O PROFETA JONAS

Quarta  conferência teológica preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a PIB de Nova Odessa, SP, 5/7/1

Boa parte das discussões no livro de Jonas são sobre o peixe ou sobre a historicidade do evento. Perde-se muito tempo debatendo se Jonas é um relato de algo realmente sucedido, parábola ou alegoria. Já li livros dedicando espaço enorme para provar que um peixe pode engolir um homem e vomitá-lo, vivo, depois. Não creio que o livro tenha sido escrito com este propósito. Na realidade, creio que isto é absolutamente irrelevante. Há um sentido em seu conteúdo, mais que na sua forma. E é nele que devemos centrar o nosso interesse.  Também não creio que a discussão sobre o peixe seja sinal de ortodoxia, como pensam alguns. É sinal de perda de oportunidade. De desperdício de material. O que Jonas nos ensina não está aqui. Há muito desperdício nesta discussão.

O livro é uma obra literária bem construída. São quatro capítulos, sendo cada um uma parte do todo, deixando um gancho para o posterior. O relato é linear, indo dum ponto neutro, banal, num crescendo, até chegar a uma situação em que nenhuma palavra mais deve ser acrescentada. Do ponto de vista literário, é uma obra perfeita. Os capítulos, inclusive, são razoavelmente uniformes, em tamanho. E o livro termina num clímax. É preciso entender isto. Na parte textual, o livro se encerra com uma pergunta, que fica sem resposta.  Há, no final, uma pergunta de Deus sobre Deus, dirigida a Jonas, que fica sem resposta. Mas é um engano presumir que ele termina sem resposta, como se pensa. Não é um livro incompleto. Termina exatamente como deve terminar: não há nada para se dizer. Deus faz uma pergunta a Jonas, mas esta é inútil. É uma pergunta retórica. Não há resposta. É, na realidade, uma repreensão. Como se dissesse: “Você está preocupado com uma planta, que não lhe custou nada, que você não plantou, nem adubou nem cuidou. Mas com gente, com uma cidade inteira, não”. A mesquinhez de Jonas fica exposta nesta pergunta. É um homem caprichoso com seus conceitos. As coisas devem ser feitas como ele deseja.

Como disse um amigo meu, “Jonas é o bumbo da festa”. Todo mundo quer bater nele. É até agradável criticar um sujeito tão cheio de defeitos, assim. E também, Jonas dá motivos para ser criticado.  Mas há um perigo nesta atitude. É que, batendo nele, batemos em nós mesmos. Porque fazemos o que ele faz, muitas vezes. Se pensarmos direitinho, veremos que muitas de nossas esquisitices religiosas estão retratadas nas suas atitudes. Com isto em mente, vamos a Jonas.

  1. O CONTEXTO DE JONAS

Que Jonas existiu, não há dúvidas. Ele é filho de Amitai (1.1), cujo nome significa “minha verdade”. Bem interessante. Jonas tem a sua verdade. Este é o nome de seu pai.  Seu nome significa “pomba”, mas como bem disse Pape, “Gavião teria sido mais apropriado” [1]. Pape disse “Gavião” porque era inglês naturalizado canadense. Se fosse brasileiro diria mesmo “Urubu”. Ele é da tribo de Zebulom, já que nasceu em Gate.  Seu nome aparece em 2Reis 14.25. é a única citação dele, no Antigo Testamento, fora do seu livro. Isto nos permite situá-lo no reinado de Jeroboão II, entre 794-753. Foi contemporâneo de Amós.

O tempo era de prosperidade e um pouco de quietude política, em termos de relações internacionais. Nínive estava razoavelmente quieta. Mas a tensão entre Israel e Assíria, de quem Nínive era capital, nunca deixou de existir. As pequenas nações do Oriente sempre tiveram com a Assíria a mesma relação que um animalzinho tem com uma serpente voraz: medo e a certeza de, mais dia menos dia, chegaria a sua vez.  Isto pode explicar o porquê da relutância de Jonas em ir a Nínive. Era melhor que Nínive fosse destruída. Ele via isto muito bem. Será que só Deus não entendia isto? Este é o problema com Deus: ele não consegue entender como nós entendemos nem faz as coisas como nós desejamos. Faz do modo dele.

Na realidade, o contexto econômico e político de Jonas pouco têm a ver com a sua mensagem. Não precisamos estudar a época de Jonas, mas apenas o caráter de Jonas. Curiosamente, sua mensagem, do ponto de vista de conteúdo, não é relevante. Nada do que Jonas pregou faz diferença para nós. Suas palavras nada acrescentam. Se o que ele pregou não estivesse na Bíblia, não faria diferença.  O relevante não é o que ele diz. É o que ele fez. Isto é sério.  Quando um pregador é mais lembrado pelos seus erros do que pela sua mensagem, algo está errado.  Pensemos em nós mesmos, porque podemos ser mais conhecidos pelos nossos erros que pela nossa pregação.

