A INTEGRIDADE DA PROFECIA

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Assembléia da Convenção Batista Brasileira, em Foz do Iguaçu, PR, 22.1.12

 

INTRODUÇÃO

Comecemos definindo os termos, como dizia meu professor de Filosofia, Dr. Reynaldo Purim. Quando falo de “Integridade da profecia”, por “integridade” aludo à completude e ao inter-relacionamento da profecia. Aludo a como ela é completa, no sentido de ser um todo, e afirmo que é como um todo que o evento profecia deve ser analisado. E afirmo que suas partes e épocas se relacionam entre si. Para um bom entendimento teológico, ela não pode ser analisada em episódios desconectados uns dos outros. Em uma etapa posterior desta palestra, mostro o que isto implica para nós, em nossa teologia e em nossa ética. É nesta direção que caminharemos.

Ao definir “integridade” como sendo sinônimo de completude e de um todo, quero eliminar a visão fragmentária de profecia, como ela fosse destinada por Deus para tratar de questiúnculas de varejo. A profecia bíblica não é um sistema de augúrios, tipo horóscopo, com previsões para a vida dos leitores. Pessoas que parecem não saber administrar sua vida buscam este uso da profecia. Precisam de alguém que lhes diga o que fazer. Geralmente elas encontram algum alegado profeta, que lhes dirá o que fazer na sua vida (quem quer ser iludido sempre encontrará alguém que lhe ajudará neste mister).  Em algumas vezes, neste processo, a Bíblia é usada para pinçar declarações em versículos isolados que são interpretadas por elas como sendo um oráculo divino pessoal. Em muitos segmentos, os alegados profetas que palpitam sobre a vida das pessoas chegam às raias da absoluta ausência de bom senso. Batizei uma jovem advogada que estava em uma dessas igrejas, onde ainda não fora batizada, mas ela e seu namorado já haviam sido designados para serem pastores. A profetisa orientara-os a já morarem juntos antes do casamento. Isto trouxe grande confusão à cabeça da jovem, que procurou uma igreja tradicional, onde a Bíblia fosse ensinada e tratada com reverência. O rapaz, hoje, está no espiritismo. Nem naquela seita permaneceu. Mas ambos foram “vocacionados” pela profetisa porque tinham formação superior e ocupavam funções sociais de visibilidade social. O critério sequer era espiritual, mas sim o quanto o jovem casal daria de visibilidade àquela seita. Muita gente acha que a verdade está na fama, e quando algum famoso professa alguma fé, esta fé deve ser a verdadeira. É por isso que famosos fazem mais sucesso em nossas igrejas com seus testemunhos que os santos homens e santas mulheres de Deus com seu ensino bíblico.

 

1. UM POUCO MAIS DE DEFINIÇÃO

Vou andar um pouco por aqui, negando, para afirmar depois o que ela é. Profecia não é adivinhação. O termo hebraico para “profetizar” é nibba’ [1], cuja etimologia é bastante disputada. A idéia mais aceita é que se relaciona com o acadiano nabû, “chamar, convocar, proclamar”. Vemos isso no Código de Hamurábi, quando o rei caldeu afirma que ele foi nibit Bel (“vocacionado por Bel”) e que as demais divindades caldaicas o nibiû (chamaram ou nomearam) para ser seu vice-regente na terra. Este parece ser o primeiro registro histórico do termo. Seu sentido ficou sendo o de alguém chamado e designado por alguma divindade. Deste termo nabû vem o hebraico nabhi, “profeta, a pessoa chamada”.  O profeta seria alguém chamado por Deus para entregar uma mensagem, sendo seu representante entre os homens. Esta mensagem que ele transmite é a profecia.

