A ÉTICA RELACIONAL DOS PROFETAS

Palestra preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a FATECH (Faculdade de Teologia e Ciências Humanas, de Macapá), e apresentada em 2.12.12, na 8ª. Semana Teológica “Religião e política na crise da civilização contemporânea”

Ontem falei sobre a ética pessoal dos profetas. Se alguém esperava um discurso político, frustrou-se. E hoje deve continuar frustrado. Mas creio que minha trilha é correta. Lembro-me de uma citação atribuída a Mark Twain: “Muita gente fala em mudar o mundo, mas ninguém quer mudar-se a si mesmo”. Primeiro os profetas e a igreja, que deve ser uma comunidade profética ao mundo, devem colocar sua vida em ordem. Depois terão condições de chamar o mundo à mudança. Ética começa com os que a apregoam.  Eis uma oportuna citação de Tozer: “A noção popular de que a primeira obrigação da igreja é disseminar o evangelho até os confins da terra é falsa. A sua primeira obrigação é ser espiritualmente digna de disseminá-lo” [1]. Quero usar esta citação no contexto profético. Se a igreja quer falar de ética ao mundo deve lembrar que a ética deve começar em seus domínios.  Por isso vou falar de ética relacional, hoje. Os profetas sabiam se relacionar. Nao eram apenas emissores de acusações aos outros. Sabiam como deviam viver, e é disso que quero tratar disto hoje.

Abordarei três áreas de relacionamento dos profetas, vendo-as como necessárias em nossa vida. A primeira área de ética relacional dos profetas se deu no trato entre si.

1. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E OS PROFETAS

Comentei, na palestra anterior, o estranho caso de dois profetas anônimos, em 1Reis 13. Um profeta mente ao outro, usando o nome de Deus em sua mentira. Acusa-o, depois, em nome de Deus. Após sua morte, chora-o e pede para ser sepultado na cova dele. É um episódio singular, de uso do nome de Deus em vão, de mentira, de traição a um colega, um choro que fica difícil de classificar. Mas nao é a regra, felizmente. É verdade que há muito uso indevido do nome de Deus e muita acusação mutua entre profetas. Mas não é o princípio bíblico.

O relacionamento entre Elias e Eliseu é bem significativo e nos instrui também. Eliseu surge como se fosse um aprendiz de Elias. E na medida em que os dias deste se abreviam aqui na terra, a convivência dentre os dois vai aumentando. É um caso típico de tutoria, ou de mentoreamento, como se diz agora (nós nos amarramos em terminologias novas – usar jargões e termos técnicos dá a idéia de profissionais atualizados). Elias sairá de cena, e Eliseu será o novo líder. Mas o clima entre os dois é de respeito e de entendimento. Elias não é visto por Eliseu como se fosse um velho com cheiro de naftalina. E Eliseu não é, para Elias, o neófito com cheiro de talco Johnson. É uma transição difícil para os dois. Saber sair de cena requer maturidade. E entrar em cena também. Elias foi muito bem sucedido, e a tarefa não será fácil para Eliseu. E ele faz um pedido estranho a Elias: uma porção dobrada do espírito de Elias (2Rs 2.9). Vez por outra ouço crente pedindo uma porção dobrada do Espírito de Deus. O sujeito tem pouca ambição. Quer ser duas vezes Deus. Porque foi isto que Eliseu pediu: ser duas vezes Elias. E conseguiu. Elias fez sete milagres, e Eliseu fez catorze. Elias não ficou chocado com o desejo de seu sucessor em suplantá-lo. Eles não estavam em concorrência. Os profetas tinham uma missão do Senhor, e não uma missão pessoal. Mesmo que não esteja ligado ao poder estrutural, o profeta não é autônomo. Ele tem um Senhor acima dele.

