LEMBRANDO DO EMANUEL

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral da Igreja Batista Central de Macapá, 27.11.11

              Completando 40 anos de consagração ao ministério pastoral, relembro fatos e pessoas que me marcaram. No segundo ano de meu ministério  preguei na Fazenda do Estado, região de Marília. Ia lá uma vez por mês. Em 15.10.72, converteu-se um rapaz, um pouco mais velho que eu: Emanuel. No mês seguinte esteve no culto, mas sumiu nos dois seguintes. Pensei que houvesse desistido. Reapareceu no quarto mês. Fora a outra cidade, “vender umas vaquinhas”,  rever a família e lhe falar de Jesus. Queria que seus familiares se convertessem.

 

Querendo firmá-lo na fé, perguntei-lhe se ele queria uma Bíblia, pois nossa igreja, a PIB de Marília, dava uma de presente aos convertidos. No melhor jeito caipira, ele me respondeu: “Quero não, senhor”. Fiquei meio decepcionado, mas ele me disse: “Eu vou comprar a minha Bíblia. Quero a melhor e a mais bonita. Quando eu comprei meu cavalo eu quis o mais bonito. Vou comprar a Bíblia mais bonita;  ela vale mais que um cavalo”.

 

No ano seguinte saí de Marília. Chegamos eu e Meacir e saíamos com o Beny. Fui para Bauru, cidade maior. Ainda preguei em fazenda, como na Barro Vermelho, dos Almeida Prado, em Jaú, quando fui pastor interino da PIB de Jaú, em consonância com a PIB de Bauru. Nunca mais vi o Emanuel. Nem sei se ainda vive. Mas, 39 anos depois, sua lição continua viva em minha mente. Ele queria o melhor na vida espiritual. Não queria a Bíblia popular, capa simples. Queria uma com zíper, índice, beiras douradas e Cantor Cristão. O vaqueiro Emanuel ensinou o pastor nascido em cidade grande. Se na vida material queremos o melhor, por que não buscamos o melhor na vida espiritual?

 

Emanuel não quis que a igreja lhe desse o que ele podia ter. Recém convertido, foi visitar os pais e testemunhou-lhes de sua fé. Tornou-se dizimista. Quando eu ia à Fazenda do Estado, onde ele trabalhava, enviava seu dízimo. Não me lembro sequer do seu sobrenome (relaxamento meu), mas lembro do seu jeitão interiorano. Fiel, resoluto, comprometido. Há hoje gente patética, que não sabe o que quer e espera que os outros façam alguma coisa por elas.

 

Se você já partiu, Emanuel, já recebeu seu galardão de crente dedicado. Se ainda está na igreja aqui na terra, Deus o abençoe. O pastor com quem você se decidiu, que o doutrinou e que o batizou se lembra de você com afeto. E se orgulha de tê-lo batizado. Lamento duas coisas, Emanuel. Uma é não ter mais notícias suas. A  outra é que haja poucos emanuéis em nossas igrejas. Gente que se converta e entre com tudo, para valer. Você me foi uma inspiração. Você me dá saudades. De um passado que foi bom e não voltará. E de um tempo em que os crentes não queriam apenas receber, mas eram comprometidos. Obrigado, ex-ovelha!