Como a profecia só existe se existir um profeta (anjos não profetizam), a figura do profeta esclarece mais o evento da profecia. Os dois estão intrinsecamente ligados. O profeta era também chamado de ish Elohym, “homem de Deus”, como a sunamita declarou de Eliseu, em 2Reis 4.9 (ish Elohym qadôsh – santo homem de Deus). A expressão designava uma pessoa de uma vida totalmente consagrada a Deus. A profecia dependia, para sua comunicação, de uma relação especial do profeta com Deus.  Outros dois termos que se intercambiavam era hôzeh ou ro’eh, “vidente”. O sentido é mais amplo que descobrir coisas (embora em 1Samuel 9.9, o descobridor de coisas seja chamado de ro’eh). A idéia dos dois termos é que o profeta é o homem que vê aquilo que o mundo não vê. Um exemplo atual: eis os homens brincando com o pecado, apologizando drogas, enaltecendo o homossexualismo, banalizando o sexo, destroçando a família, levantando cercas contra o evangelho e contra Deus. Tudo isto é chamado de progresso e de avanço cultural. Quem se oponha a este arrastão é chamado de fundamentalista, e tido como politicamente incorreto. Mas o profeta é o homem que vê aonde conduz a vida sem Deus e brincando com o pecado. Ele ousa dizer que o aborto indiscriminado é infanticídio. Que o homossexualismo pode ser legal, mas é pecado. Ele é mal visto pelos  donos da informação, que massificam as pessoas e forçam a criação de leis para calá-los. Principalmente porque ousa falar do juízo de Deus. Mas pelo menos fica na companhia de um Jeremias, de um Amós, de um Elias, de um João Batista.  Faz parte de uma rara estirpe de homens sérios que serviram a Deus, sem se importarem com a popularidade de um mundo medíocre.

A profecia bíblica é portadora da verdade de Deus e ela mesma é a verdade de Deus. Profecia não é apenas história ou curiosidade. Menos ainda fofoca sobre alguém. Como está registrada na Bíblia, ela é, numa feliz expressão de Ernest Wright, o relato dos atos de Deus, porque na profecia Deus não apenas falou, mas agiu. Ele não é apenas o Deus que fala, mas é também o Deus que age. A profecia é sua palavra e também a sua ação, isso porque ela está enraizada na história. A história é o palco onde Deus se movimenta[2]. A profecia é histórica porque une palavra e ação.

Assim vemos que o profeta não é um adivinho nem um proferidor de “palavras proféticas” que se cumprirão na vida de alguém. É um oráculo de Deus. E que a profecia é a verdade moral de Deus aos homens, porque a profecia sempre tem um significado moral. Ela não é informativa, mas se propõe a ser formativa.

A profecia é um todo integrado, mesmo com a particularização de destinatários (reis, Israel, Judá, nações pagãs, reis gentios, etc.). Ela é a instrução ao povo sobre a vontade de Yahweh. Por isso, acertadamente, diz Provérbios 29.18: “Onde não há profecia, o povo se corrompe”. A profecia ajudava o povo a se manter nos caminhos do Senhor. Os profetas exortavam o povo ao arrependimento e a uma vida correta com Deus. Havia predições em suas pregações, mas elas eram acessórias e não o fundamental. O fundamental na profecia sempre foi o chamado ao acerto da vida com Deus. A profecia não é, em sua essência, adivinhação ou cognição, mas a transmissão do caráter moral de Deus, com as implicações disto para a vida dos ouvintes.

 

2. A CONEXÃO ENTRE PROFECIA E PREDIÇÃO

Comecei o tópico anterior dizendo que profecia não era predição, e o desenvolvi dizendo que na profecia havia predição. Vamos esclarecer bem isto. As predições aparecem na profecia, geralmente como resultado da obediência ou rejeição à Palavra de Deus. Isto fica bem caracterizado nas bênçãos do monte Ebal, e as maldições do monte Gerizim (Dt 27.11 a 28.68). As bênçãos e maldições são previstas como resultado da resposta do povo. Da mesma maneira,  aspecto futurístico das bênçãos de Jacó sobre seus filhos e netos (Gn 49) tem a ver com o procedimento deles. O caso mais claro é a retirada da bênção da primogenitura a Rúben, e a não cessão dela aos sucessores imediatos, o que deveria suceder pelo direito mosaico, Simeão e Levi, que também são apenados. A bênção da primogenitura termina recaindo sobre Judá. A sua apaixonada defesa de Benjamim (Gn 44.16-34), que move o coração de José, mostra como ele mudou e, mesmo sendo o quarto filho, se habilitou a ela.  Sem dúvida que a peça oratória de Judá sucedeu, mas ela é inserida no texto para mostrar porque Judá passou a ser o destinatário da primogenitura. Ou seja, o futuro, segundo a profecia, é determinado pelo caráter e postura diante de Deus no presente em que a profecia é proferida. O elemento preditivo surge como componente do elemento ético. A profecia é um chamado à correção. Aceitando a correção, há bênção no futuro. Não aceitando, há maldição no futuro. Assim surgem as predições. Não são predições pelo hábito de prognosticar, mas para compor o quadro do ensino. Elas fazem parte de um todo.

