APRENDENDO A LIDAR COM AS PESSOAS

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Apresentado aos alunos do Centro de Formação Pastoral do Amapá

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Hoje se ouve muito falar de “confrontação”, no aconselhamento pastoral. Em linhas gerais, é uma técnica de aconselhamento que se pauta pela repreensão bíblica. O termo “confrontação”, com toda a sua carga negativa, deixa isso bem claro. O maior representante desta teoria, entre os evangélicos, é Jay Adams. Foi uma reação às técnicas modernas de não interferência do conselheiro nas decisões do aconselhando, e à assimilação das técnicas de psicologia secular pelos conselheiros pastorais. A linha a seguir era a de enfatizar o valor das Escrituras no aconselhamento pastoral, e não as idéias tolerantes e aceitadoras do pecado, o que me parece válido.

 

Adams também resgata o valor da igreja, nesta teoria de aconselhamento. Se a pessoa aconselhada é membro de uma igreja, está debaixo de sua autoridade e a igreja pode repreendê-la. Somando as duas coisas, a autoridade das Escrituras e a autoridade da igreja, muitos adeptos desta teoria defenderam a repreensão pública das pessoas em pecado. O texto de 1Timóteo 5.20 foi muito usado: “Aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor”.

Assim sendo, o aconselhamento se tornou, em muitas igrejas, um ato de repreensão. Ou, como disse alguém, jocosamente: “Bater nas pessoas com a Bíblia”. Não me parece que foi isto que Jay Adams defendeu, mas esta posição foi assumida por alguns que usaram seu nome e sua posição. Quanto a ele, sua postura é a de recusar Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria como auxiliares e usar apenas a Bíblia. Na primeira palestra, ao tratar do assunto “Aconselhamento pastoral ou aconselhamento psicológico?”, já abordei essa questão. Minha opção é pelo aconselhamento pastoral, tendo a Bíblia como referencial, mas sem ignorar boas contribuições da Psicologia. Não sou “adamista”. A questão aqui é outra: o que significa confrontar?

 

 

1. CONFRONTAÇÃO

Ao falar de confrontação, seus propositores pensaram em confrontar o aconselhando com a Bíblia. Veja, por exemplo, esta observação de Jay Adams: “Pouco tempo depois, achei-me perguntando: ‘Não será que grande parte do que é chamado doença mental não é doença, afinal?’. Esta pergunta surgiu primariamente da observação de que, enquanto a Bíblia descreve a homossexualidade e a embriaguez como pecados, a maior parte da literatura especializada em saúde mental as chamava de ‘doenças’ ou ‘enfermidades’. Crendo na veracidade da Bíblia, o que me cabia era dizer que os especialistas em saúde mental erravam rotundamente tentando transferir do pecador sua responsabilidade, colocando a fonte do seu problema alcoólico ou sexual em fatores estruturais ou sociais completamente fora do controle dele”[1].

 

Concordo com isto. Nós nos pautamos pela Bíblia. O que ela diz que é pecado é pecado. Se ignorarmos seu ensino e se considerarmos certas práticas que ela diz que são pecaminosas como sendo doença, eliminaremos todo o alicerce da responsabilidade pessoal. Afinal de contas, o doente não é responsável por estar doente. Mas tenho algumas ressalvas com a confrontação bíblica porque tenho visto gente que simplesmente abre a Bíblia e lê duas ou três passagens bíblicas para o aconselhando, como se tivesse aberto um livro de receitas médicas e usasse os remédios de acordo com os sintomas. A pessoa é ignorada como pessoa. Sua particularidade é posta de lado. No aconselhamento isto é um risco muito grande. E muitas vezes, quando a pessoa está em pecado (porque alguns dos problemas dos aconselhandos são mesmo causados pelo pecado) parece que estão batendo nela com a Bíblia. Há momentos em que a gente não confronta, mas se enche de compaixão. Entendo bem as diferenças, mas entendo também que um conselheiro é uma pessoa empática (lembra disto?), não empática com o erro, mas com a pessoa, e muitas vezes precisará usar mais de carinho que de repreensão.

 

Reconheço a autoridade das Escrituras e a autoridade da igreja (e, pelo que tenho escrito, qualquer pessoa me negar isto estará usando de má fé), mas receio que a ausência de misericórdia e o autoritarismo no aconselhamento sejam produtos imediatos da confrontação. Ou que a causem. O que dá no mesmo. Por isso definamos confrontação como valer-se da Bíblia e confrontar todo o processo de aconselhamento por ela.

