O CORVO E A POMBA

“No fim de quarenta dias, Noé abriu a janela que havia feito na barca e soltou um corvo, que ficou voando de um lado para outro, esperando que a terra secasse. Depois Noé soltou uma pomba a fim de ver se a terra já estava seca; mas a pomba não achou lugar para pousar porque a terra ainda estava toda coberta de água. Aí Noé estendeu a mão, pegou a pomba e a pôs dentro da barca. Noé esperou mais sete dias e soltou a pomba de novo. Ela voltou à tardinha, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé ficou sabendo que a água havia baixado” (Gênesis 8.6-11)

Isaltino Gomes Coelho Filho

O dilúvio é a antítese da criação. A criação fez do caos um cosmos. O dilúvio fez do cosmos um caos. A criação é ação de Deus. O dilúvio é reação de Deus. A criação é obra da graça. O dilúvio é obra do juízo. Findo o dilúvio, Noé envia um corvo para, por meio dele, sondar o ambiente. O corvo, sendo carnívoro, evidentemente encontrou corpos flutuando na água. Ninguém os sepultara. Neles pousava, deles se alimentava e até que terra se secasse, voava de um lado para o outro. Isto é, retornava à arca à noite para dormir. A pomba não pousa sobre cadáveres, e retornou a Noé. Depois de uma semana trouxe uma folha de oliveira. Por isso, esta é o símbolo da paz.

No Oriente, o corvo estava ligado a artes mágicas.  É verdade que conforme 1Reis 17.2-7 corvos alimentaram Elias. Porque Deus quis assim. Mas no geral, sua figura se relacionava ao mal. Eram considerados imundos (Nm 11.15) e fazem parte da categoria de “aves de rapina”, que em Gênesis 15.11 simbolizam as forças do mal que queriam interromper o processo de aliança em Abraão e Iahweh.

A pomba é um animal puro, usado nos sacrifícios, servindo, assim, ao culto a Deus. Em Cânticos 1.15 e 4.1, é empregada como símbolo de pureza. Era oferecida em sacrifício no ato de purificação da mulher que dera à luz (Lv 12.6 e 14.22). Não é de estranhar que, no nascimento de um novo mundo, uma pomba se faça presente. E que a pomba seja o símbolo do Espírito Santo: “Logo que foi batizado, Jesus saiu da água. O céu se abriu, e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre ele” (Mt 3.16).

Há pessoas tipo corvo. Nutrem-se do pútrido, do mal, não portam boas notícias, e apenas se preocupam consigo. O corvo se alimentava dos cadáveres e retornava ao teto da arca para dormir. Ela só lhe servia para isso. O corvo quer benefícios e cuida apenas de sua vidinha. Há pessoas tipo pomba. Elas são puras. Elas são conectadas ao culto. Elas trazem boas notícias. O corvo cuida de si. A pomba é útil. O corvo é símbolo do mal. A pomba se liga ao culto.

Infelizmente há crentes corvos e felizmente há crentes pombas. Há aqueles que enxergam tão-somente suas necessidades, esvoaçam de um lugar para o outro, desfrutam os benefícios, mas nada acrescentam de positivo à experiência dos outros. São os corvos. São a presença do mal na vida da igreja. Aliás, impressiona como o mal se faz presente na vida da igreja. Por vezes, na vida de mestres. E de teólogos! Dinesh D’Souza, em “A verdade sobre o cristianismo” menciona os cristãos de teologia liberal, que “assumiram uma espécie de missão contrária: em vez de serem os missionários da Igreja para mundo, eles se tornaram os missionários do mundo para a Igreja” (p. 23). Triste verdade! E há os que atacam e combatem a igreja com um vigor que não têm para evangelizar! São corvos.

Há os crentes pombas! Graciosos, portadores de boas notícias, enriquecedores da experiência alheia! São puros e estão ligados ao ato de ação de graças e ao ato de purificação. O Espírito Santo enche a vida deles. São crentes cujas vidas demonstram vivência de culto! Graças a Deus porque são muitos e têm mantido a obra de Deus de pé.

Corvo ou pomba? Peço a Deus que me ajude a ser uma pomba, e nunca um corvo. E que Deus, em sua graça, faça de você um cristão pomba, nunca um cristão corvo! Corvo, não; pomba, sim!