DISCUTIR A RELAÇÃO OU SE RELACIONAR?

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Há quem veja filmes para se distrair. Há quem faça do ver filmes uma ciência: são apaixonados por cinema, conhecem atores, e discutem cinema como arte. Como meu amigo Marcelo, do Rio. Já eu tenho dificuldades. Assisto a filmes por distração, e fujo dos “filmes cabeça”, aqueles que pretendem ser filosóficos. Sei que sou um ignorantão, mas vá lá, acho o endeusado Woody Allen um chato (vão me detonar, mas acho mesmo). E ainda tem mais: na maior parte dos filmes eu durmo. Televisão me é um poderoso sonífero. Suprema blasfêmia para cinéfilos: vejo filmes para dormir.

Li “O clube do filme”, uma interessante história, apesar da tolice do processo pedagógico que tenta aventar. O autor do livro é crítico de cinema, pai de um adolescente e inicia o filho no conhecimento de filmes. Eles vêem três filmes por semana e o pai comenta com ele o teor do filme, seus bastidores, a vida dos artistas, etc. E conversam entre si. Num determinado momento, o adolescente, que está em crise no namoro, ouve uma curiosa palavra do pai. Este teve uma namorada que se preocupava mais em discutir a relação que em se relacionar. Como era de se esperar, o romance acabou.

Mas é real! Há pessoas que discutem tanto a tal da relação que acabam não se relacionando. Elas curtem mais os problemas que o prazer. Apreciam mais a discussão que o afeto. Há casais com enorme dificuldade em mostrar ternura, mas enorme facilidade em cultivar amargura. Tudo é motivo para “discutir a relação”. Geralmente, pelo que tenho visto, são pessoas com problemas emocionais mais sérios que a tal “relação”. Elas amam discussões e têm dificuldades quando tudo vai bem. Até criam uma tempestade do nada.

Mutatis mutandis (“mudando o que deve ser mudado” –  artigo meu também é cultura), há aqueles que só vêem defeitos na sua igreja, nos irmãos, e que superdimensionam as dificuldades espirituais. Não raro são pessoas amargas e ressentidas. Criam tempestades do nada. Criar crises ou fomentá-las lhes é mais prazeroso que viver a espiritualidade.  E se  frustram porque não vêem a beleza da vida cristã e dos relacionamentos em Cristo.  Assim sendo, alimentam problemas.

A vida é boa, e a vida cristã é melhor ainda. Ter amigos é bom, mas ter amigos na igreja é melhor ainda. Mas há gente que insiste em “discutir a relação” com a igreja, ao invés de amar a igreja. Geralmente o discutidor de relação em termos pessoais é pessoa amarga, insegura e criadora de caso. Gosta de dominar e precisa ter a outra parte submissa. O “discutir a relação” é uma maneira de enquadrar a outra parte.  Às vezes (quase sempre, na realidade) é uma pessoa difícil de viver, e coloca a culpa nos outros. Se mantivermos o paralelo  (aplicando o mutatis mutandis, que todos já sabem o que é, agora) é pessoa ruim de vida nas igrejas por onde passa, cria casos, e não desfruta a beleza da vida cristã. Torna-se infeliz. E infelicita o ambiente.

Curtamos o evangelho e as belezas da vida em Cristo. Apreciemos e desfrutemos da beleza da comunhão cristã, o viver com os irmãos. E evitemos “discutir a relação”. Melhor que isso é vivermos a relação. Invista afeto, tempo e amor na vida cristã. Não espere que a igreja o ame. Ame-a e você será amado. Relacionar-se é melhor que discutir a relação.