em igrejas que ficam sem pastor, e este chega e esbarra com um líder leigo que se acostumou em ser o centro de atenções e decisões e se sente desprestigiado. Houve um conflito de personalidades.

Mas é em 1Samuel 8.6-8 que esta visão negativa para com a monarquia é bem mais acentuada: “Mas pareceu mal aos olhos de Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei para nos julgar. Então Samuel orou ao Senhor. Disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não é a ti que têm rejeitado, porém a mim, para que eu não reine sobre eles. Conforme todas as obras que fizeram desde o dia em que os tirei do Egito até o dia de hoje, deixando-me a mim e servindo a outros deuses, assim também fazem a ti”. O enfoque é completamente negativo.

No entanto, o livro de Juízes apresenta uma visão favorável à monarquia. O livro é, claramente, uma apologia do poder centralizado, particularmente nas mãos de um rei, e não de um sacerdote ou líder carismático eventual, como o foram os juízes. Sua expressão final é bem clara: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Jz 21.25).  A expressão aparece anteriormente em 17.6, 18.1 e 19.1. Em 17.6, a declaração está associada com o episódio da idolatria de Mica, o homem que aluga um sacerdote para si, privatizando a religião. Em 18.1, ela aparece no caso dos danitas, que ainda não tinham seu problema de terra resolvido, tomaram Laís, que era de outra tribo, a de Efraim, e se envolveram em uma questão com a religião particular de Mica. Em 19.1, a expressão se liga a um caso de abuso sexual. Os males sociais e os pecados são atribuídos à falta de um poder central, mais especificamente, à monarquia. A monarquia é vista com bons olhos, em Juízes.

Mas temos mais um problema. Em Juízes, Gideão foi convidado para ser rei e se recusou, dizendo que o rei deveria ser o Senhor (8.22-23). O texto favorece a situação de domínio sacerdotal, o regime teocrático, ou, mais especificamente “sacerdocrático”, com desculpas pelo péssimo neologismo.  Abimeleque se ofereceu como rei (9.1-6), o que provocou uma reação emocional de Jotão. Mas a morte de Abimeleque fez cessar a incipiente monarquia e houve um retorno ao sistema de juízes, com Tola, e ratificado com Jair. A monarquia é ensaiada, mas não concretizada, em Juízes. É ansiada, mas não consumada. As sementes foram lançadas.

MAIS SIMPATIA COM A MONARQUIA: O LIVRO DE RUTE E A SUA INCORPORAÇÃO PELA LEI MOSAICA

O livro de Rute, que as senhoras de nossas igrejas estudam para ver a amizade feminina, não tem esta preocupação central, a de mostrar a amizade entre duas mulheres. É, na realidade, outra obra que faz a apologia da monarquia. O primeiro versículo mostra que o cenário é na época dos juízes (1.1). Há fome, fome tal que obriga as pessoas a saírem de Israel. Alguma coisa está errada no tempo dos juízes, é o ensaio. A última palavra do livro é Davi (4.22). O livro é uma ponte entre o juizado, mostrado em um período da fome, e a monarquia. Mas não se trata da monarquia como sistema, e sim a monarquia de Davi, já o segundo rei. O livro é pós-davídico, ou seja, foi escrito após Davi. Talvez tenha sido escrito até mesmo no período do exílio, para reforçar as esperanças de um novo rei, como fora Davi. Os dois limites são bem claros. O livro é para justificar as origens de Davi, o grande e maior rei de Israel. Mas se inicia mostrando fome no tempo dos juízes. Seu tema sugere uma apologia da monarquia e da dinastia davídica.

Dificilmente se poderia considerar a monarquia uma catástrofe tão grande, com dois livros no Antigo Testamento justificando-a. O livro de Juízes faz a sua apologia, e o de Rute é um cartão de apresentação de Davi. Isto vai nos ajudar a nos posicionarmos um pouco mais equilibradamente em nossas interpretações. Com base em alguns comentários que se fazem sobre a monarquia, parece que Deus foi surpreendido por ela, que não a queria, mas os homens a impuseram a ele, e ele, meio a contragosto, teve que aceitá-la. Devemos levar em conta em conta que Deuteronômio 17.14-20 traz a monarquia como algo previsto, incorporado à lei, e prescreve, inclusive, os deveres do rei. A monarquia está prevista na lei, portanto. Não é intrusa ao propósito divino. Ele não foi pego de surpresa. Ele não é o patético Deus do teísmo aberto.