Elias também não zombou do pedido do seu auxiliar. Aceitou-o como algo normal. Há uma ética de respeito e de bom relacionamento entre estes dois profetas. Não eram o velho sabichão e o calouro ignorante. Viam-se como homens de Deus. Os dois profetas nos trazem lições bem valiosas. Da parte de Elias, aprendemos sobre a hora de saber sair de cena. Nós somos substituíveis. E vamos sair de cena, deixando de ser protagonistas ativos de um reino que não é nosso. Da parte de Eliseu, aprendemos como é importante entrar pela porta da frente, com dignidade, e não pela janela dos fundos, no serviço a Deus. Há um tempo e um momento para cada profeta. E, em conjunto, os dois nos ensinam como os servos de Deus devem trabalhar em harmonia. O espírito de competição e o desejo de ser grande, de fazer um nome para si, no melhor estilo da cultura de Babel (“Façamo-nos um nome!”) têm tornado o reino de Deus um campo de batalha entre alguns profetas. Graças a Deus porque há os serviçais, os que querem levantar o nome sobre todo nome, o nome de Jesus. Mas há os que querem levantar o seu nome. Pelo menos já o colocam em letras garrafais em cartazes de boa feitura.

Volto à questão do respeito mutuo entre os profetas. Pouco antes das últimas eleições, dois pastores conhecidos trocaram ofensas pela Internet. Alguns irmãos encheram meu correio eletrônico com as declarações dos dois, o que me era absolutamente desnecessário. Foi um momento lamentável. Foi mais uma descida dos evangélicos brasileiros ao fundo do poço. A linguagem e o trato não eram de dois pastores, homens que deviam ter suas vidas pautadas pelo ensino do Novo Testamento no tocante ao respeito e a moderação no trato. Pareciam mais dois arruaceiros que dois crentes. Criado em fundos de botequim (meu pai teve bares) vi uma linguagem que não encontrei nem mesmo entre pinguços. Troca de ofensas, desaforo, ameaça de agressão física, um péssimo testemunho. Pessoas com um tênue resquício de educação não agem assim, o que dirá dois profetas de Deus, de quem se espera compostura. O mais chocante foi a torcida na “platéia profética”, com grupos de torcedores espancando um ou outro, verbalmente. Estamos mesmo gravemente doentes, e não nos damos contas disso. Elias e Eliseu poderiam ensinar alguma coisa. Mas os profetas de hoje lutam por espaço, poder e dinheiro para seus ministérios. E são mais apaixonados por seus conceitos políticos que pelos conceitos da Palavra de Deus. E muitos sofrem da doença mais comum a acometer a liderança evangélica, doença que o teólogo John Stott chamou de “holofotite”.

Paulo foi duro com Pedro, e o chamou de “dissimulado”: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe na cara, porque era repreensível. Pois antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas quando eles chegaram, se foi retirando e se apartava deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimularam com ele, de modo que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação” (Gl 2.11), mas parece que foi necessário, naquele contexto mencionado, agir assim. No entanto, isto parece ter sido ato isolado. E Pedro não se tornou inimigo de Paulo nem agiu na base do “bateu, levou”, como muitos profetas de hoje, bem distantes do seu Mestre, costumam fazer. Elogiou-o e o chamou de “amado irmão Paulo” (2Pe 3.15). Paulo teve séria desavença com Barnabé por causa de João Marcos: “Decorridos alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão. Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. Mas a Paulo não parecia razoável que tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os tinha acompanhado no trabalho. E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor” (At 15.36-40). Mais tarde, mostrou reconhecer e valorizar Marcos e o viu como útil a ele, Paulo: “só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério” (2Tm 4.11). Paulo se recusou a entrar em competição com Apolo: “Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; não sois apenas homens? Pois, que é Apolo, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um? Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.4-7). Os profetas de hoje precisam parar de ver a igreja como sua propriedade e o reino de Deus como algo que eles podem lotear entre si. Precisamos devolver a igreja ao seu dono, Jesus, porque alguns profetas a tomaram para si.

Profetas são servos e não acionistas majoritários da igreja. Muito menos são donos do reino. Há um espírito de competição que é danoso para o reino e um escândalo para o mundo. Pedro diz que o julgamento de Deus começa pela sua casa: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?” ( 1Pe 4.17). Pretendidos profetas e igrejas, comunidades proféticas, devem se lembrar disto. Deus nos julgará pela maneira com que nos portamos com o seu reino.

2. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E A INSTITUIÇÃO

No Antigo Testamento há um choque entre os profetas e os sacerdotes.   Respeitosamente, peço-lhes para irem ao meu site e lerem a palestra que apresentei ao Seminário Teológico Batista do Paraná com o título “Sacerdotes e profetas – um choque esperado”. Não repetirei a palestra aqui, mas reafirmo que a razão principal do choque foi que o sacerdote institucionalizou a religião. Tirou-a da esfera do relacionamento espiritual e a conseqüente implicação ética com Deus e a transformou em matéria de rito. O sacerdócio institucionalizou a religião. Esta é uma das maiores tentações e um dos mais graves riscos que enfrentamos, o de transformar o relacionamento com Deus em modelos humanos, colocando-o em cápsulas, que só nós sabemos fabricar e estamos autorizados a distribuir, tendo o copyright de Deus.  Hoje a institucionalização ritualística vem com um impressionante poder de massificação. Há gestos e palavras que são autênticos shiboleths. Quem não os faz e não os diz é mundano ou carnal. Aqui em Macapá, por exemplo, se dez pessoas forem à frente, as dez dirão “Graça e paz, amados!”. O indigitado que disser “Boa noite!” será visto como mundano. Corinho, a gente tem que cantar com ar de quem está com crise de cálculo renal. Há o rito em nível macro e o há em nível micro. E há ritos dos frios e os ritos dos quentes. Dos tradicionais e dos avivados. No fundo, a mesma raiz: temos a fórmula certa para usar Deus e se alguém não a usa, estranhamos. Foi o que sacerdote do Antigo Testamento fez. Ele sabia como Deus devia ser adorado. A massificação em qualquer dos dois níveis tira a individualidade na adoração. E cria uma falsa descontração. Poucas coisas são tão sem nexo como dizer: “Seja descontraído!”. De paletó e gravata eu me sinto descontraído. De bermuda e chinelos, na rua, eu me sinto contraído. Não se estabelece descontração.

A instituição é, em parte, necessária. Ela surge para viabilizar uma idéia. O problema é que, em alguns momentos, a instituição se torna mais importante que a idéia. Ela burocratiza a idéia e burocratas gostam muito de status. A gravata é mais imponente que a enxada. O profeta precisa se entender com a instituição porque precisa que a idéia seja viabilizada. Ele vive para propagar a idéia. Mas deve se esforçar para que a instituição não abafe a vida que há na idéia. A institucionalização da fé é mortal para a igreja. Os profetas foram homens que viram isso e lutaram contra a institucionalização. E curiosamente, criaram novas instituições. No Norte, onde não havia levitas nem templo, porque a Palavra do Senhor ficou no Sul, Elias criou as escolas de profetas. Eliseu continuou a prática. E parece que abriu mais escolas. O profetismo agora tinha uma instituição para produzir profetas. A instituição não é, necessariamente, inimiga, pois pode dinamizar a idéia. Mas representa um risco.

A revolução dos bichos, uma aguda crítica de Orwell ao edifício comunista, mostra isso de maneira muito clara. Aos poucos, os porcos, que eram revolucionários, deixaram de ser porcos e se tornaram como os antigos donos da fazenda, tão imperialistas como eles. Já andavam sobre duas patas, usavam roupas caras e fumavam charutos.  Quanta revolução acabou gerando males piores que os que se propôs a combater! Inclusive revoluções espirituais. Não é estranho que o protestantismo, que começou do combate às indulgências, que era a venda de perdão, tenha gerado igrejas que vendem bênçãos? O princípio é o mesmo: a bênção é de quem paga. É a crença de que dinheiro pode manipular Deus. Assim, alguns profetas se tornaram lobistas de Deus.

Amamos instituições. Elas nos dão a sensação de que estamos fazendo alguma coisa. Com nossas instituições, mostramos que somos importantes e damo-nos títulos, o que nos torna superiores. Eu sou batista. E da Convenção Batista Brasileira. Em minha denominação, que muito amo, gastamos mais tempo com nossas instituições que com os propósitos para os quais elas foram criadas. Elas consomem nossas energias, nosso humor e muito dos nossos recursos financeiros. O profeta precisa estar atento para denunciar quando a instituição, ao invés de serva do evangelho, torna o evangelho seu refém.