  1. UMA MIRADA NO LIVRO DE JONAS

A construção do livro é bem elaborada, como já foi dito. Mas a melhor maneira de entender sua mensagem é verificando sua estrutura. Porque o profeta, propriamente dito, não ensina muito. O que o livro mostra sobre ele, sim. A estrutura percebida por Mora, em seu livro Jonas [2], é excelente.

Ele divide o livro em duas partes. A primeira vai de 1.1 até 2.11. A segunda, de 3.1 até 4.11. Ambas as divisões começam com a expressão técnica “veio a palavra do Senhor a Jonas”. Cada uma das divisões tem três subdivisões, que são:

Deus envia Jonas em missão aos pagãos (1.1 a 1.3  e 3.1 a 3.4)

Deus e os pagãos (1.4 a 1.16 e 3.5 a 3.10)

Deus e Jonas (2.1 a 2.11 e 4.1 a 4.11).

No meu livro Jonas, Nosso Contemporâneo [3] observo que este esboço de Mora tem a vantagem de mostrar que o sujeito do livro não é o peixe nem mesmo Jonas. É Deus. A obra começa com “a palavra do Senhor” e se encerra com o Senhor falando. A palavra de Iahweh comanda o processo, desenvolve-o e o conclui. O livro não ensina sobre o peixe. Ensina sobre Deus. Deus é o sujeito das ações e o tema do livro. Até mesmo a pergunta final é bastante curiosa e reveladora da didática do autor: trata-se de uma pergunta de Deus sobre Deus. É isto que deve ser notado: há, em Jonas, uma personagem que domina o cenário: Iahweh. Ele está sempre presente no livro, em primeiro plano, mesmo que em alguns momentos pareça oculto. Ele conduz as coisas como deseja.  O livro é um belo testemunho sobre Deus. Mais do que sobre Jonas.

E encerremos estas considerações mais uma vez com Mora: “Este plano deixa estranhamente na sombra o peixe de Jonas. Voluntariamente. Com efeito, o peixe só aparece duas vezes no texto (2.1 e 2.11), em dois versículos apenas dos quarenta e oito que o livro conta. Este peixe que foi obsessão para a imagina judaica e a cristã não é o centro da narrativa. Não passa do instrumento providencial que traz Jonas de volta ao seu ponto de partida” [4]. Evitemos, portanto, gastar tempo com o desnecessário e centremo-nos no essencial.

  1. A PESSOA DE JONAS

Estranha figura! Prega um sermão curtíssimo. Como bem lembrou Kelley, “outro ponto interessante é que Jonas pregou uma mensagem que na sua presente forma em hebraico consiste somente de cinco palavras” [5]. Com um “sermãozinho” de nada, consegue aquilo que é o sonho de todo pregador: o arrependimento de toda uma cidade! Normalmente os pregadores se queixam de não obterem resposta positiva aos seus apelos à conversão. Jonas nem mesmo pregou conversão. Pregou destruição. A cidade se converte e ele se queixa. O livro é assim mesmo: cheio de ironias. Seu autor, que pode não ter sido Jonas, que no livro é sempre “ele” e nunca “eu”, tem um incrível senso de humor.

Ele provou a misericórdia de Deus de como poucos homens  a provaram. Foram três dias no ventre de um peixe. Por que três dias? Mais tarde,  Jesus tomará esta figura como emblema do que acontecerá com ele. Mas os três dias de Jonas não foram, especificamente, para dar base à pregação de Jesus. Três dias era o tempo que os judeus supunham ser o tempo necessário para se regressar do xeol, o mundo dos mortos [6]. Ele regressou no limite exato do tempo.  Viu a morte bem pertinho.  Sua oração, um autêntico salmo, no capítulo 2, mostra isso: “desci até à terra, cujos ferrolhos se correram sobre mim para sempre…”.  (v. 6). Ele viu o xeol se fechar sobre ele. Deus o trouxe de volta.

Mas este homem era profundamente insensível.  Sua falta de sensibilidade se nota em quatro atitudes. Primeira: ele vai dormir no porão do navio, indiferente à tempestade que se abate sobre todos. Segunda: na aflição dos marinheiros, ele continua indiferente e só quando a sorte (ou azar) cai sobre ele é que ele diz ser o culpado. Terceira: ele se assenta para ver a destruição. Parece ansioso para que ela suceda. Quarta: ele se queixa porque Deus é compassivo e misericordioso. Mais uma vez, o autor nos brinda com sua ironia. Não fossem a compaixão e a misericórdia de Iahweh, Jonas teria morrido afogado. É salvo por um peixe. De[pis é salvo de morrer no ventre de um peixe. Ele se queixa dos atributos de Deus que o mantiveram vivo!