O PROBLEMA DA MONARQUIA

Do ponto de vista sacerdotal, a monarquia foi problemática. Ela cortou os poderes dos sacerdotes e os reduziu ao ofício religioso. Seria uma tentativa de secularizar o poder decisório. Os sacerdotes foram confinados aos sacrifícios religiosos, e mais tarde se aliaram ao poder civil. Os profetas é que se chocaram contra o rei, mas os sacerdotes (exceção do que enfrentou Urias) se aliaram ao poder. Aliás, esta é uma questão que se repete há séculos. O ofício religioso, com razoável constância, ambiciona o domínio temporal.  As religiões falam do céu, mas tentam estabelecer um domínio aqui na terra.  Os pastores estudam Teologia, e depois opinam sobre Economia e tecem comentários sociológicos. A linha entre os dois poderes, o religioso e o temporal, é constantemente apagada, muito mais vezes pelo poder religioso.

A monarquia teve um problema enorme. Segundo Deuteronômio, o rei deveria proclamar a lei e ensiná-la ao povo. Ele seria rei em nome de Iahweh. Entre os orientais, o rei era filho da divindade nacional, como entre os cananeus. No Egito, era a encarnação da própria divindade nacional. Entre os hebreus, deveria ser o representante do Deus nacional, Iahweh. Após a divisão do reino unido em Israel, no Norte, e Judá, no Sul, os reis se tornaram promotores da idolatria. Em 1Reis 12 encontramos a divisão do reino unido. Israel, o Norte, nasceu sob o signo da idolatria. Todos os reis de Israel, sem exceção, foram idólatras, adorando o bezerro de ouro. Em Judá, o Sul, houve reis idólatras, mas houve reis piedosos como Uzias, Josias, Ezequias e Asa.

A influência para o mal, na monarquia, foi muito maior que a influência para o bem. Os reis idólatras, em Judá, deixaram marcas muito mais profundas que os reis piedosos. Isto não é contradição nem enigma. O mal é muito forte. Pode-se adquirir doença de alguém, mas não se pega saúde de alguém. Vemos isto nas palavras de Ageu 2.12-14: “Se alguém levar na aba de suas vestes carne santa, e com a sua aba tocar no pão, ou no guisado, ou no vinho, ou no azeite, ou em qualquer outro mantimento, ficará este santificado? E os sacerdotes responderam: Não. Então perguntou Ageu: Se alguém, que for contaminado pelo contato com o corpo morto, tocar nalguma destas coisas, ficará ela imunda? E os sacerdotes responderam: Ficará imunda. Ao que respondeu Ageu, dizendo: Assim é este povo, e assim é esta nação diante de mim, diz o Senhor; assim é toda a obra das suas mãos; e tudo o que ali oferecem imundo é”.

O maior exemplo disto é o que nos diz 2Reis 24.3-4: “Foi, na verdade, por ordem do Senhor que isto veio sobre Judá para removê-lo de diante da sua face, por causa de todos os pecados cometidos por Manassés, bem como por causa do sangue inocente que ele derramou; pois encheu Jerusalém de sangue inocente; e por isso o Senhor não quis perdoar”. “Manassés foi ou não perdoado?”, poderá perguntar alguém. O texto não está falando de perdão em termos do ensino do Novo Testamento. Manassés foi reconduzido ao poder, como 2Crônicas nos mostra. Mas as raízes de sua idolatria ficaram tão arraigadas em 55 anos de governo (2Cr 33.1), que sua breve reforma não logrou continuidade. Tanto que em dois anos seu filho Amom conseguiu reverter o que o pai fizera após sua mudança (2Cr 33.21-22). Nem o rei Josias, em 31 anos (2Cr 34.1), conseguiu modificar o quadro. Tudo o que conseguiu foi que a profetisa Hulda dissesse coisas boas sobre sua descendência, mas a nação estava arruinada. Pastores, seminaristas e líderes leigos em geral em nossas igrejas e na estrutura denominacional, deveriam refletir seriamente sobre o exemplo de Manassés. Há gente que é tão ruinosa que suas sementes são como tiririca. Nunca podem ser consideradas totalmente extirpadas. Há líder que em vez de semear trigo semeia tiririca. Joio ainda pode ser arrancado. Tiririca é uma praga. Voltando à monarquia, ela foi uma desgraça para a nação por causa dos reis idólatras.

