CARTAS NA MESA

“Quando Abrão tinha noventa e nove anos, o Deus Eterno apareceu a ele e disse: – Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Viva uma vida de comunhão comigo e seja obediente a mim em tudo. Eu farei a minha aliança com você e lhe darei muitos descendentes (…). Naquele mesmo dia Abraão fez como Deus havia mandado. Ele circuncidou o seu filho Ismael e todos os outros homens da sua casa, incluindo os escravos nascidos na sua casa e os que tinham sido comprados de estrangeiros” (Gênesis 17.1-2, 23).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Neste texto, o Deus Eterno reafirma e sela sua aliança com Abrão. O relato é majestoso: “Eu sou El Shadday”. Literalmente, “o Deus que é suficiente”, com a idéia de que ele tem poder para fazer as coisas acontecerem. É um título antigo para Deus, usado mais em Gênesis e Jó, e poucas vezes em outros lugares da Bíblia. Normalmente associa o poder de Deus com a fraqueza humana. Passaram-se dezesseis anos entre os capítulos 16 e 17. Havia dezesseis anos que Deus não se revelava a Abrão, e se  haviam se passado vinte e quatro anos desde que ele fez a promessa de 12.1, quando chamou o patriarca. Usando este episódio de Abrão, há gente prometendo “resultados” em uma semana de reuniões e contribuições na igreja. Mas foram dezesseis anos de silêncio. E hoje há gente que tem revelações de cinco em cinco minutos. Abrão deve se sentir inferiorizado com essas pessoas…

O ânimo de Abrão devia estar para baixo. O tempo corria contra ele. Mas Deus logo colocou as cartas na mesa. Apresentou-se como sendo o suficiente, e logo fez uma exigência: “Viva uma vida de comunhão comigo e seja obediente a mim em tudo”. Comunhão e obediência foram seus pedidos. “Seja obediente a mim em tudo” foi traduzido por Almeida como “Sê perfeito”. É o hebraico teymym, que sugere algo completo, com cada parte alcançada e preenchida diante de Deus. Uma vida íntegra, sem lacunas.

 

As pessoas querem as promessas que foram feitas a Abrão, mas não gostam das exigências. Querem bênçãos, mas não compromisso. Ora, Deus não prometeu a nenhum de nós que nossos filhos serão príncipes, como prometeu a Abrão, mas exige obediência de todos nós. Só que as pessoas querem usar Deus, não viver de acordo com a vontade dele. No entanto, não há bênçãos prometidas a desobedientes.

 

Abrão passa a ser Abraão, ‘ab hâmon, “pai de uma multidão”. Naquele tempo, ter muitos filhos era sinal de prosperidade. Hoje é sinal de ruína porque cuidar de filhos é custoso e eles vão viver suas vidas logo que podem. Mas o sinal externo de sua obediência seria a circuncisão. Ele se circuncidou e fez o mesmo com toda a população masculina dependente dele. “Naquele mesmo dia Abraão fez como Deus havia mandado”. Ele era homem que sabia esperar, mas nunca fez Deus esperar. E ele estendeu isso para todos em sua casa. Não se trata de abençoar por procuração, como  ouvimos em nossas orações: “Abençoa todas as famílias aqui representadas!”. É que naquela época, o senhor de um clã era responsável por todos. Era a cultura da socialidade. Abraão leva para onde vive as exigências de Deus. É outra lição: prezamos obediência e levamos nossa espiritualidade para todas as áreas da nossa vida, ou a confinamos ao templo?

As expectativas de Abraão eram pequenas. Tudo que ele esperava era que Ismael fosse abençoado por Deus: “Então Abraão disse a Deus o seguinte: – Quem dera que Ismael vivesse abençoado por ti!” (v. 18). Mas Deus tinha muito mais para dar e para fazer em sua vida: “Mas Deus respondeu: – O que eu disse foi que Sara, a sua mulher, lhe dará um filho. E você o chamará de Isaque. Eu manterei a minha aliança com ele e com os seus descendentes, para sempre” (v. 20). Queremos uma bênção imediata e nem sempre temos tempo para esperar que Deus cumpra o seu desígnio em nossa vida. Muitas vezes queremos resolver nosso problema e não compreendemos que o propósito de Deus exige que passemos por aquele problema. Que ele faz parte da pedagogia divina, em um processo cuja compreensão, por vezes, nos escapa.

 

Quando há obediência, prontidão e integridade podemos esperar seguros em Deus. Ele tem projetos que se cumprirão em nossa vida. Esses projetos são muito mais amplos que nossos sonhos, que são pequenos e voltados para o aqui e o agora. Paulo expressou muito bem o quanto Deus pode fazer, além de nossa expectativa: “E agora, que a glória seja dada a Deus, o qual, por meio do seu poder que age em nós, pode fazer muito mais do que nós pedimos ou até pensamos!” (Ef 3.20).

 

Prega-se muito sobre a bênção de Abraão. Na realidade, deveríamos pregar mais sobre as bênçãos que nos vêm por Cristo, mas as pessoas querem mais coisas e riquezas que Cristo. As riquezas de Abraão dão mais ibope que a cruz de Cristo. No entanto, é oportuno recordar que Deus operou na vida de Abraão por causa de seu propósito eterno e de sua soberana vontade. Pode fazer conosco de outra maneira. Mas exigiu do velho patriarca que ele fosse íntegro e obediente. E exige isto de todos nós, independente do que venha a fazer em nossa vida.

 

“Eu sou o Deus que é suficiente para você”, foi mais ou menos nestes termos que Deus se apresentou a Abraão. Todos nós gostaríamos de ouvir esta palavra do Senhor. Devemos associá-la com o restante da apresentação: “Viva uma vida de comunhão comigo e seja obediente a mim em tudo”. Guarde bem isto: as bênçãos dependem do amor divino e do seu propósito para conosco. Mas nunca se dissociam da obediência e da santidade. Não se ligam a campanhas de fogueira santa, mas a uma vida de obediência. Não há bênçãos para desobedientes. E a freqüência a reuniões não substituem o que Abraão fez: levou seu compromisso com El Shadday para todas as esferas de sua vida. Santidade não é litúrgica. Nem praticada num prédio. É moral e praticada em toda a vida da pessoa.

 

Por tudo isso, lembre-se da exigência de Deus: “Viva uma vida de comunhão comigo e seja obediente a mim em tudo”. Deus colocou logo as cartas na mesa. Aceitemos as regras.