É neste sentido que aparecem as predições da destruição de Jerusalém, bem como o retorno de Judá do cativeiro, por Jeremias. As profecias messiânicas surgem neste contexto: a restauração da dinastia davídica, após o castigo de Judá com o cativeiro babilônico. No entanto, há aqui uma notável distinção. A bênção da restauração não se liga a algo de bom feito pelo povo, mas ao hesed de Yahweh, que mantinha o pacto de pé. Mas mesmo neste caso, podemos notar que o futuro não era apenas predição, mas tinha um significado teológico. Mais uma vez, o foco não é adivinhar ou vislumbrar o futuro por mero exercício, como se os profetas fossem treinados para lerem o futuro. O foco é o cumprimento da Palavra falada por Deus. Isto fica bem definido na figura da amendoeira que floresce (Jr 1.11-12), com o interessante jogo de palavras, no hebraico (shoqed, “amendoeira”, e shaqed, “vigio”). A predição está sempre ligada a um projeto de Deus na história, e não à satisfação de figuras patéticas que querem diariamente uma “palavra profética” ou um “ato profético” (seja lá o que isso seja) para continuarem suas vidas opacas de significado histórico e sua incapacidade de viverem sem horóscopos e sem gurus.

Em Ageu, o messianismo profético está tão ligado à casa de Davi que Schwantes usou o termo “davidismo” para designá-lo[3]. Deus prometeu, pela aliança davídica (2Sm 7.12-16), que um descendente da Davi reinaria para sempre. O davidismo subsidia o messianismo no cativeiro e no pós-cativeiro imediato. Ou seja, a predição messiânica está ligada à Palavra de Deus, e não a um anseio sociológico, em tempos de cativeiro. Ela já fora anunciada antes, na história. Predição não é adivinhação e faz parte de um processo histórico, não de fragmentos de vidas isoladas.

Este aspecto do elemento preditivo não ser fragmentário, atomizado e pessoal e sim se localizar dentro de um propósito de Deus tem um significado teológico muito rico. Praticamente, quase que toda a teologia do Novo Testamento está contida na nova aliança e no davidismo de Ezequiel e nos cânticos do Servo Sofredor de Yahweh[4]. O elemento preditivo do Antigo Testamento se conecta à nova aliança. Hebreus 1.1-2 deixa isso bem claro. Os atos de Deus na história podem, sem exegese a fórceps, ser inseridos na expressão “de muitas maneiras”. A profecia se liga à história. O Messias é um novo Davi. Lembre-se que o Novo Testamento se abre e se fecha falando de Davi (Mt 1.1 e Ap 22.16). A história realizada do Antigo Testamento é o suporte do Novo Testamento. A profecia se fez história e gerou o Novo Testamento. Por isso, que não rebaixemos o conceito de profecia à adivinhação ou ao ato de algum guru iluminado em fazer declarações sobre a vida de pessoas. Isto é empobrecer ao extremo a idéia de profecia.