 

2. E O QUE A BÍBLIA DIZ?

Consideremos esta palavra de Paulo a Timóteo: “Não repreenda um homem mais velho, mas o aconselhe como se ele fosse o seu pai. Trate os homens mais jovens como irmãos, as mulheres idosas, como mães e as mulheres jovens, como irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2).

 

Se você prestou atenção aos detalhes, Paulo especifica maneiras diferentes de tratar as pessoas, de acordo com as suas faixas etárias.  Isto vai nos ajudar no aconselhamento. Paulo estabelece uma diferença entre o trabalho pessoal do líder cristão e sua tarefa como pregador. Quando pregamos, somos unidirecionais, ou seja, nossa palavra tem uma direção geral, o auditório como um todo. A pregação é proclamação. Não é diálogo, é unidirecional e autoritativa (isto é, com autoridade). Ela também é genérica. A não ser que o pregador esteja pregando especificamente a um grupo, o sermão é para toda a igreja. O aconselhamento é para uma pessoa, em particular. É uma conversa pessoal e não proclamação. O conselheiro tratará um homem mais velho que ele com o respeito que deve ter a seu próprio pai. Aos mais jovens ele tratará como se fossem seus irmãos. Às senhoras idosas ele tratará como se fossem sua mãe. E as jovens, como se fossem suas irmãs. E “com toda pureza”, ressalva Paulo. Esta observação é ainda válida para orientar o conselheiro de hoje: cuidado com orientação a jovens, para que esta não resvale para excessiva intimidade.

 

A pregação pode ser geral, mas o aconselhamento deve ser particular. E deve ser adaptado a cada faixa. Cada grupo deve ser tratado de uma determinada maneira. Por isso, a seguir, vamos analisar um pouco das características de cada faixa etária, de maneira que saibamos como agir com as pessoas de cada grupo. Veremos suas características, sempre as alistando em quatro blocos: Mentalmente, Fisicamente, Socialmente e Espiritualmente.

 

4. AS CARACTERÍSTICAS DO ADOLESCENTE – 13 a 16 ANOS

Poucas vezes os adolescentes procurarão aconselhamento no gabinete pastoral. Isto porque, geralmente, são arredios aos adultos e refratários a conselhos. Em casos mais sérios e quando eles têm confiança no obreiro isso sucederá com menos lentidão.  Mas em caso de crise, conversarão com o líder. Em outras ocasiões não procurarão nem para conversar, porque algumas vezes temem os adultos.  Mas é uma faixa etária que o conselheiro poderá procurar, porque aceitará conversa. No início, o adolescente é sempre reticente na conversa com o adulto, mas depois, quando confia nele, se abre e fica à vontade. Por isso, o conselheiro precisará ser amigo dos adolescentes e saber ganhar sua confiança. Não deve se portar como adolescente porque este é muito intuitivo e saberá quando o conselheiro estiver sendo artificial. Por isso, seja sempre natural. O adolescente rejeita a pessoa que finge com ele. É melhor ser uma pessoa mais austera em quem ele confie do que ser uma pessoa bajuladora, que ele nota que não está sendo natural.

 

4.1 – Mentalmente

1. Exagero da autoconfiança. O adolescente é exagerado em se julgar o bom. Há uma postura de desdém pelos mais velhos. É a época de contestação dos pais e dos líderes. Normalmente o adolescente é um borderline, ou seja, assume posturas perigosas, esportes de riscos, tem conduta arriscada. É a época em que acha que pode tudo e que pode até se envolver com drogas que conseguirá escapar quando quiser. Envolve-se em trapalhadas por ser autoconfiante em demasia.

2. Interessado em aparência pessoal. Interessa-se por sua aparência porque começa a se interessar pelo sexo oposto. Via de regra (para o padrão do adulto conservador), veste-se mal, porque imita aos demais e segue a moda. A moda, quase sempre, é ridícula. Basta ver alguns desfiles de modas em que roupas que ninguém usará são apresentadas.  Mas começa a se preocupar com sua aparência. O grande terror: as espinhas. Porque atingem logo o rosto.

3. Desenvolvimento sexual. Antigamente este era um período nebuloso, mas hoje, com a sexificação da sociedade, o sexo não lhe é estranho. Mas é o período em que a iniciação sexual sucede e o tema ocupa muito a sua mente. A pornografia atrai, a masturbação é praticada com freqüência, e, como acontece com a masturbação, os pensamentos impuros são rotineiros.