Jonas tem bom conhecimento bíblico. Na sua briga com Deus, alista os atributos divinos. Na sua oração, cita trechos do Antigo Testamento. Conhecia bem a sua Bíblia, fazia afirmações teológicas, mas era insuportável como pessoa: sem nenhuma misericórdia e desejando sempre que sua vontade prevalecesse. Isso me assusta. Fico deprimido porque muitas vezes procedo como Jonas. Conheço a Bíblia, cito passagens de cor, faço afirmações teológicas, mas deixo a desejar como gente. Isso me incomoda porque algumas das pessoas mais bem doutrinadas e mais bem versadas na Bíblia, das que conheci, foram as pessoas mais intratáveis que vi. Santos insuportáveis são um absurdo. Algumas pessoas são tão “santas” que se tornaram intratáveis, criaturas humanas horrorosas!

O relacionamento de Jonas com Iahweh é mais uma das ironias do autor do livro. Inquirido pelos marinheiros, ele diz que é hebreu e teme ao Senhor (1.9). Teme nada! Tanto não teme que desafia! Diz que teme, mas foge, discute, discorda, se queixa. Jonas é profundamente contraditório. Suas palavras e suas ações não coincidem.

Mas a esquisitice de Jonas se vê também na sua atitude de se assentar para “ver o que aconteceria à cidade” (4.5). Ele é um missionário a Nínive, mas é um quisto na terra aonde vai pregar. Não faz parte da cidade nem da cultura. Dá o seu recado e vai para a sombra ver o que vai acontecer. Não vemos muitos de nós aqui? Nunca nos inserimos na vida da cidade onde estamos, não entendemos sua cultura, sua gente, não nos envolvemos com nada. Pregamos e ficamos do lado de fora para ver o que vai acontecer. Fazemos a nossa parte, mas de um modo tão seco, que aquilo tudo não nos diz respeito. Precisamos amar o lugar aonde estamos. É onde Deus nos pôs.  Precisamos amar as pessoas a quem pregamos. São o alvo de nossa pregação. Não lidamos com conceitos abstratos. Lidamos com gente, com vidas humanas, com lares, com famílias. As pessoas não são números para somar na estatística da igreja. São gente, criada à imagem e semelhança de Deus. E lembremos que servir a Deus é algo que não se pode fazer de forma mecânica e impessoal. Só se pode servir a Deus de forma existencial e passional. O serviço cristão é uma paixão.

Também vejo muitos de nós em Jonas, e às vezes, muito de mim mesmo, ao ver sua queixa e sua amargura porque as coisas não saíram como ele esperava. Há pessoas que têm uma visão particular, toda sua, do reino de Deus. E querem que os caminhos do reino sejam os seus, que as coisas sucedam como na sua ótica. Quanto crentes amargurados, queixosos, rabugentos, reclamando de tudo, dos irmãos, da igreja, de Deus. Todo mundo está errado, só eles estão certos. Que é isto, senão a mentalidade de Jonas?

4. A FIGURA DOS PAGÃOS

Mais uma comprovação do senso de ironia do redator de Jonas: a forma como ele mostra os pagãos. Isso deve nos alertar. Sempre pensamos nos incrédulos, como chamamos os de fora, como pessoas espiritualmente  inferiores. Será assim?

O navio está a afundar. Os marinheiros pagãos se entregam à atividade religiosa, mesmo que equivocada. Eles não têm as luzes espirituais de Jonas. Este, dorme, absolutamente indiferente ao mundo, ao que se passa ao seu redor. Jonas diz que teme a Iahweh (1.9). Eles vão além: “estes homens se encheram de grande temor” (1.10).  Jonas não se importa com o destino deles, o que é notado pelo mestre do navio (1.6). Eles se importam com a vida de Jonas e relutam em jogá-lo ao mar (1.13).  Jonas não se constrangeu em expô-los ao perigo.

O rei de Nínive ouve a pregação de Jonas, enche-se de terror e proclama um jejum nacional, humilha-se diante de Deus (3.6-9). Jonas nunca se humilha. É sempre arrogante diante de Deus.  Jonas se parece com muito membro de igreja: dono da verdade.  Sabe de tudo e sempre está certo. Nínive se converteu (3.10). Jonas continua na mesma batida, na mesma toada.  Ao argumentar com Deus, ainda diz que sua ira é razoável (4.9).  Duas vezes pede para morrer (4.3 e 4.8), mas na hora em que as coisas ficaram difíceis, não quis morrer (cap. 2). Os gentios pedem para não morrer sob o juízo de Deus. Ele pede para morrer por causa da graça de Deus. Dá pra entender?