Esta integridade se vê no inter-relacionamento entre dois Testamentos. Vários exemplos podem ser aduzidos aqui. Miquéias 5.2 é um desses exemplos que destaco. O texto, produto do oitavo século antes de Cristo, aponta Belém como lugar de nascimento do Messias. Poucas semanas antes do Messias nascer, sua mãe estava em Nazaré, distante de Belém. Na longínqua Roma, um rei pagão edita um decreto, e obriga a mãe do Messias à viagem, e assim a profecia se cumpre. Não foi uma adivinhação, mas ação divina. Que precisou usar um pagão para que ela se cumprisse (como usou Ciro). Ele é Deus sobre os pagãos e os usa quando quer e como quer, sem que nada fique lhes devendo. Mas a escolha de Belém não foi acidental. Coloca-o na linhagem de Davi e da cidade de Davi. Sua criação em Nazaré não foi acidental. É o rei humilde. A profecia traz uma mensagem declarada e muitas vezes  também traz uma implícita, em seus contornos. Mas este exemplo mostra a ação de Deus na história, a interdependência dos dois Testamentos e que a profecia se ocupa de coisas grandes, como o eterno propósito de Deus. Aqui, a predição é altamente profética, mas enraizada na história. O elemento preditivo na profecia não é diletante (“Quem será o campeão deste ano?”)  ou frívola (“Ó profeta, com quem devo me casar?”). É histórico.

 

3. O QUE TORNA A PROFECIA POSSÍVEL E COMO ELA SE VIABILIZA

A profecia bíblica é possível e repousa sobre este fato: Deus se relaciona com os homens. Isto é notável desde o Éden e se torna agudo em Êxodo 3.18 (“E ouvirão a tua voz; e irás, com os anciãos de Israel, ao rei do Egito e lhe dirás: O SENHOR, o Deus dos hebreus, nos encontrou. Agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, a fim de que sacrifiquemos ao SENHOR, nosso Deus “), que é conhecido como a entrada de Yahweh na história de Israel. O verbo “encontrou” é bastante significativo. Não significa que ele houvesse perdido Israel, mas sim que veio recuperar Israel do cativeiro. Ele entrou na experiência do povo. A profecia existe porque Deus é um ser relacional. Neste relacionamento, por um ato da sua graça e da sua soberania, ele elege pessoas que se tornam seus profetas. A primeira ocorrência do termo “profeta” está em Gênesis 20.7, e se refere a Abraão. O significativo é que o termo não tem nenhuma conotação com vidência ou um significado teológico especial, mas com o caráter de Abraão. “Ele intercederá por ti”. O primeiro uso do termo nabhi se aplica a um homem por quem Deus tinha especial atenção e que deveria ser acatado. Ele era portador de bênção ou maldição para o rei. O profeta é um homem de relacionamento especial com Deus. Yahweh é o Deus da graça, do hesed, escolhe os seus, cuida deles, e os usa como canais para comunicar sua graça do mundo.

Sara não podia gerar um filho de Abimeleque. Ela seria a geradora da família eleita. Observe que a questão do profeta (e por extensão, a profecia) se liga, mais uma vez, à teologia e ao propósito histórico de Deus.

Porque é um ser relacional, Deus deseja manter bom relacionamento com seu povo, e o instrui para isso. O texto de Oséias 4.6 é bem claro: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”) . Chamo a sua atenção para o fato de que “conhecimento”, aqui, não é cognitivo. Muitas vezes o texto foi usado para dar base à educação religiosa e a necessidade de dar conhecimento bíblico ao povo. O hebraico é da’at, com o sentido de relacionamento vivencial e não cognitivo. É o verbo usado em “E Adão conheceu a Eva, sua mulher” (Gn 4.1). Da’at é conhecimento mais profundo e pessoal que se pode ter. Deus não está dizendo que faltam informações ao seu povo, mas sim que lhe falta relacionamento pessoal com ele. A profecia é transmissão de vida, e não de dados. No contexto de Oséias se entende que a profecia é para trazer o povo ao relacionamento correto com Deus. Correto não necessariamente em ortodoxia, mas em ortopraxia, no relacionar-se com Deus. A profecia é o chamado ao povo para andar corretamente com Deus. Isto pode ser visto como o desejo de Deus, bem expresso a Abrão: “Eu sou El Shadday, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17.1).  A profecia é um chamado à retidão, ao da’at, ao hallaq (andar) com Deus.

