A ÉTICA PESSOAL DOS PROFETAS

Palestra preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a FATECH (Faculdade de Teologia e Ciências Humanas, de Macapá), e apresentada em 2.12.12, na 8ª. Semana Teológica “Religião e política na crise da civilização contemporânea”

Houve um tempo em que todo mundo queria ser profeta, ou se arrogava “voz profética”. Era uma maneira de dizer o que queria, e, por mais deseducado que fosse, sua desculpa era que estava agindo como profeta. Eu também agi assim. No púlpito de uma das igrejas em que servi, coloquei um cartazinho para mim mesmo: “Vive o Senhor que o que o Senhor me disser, isso falarei”, citando Micaías, quando instado a dizer coisas boas ao rei Acabe. Mais tarde preguei em uma igreja onde o pastor pusera outro pequeno letreiro no púlpito: “Não mais eu, mas Cristo”, citando Paulo. Achei o dele melhor que o meu.

Esta atitude reflete o conceito que muitos fazem: o profeta é um sujeito emburrado, de mal com a vida, deblaterando contra todo mundo. E muitos confundem, no Brasil, inspiração com psicografia espírita, em que o pregador é possuído por uma entidade, no caso, o Espírito Santo, e diz o que quer e ninguém pode contestá-lo. Ele se torna um oráculo sagrado de Iahweh. Não é assim. Paulo foi bem preciso, em 1Coríntios 14.32: “Pois os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”. O profeta de hoje não é um possesso e está em perfeito domínio de sua mente e é responsável pelos seus conceitos. Se falar tolice deve ser contestado. Se falar contra a Palavra de Deus deve ser rechaçado.

O que é um profeta? Um sujeito barbudo, de manto esvoaçante, um cajado na mão e palavras de repreensão na boca? Embora este quadro seja mais caricatura que outra coisa, faz parte, mas não é a totalidade do que seja um profeta. É um adivinhador ou um prognosticador da vida alheia, dizendo com quem as pessoas devem se casar, que negócio deve fazer? Gente que não sabe gerir sua própria vida se sente bem com um líder assim, que toma decisões em seu lugar. Mas tais pessoas têm alguma patologia emocional, e um profeta é mais que isso.

Não me deterei em definições de profeta e profecia porque isto está em outro contexto. Desta maneira, usarei o termo não dentro de definições semânticas, mas no sentido do líder contemporâneo. Atribuirei o termo ao líder de uma comunidade cristã, tenha o título que tiver. Se é alguém que fala ao povo de Deus como orientador espiritual está nesta categoria. Mas, tendo que falar sobre a ética dos profetas, quero, nesta palestra, abordar um aspecto que tem sido, convenientemente, esquecido por muita gente e por muitos profetas e pastores contemporâneos. Falarei primeiro da ética pessoal do profeta. É fácil dizer como os outros devem viver. Quero falar sobre como o profeta deve viver. Como eu, que sou um profeta de Deus ao mundo e à igreja de Cristo, devo viver. Porque os profetas eram regidos por uma profunda ética pessoal. Esta é uma das maiores carências da igreja de Cristo: ética. A igreja tem sido tão mundana ou mais mundana que o mundo. Quando Rafael pintava os afrescos do Vaticano, alguns cardeais pararam para ver seu trabalho e um deles comentou: “O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais”. Rafael respondeu: “Ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja” [1]. Agora deve estar ardendo!

Sobre esta questão de ética pessoal do profeta, efetuo três observações sobre a conduta pessoal do profeta bíblico e afirmo que elas precisam ser encontradas nos que pretendem ser profetas de hoje.

