O PERIGO DE UM MAU INSTRUTOR…

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da IBC de Macapá, 28.11.10

Manhã cedo, vinha para a igreja, com Meacir. A Av. Pe. Júlio é nosso caminho (cá pra nós: a Lagoa dos Índios é linda!). Em frente ao Santa Lúcia há uma faixa de pedestres e um deles a atravessava. O Ford Ka branco parou em cima da faixa. Já vinha irregularmente, sobre a divisória entre duas pistas de rolamento. O motorista falava ao celular. O pior: era um veículo de auto-escola. Não é à toa que o trânsito é como é. Os instrutores não praticam o que ensinam. Assim, há alunos que aprendem macetes para conseguir a habilitação, mas que não sabem dirigir. Apenas fazem o carro andar. Os instrutores são cegos guiando cegos. Bem disse Jesus: “… se um cego guiar outro cego, ambos cairão no barranco” (Mt 15.14).

Na vida espiritual isso é terrível. A igreja de Jesus deveria ser modelo para o mundo, mas padece dos mesmos problemas do mundo. Deveria instruí-lo no caminho do Senhor, pois o conhece, mas o transgride. Parte da desorientação do mundo se deve à falta de sinalização clara por parte da igreja. Os crentes brigam por picuinhas, as igrejas se dividem por estilo musical e lutas por poder, têm rachas por liderança e dinheiro. Depois dizem ao mundo que “Jesus dá paz”. O mundo olha para a igreja e vê gente briguenta! Vê gente na trincheira, defendendo seus pontos de vista com unhas e dentes, e usando Deus como pretexto. Não a leva a sério.

Um instrutor de trânsito deve cumprir o que ensina. E a igreja deve viver o que prega. Veja esta dura crítica de Paulo aos judeus: “Mas se tu és chamado judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens na lei a forma da ciência e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Assim pois, por vossa causa, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios”(Rm 2.17-24). Tire “judeu” e coloque “cristão”. Tire “lei” e coloque “evangelho”. Não nos diz respeito?

A questão é: vivemos o evangelho? Internalizamos em nossa vida as exigências do reino ou as formulamos para os outros? Seguir a Cristo é muito mais que ter uma passagem de primeira classe por este mundo, buscando bênção e cantando que “nenhum mal chegará à minha casa”. É aceitar o chamado para a santidade!

Generalizar é problemático, mas a radiografia da igreja evangélica no Brasil é de uma igreja doente. Ela tem elefantíase e pensa que é forte. Sofre de DDA (Distúrbio de déficit de atenção) e pensa que é ativa no Senhor. Confunde barulho com santidade. Sabe o que deve fazer e diz aos outros, mas nem sempre faz.

Precisamos de membros de igrejas saudáveis. Comprometidos, misericordiosos, envolvidos com o reino e solidários com o todo. Há muitos queixosos e poucos engajados. Não “queime” a faixa, não ande em duas pistas e não se distraia. Sabendo o que deve fazer, faça-o. “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 17.13).