A profecia é íntegra quando chama o homem a andar com Deus. O profeta é um ish Elohym, que por ser homem de Deus pode chamar os homens a andarem com Deus. Por desdobramento, ela se viabiliza por homens e mulheres santos, que Deus usa.

O pregador cristão, como profeta, como ish Elohym (homem de Deus), como hôzeh ou ro’eh (aquele que vê o mundo com os olhos de Deus) deve transmitir vida. Ele não é um professor de curiosidades bíblicas, mas proclama a Palavra Viva de um Deus Vivo, proclama a Palavra que transmite vida. Por isso, ele não pode ser uma figura errática nem insegura. A moda hoje é não ser diretivo nem politicamente incorreto. Segundo tal posição, não podemos dizer que temos a verdade e que fora da mensagem que pregamos não há salvação e que as pessoas estão erradas. Mas o profeta tem convicções e não se subordina a conveniências culturais, porque a profecia, se é calcada na verdadeira Palavra de Deus, e não em insights humanos, é a verdade. É absoluta e não condicional. E se um homem não tem esta convicção, ele não é um profeta. E o que ele prega não é profecia. Moralmente, o mundo não é íntegro. A profecia, se realmente for bíblica, é moralmente íntegra, porque expressa a vontade de Deus que é “boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2). A profecia sempre terá um elevado componente moral. E os profetas devem ser homens de moral elevada. Pigmeus espirituais nunca poderão ser profetas. A sunamita expressou bem. O ish Elohym  deve ser qadosh.

 

4. A PROFECIA É BÍBLICA E NÃO PLATÔNICA

Para ser íntegra, a profecia não pode ser um exercício platônico, na concepção de que saber é ser. Bastaria, então, dizer alguma coisa sobre Deus que as pessoas mudariam, porque saberiam alguma coisa sobre ele. Nossa sociedade tem este viés platônico: acha que se alguém sabe o certo fará o certo. Por isso há tanta ênfase em conscientizar, em nossa cultura. Ao invés de multar o motorista alcoolizado, vamos conscientizá-lo. Tudo se resolve com uma campanha de informações. Quero ressaltar bem este ponto: o profeta não é um informador e a profecia não é informação. O profeta é um pregador e a profecia é uma pregação. A pregação profética não pode omitir um evento teológico fundamental, a Queda. O homem é caído e sempre recusará a voz de Deus. A profecia íntegra sempre deve conter um aspecto moral: Deus é Santo, os homens são pecadores e devem se arrepender de seus pecados. As chamadas para a bênção, felicidade, prosperidade e saúde plena não são o cerne da profecia. De passagem: uma teologia bíblica equilibrada não pode ignorar a Queda. Muitos pregadores foram massificados pelo Iluminismo que molda nossa cultura ao invés de se encharcarem das Escrituras. Acreditam piamente na bondade humana. Ouvi um desses pregadores dizer que “a missão da igreja é despertar nos homens o que eles têm de melhor”. De onde veio tal idéia? Há alguma passagem bíblica que a respalde? A missão da igreja em geral e do profeta em particular foi bem caracterizada por Paulo: “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (2Co 5.20). Todas as vezes que a Queda é ignorada a teologia fica manca. O profeta se torna como os adversários de Jeremias, que só profetizavam coisas boas para o povo, e não a vontade de Deus. E a profecia não é massagem no ego de pecadores, mas o anúncio de que eles devem ajustar suas vidas às exigências de Deus.

Na realidade, o ambiente em que a profecia se desenrola é um campo de batalha espiritual. Não nos moldes de alguns “batalheiros”, cujo ensino se parece mais com “Guerra nas estrelas” que com o ensino bíblico. Jeremias travou uma dura batalha espiritual com os falsos profetas. Amós a travou com Amazias. Elias com os profetas de Baal. Paulo com Elimas e com os falsos apóstolos. Anunciar o desígnio de Deus é estar em batalha espiritual, não em recreio espiritual. A profecia proclamada suscita a reação dos poderes do mal. É por isso que o profeta precisa ser um ish Elohym. A questão não é de conhecimento, mas envolve luta espiritual. Por isso que o pregador não dá apenas informações, mas prega à mente e às emoções dos ouvintes. Pregamos para mover mentes e corações.