4. Menos energia. Dorme demais, sempre está cansado. As rápidas modificações em seu corpo consomem muita energia. Por isso, muitos adolescentes são vistos como sendo preguiçosos. São mais jovens, mas rendem menos que adultos.

 

4.2 – Fisicamente.

1. Espírito de autoconfiança. Começa a se julgar fisicamente forte. Não é incomum lermos de brigas de adolescentes. É a época em que muitos se ajuntam em patotas ou gangues.

2. Acanhado. Envergonha-se com facilidades, tem pavor de ser zombado e se envolve até com quem não presta para não ser nerd ou otário.

3. Desajeitado. Desconhece ainda seu corpo, e as mudanças fisiológicas, inclusive a mudança de voz. Envergonha-se facilmente.

4. Impulsos em conflitos. É muito conflituoso. Chocam-se seus impulsos sexuais e de energia com a criação recebida. Choca-se com falhas na igreja. Torna-se crítico em relação ao que recebeu, mas ainda não tem valores para abraçar.

5. Romance. Apaixona-se com facilidade. É muito sentimental. Não é incomum ouvir-se que adolescentes foram vítimas de abuso sexual por parte de algum desconhecido com quem travou contato pela Internet. Está em busca do “grande amor da sua vida”. E gosta de arriscar. Risco e sonho, juntos, podem produzir estragos.

6. É introspectivo. Olha muito para dentro de si e quer privacidade. Em alguns momentos quererá isolamento. Neste período será calado e bastante fechado.

7. Reajustamento social. Está refazendo conceitos sociais e escolhendo amizades. Rejeitará alguns padrões e estabelecerá outros. É uma ocasião de mudança. Um bom conselheiro ajudará bastante.

 

4.3 – Socialmente

1. Investigador. Isso ocasionará no ponto 4.4 o item 1.

2. Raciocínio rápido. Muitas vezes a resposta vem na ponta da língua, em discussão com alguém. Mas o ponto aqui é que a ingenuidade e a dependência de opinião de adultos diminuem. Começa a raciocinar com rapidez, mesmo que de forma confusa. Mas é o seu raciocínio, a sua opinião.

3. Confuso. Choque de opiniões, crise de valores, falta de referências para avaliar e definir-se, imaturidade emocional, tudo isso produz sua confusão.

4. Idealista. Começa a romantizar a vida. Tem ideais que podem ser errados, mas mostram que aspira a ser útil e a ser grande. No aconselhamento, exemplos de pessoas que lutaram por ideais sempre são melhores que conceitos abstratos. O adolescente procura alguém a quem imitar.

5. Abandono dos estudos.  É uma época em que muitos abandonam a escola. O adolescente precisa de incentivo e de monitoramento por parte de pessoas mais experientes (não de patrulhamento). Erram os pais e erram os conselheiros que deixam pra lá porque é assim mesmo. Um dos grandes problemas dos pais é o limite de liberdade que devem dar. A mesma coisa sucede nas igrejas. Há pastores dando a liderança musical da igreja aos jovens, “para não perdê-los para o mundo”. E os perdem para um evangelho que não é o evangelho. A música ficou sendo uma reserva dos jovens nas igrejas, mas na parte de cima faltam líderes. Onde estão os jovens da década passada, que foram guindados a líderes musicais? Estão liderando na igreja, hoje?

6. Memória associativa. Associa fatos com pessoas, comportamentos de pessoas com instituições, etc. A falha de um líder poderá ser associada com a falha da instituição. Pastores que falham com as igrejas abalam as estruturas dos adolescentes. Um bom conselheiro levará isto em conta, buscará não falhar e tratará de dissociar, no aconselhamento, falhas de pessoas com as falhas da igreja. Se o adolescente perde a credibilidade numa pessoa, haverá outras em quem ele poderá confiar. Mas quando perde a confiança numa instituição, o trabalho será mais difícil.

 

4.4 – Espiritualmente

1. Crise religiosa. É a melhor época para a conversão. E também a melhor para abandonar a igreja. Um bom conselheiro saberá se locomover nesta área.

2. Desejo de servir. Por causa do idealismo. Excelente época para se trabalhar neles a consciência de serviço cristão e a chamada para o ministério. Um bom conselheiro saberá despertar no adolescente aconselhado o desejo de ser útil.

3. Desânimo. Por causa dos sentimentos confusos e da ausência de determinação. Pela incapacidade de decidir seu futuro, pelo medo de ter que tomar decisões sérias.

