TRANSPORTANDO OS FILHOS DE DEUS

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 11.9.11

 

“Transportando os filhos de Deus” é o lema de uma empresa de ônibus do Amapá. Cruzo com eles, diariamente, no trânsito. Moro no Cabralzinho, fora do miolo da cidade, caminho de Santana, e eles fazem o trecho entre Macapá e Santana. Um dia desses, um deles vinha à toda pela rodovia. Em linguagem coloquial, vinha fungando no cangote de um Palio velhinho (como um que conhecemos). O pobre do Palio fazia de tudo para aumentar a velocidade e não conseguia. E o “Transportando os filhos de Deus” vinha quase grudado em sua placa traseira. Comentei com Meacir: “Ele quer transportar os filho de Deus para o céu”.

Crentes gostam de frases de efeito, frases de arroubo, declarações pomposas. Embora haja nove exortações no Novo Testamento à sobriedade, quem for sóbrio corre o risco de ser chamado de “frio, carnal, mundano”. Crente saudando igreja é sempre um susto: “Amém, amada igreja?”. E ai da igreja se não se esgoelar no “amém”. O saudador cobrará um amém berrado. Por algum motivo associamos grito com espiritualidade. Como associamos frases feitas com convicções.

Tive um vizinho cujo carro tinha um adesivo capaz de fazer corar qualquer amante da boa redação e do bom senso: “Com Cristo na mente dirijo contente sem acidente”. Além da rima pobre, a falta de nexo. Tanto que algum tempo depois o “Cristo na mente” capotou na Rodovia Marechal Rondon, na bela Bauru. O contente ficou doente…

A vida cristã tem sido reduzida a gestos, declarações grandiloqüentes, frases de efeito. Tem deixado de ser firmeza na caminhada, perseverança nas tribulações, consagração da vida e busca de utilidade. Tem deixado de ser algo global, que envolve toda a vida, em todas as áreas, e passado a ser setorial, de fachada para os outros, e  vivida em certos momentos. Já notou como temos “adoradores” e como nos faltam “servos”? Como se buscam bênçãos e se foge do serviço?

A televisão dramatiza os cultos e a vida cristã. Assim muita gente não entende que uma vida tranqüila e que um culto sem gritaria ou sem astros eclesiásticos honra a Deus. Outros mais pensam que seguir a Cristo é algo teatral, sempre com espetáculo. Muitas vezes é a vida no cotidiano. A felicidade no pão de cada dia. A alegria de ter a casa para cuidar, porque é bênção de Deus. A felicidade de ter um emprego para se manter e à família. A certeza de que Deus está sempre presente, na maior parte das vezes nos bastidores, cuidando e conduzindo. Embora alguns insistam em trazer Deus para o palco onde montam sua vida cristã e a exibem aos demais.

Sem estardalhaço, sem alarido, sem spotlight, mas na constância, no serviço, na prática da humildade e no exercício da misericórdia. Transportar os filhos de Deus, mas com bronca ao volante, é non sense. Por isso, gente, menos externalidade e vivência mais profunda.