Muito do que o neopentecostalismo chama de profecia são generalidades e abstrações para comandar ou agradar pessoas. A profecia autenticamente íntegra e bíblica é bem definida, não abstrata, e visa, além da chamada ao arrependimento, o amadurecimento do povo de Deus. Lemos em Efésios 4.11-14: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”.  Volto ao que disse anteriormente: a profecia é formativa e não informativa. Ela é instrumento que o Espírito Santo emprega para nosso amadurecimento.

 

5. AS MARCAS DA INTEGRIDADE DA PROFECIA

Há muita coisa chamada de “profecia” em nosso tempo. Como podemos distinguir entre o que seja a verdadeira e íntegra profecia e o que seja apenas criação humana? Mostrei algumas marcas morais, mas há algumas marcas notáveis no conteúdo. Elas são mostradas por Archer [5], aludindo ao profeta. Amplio-as para a profecia. Aliás, neste trabalho, não dissocio os dois, profecia e profeta.

(1) A profecia servia para encorajar o povo de Deus a confiar exclusivamente na graça de Deus, e no seu poder libertador, e não nos méritos de força ou capacidade humanas. A profecia chama para confiar na graça de Deus, e não no homem. Jeremias 17.5-7 traduz isso muito bem: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR! Porque será como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR”. Toda profecia que não ponha o foco na graça de Deus e que exalte a pessoa é falsa. Profetas que se colocam sob spotlights não são dignos do título. Profetas que amam os holofotes usurpam a glória de Deus.

(2) A profecia avisava ao povo que a segurança e a bem-aventurança dependiam de sua fidelidade à aliança. Esta aliança não era apenas de conteúdo doutrinário, mas exigia submissão sincera a Deus, em atos de amor. A shemá (Dt 6.4) e seu versículo imediato traduzem isto muito bem: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”.  A profecia leva à confiança em Deus e a um amor genuíno por ele.

(3) A profecia encorajava Israel quanto ao seu futuro. Não se trata de futurismo, mas daquela atitude de saber que a vida está nas mãos de Deus. As Escrituras têm este poder. Seu ensino profético mostra que Deus está no controle e que as coisas terminarão onde ele deseja e determinou que elas terminassem. Quem expressou isto muito bem foi Paulo: “Segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte”(Fp 1.20) e também “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2Tm 4.18). A profecia (neste caso da segurança de Paulo trata-se da profecia do Novo Testamento) infunde segurança ao povo de Deus. Ele tem tudo em suas mãos!

(4) A profecia hebraica mostrava sua natureza de algo vindo de Deus quando se cumpria de maneira objetivamente averiguável. Archer cita Deuteronômio 18, sem mencionar os versículos, em defesa desta afirmação. Devem ser os versículos 21-22, que dizem: “Se disseres no teu coração: Como conhecerei a palavra que o SENHOR não falou? Sabe que, quando esse profeta falar em nome do SENHOR, e a palavra dele se não cumprir, nem suceder, como profetizou, esta é palavra que o SENHOR não disse; com soberba, a falou o tal profeta; não tenhas temor dele”. Embora sua afirmação tenha respaldo bíblico, Archer  não apresentou todo o ensino sobre o que qualificava a profecia como vinda de Deus. Não era o cumprimento de algo que foi dito que tornava o que foi dito uma profecia vinda de Deus. Eis Deuteronômio 13.1-3: “Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma”.  O padrão não é o cumprimento, mas se a profecia se coaduna com a Palavra de Deus. Tal profeta, ainda continua o texto de Deuteronômio, deveria ser morto porque falou rebeldia contra Deus (v. 5). O padrão é a Palavra de Deus. Qualquer profecia que colida contra os ensinos claros da Bíblia devem ser rejeitados. O parâmetro para se avaliar a integridade da profecia bem como qualquer palavra pronunciada como se fosse de Deus é a Bíblia.

