E COMEÇA A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Certo dia o Deus Eterno disse a Abrão: -Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. Os seus descendentes vão formar uma grande nação. Eu o abençoarei, o seu nome será famoso, e você será uma bênção para os outros” (Gênesis12. 1-2)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Neste texto começa a história da salvação. Dois componentes muito fortes da teologia da salvação já surgem aqui, e muito bem delineados: Deus fala e o homem responde. Deus falando é a graça. O homem respondendo é a fé. A salvação tem a graça do Deus que fala. E tem a fé, que é a resposta do homem. Salvação é junção de graça e fé: “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la” (Ef 2.8-9).

Abrão, que fora mencionado no capítulo anterior, é o personagem humano central desta história da salvação, a história de graça e fé. Por isso ele é chamado de “o pai da fé” com toda a justiça. Três verbos mostram o desafio de Deus e seu caráter de homem de fé: “saia”, “vá” e “mostrarei”. Eles nos ensinam o que é fé. Ouve-se muito sobre Abrão hoje. Por exemplo, no neopentecostalismo, ele nos sinaliza como prosperar através da obediência (geralmente reduzida ao ato de contribuir). Só que ele já era rico, muito rico, antes de se comprometer com Deus: “Abrão levou a sua mulher Sarai, o seu sobrinho Ló, filho do seu irmão, e todas as riquezas e escravos que havia conseguido em Harã” (Gn 12.5). O pano de fundo de sua fé não foi a possibilidade de obtenção de riquezas. Na realidade, elas nem contam, nesta história. Foram um agravo, porque para obedecer, o que é a essência da fé, teve que arriscar suas riquezas pelo deserto.

“Saia” é o primeiro verbo. A graça é um desafio para rompermos com nossa vida, com o estabelecido. A fé responde a este desafio entendendo que crer na Palavra de Deus é arriscar-se a mudanças. Graça e fé se amalgamam na vida do fiel levando-o a romper com a fixidez, a ousar, a aventurar-se num futuro não delineado. A fé não pede credenciais. Crê somente. Não pede garantias. Crê que quem chama tem autoridade para fazê-lo. Se vierem coisas boas, vieram. Foi o propósito de Deus. Se vierem coisas ruins, vieram. Foi o propósito de Deus. Foi assim com Paulo: “Eu mesmo vou mostrar a Saulo tudo o que ele terá de sofrer por minha causa” (At 9.16). O propósito de Deus na graça é mais importante que tudo. Ele tem projetos e nós devemos cumpri-los. A graça chama para uma nova vida, para novas experiências, para lugares novos. Respeito muito a obreiros que ficam trinta anos num mesmo campo ou igreja. E admiro-os. Devem amar muito aquele lugar. Mas será que não há um pouco de medo em ousar e mudar? Pelo menos um obreiro me disse que teve medo de arriscar sua segurança e estabilidade, saindo de um lugar onde tinha o controle de tudo. Graça e fé são sinônimas de aventuras com Deus. E ter aventuras com Deus é fantástico.

“Vá” é o segundo verbo. A fé obedece. Ela não apenas nos capacita a abrirmos mão do que temos, mas nos empolga a seguirmos em frente para ver o que virá. A fé não pode ser dimensionada apenas como paciência. Muitas vezes é ação. Porque certo tipo de paciência se assemelha mais a resignação que esperar pelo agir de Deus. Resignação pode até ser falta de fé porque é entrega dos pontos. Mas a fé crê. Ela não entrega os pontos. Cede a direção dos eventos a Deus, aceita o rumo que ele dá, mas não por falta de opções, e sim porque tem certeza de que o Senhor quer assim. Se Deus disse assim, assim será feito. Mas a fé também é dinâmica. Fé não são arroubos ou declarações pomposas, nem o que chamam hoje de “atos proféticos”, mas é simplesmente obediência. Lembro-me de Micaías: “Juro pelo Eterno, o Deus vivo, que eu falarei o que o meu Deus mandar!” (2Cr 18.13). A fé cumpre e descansa. Conheci um executivo de uma dessas missões que vivem pela fé, e que se jactava disso, que tinha úlceras nervosas. A fé obedece com tranqüilidade. Faz o que deve fazer com naturalidade, sem alarde. É para fazer assim!

“Mostrarei. A terra não fora especificada. Ainda seria mostrada. Deus já sabia qual era, mas Abrão não sabia. A graça é soberana. Revela e manifesta até onde quer. A fé é confiante. Se Deus falou que fará, por certo que fará. Fé é crer no que ainda não foi mostrado: “Meus queridos amigos e amigas, agora nós somos filhos de Deus, mas ainda não sabemos o que vamos ser. Porém sabemos isto: Quando Cristo aparecer, ficaremos parecidos com ele, pois o veremos como ele realmente é” (1Jo 3.2). Fé é confiança inabalável no futuro, mesmo quando este ainda é incerto. A racionalidade diria: “Abrão, isso é uma fria”! A fé sequer considera qualquer hipótese contrária. Ela não teme as exigências de Deus. Teme apenas desobedecer. Para a fé nada é pior que não crer ou que duvidar, porque é sua antítese. As exigências de Deus sempre são oportunidades. A fé entende que ele não está obrigado a nós e nada nos deve. A fé exulta com desafios, porque poderá crescer. A fé crê no que não vê: “A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver” (Hb 11.1). Vamos, então, à terra desconhecida!

Graça e fé. Deus e o homem. Chamado e resposta. Ordem e cumprimento. As duas se complementam e são sinais de indizíveis aventuras enriquecedoras da vida. Bendita seja a graça de Deus! Abençoado é quem a ela se apega, pela fé. A pessoa que tem fé vive aventuras indizíveis!