É possível notar, no estilo sempre elegante do livro, que a conduta dos pagãos é superior ao do servo de Deus.  Uma advertência que machuca. Muitas vezes o procedimento do mundo é melhor que o nosso. No mundo, uma pessoa é inocente até que se prove sua culpa. Em nosso meio, um comentário sobre alguém, mesmo que nunca se comprove, mancha irremediavelmente a pessoa. Ela é culpada mesmo que prove sua inocência. O procedimento de algumas igrejas com seus pastores, por vezes, é inferior ao de patrões incrédulos com seus empregados. O procedimento de alguns obreiros com suas igrejas, por vezes, é inferior ao de alguns empregados com suas empresas. Pessoalmente, tendo sido criado em fundos de bar (meu pai era dono de um) e em centro espírita (minha mãe freqüentava um), as piores pessoas que conheci na minha vida, conheci-as no cenário evangélico, não no botequim nem no centro espírita. Em trinta anos de ministério, os maiores golpes que sofri foi de membros de igreja, não de incrédulos. Estes sempre me respeitaram.  Não é triste isso?

5. A PESSOA DE DEUS

Como visto na argumentação de Mora, o personagem principal do livro é Deus. Como o autor de Jonas o mostra?

Ele é moral. Sua santidade se ofende com os pecados de Nínive. Ele usa homens para seu propósito. Assim chama Jonas. Ele é implacável na consecução de seus planos. Quer que Jonas vá a Nínive e ele terá que ir. Como disse alguém, “quando Deus decide que um homem fará algo, este o fará, mesmo que seja de joelhos, obrigado”. Ele cerca o errado de todas as maneiras. Ele ouve as orações dos ímpios, na aflição, quando estes clamam a ele. Não é possessão dos crentes.  Ele “faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5.45). É Deus de todos os homens.

Ele dá uma segunda oportunidade aos que falham, como fez com Jonas. Ele vê o arrependimento, como viu o de Nínive., Ele susta o juízo, quando há conversão. Ele apregoa o seu direito de ter misericórdia de quem quer ter, sem precisar dar satisfação a ninguém. Ele é soberano, age como quer, não é engessado pelos conceitos humanos, paira acima de nossas questões pessoais, de nosso racismo e de nosso regionalismo. É Deus de todos os homens  e não de uma elite que se julga superior por causa de sua crença. Ele é Senhor da natureza, usando-a para seus fins como deseja. Ele conduz a história como quer. Ele mostra seus atributos e seu caráter nas suas atitudes. Ele é o sujeito do processo.

UMA PALAVRA FINAL

Há um verbo no início do livro de Jonas que não pode ser desprezado: “descer”. Aparece três vezes no primeiro capítulo.  Duas vezes em 1.3: “Descendo a Jope” e “desceu para dentro dele”.  A outra vez é em 1.5: “descera ao porão do navio”. Ele aparece uma quarta vez, agora em 2.6: “eu desci”. Agora é uma descida que Jonas fez sem querer. Deus o fez descer. Qual é a lição aqui? Bem fácil: o caminho da desobediência é um caminho descendente. O caminho da insubmissão à vontade de Deus é um caminho para baixo, sempre mais fundo, até às portas da morte.

Mas há um verbo que mostra a atividade de Deus na vida de Jonas:  “subir”. E é Jonas quem o usa.  “Mas tu, Senhor meu Deus, fizeste subir da cova a minha vida” (2.6). A lição também é clara. O caminho para cima, o caminho da recuperação, é obra da graça de Deus. Com nossas atitudes e nossos desacertos, tudo que fazemos é descer, cada vez mais. Mas a graça é maior que nossas falhas. Deus pode nos fazer subir quando clamamos a ele, em nossa derrota e em nossa frustração.

O que isso nos diz?

Que podemos ser desobedientes, rebeldes, inconformados, mesquinhos, e descer. Podemos cair feio. Toda tentativa de subir será inútil. Lançado ao mar, Jonas foi afundando, afundando, até descer ao ventre de um peixe. De lá não poderia subir. Mas Deus pôde fazê-lo subir. Esta é a nossa grande esperança: por maior que seja nossa queda, Deus pode nos fazer subir.


[1] Pape, Dionísio.  Justiça e Esperança Para Hoje – A Mensagem dos Profetas Menores. 3ª ed. S. Paulo, ABU, 1993, p. 55.

[2] Mora,  Vincent. Jonas. S. Paulo, Paulinas, 1983

[3] Coelho Filho,  Isaltino. Jonas, Nosso Contemporâneo, Rio de Janeiro, JUERP, 1992, p. 15.

[4] Mora, op. cit., p. 16

[5] Kelley, Page. Mensagens do Antigo Testamento Para os Nossos Dias, Rio de Janeiro, Juerp,  1980, p. 91.

[6] Kelley, op. cit., p. 90