4. Covardia. Por vezes a covardia é em termos de fuga de responsabilidade. Em outras, ela se manifesta em forma de crueldade. Os casos de bullyng nas escolas mostram isso.

 

Estas características nos dão um quadro das possibilidades de se lidar com o adolescente. O conselheiro, sabendo como ele é, poderá montar sua estratégia de conversa pessoal e de trabalho coletivo. Saberá os pontos positivos e os negativos que poderá explorar. Saberá por onde fazer uma abordagem positiva e eficiente. E saberá também o que deve evitar. Evidentemente que evitará ser manipulador, mas com isso saberá como conquistar a confiança do adolescente e como se conduzir no relacionamento com ele.

 

5. AS CARACTERÍSTICAS DO JOVEM – 17 a 24 ANOS

Os jovens se constituem numa grande força da igreja, mas também são um grupo que necessita muito de acompanhamento. Boa parte dos problemas da igreja tem surgido no meio deles. Não se trata aqui do aconselhamento individual, mas da presença do líder da igreja como alguém que tem ascendência sobre eles e pode ser referência até mesmo sem aconselhamento face a face. Como lidar com o jovem? Como aconselhá-lo? Vejamos suas características mais marcantes.

 

5.1 – Mentalmente

1. Maturidade. Do ponto de vista mental, está no ponto ideal. Não é mais inseguro como o adolescente. Já tem muitos pontos de vista firmados e não é tão dependente da opinião do grupo como o adolescente. Discorda e sabe filtrar muito do que ouve, embora ainda seja facilmente impressionável. Já tem noção de carreira a seguir e pensa em seu futuro de maneira mais organizada, como constituição de família. O aconselhamento pode ser mais racional e mais conceitual.

2. Autoconfiança. Não em excesso, porque muitas vezes já se deu mal e aprendeu a ser menos afobado e um pouco mais prudente que quando era adolescente. Mas tem confiança em si, e acha que pode resolver situações difíceis que surgem. Pode ser desafiado a mudanças porque crê que dará conta de efetuá-las.

3. Hábitos de saúde formados. Tem noção do que é prejudicial. Pode até se envolver com drogas, por insegurança emocional e fuga da realidade (causa principal do uso de drogas), mas não é ingênuo como o adolescente que se acha acima dos riscos. Sabe o risco de álcool, fumo e está informado das DST. Pensa que coisas ruins podem lhe acontecer.

4. Atléticos. Geralmente praticam esportes. Cuidam mais do corpo, são menos desleixados com a aparência.

 

5.2 – Fisicamente

1. São independentes. Podem preparar seu prato, cuidam de sua vida. Sabem agir e aprendem a “se virarem sozinhos”.

2. Responsáveis. Assumem compromissos com mais seriedade, até mesmo porque estão buscando uma causa para se engajar. Pode-se confiar tarefas a eles. No aconselhamento aprendem a assumir culpa e reconhecem erros.

3. Amigos. Nem sempre andam em bandos, como adolescentes, mas têm grande espírito de grupo e de amizades. Um conselheiro que consiga mostrar-lhes amizade terá neles amigos de verdade. Nesta fase da idade formam amizades que durarão muitos anos.

4. Espírito de renúncia. Exatamente por estarem em busca de uma causa, há um grande espírito de renúncia. Muitos missionários comprometeram suas vidas com a obra nesta fase de sua vida. Assumem compromissos espirituais e renunciam até mesmo a confortos e um futuro seguro, se entenderem que isto é digno de um estilo de vida que os apaixone. Um bom conselheiro saberá se valer deste aspecto para desafiá-los a abrirem mão de circunstâncias para uma vida mais santa e mais engajada no reino.

5. Amor-sexo. O amor não é mais platônico, como no início da adolescência. É identificado com o sexo. A sexualidade não é tão perturbadora como na adolescência, mas é mais forte, desejando se expressar. Antigamente, antes do que os psicólogos chamam de “adultescência”, era a fase em que muitos casamentos sucediam (aos 23 ou 24 anos era comum que os jovens se casassem).

5. Habilidades. Menos “desengonçado” que o adolescente, com mais domínio corporal, o jovem apresenta habilidades físicas mais desenvolvidas. Os grandes atletas de hoje começam a ser fabricados desde a infância, mas é nesta fase de idade que a habilidade corporal se manifesta mais acentuada. Exceto os gênios e os fabricados, aqui aparece habilidade esportiva, artística, etc.