1. A ÉTICA PESSOAL DO PROFETA BÍBLICO REVELAVA UMA ABSOLUTA AUSÊNCIA DE GANÂNCIA MATERIAL

Repito a declaração: “A ética pessoal do profeta bíblico revelava uma absoluta ausência de ganância material”. Foram homens e mulheres de absoluta integridade e não tiraram proveito próprio de seu ofício. Temos um exemplo em 2Reis 5.15-16: “Então voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva; chegando, pôs-se diante dele, e disse: Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel; agora, pois, peço-te que do teu servo recebas um presente. Ele, porém, respondeu: Vive o Senhor, em cuja presença estou, que não o receberei. Naamã instou com ele para que o tomasse; mas ele recusou”. Conhecemos a história. General sírio, Naamã foi curado por orientação do profeta Eliseu. Ofereceu-lhe ganho material, o que Eliseu recusou com firmeza. Chamo sua atenção para um fato significativo: Eliseu não é chamado aqui pelo seu nome, mas de “homem de Deus”. A associação deste termo à sua recusa em receber algum valor de uma pessoa curada não é sem sentido. Os autores bíblicos sabiam escrever.

Mas havia um ajudante de profeta muito ganancioso, Geazi. Ele correu atrás de Naamã e lhe pediu bens materiais, e usou o nome de Eliseu na sua mentira. Ganhou o que pediu e também o que não pediu, a lepra que Naamã tivera. Um profeta íntegro, Eliseu; um profeta ganancioso, Geazi; e um leproso que deixa de sê-lo, Naamã. Eliseu fica com o caráter intocado, Naamã fica curado e Geazi fica com os bens e com a lepra de Naamã. Desafortunadamente, muitos profetas contemporâneos estão pegando a lepra do mundo. Quando o profeta é ganancioso acaba se tornando leproso. A lepra da indignidade se lhe pega à alma.

No Novo Testamento vemos Pedro recebendo oferta de dinheiro de Simão Mago, para lhe conceder o direito de retransmitir o Espírito Santo a outros. E Pedro recusa o dinheiro de Simão com dureza. Lemos em Atos 8.18-23: “Quando Simão viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo. Mas disse-lhe Pedro: Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura, e em laços de iniqüidade”.

Um profeta, um homem de Deus, não é movido a dinheiro. Não usa seu ofício em benefício de seu bolso. Cícero, grande tribuno romano, disse: “Aquele que não é dominado pelo dinheiro é o mais admirado entre todos os homens”. Neste sentido, o profeta deve ser uma pessoa admirável.

A ganância talvez seja uma das maiores chagas da igreja de Cristo hoje. É um câncer que a corrói. No ensaio “Deus, fé e política”, Roberto Campos, intelectual brasileiro (alguns não gostarão deste título aplicado a ele porque acham que se o sujeito é de direita não é intelectual), fez uma observação sobre os evangélicos brasileiros, que ele chamou de “protestantes”: “Se a praga do catolicismo chamado ‘progressista’ é a politização, a praga do protestantismo é sua mercantilização” [2].

Neemias não foi um profeta. Foi administrador. Nada profetizou e no campo espiritual abriu espaço para Esdras, que era sacerdote. Mas ao falar de sua vida como governador, deixou um princípio que cabe em todos os profetas: “Mas os primeiros governadores, que foram antes de mim, oprimiram o povo, e tomaram-lhe pão e vinho e, além disso, quarenta siclos de prata; e até os seus moços dominavam sobre o povo. Porém eu assim não fiz, por causa do temor de Deus” (Ne 5.15). O profeta, bem como qualquer outro líder religioso, deve ser uma pessoa que tenha o temor de Deus. A igreja contemporânea é barulhenta, mas não é espiritualmente temerosa. E muitos de seus líderes não mostram também o temor de Deus na sua vida. Um profeta deve temer a Deus e isto deve reger sua conduta pessoal. Homens e mulheres que servem a Deus e querem ser seus profetas a esta geração precisam temer a Deus. Precisam de seriedade espiritual.

Profetas não podem ter “rabo preso” com ninguém, porque os profetas bíblicos não tinham. Eu estava numa loja com minha esposa, em Brasília, e ouvi uma conversa de uma senhora, pelo celular. Não havia como não ouvir. As pessoas não são discretas e falam ao celular com voz de trombone: “Irmã Fulana, aqui é a missionária Beltrana. Sabe aquela televisão de que eu falei? Tem aqui na loja Tal. Se quiser me dar, eu aceito”. Vergonhoso! Os profetas eram pessoas dignas. Não pediam favores materiais. Sua paixão era transmitir a palavra de Deus às pessoas. Não montavam um esquema para projetar seu ministério. Não escreviam seu nome em gás néon, promovendo-se. Eram pessoas éticas. Até o esquisito Balaão se recusou a aceitar dinheiro para fazer a vontade de Balaque (Nm 22ss).

