BUZINAR OU OBEDECER?

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos (…) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama…” (João 14.15, 21).

 

Em Igreja, corpo vivo de Cristo, Stedman, ao narrar um momento na Peninsula Bible Church, diz: “Um jovem soldado, de farda, entra com o seu jipe no espaço ao lado do Volkswagen. No pára-choque está escrito: ‘Se você ama a Jesus – buzine!’. Ouvem-se várias buzinas. Ele salta do carro e acena enquanto anda em direção à igreja” (p. 5). Parece que Stedman acha isso muito bonito. Entendo que deve haver algum significado nisso. Alguém que ama ao Senhor Jesus se identifica ao motorista, que também ama a Jesus. E mostra o amor buzinando. Deve ser isso.

 

O livro está defasado nas ilustrações (a primeira edição em português é de 1974). O que era alternativo hoje é padrão. Naquela época era inusitado mostrar sua fé através de buzina. Ou de outra maneira exótica. O inusitado de 1974 é rotina em 2011. As pessoas querem mostrar sua fé por atos que não envolvem, necessariamente, compromisso ou entrega da vida. Antigamente se cria que a evangelização era a maneira de levar as pessoas a serem de Jesus. Hoje se coloca uma placa na entrada da cidade: “Coxipó de Poconé de Conceição do Mato Dentro é do Senhor Jesus”. Pronto, Coxipó é de Jesus. Ou pior, ainda: aluga-se um helicóptero e joga-se óleo lá de cima, para “ungir Coxipó de Poconé de Conceição do Mato Dentro”. Agora, a cidade ficou “ungida”. Mas nada mudou. A violência continua, a prostituição não recua, o uso de drogas avança, mas declarou-se Coxipó como sendo de Jesus. Ou “ungida” para ser de Jesus. Recordo-me de uma cidade do interior de São Paulo que ostenta uma placa, em sua entrada, dizendo que ela pertence ao Senhor Jesus. E recordo-me de ter lido um relatório da Secretária de Segurança do Estado de S. Paulo em que tal cidade era a mais violenta do estado. E me recordo de 1João 5.19: “… o mundo inteiro jaz no Maligno”.

Sei que há uma distância entre o conteúdo do livro de Stedman e o ensino neopentecostal sobre atos proféticos. Não é isso que ele defende, mas deixa aberta uma porta para alguns verem a fé em Cristo como atos externos que não envolvem mudança de vida, compromisso mais profundo, mas apenas gestual.

 

Amar a Jesus não se manifesta em buzina de carro. Assim fosse, os engarrafamentos de trânsito nas grandes cidades seriam uma sinfonia de louvor. Nas palavras do Salvador, quem o ama o obedece. Amar a Jesus é mais que levantar as mãos e exibir um ar de profunda concentração quando se canta. É encarnar na vida os ensinos de Jesus.  Quem ama, obedece.

 

A questão é que obedecer à Palavra é mais difícil que fazer gestos ou dar-se ares de espiritualidade. E é mais que repetir chavões, sem os quais o crente parece um mundano de extrema carnalidade.  É mais que espargir “ô glória”, “ô bênção” e “graça e paz” em cada sentença gramatical. É assim que muitos medem espiritualidade. Mas a verdadeira espiritualidade é amor a Jesus, manifestado em obediência e lealdade a ele. Para o apóstolo Paulo, a obediência era fundamental em sua vida: “Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial” (Atos 26.19).

 

Muitos hoje pensam em santidade por um viés litúrgico. Pensam que prestar culto é o que de mais importante podem fazer. Não é. O mais importante é a obediência, não por constrangimento, mas por amor. Samuel disse isso a Saul: “Samuel, porém, disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros” (1Samuel 15.22). O sacrifício era a forma mais sublime de culto no Antigo Testamento, mas um sacerdote diz que Deus deseja obediência mais que culto.

 

Jesus também assim se definiu nestes termos. Quem o ama obedece aos seus mandamentos. Isso implica em conhecê-lo e à sua Palavra. Implica em leitura e profundidade no Novo Testamento, que traz a revelação completa dele aos homens. Implica em compromisso de vida. Uma vez, conversei com um obreiro muito consagrado, desses que a gente olha e vê que vive que na presença de Deus. Homem capaz e apto para qualquer grande pastorado em seu país, a Inglaterra, gastava sua vida numa aldeia africana. De férias, mas ansioso para voltar para lá. Perguntei-lhe porque estava lá, e não à frente de uma grande igreja. Sua resposta não me foi assimilada imediatamente. Eu era seminarista e pensava em escrever meu nome, ser um “figurão”. Disse-me ele: “Estou lá por causa de Jesus. Ele me quer lá, e isso basta”.

 

Chamava-se Green, este inglês. Devo-lhe isto. Os anos passaram e sua declaração foi crescendo dentro de mim. Sei que amar a Jesus é obedecer-lhe, não buzinar. Até mesmo porque não gosto de buzina. Se você ama a Jesus, obedeça-o. Encarne seus ensinos em sua vida.