 

5.3 – Socialmente

1. Escolhas feitas. É uma época de formar amizades que perdurarão, de tomar decisões religiosas em que permanecerão firmes, e de escolha de profissão. Geralmente as conversões acontecidas nesta época permanecem.

2. Razão e vontade. São menos impressionáveis que adolescentes. Usam mais a razão e a vontade consciente, mais que os impulsos. Pode se racionalizar o aconselhamento.

3. Amadurecidos. Por causa do item 1. As amizades são mais selecionadas e as posturas diante da vida são mais equilibradas.

4. Busca da verdade. Isto hoje pode estar um pouco apagado porque somos uma sociedade que busca conveniências, e não mais a verdade. Até mesmo nas igrejas, a verdade tem sido sacrificada pela ditadura dos números. A igreja tem optado pelo que dá certo, aos olhos do mundo, e não pela verdade. Mas mesmo massificado por esta cultura de querer proveito, o jovem ainda busca a verdade. É a procura de uma causa para viver. É a busca de respostas que o satisfaçam.

5. Pensamento independente. Da mesma maneira que a igreja, o jovem tem sido massificado pela mídia. Mas seu pensamento é próprio. Já rejeitou algumas coisas que recebeu na infância, quando estava na adolescência. Agora tem algumas idéias próprias e valores pessoais. Pode seguir algum “guru iluminado”, mas já pensa por si. O conselheiro deverá estimulá-lo a tomar decisões pessoais e se firmar nelas.

 

5.4 –Espiritualmente

1. Vontade de servir. Por ser idealista, o jovem deseja servir. Alguns pastores, por causa das crises dos seminários têm alegado que as igrejas não estão mais desafiando os jovens. Não é verdade. O Projeto Radical da JMM e os projetos trans, da JMN, mostram que o jovem quer servir. Ele recusa o seminário porque não vê sentido nele nem vê desafio na vida de muitos professores, que associam erudição como iconoclastia. Os seminários é que estão ficando desinteressantes para os jovens, com a substituição da teologia pela sociologia da religião, com a secularização do sagrado. Mas o jovem continua desejoso de servir. O pastor e o conselheiro podem usar isto como um desafio ao engajamento e como desejo de estabelecer propósitos para sua vida.

2. Conversão. É uma época propícia à conversão. Não apenas a religiosa, mas a conversão em termos de valores. O conselheiro poderá desafiar o jovem a mudar atitudes e comportamentos, porque encontrará resposta.

3. O surgimento de dúvidas. Se é uma época para entrar para o serviço é também uma época para desviar do evangelho. O conselheiro precisa oferecer respostas seguras e mostrar convicção do que fala. As dúvidas não devem ser encaradas como falta de fé ou incredulidade, mas sim como a busca de conhecimento da verdade. Questiona-se o assumido para ter certeza, não necessariamente para se afastar do evangelho.

4. Escolha da vocação. É um tempo de entrada em universidade, de escolha de carreira, de avaliação do uso da vida e preocupação com o futuro. As encruzilhadas são muitas e o conselheiro precisa ter compreensão de que o jovem um lugar ou um espaço social para encaixar sua vida.

 

É indispensável que o conselheiro mostre aos jovens que é uma pessoa segura e equilibrada, aparecendo como alguém que está convicto de sua tarefa. O jovem quer tomar decisões seguras porque sabe que elas nortearão toda a sua vida. Um conselheiro inseguro ou patético causará muitos males e prestará um péssimo serviço. Os jovens confiam em uma pessoa segura, que sabe o que faz e que sabe em que crê. Imagine a segurança do jovem Timóteo ao ouvir o veterano Paulo dizer: “É por isso que sofro essas coisas. Mas eu ainda tenho muita confiança, pois sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar, até aquele Dia, aquilo que ele me confiou.” (2Tm 1.12). Mostrando toda sua convicção, ele pode desafiar e orientar o jovem pastor: “Tome como modelo os ensinamentos verdadeiros que eu lhe dei e fique firme na fé e no amor que temos por estarmos unidos com Cristo Jesus. Por meio do poder do Espírito Santo, que vive em nós, guarde esse precioso tesouro que foi entregue a você.” (2Tm 1.13-14).  Fosse Paulo um líder patético, não empolgaria nem desafiaria Timóteo.  A autoridade intrínseca, a que a pessoa tem em si mesma, e não porque lhe foi outorgada, é fundamental para o conselheiro de jovens.