Profetas precisam de recursos, como quaisquer pessoas. Mas devem buscá-los com dignidade. Devem ser íntegros.  São servos e não “donos do pedaço”. O profeta precisa ter uma vida limpa. Lemos em Tito 1.7: “Pois é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus, não soberbo, nem irascível, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância”. Lemos em 1Pedro 5.2-3: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho”.

Tendo dito isto, vamos à segunda marca ética do profeta.

2. A ÉTICA PESSOAL DO PROFETA BÍBLICO REVELAVA UMA ABSOLUTA LEALDADE À PALAVRA DE DEUS

Uma outra questão que não pode ser esquecida é a da lealdade do profeta. Há profetas contemporâneos que são leais a si mesmos. Não têm lealdade nenhuma a nada. Mudam de igreja, de doutrina, de posição teológica e política, parecendo as estrelas errantes de que Judas fala (Jd, v. 13). São pessoas que têm conveniências, mas não convicções.

Micaías, já citado, é um exemplo de homem de convicção e firmada na palavra falada por Deus. Acabe mandou chamá-lo porque Jeosafá insistiu em ouvir um profeta do Senhor. Acabe e Jeosafá iam fazer uma aliança, bem estranha por sinal. Jeosafá era um homem piedoso e Acabe ganharia um Oscar de patifaria. Todos os profetas bajularam Acabe, mas Jeosafá sabia que aquilo era pura falsidade. Micaías é chamado e exortado a dizer o que Acabe quer ouvir. Sua resposta  foi antológica: “O mensageiro que fora chamar Micaías falou-lhe, dizendo: Eis que as palavras dos profetas, a uma voz, são favoráveis ao rei; seja, pois, a tua palavra como a de um deles, e fala o que é bom. Micaías, porém, disse: Vive o Senhor, que o que o Senhor me disser, isso falarei” (1Rs 22.13-14).

Duas observações são necessárias agora. A primeira: o poder político sempre deseja uma religião submissa, nunca uma crítica. A segunda: nunca faltarão bajuladores ao poder político. Há políticos, de orientações ideológicas diferentes entre si, que votariam prazerosamente uma lei da censura, para calar seus discordantes.  E ainda hoje há profetas que se vendem, alugam seu púlpito ou negociam o voto de seu rebanho. Vendem apoio político e mercadejam seu rebanho. Há profetas ingênuos que pensam que estão exercendo influência sobre o poder político, quando na realidade estão sendo usados. Política é a arte de conveniências. Religião trata de conceitos. Misturar conceitos e conveniências sempre faz com que os conceitos se diluam. Assim, temos hoje profetas ingênuos e profetas espertos. Mas Micaías sinaliza: um profeta fala o que a palavra de Deus fala. Não coloca suas palavras como oráculo de Iahweh, mas subordina-se a ela.

Amós e Amazias são um exemplo disto. Amós é o homem que fala a palavra de Deus. Ela é um leão rugindo aos seus ouvidos, uma figura que ele, como homem do campo, acostumado a noites no pasto, conhecia bem. Amazias é o homem que tem seu espaço político. Conseguiu-o a duras penas e não quer abrir mão dele. Amós foi contundente: “Agora, pois, ouve a palavra do Senhor: Tu dizes: Não profetizes contra Israel, nem fales contra a casa de Isaque. Portanto assim diz o Senhor: Tua mulher se prostituirá na cidade, e teus filhos e tuas filhas cairão à espada, e a tua terra será repartida a cordel; e tu morrerás numa terra imunda, e Israel certamente será levado cativo para fora da sua terra” (Am 7.16-17). A resposta é notável: “Ouve a palavra do Senhor” é uma resposta a declaração de Amazias que o chamou de “vidente”, ironizando-o. É como se Amós dissesse: “Não zombe de um homem dominado pela palavra de Deus”.

