A QUESTÃO DA UNÇÃO COM ÓLEO: OUTRA VISÃO

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

            “O Jornal Batista” publicou artigo do honrado Pr. Tarcisio, da PIB de Divinópolis, sob o tema acima.  Ele é um dos obreiros de mais futuro em nossa denominação. Preguei em sua ex-igreja,  quando ele era pastor em Feira de Santana, BA. Em seu ministério atual, fiz duas séries de pregações. Vi sua firmeza pastoral. Um senhor obreiro!

Em 1986, a JUERP lançou meu livro, Tiago, nosso contemporâneo. Teve três edições em português e uma em espanhol, em Cuba, de confecção artesanal, distribuída a pastores e seminaristas. Agora, aprofundei-me nos estudos e refiz o livro, como parte do Comentário Bíblico King James, da Abba Press, do qual sou o redator. Será outra edição, mais volumosa.

Naquela obra subscrevi a posição do Pr. Tarcísio, mas mudei minha visão. E a exponho, mesmo sabendo que virão críticas. Mas um dos votos que fiz a Deus foi que não hesitaria em mudar de posição quando convencido. Outro foi que não esconderia minha posição.

O artigo foca Tiago 5.14: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da igreja, a fim de que estes orem sobre a pessoa enferma, ungindo-a com óleo em o Nome do Senhor; e a oração, feita com fé, durará o doente, e o Senhor o levantará. E se houver cometido pecado, será perdoado” (KJ). Neste texto, a Bíblia Vozes comenta: “Conforme o Concílio de Trento, o sacramento da Unção dos Enfermos se identifica com a prática aqui descrita”[1]. A Bíblia de Jerusalém diz que “a Igreja viu uma forma inicial do sacramento da Unção dos Enfermos”[2]. É normal que Roma queira basear aqui o sacramento da Extrema-Unção. Não encontrará outro texto, no NT, mais próximo da prática. Mas a doutrina surgiu no século 12, e Tiago não fala de morte, e sim de cura do doente. A King James refuta a ideia:  “Diferentemente do que afirmam alguns teólogos, essa não é uma indicação para a prática da ‘extrema unção’. Primeiro, porque Tiago está se referindo aos presbíteros e não aos sacerdotes; segundo, porque o uso do verbo grego original sozo, cujo significado é, ao mesmo tempo, ‘salvar’ e ‘curar’, indica uma oração para a vida e não preparativo para a morte[3]. Tiago é claro: “e a oração, feita com fé, curará o doente, e o Senhor o levantará”.

Eis o ponto: “Chame os presbíteros da igreja, a fim de que estes orem sobre a pessoa enferma, ungindo-a com óleo em o Nome do Senhor; e a oração, feita com fé, curará o doente, e o Senhor o levantará”.  O doente deve chamar os presbíteros para que orem sobre ele e o unjam em nome do Senhor. A oração, não o óleo, curará o doente. É a oração que cura, mas Tiago diz para ungir o doente com óleo.

A CBB não tem o hábito de ungir enfermos com óleo. Eu nunca o fiz. Mas não posso dizer que fazê-lo seja desvio doutrinário. Se os batistas não aprovamos não é pertinente. O pertinente é isto: o que Tiago disse, exatamente? Disse para ungir o enfermo com óleo e orar sobre ele.

O Pr. Tarcisio cita um articulista: “Existem dois verbos gregos com o sentido de esfregar, ou ungir. O primeiro é chrio, que significa ungir num ritual. Não foi esse o termo que Tiago usou. O verbo em Tiago 5.14 é aleipho, cujo significado é esfregar com óleo. Assim sendo, Tiago não estava referindo-se a um ritual. Pelo contrário, ele falava de uma atitude refrescante e estimulante para com as pessoas doentes ou deprimidas”[4]. Mas a  distinção entre chrio e aleipho não é correta. Assim, a afirmação de que Tiago falava de atitude refrescante e estimulante também não é.

Diz Marcos 6.13: “E expulsavam muitos demônios; ungiam com óleo a inúmeros doentes e os curavam”. O verbo aleipho é usado aqui, em “ungiam”,  e não é em “atitude refrescante e estimulante”. Associam-se novamente doença, oração e cura. Respeitando o colega, a afirmação de que Tiago está dizendo algo como: “Está alguém entre vós doente? Chame os pastores da igreja, e orem sobre ele, pedindo que o Senhor abençoe a sua quimioterapia, o seu analgésico, o seu antibiótico, a sua vacina, os seus remédios”  não é correta nem feliz. Tiago não diz que os pastores devem pedir para que o óleo cure o doente (o articulista vê o óleo como remédio). Diz:  “e a oração, feita com fé, curará o doente”. O poder curador está na oração, segundo Tiago, e não no óleo. “A oração… curará o doente”. Deus responde orações e cura pessoas. Com ou sem remédio. Com ou sem óleo. O  óleo não cura,  não é remédio,  mas pode ser usado. Como diz para orar  pelos enfermos ele diz para ungi-los com óleo. E óleo (élaio) é óleo, não remédio. Não podemos impor nossos pressupostos doutrinários ao texto.

