APOIO E PRESENÇA DE DIÁCONOS EM CAMPOS MISSIONÁRIOS

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Preparado para o 1º. Encontro dos Diáconos da Região Norte, em Belém do Pará, dia 12.11.11

 

INTRODUÇÃO – ONDE SE LEVANTA A TESE A DISCUTIR

Eis-nos diante de uma das mais sensatas questões que já vi, em debates sobre o diaconato. Eu mesmo nunca desenvolvera o assunto anteriormente, mas já o notara em meus estudos bíblicos. Quando escrevi o livro “Atos – de Jerusalém a Roma”, isto se me fez mais agudo, porque foi algo que me saltou aos olhos. Fiquei com a ideia na cabeça. Armazenei-a, para um dia fazer o download mental e desenvolvê-la. Agora me designam este tema.  E de quebra, tive três dias inteiros para refletir sobre ele, em Parintins, onde fui realizar pregações. Em Macapá, as múltipas atividades me desviariam do assunto. Na cidade dos bois Garantido e Caprichoso, pude refletir mais sobre o tema. E, longe de casa, com saudades da minha boa igreja e de minha excelente esposa, o remédio foi aplicar-me a este trabalho para não sentir saudades.

Estou sendo enigmático?  Explico-me.  O oficio diaconal ficou restrito, em nossas igrejas,  às atividades secundárias da vida eclesiástica. Por vezes, atividades gerenciais e adstritas ao prédio e às finanças da igreja local. Podem variar as atividades, mas em linhas gerais, é isto: diaconato se tornou a ministração da ceia, da beneficência e o cuidado do pastor (a célebre teoria das três mesas). Acresçam-se algumas atividade e outros aspectos mais que ora me fogem, mas em linha geral é isto.

A idéia de um ofício diaconal, no Novo Testamento, remonta a Atos 6.  O versículo 2 traz a expressão “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas”. Literalmente, o “sirvamos” é “diaconemos”, no texto grego. Se acompanharmos a etimologia de diákonos e virmos sua origem, a leitura correta seria “garçonemos”. Esta fala dos apóstolos designa uma espécie de hierarquia de atividades. O ofício de proclamação da Palavra precede, em importância, ao ofício de beneficência. Por extensão, a tarefa de pregar não deve ser prejudicada por tempo dispensado à vida funcional e burocrática da igreja. Assim, sete homens são escolhidos. Serem  “sete” é questão bastante comentada, mas foge-nos ao alvo. O ponto central é este: sete homens foram escolhidos para servir às mesas, mas nós não os vemos servindo às mesas, e sim pregando e fazendo missões.

 

1. A JUSTIFICATIVA DA TESE

Os personagens são elegidos (v. 5), apresentados aos apóstolos (v. 6) e estes (só eles,  não a igreja) lhes impuseram as mãos, após orarem (v. 6). A imposição de mãos, neste contexto, tem função tríplice: (1) Com a imposição de mãos, os  apóstolos lhes transmitem “autoridade” e não “poder” espiritual. Para isto, devemos empregar o termo  “exsousía”, algo que se recebe de fora, não sendo intrínseca, mas extrínseca. O termo não aparece no texto, mas a imposição de mãos tinha esta finalidade; (2) Reconhecem o ofício (como o ofício real, profético ou sacerdotal); (3) E os consagram (não “ordenam”, mas “consagram”) ao ofício que a igreja aceitou e Deus orientou na escolha, após oração.

O versículo  7 se inicia pela nossa conjunção “e”, conectando a consagração dos sete  (v. 6) com a divulgação da Palavra e conversão de pessoas. A inferência lógica é que os diáconos desembaraçaram os apóstolos para pregar e assim houve este resultado. No entanto, o versículo 8 começa com um “Ora”. Ainda está se tratando do assunto “a escolha dos sete”. Ele descreve a atuação do primeiro nome da lista dos diáconos, Estêvão. A inserção de seu nome em primeiro lugar na lista indica, para alguns, que ele era o líder dos sete, o presidente do corpo diaconal. O que fazia Estêvão? Não o trabalho dos sete, mas o trabalho dos apóstolos. No capitulo 8 temos o relato da ação de outro personagem do grupo dos sete, Filipe. É o segundo nome da relação. Mantendo a linha de alguns comentaristas, o vice-presidente do grupo. E sua atividade não é servir mesas, mas como diz o versículo 5: “pregava-lhes a Cristo”.  Ele volta ser mencionado em Atos 21.8. Diz-se claramente que ele era um dos sete, mas o título que recebe é “o evangelista”. Não há menção a atividades dos outros. A história da igreja registra um bispo Nicolau, mas  não é seguro  associá-lo com o deste nome, na lista dos sete.