Mas devemos levar algo em conta. Se não tivesse havido a monarquia, haveria a idolatria. Em Êxodo 32, assim que Moisés desce do Sinai, o povo já está envolvido com a idolatria, adorando o bezerro de ouro, em culto cananeu, com orgia sexual, que nossa Versão Revisada, de maneira eufemística traduziu como “levantou-se para folgar” (Êx 32.6). A monarquia não criou a idolatria, mas o poder central a facilitou.

A monarquia foi ruim? O problema não foi a monarquia em, como instituição. O problema foi o homem. Ele é pecador em qualquer sistema. No patriarcado, no sistema de clãs, no juizado, no sistema monárquico, em regime militar e em democracia. Os males que aconteceram por causa da monarquia aconteceriam em outro sistema. Afinal, os filhos de Eli eram sacerdotes e juízes, e eram corruptos (1Sm 2.12-17). O juizado e o governo sacerdotal não eram garantia de espiritualidade. Na igreja primitiva, quando tudo ia bem, de vento em popa, veio a falsidade de Ananias e Safira (At 5)  e logo depois a murmuração de uma parcela da membresia da igreja (At 6).

A VANTAGEM DA MONARQUIA

A monarquia trouxe benefícios para Israel, e não se pode ignorá-los. O primeiro e mais forte foi a manutenção da unidade nacional. Ela deu um senso de povo, de organização social, que não se nota em Juízes. Em momentos de crise, Deus levantava um juiz que liderava o povo. Mas uma nação precisa de mais que líderes eventuais para ter identidade nacional. A institucionalização da monarquia pela lei, atribuindo deveres e responsabilidades ao rei, mostra que o próprio Deus atribuiu méritos à monarquia. Ela deveria ser o instrumento para que o povo fosse instruído dentro da vontade de Iahweh.

“Como o têm todas as nações”, foi a base do povo para pedir um rei. Esta frase deve ser bem pensada. O poder centralizado era visto como sinal de segurança. Havia certo sentido. Um núcleo para decidir, em vez de reuniões de conselhos, de grupos, de tribos enviando representantes para tomada de decisões. Mas o problema foi o desejo de ser cópia, em vez de ser original. Isto invadiu outras áreas da vida israelita, inclusive a área espiritual. Em vez de ser original, no ponto de vista espiritual, a nação se tornou cópia, seguindo a outras divindades.

Mas a monarquia trouxe algumas vantagens. Uma delas foi a centralização do culto, o que sucedeu com Davi.  Em 2Samuel 7 vemos o interesse de Davi em edificar um templo ao Senhor. Isto é mais que o desejo de construir um prédio. Era o desejo de fixar Iahweh como o Deus nacional e centralizar o culto em Jerusalém. Esta fixação e esta centralização fariam com que oculto fosse mantido puro. Havia um grupo fixo, embora renovável, os levitas, para o culto. Haveria um templo só em uma cidade. Uma religião nacional, fixada em um ponto geográfico, nas mãos de um grupo que se reproduziria teologicamente, sem novidades.