Outro respeitável articulista escreve: “Dicionaristas indicam que aleipho era a palavra secular para ungir e que crio (sic) era a palavra sagrada para ungir com finalidade de consagração”[5].  Sobre isto, cito o Dr. Taylor: “É inexato dizer que aleipho é ‘vocábulo profano’ e chrio ‘palavra sacra’ (…) Chrio se encontra nos papiros no sentido de untar um cavalo, e aleipho, mesmo no NT, não tem sentido ‘profano’ (Mc 6.13, 16.1, Lc 7.38, 46, Jo 11.2 e 12.3)”[6].

Brunotte comenta sobre isso: “Ungir é um ato simbólico através do qual os demônios são expulsos. As curas levadas a efeito pelos discípulos ou pelos presbíteros da igreja foram acompanhadas pela unção, ocorrendo no contexto da pregação e da oração. A cura, e, portanto, a unção também, veio a ser vista como um sinal visível do começo do reino de Deus. Qualquer entendimento semi-mágico da unção, no entanto, é firmemente refreado em Tg 5.13 e seguintes, pela importância atribuída à oração que a acompanha”[7].

Martorelli Dantas diz que é o racionalismo na igreja que vê a unção com óleo como sem valor e a nega, e afirma: “A unção, nos moldes de Tiago 5.14, é um ato de obediência àquilo que foi prescrito pela Palavra inspirada de Deus; em segundo lugar, nós cremos que Deus continua a curar enfermos em atenção à oração da igreja, de acordo com sua soberana vontade. Isto nunca deixou de ser assim, e o será, cremos nós, até a volta gloriosa de Cristo” [8]. Aceito sua posição: o que foi prescrito na Palavra de Deus deve ser acatado. A questão não é se aceitamos ou não ungir com óleo. A questão é que a Bíblia diz que o doente pode ser ungido com óleo.

O óleo não é mágico e não cura. Deus cura, em resposta à oração. Mas ungir com óleo não é heresia.  A prática está no NT. E cinco questões me ficam claras, neste aspecto (sigo e adapto Martorelli):

1. A unção com óleo deve ser feita apenas por oficiais constituídos pela igreja.

2. A unção do enfermo com óleo não é ordenança; não foi ordenada por Jesus.

3. O lugar adequado para ministrar o óleo é onde o enfermo está. Não há indicação de prática em culto público.

4. O óleo não tem poder de curar, e sim Deus, em resposta à oração em nome de Jesus.

5. Não se diz onde passar o óleo, mas desde o início do cristianismo era na testa do enfermo.

Não há a idéia de poder espiritual do óleo. Nem se recomenda seu uso em culto público. Ele faz parte de um simbolismo que pode nos escapar, mas seu uso é neotestamentário. Exegeticamente, não se pode dizer que ungir um doente e orar por ele seja desvio doutrinário. Podemos não gostar, mas Tiago recomenda. E repito: a questão não é se é nossa prática ou não, mas se a Bíblia diz. A palavra de Tiago é clara e não se lhe pode dar outro sentido.

Respeitando os demais: Tiago diz para ungir com óleo e orar. O óleo é óleo, e não remédio. São coisas diferentes: ungir com óleo e orar. A oração cura, não o óleo. Mas a unção com óleo está claramente dita na Bíblia. Sem querer diminuir alguém e provocar debates, é como vejo. “E eu penso que também tenho o Espírito de Deus” (2Co 7.40).



[1] Nota de rodapé da Bíblia Vozes.

[2] Nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.

[3] Nota de rodapé no Novo Testamento King James, Edição de Estudo.

[4] GUIMARÃES, Leonardo de Souza: “Devem os batistas usar a unção com óleo?”, site da ADIBERJ, 23/04/11.

[5] LIMA, Dinelcir de Souza: “A unção com óleo”, site da ADIBERJ, 23/04/11.

[6] TAYLOR, William Carey. Introdução ao estudo do Novo Testamento grego. Rio: CPB, 3ª. ed., 1966, p. 345.

[7] BROWN, Collin (editor). O novo dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. S. Paulo: Vida Nova, 4º. v., 1993, p. 676.

[8] DANTAS, Martorelli. A questão da unção com óleo. Pastor presbiteriano e professor de Teologia Sistemática e Hermenêutica do Seminário Presbiteriano do Norte, Recife. Artigo impresso, sem mais dados.