Eis o ponto: dos homens escolhidos para servirem às mesas, os dois primeiros se notabilizaram por serem evangelistas. Lembro que o termo, em Atos, tem a conotação de missionários. Por isso, é mais que justo presumir que os diáconos fossem pessoas que também praticavam evangelização e missões.

 

2. O DIÁCONO DEVE TER VISÃO GLOBAL DO REINO DE DEUS

Um problema grave em nosso momento é a múltipla especialização de atividades no Reino de Deus. Confundindo a diversidade de dons com profissionalização e setorização do Reino, encontramos pessoas que são especialistas numa área e se omitem das demais. Há o músico que não se envolve em área alguma que não seja a sua. O educador que só vê sua atividade. O evangelista que acha que é a pessoa mais importante na vida da igreja e se exime do restante. O administrador que sequer participa de reuniões espirituais. Na hora do culto fica zanzando pelas instalações do prédio “para ver se tudo está em ordem”. Há burocratas  de agências denominacionais que só cuidam das atividades de escritório de sua instituição, e nem dizimistas são. Mas que esperam apoio da igreja local ao seu trabalho. Esta visão fragmentária da igreja (expressão visível do Reino) é prejudicial ao seu desenvolvimento.

A atitude de Estêvão e Filipe nos mostra que o diácono deve ter visão global do Reino. Isso implica em que ele cultive a compreensão de que não é um burocrata especializado em mesas da igreja, mas um cristão assumido e comprometido com a causa. Ele não pode ter função única e sim múltipla.

Dos diáconos à região Norte, que é um campo missionário. É o meu campo missionário. É o nosso porque é a nossa região.  A Amazônia é um desafio à evangelização. Em si, ela já é um impacto na vida de quem tem sensibilidade emocional e espiritual.  Parodiando um de meus conterrâneos (não sei se foi Vinícius de Moraes ou Stanislaw Ponte Preta) que disse que “ser carioca é um estado de espírito”, digo que “ser amazônida é uma paixão da alma”, mais que certidão de nascimento.  A região é belíssima e entranha-se na alma de quem a vive, e não de que quem apenas vive nela. Mas é, ao mesmo tempo, um enorme desafio à evangelização. Li que das vinte melhores estradas do Brasil dezenove estão em São Paulo. Estradas do Brasil são horríveis, mas as piores estão na Amazônia. Além disso, aqui, as distâncias são grandes. Lembro-me, quando comecei a trabalhar na região, em 1993, com o choque que tive: as distâncias, no Amazonas, não eram medidas em horas ou quilômetros, mas em dias. “Fulano está a dez dias de viagem”. No Amapá, se a gente consegue passar com uma caminhonete, a 30 km por hora, “a estrada está boa”. Êta povo otimista o amapaense! Povos da floresta, população ribeirinha, comunidades isoladas, cultura diferente. Esta é uma região em que não se pode brincar de igreja e de ser cristão. Quem conhece o interiorzão sabe disso.  A área geográfica é enorme, e a dificuldade de movimentação lhe é proporcional. Não dá para prescindir de obreiros para evangelização e missões. E os diáconos são mão de obra especializada. Não em servir mesas, mas porque são “de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6.3). Gente assim não pode ser subutilizada, cuidando apenas de aspectos da burocracia eclesiástica. É mão de obra espiritualmente qualificada, e em alto nível, se o critério for bíblico e não social, econômico ou para aquietar alguma família que se julga dona da igreja. O critério bíblico não é que sejam tirados dos mais qualificados na política eclesiástica, mas os mais qualificados espiritualmente. Costumo dizer que “os missionários são a elite das tropas de Deus”. Os diáconos deve ser a elite espiritual da igreja (embora haja certo contrassenso na frase, vá lá!). Prezados diáconos: que elite vocês são, a política ou a espiritual? E quem é elite espiritual tem o coração ardendo com evangelização e missões. Não as vê como secundárias em sua vida, reservando-se a servir mesas e se entrincheirar na administração eclesiástica.