 

6. AS CARACTERÍSTICAS DO ADULTO – 25 ANOS EM DIANTE

Normalmente os adultos procuram mais o conselheiro que adolescentes e jovens. Mas isto não significa aceitação automática do conselheiro. Este precisará mostrar segurança e lhe será útil conhecer algumas características desta faixa etária, também.

 

6.1 – Mentalmente

1. Maturidade. Bem mais firmada que a dos jovens. Há, evidentemente, casos de insegurança emocional e de imaturidade. Estamos falando em termos gerais sobre o grupo. O adulto já está maduro e correções de rumo podem ser feitas por ele, em sua vida. Mas geralmente estão arraigados em posições e pontos de vista. Pode se observar isto no fato de que a maior parte dos rachas nas igrejas é ocasionada por adultos que discordam de alguma posição do pastor. Esta maturidade descamba para a inflexibilidade: “Sempre foi assim” ou “Nossa igreja sempre foi assim”.

2. Agressivos. Exatamente por já saberem tudo (às vezes têm mais idade que o pastor ou que o conselheiro) a maturidade do adulto o transforma em alguém agressivo. Esta agressividade não é, necessariamente, violência. É a postura de se posicionar mais seguramente e de ser mais duro na exposição de suas posições. O conselheiro que é pastor e dirige reuniões de conselhos administrativos de igrejas sabe bem do que estamos falando.

3. Poder de perseverar. O adulto é mais seguro, já passou por crises em sua vida e venceu algumas delas. Perdeu em outras, mas amadureceu. Ele persevera. O conselheiro deve ter isto em mente. O adulto que lhe procura quer superar dificuldades e está disposto a lutar. Quer enxergar luz no fim do túnel.

 

6.2 – Fisicamente

1. Aprecia ainda recreação, participa de jogos. Tem capacidade de trabalho e se bem desafiado trabalha bastante na igreja. O conselheiro deverá levar em conta que lida com alguém que tem boa disposição física, a não ser que sofra alguma enfermidade.

2. Desejo de servir. Com a vida bem definida, com filhos pequenos, ele procura uma área para se dedicar a Deus. Pode ser chamado a servir a igreja, participar de projetos missionários, etc. O conselheiro deverá lembrar que muitas das crises dos adultos vêm, exatamente, por não utilizar seu potencial no reino de Deus.

 

6.3 – Socialmente

1. Concentra-se em amizades e em reuniões de grupo. Precisa de vida comunitária. O bom conselheiro procurará envolvê-lo com grupo. As chamadas terapias de grupo funcionam melhor com adultos, por exemplo. Mas o grupo que o conselheiro procurará inserir o adulto que estiver aconselhando é a igreja.

2. Pesquisa independente. Nem sempre segue o grupo. Discorda, pensa independentemente, busca informações. O conselheiro deve considerar a possibilidade de que sua orientação seja apenas mais uma, entre outras que o adulto procurará.

 

6.4 – Espiritualmente

1. Conversão possível, mas enfrentando mais resistência. Mudança de religião e de comportamento para o adulto é mais complicado. Há muito mais coisas em jogo. O conselheiro não deve esperar mudanças imediatas, mas deve trabalhar para que elas aconteçam. Obviamente não estamos ignorando o poder do Espírito Santo em transformar vidas e modificar hábitos. Estamos considerando a questão do ponto de vista das disposições das faixas etárias.

2. Convicção profunda. O trabalho deverá ser lento e regado a oração. Muita paciência. É verdade que na hora da crise o adulto, entendendo bem o que deve fazer, faz com mais determinação. Mas o conselheiro deve saber que do ponto de vista espiritual o adulto é mais seguro que qualquer outra faixa etária. Evidentemente que há adultos inseguros, mas esta é a regra geral. No geral, cabem para o adulto as palavras de Paulo: “Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança” (1Co 13.11).

 

CONCLUSÃO

É óbvio que não se pode, em uma palestra de poucas páginas, dar-se uma visão exaustiva das características das faixas etárias. Falamos aqui em termos gerais.  Com base nisto, como ponto de partida, e mais pesquisas, leituras e avaliações, o conselheiro progredirá em sua função. Mas o fundamental é saber distinguir, no aconselhamento, as características da pessoa, respeitar essas características e saber valer-se delas, sem manipulação, para cumprir seu propósito.



[1] ADAMS, Jay. Conselheiro capaz. S. José dos Campos: Editora Fiel, 1977, p. 12.