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A MATEMÁTICA DO PERDÃO

 

Isaltino Gomes Coelho Filho

Publicado originalmente na revista “Você. Publicada no site com a autorização da revista.

“Então Pedro chegou perto de Jesus e perguntou: – Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes? – Não! – respondeu Jesus. – Você não deve perdoar sete vezes, mas setenta vezes sete”  (Mateus 18.21-22, NTLH).

 

Jesus havia acabado de falar, há pouco, aos seus discípulos, sobre a maneira deles se relacionarem. Se um irmão errasse contra o outro, este deveria procurá-lo e acertar os ponteiros com ele (v. 15). Se o errado ouvisse, a pessoa certa teria ganhado o irmão. Que bom! É melhor ganhar alguém que perder a amizade da pessoa! Mas se o errado não quisesse ouvi-lo, ele deveria levar duas ou três outras pessoas, agora já como testemunhas (v. 16). Se ela não ouvisse os irmãos, uma espécie de comissão, então que o assunto fosse à igreja (v. 17). Isto é importante. Precisamos resgatar a autoridade da igreja. Ela não é apenas um lugar aonde vamos nem uma instituição que deve fazer nossa vontade e atender aos nossos caprichos. Ela é a manifestação da presença de Jesus neste mundo, e tem autoridade sobre seus membros. Se a pessoa errada não quisesse ouvir a igreja, então esta o deveria considerar como um não irmão. Como se fosse “um pagão ou cobrador de impostos” (LH). Estas eram duas classes de pessoas que não tinham boa imagem espiritual. Quem recusa se corrigir acaba criando uma imagem espiritual ruim para si.

Jesus ensinou que irmãos que entrassem em desavenças deveriam procurar logo a reconciliação. As pessoas devem se entender e viver em paz, umas com as outras. O princípio do entendimento é bem simples. Basta as pessoas não se colocarem como mais importantes que as outras, entendendo que o maior é quem serve (18.1-5). O problema é que a vaidade humana é muito grande, e a igreja é contaminada pelo jeito de ser do mundo. Segundo o ensino de Jesus, o maior é quem serve. Ele mesmo serviu (Mc 10.45). Para o mundo, o maior é quem tem muitos serviçais. São visões completamente diferentes, e muitas vezes nós copiamos o modelo do mundo.

 

Parece que Pedro se sentiu um pouco incomodado. O maior é quem serve? Deve tratar bem quem erra comigo? Então fez uma pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?”. Por que, exatamente sete? Por que não dez, por exemplo?

 

Os mestres judaicos (os rabinos) ensinavam a perdoar até três vezes. Eles usavam a história de Israel, lembrando que Deus perdoara as nações inimigas apenas três vezes (veja isso em Amós 1.3, 6, 9, 11 e 13). Ora, se o próprio Deus perdoara apenas três vezes, diziam os mestres, por que ser mais justo que ele e perdoar mais vezes que ele? Perdoar três vezes estava de bom tamanho. Pedro resolveu “arrasar”: dobrou o número que os mestres rabinos recomendavam e deu mais um de quebra: “até sete?”.   Além disso, sete é um número simbólico, na cultura do Oriente antigo, pois era o número de dias na semana. Era o número que contava o tempo. Seu valor era mais que matemático, era simbólico. Na mística judaica dava a idéia de algo completo, bem extenso. Pedro não apenas excedeu o ensino dos mestres como mostrou que estava cheio de disposição para perdoar.

 

Mas Jesus sempre foi desconcertante. Deu uma resposta a Pedro que, por certo, ele não esperava. Talvez Pedro pensasse que Jesus lhe diria: “Puxa, Pedro, você está crescendo espiritualmente, rapaz! Estou orgulhoso de você!”, mas não foi esta a palavra que Jesus deu. “Setenta vezes sete” ou, como pode ser, em uma variante de tradução, “setenta e sete vezes”. A primeira possibilidade é a mais aceita. Bem, setenta vezes sete dá quatrocentos e noventa. É este o número de vezes que temos que perdoar?

 

A expressão de Jesus é mais que matemática. É teológica: Na cultura linguística da época sugere um número infinito de vezes. Nos escritos apócrifos, como no livro de Eclesiástico (não confunda com o livro de Eclesiastes, que está em nossa Bíblia), tinha este sentido, de um número ilimitado de vezes. Não há limites para o perdão que devemos exercer. Porque nosso padrão não é o trato de Deus com as nações no Antigo Testamento, mas é o ensino de Jesus, no Novo Testamento. Nós somos cristãos, e não judeus. Consideremos que não há limites para o perdão que Deus manifestou em Jesus. Quem foi perdoado deve perdoar. Tanto é assim que logo a seguir ele conta a parábola do credor sem compaixão (18.23-35). Quem provou o amor e perdão de Deus deve amar e perdoar os irmãos. João disse isso de maneira bem clara: “Queridas amigas e amigos, se foi assim que Deus nos amou, então nós devemos nos amar uns aos outros” (1Jo 4.11).

 

Mas Jesus sabia o que estava dizendo. Perdoar faz bem. Faz bem a quem é perdoado, porque esta pessoa fica sabendo que a outra parte não tem mais nada contra ela. Faz bem à igreja, porque quando seus membros estão brigados, o testemunho da nossa fé ao mundo fica mais difícil. E faz bem a quem perdoa, porque o perdoador tira um fardo do seu coração. Por isso não deve haver limite para o perdão. Devemos perdoar sempre.

 

Saber estas coisas é importante, mas praticá-las é mais importante ainda. Se você tem mágoa ou ressentimento contra alguém, se está bronqueado com alguma pessoa, procure acertar-se com ela. Será uma libertação para ela e para você. E se ela for da igreja, será uma bênção para a igreja. Perdoe, e no ensino de Jesus, até “setenta vezes sete”.

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