Uma segunda vantagem foi a institucionalização de Davi e sua família, como padrão monárquico. As falhas de Davi nunca impediram nem apagaram isto: ele é o rei padrão. E sua família seria uma família de reis. Veja-se o texto de 2Samuel 7.16: “A tua casa, porém, e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre”. Os reis descendentes de Davi poderiam falhar, mas isto não faria com que Deus os abandonasse. Lemos em 2Samuel 7.14-15: “Eu lhe serei pai, e ele me será filho. E, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens; mas não retirarei dele a minha benignidade como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti”. A alusão é a Salomão. Iahweh não lhe retiraria a sua benignidade. O hebraico é hesed, o termo para o amor do pacto. Nenhuma falha dos reis que sucedessem a Davi anularia o pacto que ele fez com Davi. O texto de 2Samuel 7 é muito importante na teologia do Antigo Testamento. É o momento da aliança de Iahweh com Davi, a chamada aliança davídica. A partir daqui, todo o Antigo Testamento órbita ao redor de Davi. Aqui está o significado maior da monarquia. O seu maior vulto não é um sacerdote, mas um rei. Tanto que o Messias passou a ser visto como um novo Davi. Lemos em Ezequiel 34.23-24:” E suscitarei sobre elas um só pastor para as apascentar, o meu servo Davi. Ele as apascentará, e lhes servirá de pastor. E eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o Senhor, o disse”.

É explicável. O reinado de Davi foi o momento de maior segurança em Israel. Apesar de tantos elogios que fazemos a Salomão, seu reinado foi uma catástrofe. Ele introduziu a mais bruta idolatria em Israel.  O autor de Crônicas, favorável à linhagem de Davi, omite o desastre de Salomão, tecendo-lhe apenas elogios. Mas o autor de Reis não age assim. Tanto que em 2Reis usa todo o capítulo 11 para mostrar que Salomão arruinou Israel com sua idolatria. 1Reis 11.7 nos mostra que ele instituiu o culto a Moloque, com sacrifício de crianças, em Jerusalém. E 1Reis 11.9-13 mostra que o maior vulto do reinado de Salomão foi Davi. Mas fiquemos com Davi. No cativeiro, época de desastre econômico e político, o povo sentiu saudades do passado e desejou uma volta aos tempos áureos. Por isto que Davi acaba sendo evocado como o grande rei que viria, um símbolo do Messias. O messianismo em Israel é, na realidade, um desdobramento do davidismo político.

O REFLEXO DA MONARQUIA DAVÍDICA OU DO DAVIDISMO EM ISRAEL

Nos tempos de Jesus, sob dominação romana, os judeus esperavam um novo Davi. Veja-se qual é a primeira declaração do Novo Testamento sobre Jesus, em Mateus 1.1. Escrevendo para judeus, Mateus quer deixar bem claro que Jesus é o Davi prometido. O reino chegou, é a tônica da pregação de Jesus. E ele tem autoridade para dize-lo, pois é descendente de Davi.

A última palavra de Jesus, no Novo Testamento, está em Apocalipse 22.16: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã”. Ele é a raiz de Davi, é da sua descendência. O Novo Testamento se abre e se fecha falando de Davi. E no meio da abertura e do encerramento, está a pessoa de Jesus.

Com isto podemos fazer uma pergunta e respondê-la: “a monarquia foi uma catástrofe?”. A resposta me parece ser esta: “Não, a monarquia era inevitável e era necessária”. E lembro que se o governo monárquico produziu a institucionalização da idolatria, foi o governo sacerdotal que tramou e conseguiu a morte de Jesus. Sacerdotes não são melhores que reis. São pecadores, também. E algumas das pessoas mais cruéis que o mundo conheceu foram pessoas profundamente religiosas.

Somos cristãos, vivemos em regime democrático e presidencialista. Mas também esperamos um rei. Isto prova que a monarquia deixou marcas até em nossa teologia. Qual de nós não aguarda, com ansiedade, a concretização do reino, e a chegada do Rei?

CONCLUSÃO

Estas considerações sobre a monarquia devem nos levar a um ponto. A história não surpreende a Deus. A monarquia não o frustrou, Saul não o frustrou, como a rejeição de Israel ao seu rei, o Davi que é Jesus, não o frustrou. Deus nunca é frustrado pelos homens, no sentido de ser pego de surpresa e precisar refazer seus planos. E devem nos fazer parar em um outro ponto: também esperamos pelo novo Davi, o Messias de Deus, Jesus de Nazaré. Também viveremos sob uma monarquia, e sob o domínio de um Grande Rei.