Que palavra nos domina, a nós, profetas do Senhor neste tempo? A de pensadores seculares ou a de Deus? Somos oportunistas políticos ou pessoas de convicção firmada na Palavra de Deus?

Cuidado, profeta jovem, com os profetas mais experientes. Eles podem lhe ajudar, mas não podem ser seu padrão. Em 1Reis 13 há uma história curiosa. Um profeta anônimo profetiza contra Jeroboão e o altar do Norte, e prenuncia o nascimento de Josias. Jeroboão manda prendê-lo, e sua mão se seca, confirmando que o profeta vinha da parte de Deus. Um profeta mais velho o convida para ir à sua casa. O profeta mais jovem diz que tem ordens de Deus para não comer na casa de ninguém. O mais antigo diz que também é profeta, que Deus lhe falou, e que ele deve ir. O profeta inexperiente vai. No meio da refeição, o profeta ancião o declara culpado de desobedecer à Palavra de Deus. O profeta júnior sai da casa do profeta sênior e um leão o mata. Mais tarde, o profeta idoso vê seu corpo e faz um comentário que não sei como classifico: “Quando o profeta que o fizera voltar do caminho ouviu isto, disse: É o homem de Deus, que foi rebelde à palavra do Senhor; por isso o Senhor o entregou ao leão, que o despedaçou e matou, segundo a palavra que o Senhor lhe dissera” (1Rs 13.26). Ser orientado por alguém mais experiente é bom. Eu teria errado menos e feito menos bobagem se fosse mais orientado. Mas, permita-me dizer uma coisa: não se ponha sob a cobertura dos outros. Ponha-se sob a cobertura da Palavra de Deus. Se você é profeta de Deus ainda jovem, não é, por certo, um sub-profeta ou um “profetinha” nem um “projeto de profeta”. É tão profeta como eu, que tenho 39 anos de ministério pastoral. Talvez você ouça a voz de Deus melhor do que eu ouço. Talvez sua comunhão com Deus seja mais profunda que a minha. Seja leal à Palavra de Deus. Estamos voltando aos tempos pré-Lutero. A Palavra não está sendo sufocada pela Tradição e pelo Magistério da Igreja, mas pela enxurrada de “homens e mulheres especiais de Deus” que se tornam tradição e magistério.

Por mais piedosos que sejam, os homens erram. A Palavra de Deus nunca erra. A ética pessoal do profeta é agendada pela Bíblia. E preciso dizer que se trata da Bíblia não adaptada nem amoldada ao nosso querer. Há muito subjetivismo hoje na pregação bíblica. Há gente pregando seus insights como se estes fossem revelação de Deus. Ou alegam ter uma linha direta com Deus. Há uma babel de vozes no cenário evangélico, que precisamos rejeitar. MacArthur é enfático: “Alguns simplesmente vivem pelo que sentem e moldam sus crenças segundo suas preferências pessoais. Outros alegam que Deus lhes fala diretamente por meio de vozes, impressões fortes ou sentimentos vagos que eles interpretam como revelações diretas do Espírito Santo. Outros ainda pensam que as Escrituras são escritos improvisados que eles podem modificar ou interpretar da maneira que eles desejarem. De qualquer modo, a vida e crença deles são comandadas por suas preferências pessoais. As crenças deles não são realmente diferentes daquelas dos seguidores da Nova Era que acreditam que a verdade é encontrada dentro deles mesmos” [3].

Profetas regem suas vidas pelas Escrituras. O jovem profeta anônimo de 1Reis 13 regeu suas decisões por orientação humana em flagrante oposição à Palavra divina. Deu-se mal. Reja-se pelas Escrituras. Sua ética não deve vir das modernas descobertas sociológicas ou psicológicas. Fundamente seu proceder, como convém a um profeta de Deus, nas Escrituras.

Dito estas coisas, vamos à terceira marca da ética pessoal do profeta.