 

6. UMA JUNÇÃO DE PROFECIA E PROFETA

Praticamente tratei disto em toda a palestra. Mas vamos ser específicos, agora. A profecia não existe à parte do profeta. Deus não envia mensagens no éter, no vácuo. Até a mão que veio do nada e escreveu na parede (Dn 5) dependeu de um intérprete humano. A revelação natural, tão bem narrada no Salmo 19.1 e em Romanos 1.18-20, pode mostrar “seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade” (Rm 1.20), mas não seu propósito eterno para o homem. Isto só a revelação nas Escrituras e em Cristo pode fazer. O profeta anuncia os atos de Deus.  As marcas da integridade na profecia devem se fazer presentes na vida do profeta.

O profeta deve encorajar o povo de Deus a confiar exclusivamente na graça de Deus, e no seu poder libertador, e não nos méritos de força ou capacidade humanas. Deve avisar à igreja que a sua segurança e a sua bem-aventurança dependem da aliança que Jesus fez conosco, através do seu sangue. Deve avisar o mundo sem Cristo que ele precisa aceitar esta aliança ou estará perdido. Deve encorajar a igreja quanto ao seu futuro. Agora ela é Militante, mas a profecia neotestamentária nos avisa que ela será Triunfante. Ela não deve temer. O profeta contemporâneo aviva na igreja a mensagem de Romanos 8.18: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós”.

E, por último, mas não o menos importante: o profeta é escravo da Palavra de Deus. Ela é senhora dele, de seus pensamentos e de sua pregação. Ele deve ser um homem íntegro, moral e teologicamente, porque prega uma mensagem íntegra.

 

CONCLUSÃO

A profecia é íntegra, no sentido de ser completa. Afirmo que a Bíblia é uma imensa obra profética, porque é a revelação de Deus. Ela nos fala dele. O que o homem precisa saber de fundamental para sua vida está nas Escrituras. Não é preciso que lhe venha algo de fora.

A profecia é íntegra, no sentido moral. Pode haver muitas coisas no Antigo Testamento que não conseguimos entender. Outras que nos chocam, como o aleijamento de cavalos, em 2Samuel 8.4 e 1 Crônicas 18.4. Mas a profecia do Antigo Testamento é ampliada e esclarecida no Novo Testamento. E é este que serve de padrão. Temos esquecido este aspecto hermenêutico fundamental e básico: é o Novo Testamento que interpreta o Antigo e que o esclarece. O Antigo subsidia o Novo, mas o Novo é a palavra final. Assim, a revelação se completa nas Escrituras. Se, eventualmente, houver alguma revelação, ela deve ser aferida pelas Escrituras, e mais particularmente pelo Novo Testamento. Mas quanto a mim, pessoalmente, ela me basta. Não preciso de um Joseph Smith com seu exótico livro do Mórmon. Nem dos escritos de Ellen White, que, segundo o ex-adventista Ubaldo Ribeiro, na assembléia da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Dallas, EUA (1980), foi considerada como “inspirada no mesmo sentido em que o são os profetas da Bíblia” e, “como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuação e fonte autorizada de verdade…”[6]. Isso colocou  seus escritos estão em pé de igualdade com  os escritos bíblicos. Em determinadas circunstâncias, superam a Bíblia porque “esclarecem” seus ensinos.

A Bíblia é íntegra e completa. Ela nos basta em termos de nos ensinar sobre Deus. É uma grande profecia, porque é um grande ensino.


[1]  ARCHER, Gleason. Merece confiança o Antigo Testamento? S. Paulo:  Edições Vida Nova, p. 333.

[2] Wright comenta isto com precisão e felicidade em O Deus que age, editado pela ASTE.

[3] Ele a expõe em sua obra Ageu, editada pela Sinodal.

[4] A quem se interessar, posso enviar minha dissertação de mestrado intitulada “Os sofrimentos do Messias e sua aplicação para nosso tempo  -– uma avaliação da teologia da prosperidade à luz dos cânticos do Servo Sofredor de Isaías”.

[5] ARCHER, p. 336. Eu as aceito e faço um reparo à quarta marca.

[6] ARAÚJO, Ubaldo. O Adventismo, sem indicações, 1981, p. 96.