Na realidade, uma das tarefas dos diáconos deveria ser, à luz do espírito subjacente à proposta de sua escolha, exatamente diminuir os efeitos da burocracia da igreja local. Aspectos secundários não podiam se sobrepor ao essencial. Há igrejas estruturadas como megacorporações e seus membros exultam com isso, porque acham que a complexidade eclesiástica é sinal de crescimento.  E não é.  A complexidade é sinal de ensimesmamento, ou seja, a organização chamada “igreja” está despendendo mais tempo para cuidar de si do que para a função que foi criada. O secundário se torna mais importante que o essencial. A igreja primitiva brotou da estrutura da sinagoga (inclusive em termos de liturgia, que não veio da liturgia do templo). As viúvas eram cuidadas pela sinagoga. Convertidas, ficaram sem assistência. A igreja era, neste sentido, a sinagoga delas. Mas as sinagogas foram criadas como centro de ensino da Torah, e com toda probabilidade, no cativeiro. Foram exatamente a simplificação da religião. Os diáconos surgiram para evitar a complexidade que ameaçava a função primordial da igreja, e não para aumentá-la. Diáconos não devem ser pessoas confinadas à burocracia do templo e que, para justificar sua existência, aumentam-na, criando um gueto.

Diácono de verdade tem paixão pelo evangelho de Jesus. É integrado na igreja e na região onde ela está, não sendo um quisto cultural. Estêvão e Filipe não eram burocratas eclesiásticos, mas pessoas envolvidas na evangelização.

Falei de homens, mas se entendermos, como me soa, que Febe era diaconisa (Rm 16.2, ver rodapé na VR), é oportuno considerar que a menção especial a ela, nos termos dispostos, a torna a possível portadora da carta aos romanos. Com toda a probabilidade não fora lá a passeio. Uma carta como esta não seria entregue a uma turista despreocupada, mas a uma oficial da igreja. Não forçarei a situação ao dizer que esta diaconisa foi lá como missionária.

Posso concluir este tópico dizendo: há três diáconos citados como tais, no Novo Testamento. E os três evangelizavam e missionavam. Aplicando este princípio à nossa região, o diaconato não pode ser um ofício para ser exercido no templo e restrito à burocracia ou a um momento da liturgia. Porque Estêvão, Filipe e Febe se tornaram conhecidos por atividades extra-prédio. O diácono há que ser um evangelista, pregador leigo, envolvido com missões, na vanguarda da ação fora do templo e não apenas alguém que cuida de um jardinzinho eclesiástico.

 

3. O DIÁCONO – UM CONTRAPONTO ÀS NOVIDADES DOUTRINÁRIAS

Vamos definir bem a questão. Não me passa pela cabeça tornar os diáconos em cães de caça na igreja. Mas ressalto um ponto: a introdução de esquisitices doutrinárias nas igrejas tem sucedido a partir do ministério pastoral. O espírito de competição, o sonho da megaigreja e o desejo de escrever o nome em gás néon têm levado muitos obreiros ao exotismo doutrinário e litúrgico. Recordo-me de um colega ter dito, sobre as pessoas estarem levando fotografias de parentes para serem “benzidas” por ele, com oração e “óleo ungido” (o que é exatamente, óleo ungido? Como e com quê se unge óleo?). Ante meu espanto, ele me disse: “Eu não creio nisso, mas as pessoas se sentem bem e vêm ao culto por causa disso, aí ouvem a Palavra”. Jesuitismo puro: os fins justificam os meios.

Tempos atrás escrevi um artigo intitulado “O valor da EBD”. Nele afirmei que um dos sinais de que a igreja corre risco doutrinário é quando o pastor deseja extinguir o ensino da Bíblia pelos chamados “leigos”, e assim acaba com a EBD. Ele se coloca como a única pessoa credenciada para ensinar as Escrituras. O material para estudo nos grupos é preparado por ele ou por ele escolhido.  Declarei ainda que a Escola Dominical é antídoto às heresias. Porque nas classes as questões são debatidas. Os professores, em boa parte das vezes, a maioria das vezes, são pessoas que moram na região da igreja, membros há tempos, conhecem-na, sabem de seus anseios, de seu jeitão de ser, estão lá antes do pastor, e depois que ele se for continuarão lá.

Um pequeno parêntesis e volto a esta linha: muitas igrejas têm errado em pressupor que a maior necessidade do professor da EBD é ter noções pedagógicas. Assim elas acham que quem é professor secular será um bom professor na EBD. Desta maneira acontece que esses professores trazem os mesmos vícios e as mesmas falhas de um sistema educacional secular falho e fraco, que não tem dado certo, para dentro da igreja. A primeira coisa que tais pessoas fazem, e isto parece doença de professor, é se queixar: da falta de recursos, de ambiente especial, de tecnologia educacional, da má vontade dos alunos, da falta de apoio da liderança, etc. Até o vocabulário passa a ser o mesmo: colocar (ao invés de dizer), tematizar (ao invés de desenvolver), conteúdos (no plural!), etc. Exatamente como no magistério secular, e para ser mais semelhante ao magistério secular, falta o mea culpa. Nunca ouvi professor dizer: “O problema sou eu”. Fechemos o parêntesis.