3. A ÉTICA PESSOAL DO PROFETA BÍBLICO REVELAVA UMA ABSOLUTA NÃO CONFORMIDADE AO ERRO

O profeta de Deus não compactua com o erro, encontre-se ele onde se encontrar. Gravemos bem isso. O profeta não quer cometer o erro, por isso cuida de sua vida. E não compactua com ele na vida dos outros. Não aceita o erro social, como vemos em Isaías 10.1-2: “Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades; para privarem da justiça os necessitados, e arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!”. E não aceita o erro pessoal, mesmo que dos poderosos, como Natã fez com Davi por causa do assassinato de Urias (2Sm 12). Podemos ter uma visão social muito ampla e negligenciarmos o pecado em nível individual. Ou podemos ter uma visão de varejo e assim deixarmos de ver o pecado em nível macro. O grande risco é o de se tornar parcial.

O erro não depende de classe social. A teologia da libertação demonizou o rico. A teologia da prosperidade idealizou o rico. Uma ficou do lado do pobre e outra apologizou o ser rico. Falta de visão profética. O profeta autêntico não ficava do lado dos poderosos quando estes erravam. Mas também não sacralizava o pobre, fazendo dele uma pessoa acima da crítica. Várias declarações dos profetas contra a totalidade do povo mostram que se a presença de bens não dava imunidade para pecar, a ausência deles também não dava. Isaías e Jeremias pregaram muito contra os pecados do “povo”. O povo não é santo. Também ama o pecado. “O meu povo gosta disso”, disse Jeremias (Jr 5.31).

Parece que alguns acham que Deus é contra os ricos e a favor dos pobres, como se os bens ou sua falta movessem o agir de Deus. Deus é contra o erro e contra o desvio de sua Palavra, independente da classe sócio-econômica da pessoa. O profeta não tem pendores econômicos, não tendendo a favor dos ricos ou a favor dos pobres. Ele fica do lado da ética divina, do agir estabelecido por Deus. Alguns profetas têm ideologizado Deus. É um equivoco ou uma superposição de sua postura política sobre a Palavra de Deus. Deus tem sido usado como cabo eleitoral tanto pelos que se dizem de esquerda como pelos que se dizem de direita.

Daniel teve seu livro colocado entre os Khetubym, pelos judeus. Não foi visto como um nabhi, um profeta. Mas Jesus o considerou como profeta e assim o chamou (Mt 24.15). Todo seu ministério foi de serviço ao poder político. E, ainda por cima, opressor do seu povo. Seria um “vendido ao imperialismo caldeu”. Em 5.17, ele é grosseiro diante do rei caldeu: “Então respondeu Daniel, e disse na presença do rei: Os teus presentes fiquem contigo, e dá os teus prêmios a outro; todavia vou ler ao rei o escrito, e lhe farei saber a interpretação”. Ele nos ensina que podemos servir a Deus em qualquer ambiente, e onde estivermos devemos manter nosso caráter de pessoas íntegras. Jeremias aconselhou Judá a se submeter a Nabucodonosor. E declarou que Deus julgaria Nabucodonosor. Jeremias não era pró ou contra o rei caldeu, mas procurava dizer o que Deus queria que dissesse. De maneira diferente agiu Jonas, que tinha uma perspectiva política e subordinou seu agir como profeta à sua maneira de ver as coisas. Há uma diferença qualitativa entre Jeremias e Jonas, e a favor de Jeremias. Ele se porta como profeta, enquanto Jonas é uma personagem, no mínimo, intrigante.

Não é muito difícil ver os erros nos outros. A maior dificuldade é ver o erro em si. Somos tendentes a buscar segurança, e denunciar erros de poderosos é arriscado. Por outro lado, gostamos de aplausos, fazem-nos bem. Por que perdê-los, sendo críticos dos pobres? Um grave risco para o profeta é a tentação da popularidade. Muitos púlpitos hoje procuram fidelizar clientes, e não anunciar o conselho de Deus. É o profeta em busca de fama. Somos auto-indulgentes e tentamos ignorar nossos erros. Jonas erra por ser contra o errado, mas o plano de Deus para o errado não era o de Jonas. Cuidado com as emoções e preferências pessoais, profeta! Subordine-as à Palavra de Deus. Não tememos os poderosos nem temos “peninha” dos pobres.