Como profetas, precisamos entender que o pecado tem uma dimensão espiritual, que vemos com razoável facilidade. Mas tem também uma dimensão social que nem sempre apontamos,  e uma dimensão estrutural que quase nunca vemos. Esta questão do pecado estrutural precisa ser mais ponderada entre nós. Rousseau viu pelo lado equivocado do binóculo. Não é a sociedade que corrompe o homem. É o homem que corrompe a sociedade. Tudo que Midas tocava se tornava em ouro. Tudo que o homem toca se transforma em lama. Ele é um rei Midas ás avessas.  Recomendo-lhes lerem o livro ou assistirem o filme O senhor das moscas. Verão que o mal brota de dentro do homem. É o que sai do homem que o contamina, disse Jesus.

Jesus também focou isto, o pecado institucional, quando disse que o templo, que deveria ser casa de oração, se tornara antro de corrupção. O profeta precisa ser um critico de seu povo, de sua casa, de suas instituições. Não podemos desancar as instituições alheias e sacralizar as nossas. Sabem do que estou teologicamente falando, quando faço a crítica das instituições? Da pecaminosidade da raça humana, de algo que a teologia reformada chama de “depravação da raça”. Há muitos profetas hoje que são ingênuos. Perderam de vista o ensino bíblico e aceitam os conceitos do Iluminismo e do racionalismo (isto me soa pleonasmo) sobre a bondade do homem, e acham que a maior necessidade do mundo é de origem social e institucional. Novas instituições, novas ordens sociais, novas ideologias, podem resolver os males humanos. O profeta diz que não. Ele reconhece que o mal se entranha nas instituições, até mesmo nas religiosas. A luta por poder nos bastidores das denominações evangélicas nos mostra isso.

O profeta, muitas vezes, lutará contra a instituição religiosa, como Jeremias o fez, em nome do verdadeiro relacionamento com Deus. Ele terá sempre uma postura de serviço e de vigilância. Ele precisa chamar a instituição corrompida à conversão. As brigas institucionais, muitas por motivos pouco nobres, como a luta por poder e dinheiro, são doloridas, demandam muitas emoções, produzem desgastes e deslustram o evangelho de Jesus. O ambiente se torna não cristão, pelo descontrole emocional dos envolvidos. O profeta é ético aqui. Não compactua com o erro, não se considera acima do erro, e chama pessoas e instituições à conversão. O problema é que está palavra anda sumida de nossa pregação. Muito da pregação dos profetas contemporâneos é para fidelizar clientes e não para chamá-los a acertarem a vida com Deus.

3. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E SEU DEUS

Agora falo do relacionamento do profeta com Deus. Se alguém torcer o nariz, dizendo: “Ih, vai virar EBD!”, saiba que terei pena de sua observação. Valorizo a piedade. Vejo-a como indispensável à igreja e aos profetas. Somos profetas ou meros ativistas sociais? Pregamos os valores do reino de Deus ou Lair Ribeiro? Somos e seremos pastores ou almejamos ser animadores de programas de auditório? Anunciamos a Jesus ou ideologias humanas?  Precisamos tratar do relacionamento pessoal do profeta com Deus porque sem vida espiritual o profeta afundará. Muitos homens subiram porque Deus os elevou. Mas quando chegaram ao topo, se apaixonaram por si e perderam o amor por Deus. E caíram feio.  Deus derruba os arrogantes.

Uma vez preguei um sermão biográfico em Salomão e lhe dei o título de “O mais tolo dos homens”. Reafirmo o título. Como diria a moçada de hoje, um “tremendo mané”. Na velhice, uma boa idade para se tomar juízo, ele se desviou de Deus. Os três grandes inimigos de todo profeta batalharam contra ele e o venceram: o Poder, o Sucesso e o Sexo. Já haviam derrotado Sansão. Já haviam posto Davi em enrascada. É a trindade carnal que luta contra os profetas. Homens e mulheres de bem deverão prestar bastante atenção nesta trindade mundana. Às vezes não vêm os três juntos, mas um só. E um só já bastante perigoso.

É idolatria quando o poder, as sensações e as coisas tomam o primeiro lugar em nossa vida. Ainda mais quando tomam o primeiro lugar na vida do profeta. Lutero foi muito feliz quando disse que “aquilo que um homem mais ama isso é o seu deus”. O deus de um profeta não pode ser ele mesmo, nem seu ministério. Porque o que uma pessoa crê afeta o que ela faz. Quando ama a Deus e o teme, procurará obedecer-lhe. Quando ama a si mesma, por certo que errará mais.