                        Volto ao ponto. Os três diáconos que são mostrados em ação na Bíblia são mostrados em ações ligadas ao ensino das Escrituras. Dois pregando e uma portando a carta aos romanos. E agora junto as pontas: não basta evangelizar e fazer missões. É preciso doutrinar ou discipular, termos que soam sinônimos. Porque a Grande Comissão traz “ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado…” (Mt 28.20). O “ensinando” é, literalmente, “discipulando”. Muita gente usa esta expressão para justificar seu conceito de discipular: reproduzir pessoas à sua imagem e semelhança. Mas o ensino na igreja é para levar as pessoas ao “pleno conhecimento do Filho de Deus,  ao estado do homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13) e não para produzir clones do discipulador.  É incrível como alguns discipulados repetem até o tom e a inflexão de voz do líder do seu grupo. Agora, virou moda a figura do pastor peripatético, com microfone na mão, andando para lá e para cá, mancando das duas pernas, imitando certo pastor televisivo. Só falta colocarem um chapéu na cabeça.

Se os diáconos são extraídos das pessoas espiritualmente mais gabaritadas da membresia da igreja eles devem discipular e firmar as pessoas na Palavra. O melhor professor da EBD não é, necessariamente, o que domina a melhor didática, mas o que tem boa vida cristã. Verdade é que se pode ter boa vida cristã e didática, mas aquela se sobrepõe a esta. Porque o conteúdo (no singular) da fé cristã é Jesus Cristo. O bom doutrinador não é o que conhece versículos bíblicos ajustáveis a certos assuntos, mas aquele que tem o caráter de Cristo introjetado em sua vida. O diácono deve ser uma pessoa firme em Cristo, que sinalize aos novos convertidos como andar em Cristo. Ele deve ser alguém que ande com Jesus, por isso foi escolhido pela igreja. Deve ter um coração ardente por evangelização e missões e deve ter preocupação em que os alcançados sejam firmados na fé.

Fecho o ponto. O diácono deve ser um cristão maduro no caráter e no conhecimento da Palavra. Deve ser um doutrinador. Sem rasgar seda e sem falsa humildade, como também sem desejo de apedrejar alguém: os problemas doutrinários na igreja têm vindo de cima, e não de baixo. O diácono deve ser uma pessoa leal ao seu pastor, mas seria bom lembrar Aristóteles: “Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade”. Mutatis mutandis…

                        Num campo como o nosso, em que vicejam esquisitices, o diácono tem papel fundamental na preservação do resultado do trabalho evangelístico e missionário. Ele deve ser, por determinação bíblica, uma reserva moral e espiritual. E, por necessidade de nossas igrejas (o diaconato surgiu por uma necessidade da igreja), deve ser uma reserva missionária e doutrinária.

 

CONCLUSÃO

Pensará alguém que carreguei nas tintas (ou no teclado). Talvez seja porque nos acostumamos a abordar a questão por outro ângulo. Mas, como pastor de igreja e como líder denominacional (mesmo que sendo de pouca relevância) é isto o que espero de diáconos. Não tenho problema algum em conviver com diáconos e demais líderes que abraçassem o que apresentei aqui.

A presença diaconal em nossa região, que é campo missionário, é tímida. Tem sido intramuros e eclesial, paroquial mesmo. Precisa ser mais expressiva. Isso eu detecto, mas não viabilizo. Os diáconos é que devem viabilizar. Ninguém deu ordens a Estêvão e a Filipe. Não me consta que Paulo tenha coagido Febe a ser missionária, levando orientação discipular da Cencréia até Roma. Pode até ter pedido, mas o sistema eclesiástico que brota no Novo Testamento não parece ser piramidal. As vocações e as disposições são obra do Espírito. Por isso, que os diáconos ouçam a voz do Espírito Santo, não no alarido litúrgico, mas na carência do campo onde Deus os colocou e a igreja os reconheceu como dignos de tal honra.

Parafraseando Stott, com o seu livro Ouça o Espírito, ouça o mundo, eu digo: Ouçam seu campo e ouçam nele a voz do Espírito. Campos brancos para a colheita que precisam de obreiros sérios. E vocês devem ser a seriedade da igreja.

Era o que tinha a dizer. E tenho dito.