UMA ORAÇÃO SEM SENTIDO

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Disse-lhe Felipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14.8-9).

 

Um corinho muito cantado em algumas igrejas diz: “Quero te ver, quero te tocar… revela-te a mim… conhecer-te eu quero mais”. Sua música é envolvente e sua letra expressa um desejo de mais profundidade espiritual. Seu conteúdo se assemelha muito com o pedido de Felipe. “Mostra-nos o Pai”, disse ele. O pedido deste discípulo manifestava um desejo sincero, como o de muitos crentes, o desejo de ter um relacionamento mais profundo com Deus. Isto é saudável. Mas o pedido não faz sentido. Ninguém pode ver o Pai, como ele disse a Moisés: “E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver” (Êx 33.20). No Novo Testamento lemos: “Ninguém jamais viu a Deus” (1Jo 4.20-a). O pedido pode ser sincero, mas não faz sentido.

 

Quem queira ver a Deus deve olhar para Jesus. É nele que vemos Deus. Recebi um e-mail falando sobre as manifestações da presença de Deus. Uma mensagem bem elaborada, dizendo que Deus está na natureza, no sorriso de uma criança, num gesto de amor. Isso é panteísmo. Deus não está nas coisas. Não está na natureza, nem no sorriso de uma criança, nem num pôr-do-sol, embora estas coisas sejam bonitas. Evitemos teologizar com base no sentimentalismo. Deus está em Cristo: “Deus estava em Cristo…” (2Co 5.19). É em Cristo que vemos Deus. Dele, com muita propriedade, Paulo disse: “o qual é imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). “Imagem” é o grego eikon, que tinha também o sentido de “espelho”. É uma figura muito preciosa. Quando Deus olha no espelho há um rosto nele, o de Jesus. Quando Jesus olha no espelho, há um rosto nele, o de Deus. Jesus é Deus.

“Quem me viu a mim, viu o Pai”, disse Jesus. O Deus eterno se manifestou em Jesus, e não vai se manifestar de outra maneira. Não adianta pedir “manifesta-te a mim”. Ele se manifestou ao mundo por meio de Jesus Cristo: “e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho” (2Tm 1.10). Ninguém espere uma manifestação especial de Deus. Ele escolheu Jesus e se manifestou ao mundo pela segunda pessoa da trindade. Podemos ter uma experiência mais profunda com ele, na adoração, mas ele já se manifestou, e fez isto em Jesus de Nazaré.

 

“Quem me viu a mim, viu o Pai”. Quem queira encontrar Deus precisa saber que ele está em Jesus, que ele se manifestou em Jesus, que é em Jesus que vamos encontrá-lo. Sem Jesus pouco saberemos sobre Deus. Teremos a revelação natural, a revelação no Antigo Testamento e a revelação na consciência, mas as três são incompletas e parciais. Em Jesus está a revelação climáxica de Deus: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo; sendo ele o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu Ser…” (Hb 1.1-3).

 

É em Jesus que Deus se manifestou definitivamente. Nele, Deus deu sua última palavra revelacional. Cuidado com o sentimentalismo como substituto da revelação final pelo Filho. Quem seja como Felipe, querendo ver o Pai, que olhe para o Filho. O Pai está nele.