USADOS, ABUSADOS E DESCARTADOS, NÃO ESMOREÇAM!

“Então, ela invocou o nome do SENHOR, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê? Por isso, aquele poço se chama Beer-Laai-Roi; está entre Cades e Berede” (Gênesis 16.13-14).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Pobre Agar! Apenas um objeto nas mãos de Sarai e Abrão. Sarai dispôs dela como se fosse uma coisa.  Deu-a a Abrão para que o marido a engravidasse. A escrava era apenas uma coisa, como um animal.   Os filhos dos escravos não eram seus, mas do dono. Como os filhotes de gatos e cachorros que os humanos, donos da fêmea animal, dispõem como querem. Sarai a deu a Abraão para ela, Sarai, ter um filho.

Grávida, Agar sentiu-se superior a Sarai. Errou? Pode ser que sim, mas muitas vezes a única ação dos oprimidos é o orgulho, a dignidade de terem algo só seu, ainda que não seja um bem material. Sarai a maltratou até ela fugir. Sabendo que escravos não eram paparicados e geralmente não eram tratados como  fidalgos, imagine-se a natureza dos maus tratos que a fizeram fugir. Para uma escrava se sentir desesperada a ponto de aventurar-se pelo deserto, estando grávida, a situação não deve ter sido fácil.

 

Lá vai Agar pelo deserto, “mas o Anjo do Deus Eterno a encontrou no deserto, perto de uma fonte que fica no caminho de Sur” (v. 7). Deus encontra os usados, abusados, coisificados e maltratados pelo deserto em que eles andam. O cético pode dizer que Deus não se imiscui em nossa vida. Sem dúvida, a tal cético falta a experiência do poder de Deus. Pode ter informações sobre ele, mas não experiência real com ele. Porque Deus encontra. E dá uma solução curiosa e estranha: que Agar volte para sofrer mais: “Então o Anjo deu a seguinte ordem: -Volte para a sua dona e seja obediente a ela em tudo” (v. 9). Era a última coisa que Agar desejava, mas a orientação de Deus, por vezes, pode nos soar desconcertante.

 

Não só de submissão, mas também de promessas se constitui a mensagem divina: “E o Anjo disse também: ‘Eu farei que o número dos seus descendentes seja grande; eles serão tantos, que ninguém poderá contá-los. Você está grávida, e terá um filho, e porá nele o nome de Ismael, pois Deus escutou o seu grito de aflição. Esse filho será como um jumento selvagem; ele lutará contra todos, e todos lutarão contra ele. E ele viverá longe de todos os seus parentes’” (vv. 10-12).  O menino será Ismael (Isma’el – “Deus ouve”). Agar terá um filho e seu nome não deixará que ela esqueça que Deus a ouviu.

 

A história segue: “Então Agar deu ao Eterno este nome: ‘O Deus que Vê’. Isso porque ele havia falado com ela, e ela havia perguntado a si mesma: ‘Será verdade que eu vi Aquele que Me Vê?’. É por isso que esse poço, que fica entre Cades e Berede, é chamado de ‘O Poço Daquele que Vive e Me Vê’ (vv.13-14). Agar não conhecia a Deus como Yahweh, mas chamou-o de El-Rói (“Deus de visão”). E o poço onde ela se encontrou com El-Rói, ela chamou de Laaí-Roí¸”Vivente que me vê”. Há momentos em que parece que o nome adequado para Deus será El Lô-Roí (“Deus da não visão”), mas ele vê. Ele é El-Roí.

Ismael também recebe promessa: será o pai dos “árabes do deserto, independentes e errantes como o asno (Jó 39.5-8)”. Não será como a mãe, mas será forte, guerreiro e independente.

 

Por vezes, a vida faz de alguns de nós pessoas como Agar. Usadas, abusadas, maltratadas, coisificadas. Tais pessoas podem se perguntar, em sua dor, se Deus não vê o que elas sofrem. A experiência de Agar mostra que o Vivente vê. Se você está se sentindo como Agar, usado, abusado e maltratado, o Vivente está vendo. Pode parecer que não. Tanto parecia que não que Agar preferiu se aventurar pelo deserto. Mas Deus vê a dor que lhe infligiram. É que a história ainda não terminou. O Anjo do Senhor disse a Agar: “Deus escutou o seu grito de aflição” (v. 11b). Ele ainda vai aparecer em sua vida e ainda fará grandes coisas por você. Seu grito será ouvido.

 

Por isso, usados, abusados e descartados, não esmoreçam! Gritem! Deus ouvirá seu grito de aflição.  A solução apresentada talvez não lhes agrade. Não parece que Agar esperasse um conselho da natureza que ouviu, de voltar para sofrer mais. Mas era passageiro. A história ainda continuaria. Sua história ainda vai continuar.

 

E a história de Agar e Ismael continuou: mais tarde o filho de Sarai, Isaque, irá morar junto daquele poço (Gn 24.62). O nome não fora dado por sua mãe nem por seu pai, mas pela mãe do meio-irmão rejeitado. A lembrança de Agar ficou para sempre. Sarai e seus descendentes não podiam deixar de saber que Deus ouviu Agar, cuidou dela e de seu filho. Isaque saberia que aquele poço tinha aquele nome porque uma pessoa que sua mãe maltratou foi alcançada ali pelo Vivente que vê.

 

Usado e abusado, Deus ouvirá você. E os demais saberão que ele lhe ouviu. Não esmoreça!