O aspecto problemático aqui é que, em nosso tempo, o conceito de pecado foi praticamente abolido. Assim, muitos profetas tendem a ter uma visão apenas sociológica do pecado. Sua perspectiva teológica é massacrada pela psicologia contemporânea. É apenas desvio, algo que pode ser corrigido. Ou nem corrigido. A tendência hoje é levar a pessoa a conviver com o erro. Como falar de pecado, ou de erro a uma sociedade massificada pela idéia do “apenas diferente” e sem consciência do conceito de “pecado”? É preciso ter a cosmovisão dos profetas. Eles analisavam seu mundo à luz da Palavra de Deus. Muitos hoje estão analisando a Palavra de Deus à luz do mundo. Muitos profetas atuais estão ignorando a Bíblia, substituindo-a por seus conceitos pessoais. Outros a desprezaram em sua própria vida. E outros, ainda, querem ser intelectuais sintonizados com os novos tempos e vêem a Bíblia como ultrapassada. Assim, eles trazem ensinamentos de homens perdidos, sem Deus, como a grande novidade e como a salvação para a humanidade. Os profetas não tinham como preocupação o estarem antenados com os novos tempos. Da mesma maneira um profeta de Deus não se pauta pelos novos tempos, mas pelos antigos.

Este é um dos dois problemas teológicos cruciais que a igreja enfrentará nas próximas décadas. Sua resposta definirá seu futuro. Este primeiro problema é: qual é a fonte de autoridade em matéria de religião? Desde Lutero, o protestantismo e seus derivados têm afirmado ser a Bíblia. Para muitos evangélicos hoje é a autoridade da instituição ou do líder do grupo, numa volta ao romanismo. É um processo de “desescriturização” dos fundamentos (ou seja, tirar as Escrituras do fundamento da igreja), O profeta precisa ser muito bem decidido: ficar com as Escrituras. Para sua análise do mundo e para sua vida pessoal.  O segundo problema teológico crucial abordo na conclusão.

CONCLUSÃO

A mensagem dos profetas tinha um viés messiânico. Miquéias, Isaias e Jeremias, por exemplo, foram homens que prefiguraram Jesus em suas mensagens. Os profetas do Novo Testamento são cristológicos. Como Ana (Lc 2.36) e como João Batista, que conforme Lucas 16.16 fecho o ciclo dos profetas do Antigo Testamento. Dele disse seu pai, Zacarias: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos” (Lc 1.76). João foi profeta do Altíssimo e preparou o caminho do Senhor.

O conteúdo cristológico mostra a essência da ética profética. Um profeta de Deus não monta uma máquina publicitária para exaltar seu ministério. Ele tem como preocupação a glória de Jesus. E aqui falo do segundo problema crucial que a igreja enfrentará: a cristologia. A igreja de hoje já mostra enormes dificuldades em lidar com a pessoa de Jesus. A maior parte dos corinhos de nossas igrejas se centra no Antigo Testamento. Há até gente cantando que está no santo dos santos escondido pela fumaça e visto apenas por Deus. São dois processos simultâneos: a “desescriturização” (tirar as Escrituras da igreja) e a “descristianização” (tirar Cristo da igreja). Numa inversão do episódio da Transfiguração, alguns estão tirando o Filho de cena, deixando Moisés e Elias, e dizendo: “Estes são os filhos amados de Deus; a eles ouvi”.

Resumo tudo em curtas sentenças gramaticais. Profetas de Deus: sejam íntegros. E sejam como Paulo. No dizer de Stott, “um homem intoxicado de Cristo”. Não banam a integridade de sua vida. E não banam Cristo de sua igreja.


[1] WIERSBE, Warren. A crise de integridade. s/d. sem localização, Editora Vida, p. 29.

[2] CAMPOS, Roberto, in VV.AA. Reflexões para o futuro. São Paulo: Veja, 1993, p. 226.

[3] MACARTHUR JR, John. Princípios para uma cosmovisão bíblica. S. Paulo: Editora Cultura Cristã, 20043, p. 34.