A SOMBRA DA CRUZ DESCE SOBRE ABRAÃO

“A noite caiu, e veio a escuridão. De repente apareceu um braseiro, que soltava fumaça, e uma tocha de fogo. E o braseiro e a tocha passaram pelo meio dos animais partido” (Gênesis 15.17)

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

A situação que o velho patriarca vive é um momento de aflição para ele. O Eterno o chamou para celebrarem um pacto (berith, “compromisso”): “O Eterno respondeu: – Traga para mim uma vaca, uma cabra e uma ovelha, todas de três anos, e também uma rolinha e um pombo”. Ele se prontifica. Faz como lhe foi ordenado: “Abrão levou esses animais para o Deus Eterno, cortou-os pelo meio e colocou as metades uma em frente à outra, em duas fileiras; porém as aves ele não cortou. Então os urubus começaram a descer sobre os animais mortos, mas Abrão os enxotava” (vv. 10-11). Esta é a razão da aflição.

Dietrich nos explica o que está acontecendo: “Deus conclui com Abraão um verdadeiro pacto, segundo o costume do tempo; era preciso que os dois contratantes passassem entre os animais esquartejados; aceitavam assim serem eles mesmo dilacerados como as vítimas, se infringissem seus compromissos. Aves de rapina, símbolo das forças malignas tentam apoderar-se dos animais divididos. Abraão as afugenta. Angústia e trevas espessas o envolvem. Deus lhe revela os sofrimentos que se abaterão sobre sua posteridade” (O desígnio de Deus, p. 38). Deus e um homem estão firmando um compromisso, mas o Deus Eterno não chega para subscrever o contrato e as forças do mal se fazem presentes. Terá o Eterno desistido do pacto? As forças malignas impedirão o berith com Deus? Se Abraão não afugentar as aves de rapina, Deus lhe cobrará a negligência! Ele está cansado, não dará contas! E o Eterno vier, como fazer um pacto com ele? Que responsabilidade! Deus não falhará, mas ele, por certo, pecador, falhará! Será punido!

 

O versículo 17 é dramático: “A noite caiu, e veio a escuridão. De repente apareceu um braseiro, que soltava fumaça, e uma tocha de fogo. E o braseiro e a tocha passaram pelo meio dos animais partidos”. Abraão não passou, só Deus. Ele ficou como o fiador do pacto. Só ele. Assumiu a parte dele e a parte de Abraão. Que verdade teológica! O homem nada pode dar pela sua salvação e pelas bênçãos de Deus! Isto é graça! E é soberania divina também: Deus age, independente de nós.

 

O pacto foi feito. O Eterno assumiu ambas as partes. Novamente Diétrich: “Deus somente é o fiador do pacto firmado. Sua honra está engajada. E, quando a posteridade de Abraão romper o pacto, será o próprio Deus que, em Jesus Cristo, virá substituir a parte faltosa e pagar-lhe o preço da infidelidade. É já a sombra da cruz que desce sobre Abraão nessa noite de angústia”.

 

Séculos mais tarde, com o pacto quebrado, chegou a hora de acertar as contas. Deus era o fiador do pacto. Abraão não podia pagar. A raça humana não podia pagar. Deus pagou a parte dele. E pagou a parte de Abraão, a parte da raça, a nossa parte. Em Jesus Cristo. Assim entendemos a palavra de Jesus, em João 8.56: “Abraão, o pai de vocês, ficou alegre ao ver o tempo da minha vinda. Ele viu esse tempo e ficou feliz”. O patriarca poderia não ter entendido tudo, mas pela cultura de sua época entendeu algo: Deus estava firmando um pacto com ele, e assumia toda a responsabilidade. Isto ficou claro.  Em Jesus, o Eterno paga. Porque Jesus é o Eterno. Em Jesus, o homem paga. Porque Jesus é homem.

 

Uma vez, Judá fez um pacto assim com Deus, e o quebrou: “As autoridades de Judá e de Jerusalém, os oficiais do palácio, os sacerdotes e todo o povo fizeram uma aliança comigo, passando entre as duas metades de um boi cortado ao meio. Mas eles quebraram a aliança que fizeram na minha presença e não cumpriram o que prometeram” (Jr 34.18-19). A conseqüência de não cumprir o pacto logo foi anunciada: “Por isso, eu os entregarei aos seus inimigos que os querem matar, e os corpos deles serão comidos pelas aves e pelos animais selvagens” (Jeremias 34.20).

 

Mas Deus nunca faltou com sua palavra. Honrou-a. E quando nós falhamos, ele pagou nossa parte. Este é o significado da encarnação da segunda pessoa da Trindade e sua morte vicária. Jesus é Deus cumprindo a parte do homem e pagando o preço dos pecados da humanidade. Diz Paulo: “Em Cristo não havia pecado. Mas Deus colocou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados para que nós, em união com ele, vivamos de acordo com a vontade de Deus” (2Coríntios 5.21).

 

Graças a Deus por Jesus Cristo! Ele é o perfeito dom do Eterno à humanidade pecadora. Nele somos perdoados. Nele somos aceitos. Nele, as contas com Deus estão acertadas. “Agora já não existe nenhuma condenação para os que estão unidos com Cristo Jesus” (Romanos 8.1). O Deus Eterno assumiu tudo.