A crise do profeta Jonas se deu porque seu relacionamento com Deus foi inadequado. Ele fugiu para Társis e isso mais do que pelo fato de Társis ficar em direção oposta ao lugar aonde Deus queria que ele fosse exercer seu ministério profético. É que, conforme Isaías 66.19, Társis era um dos lugares onde a voz de Deus não era ouvida: “Porei entre elas um sinal, e os que dali escaparem, eu os enviarei às nações, a Társis, Pul, e Lude, povos que atiram com o arco, a Tubal e Javã, até as ilhas de mais longe, que não ouviram a minha fama, nem viram a minha glória; e eles anunciarão entre as nações a minha glória”. Jonas queria ouvir sua própria voz, e não a voz de Deus. O profeta não pode ser auto-suficiente e presumir que sua voz é a melhor. Nem confundir sua voz com a voz de Deus. Há profetas que elevam sua voz pessoal ao nível da voz de Deus. Quando uma pessoa tem esta auto-imagem tão elevada, corre o risco de perder o senso ético por completo. Muitos homens e mulheres de Deus têm caído porque deram demasiada importância a si mesmos. Foi o que Amazias fez com Amós. Todo paramentado, homem de confiança do rei, sacerdote chefe do templo, ele mandou que Amós fosse pregar em outra freguesia. AMOS 7.12-14. Como se dissesse: “Aqui eu sou o rei do pedaço”. Errou. Deus era o rei do pedaço, e puniu Amazias. Deus sempre é o rei do pedaço, do ofício profético, do profeta, do campo. O profeta deve se ver a si mesmo com um pedaço da propriedade de Deus.

Quando nos entronizamos a nós mesmos, entramos em choque com Deus. Há hoje muita carreira solo, muito individualismo, com Deus sendo colocado na periferia. Enquanto ele não for nossa maior paixão, estaremos correndo risco. O bem-estar de um profeta reside na sua submissão a Deus.

Deuteronômio 18.15 é o texto que institui a profecia no Antigo Testamento: “O Senhor teu Deus te suscitará do meio de ti, dentre teus irmãos, um profeta semelhante a mim; a ele ouvirás”.  O padrão do profeta é um homem semelhante a Moisés. Sem dúvida que o traço mais marcante de sua personalidade foi seu relacionamento com Deus: “E nunca mais se levantou em Israel profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecesse face a face”.

Nenhum profeta subsistirá com base em sua estrutura de trabalho ou em sua liderança carismática. Sem uma profunda e calorosa vivência com Deus ele afundará. O profeta contemporâneo, mais que qualquer outra pessoa, carece de uma ética que tenha uma base transcendente. Não é o código de ética da Ordem dos Ministros, mas a conduta que vem do temor do Senhor.

CONCLUSÃO

Saber se relacionar com as pessoas é algo fundamental para o profeta de Deus. Volto a este ponto: a idéia de que o profeta é um grosseirão machucando todo mundo com suas palavras é meia verdade. É um homem que manifesta lealdade a Deus mais que preocupação em massagear ego de pecadores. Mas é uma pessoa que sabe se portar no relacionamento com os demais. Principalmente com os colegas. A luta por fatia de mercado tem levado muitos profetas contemporâneos a desancarem seus colegas. Mas o motivo por trás de tudo é comercial, e nao lealdade a Deus.

Que os profetas se hoje sejam leais a Deus, sejam leais entre si, e à sua comunidade, o povo a que servem. O rebanho não é propriedade do profeta, mas do Senhor. O profeta apenas toma conta do povo para Deus. É preciso ser ético nisto.  Que os profetas sejam leais às instituições com as quais se relacionam. Há muita deslealdade hoje. Um profeta é uma pessoa íntegra e não uma oportunista.

Encerro com a frase que li, de um homem de Deus: “Carisma sem caráter é uma desgraça”. Precisamos de profetas que sejam apaixonados pelo que fazem, que não sejam amorfos nem apáticos, que tenham carisma. Mas acima de tudo, de homens que tenham caráter e que sejam dignos. A dignidade não é pose. É relacional. É produto de uma ética que permeia a vida da pessoa.


[1] TOZER, A. W. De Deus e do homem. S. Paulo: Mundo Cristão, 1981, p. 29.