UMA CRISTOLOGIA NO LIVRO DE SALMOS – 3

OS SOFRIMENTOS DO MESSIAS – UMA ANÁLISE  DO SALMO 69

 Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Ordem dos Pastores Batistas do Rio Grande do Norte, em abril de 2012

                Do Salmo 22 passemos ao 69. Nele, vamos nos deter apenas nos versículos 3, 7-9, 12 e 19-21.

 

Vejamos um pouco do seu contexto. Dois comentaristas bíblicos nos ajudarão a entender do que se trata. O primeiro deles é Kidner: “Este salmo revela um homem vulnerável: é alguém que não podia dar somenos importância à calúnia, à traição ou auto-acusação (v. 5); somente uma pessoa endurecida ou ensimesmada, e cujo senso de justiça tinha sido embotado, poderia fazer assim. Tanto suas orações como suas maldições brotaram desta sensibilidade pessoal e moral, e o Novo Testamento vê a prefiguração de Cristo no zelo que o cantor demonstra para com a casa de Deus, e nos seus sofrimentos. Mesmo assim, a própria justaposição entre Davi, que amaldiçoava seus perseguidores, e Jesus, que orava em prol dos Seus (sic), ressalta a grande diferença entre o tipo e o antítipo, e realmente, entre as atitudes que se aceitavam entre os santos do Antigo Testamento e os do Novo”. [1]

O segundo comentarista é Weiser.  Assim diz ele “Depois do Salmo 22, o Salmo 69 é o mais citado no Novo Testamento, sendo interpretado messianicamente com referência a Cristo. Ainda que originalmente as afirmações em particular não se tenham entendido como profecias sobre Cristo, este emocionante testemunho de paixão humana porta traços tão típicos do sofrimento, que a relação para com aquele que carregou toda a paixão do mundo impõe-se por si mesma a uma consideração séria”. [2]

 

Quanto à afirmação de Kidner sobre a diferença entre o tipo e o antítipo, de que Davi amaldiçoava seus perseguidores e Jesus orava, intercessoriamente, pelos seus, dois motivos justificam o contraste. O primeiro é que o Salmo 69 é um salmo de imprecação. Uma característica deste tipo de salmo é a maldição exatamente como teste pragmático. O homem errado, ímpio, ou seja qual for o adjetivo que a ele se aplique, deve ser castigado. O teste pragmático consistia nisto: o justo deve ser abençoado e o ímpio deve ser amaldiçoado. É esta a linguagem do Salmo 1º , por exemplo. Muito mais que extravasar ódio, a imprecação mostrava a necessidade do ímpio ser punido. Escapando de qualquer punição, ele burlava a moralidade do mundo de Deus e, por que não dizer, do próprio Deus? A imprecação era necessária, no esquema de pensamento hebreu, para haver moralidade no mundo. O segundo motivo é que o conceito de perdão alcança seu clímax e sua expressão máxima no Novo Testamento e, especificamente, na pessoa de Jesus Cristo, o messias de Deus.  Não está plenamente desenvolvida no Antigo Testamento. Cabe aqui uma observação: parece que muitas vezes a pregação da teologia da prosperidade insiste num teste pragmático, como no Antigo Testamento. Os bons devem prosperar e os maus (os de fora da Igreja) devem se dar mal na vida. O ensino neotestamentário não permite a imprecação. A maldição pragmática inexiste no evangelho. Jesus manda orar pelos inimigos (Mt 5.44) e mostra que, diferentemente do Antigo Testamento, onde Deus declara fazer distinção entre os filhos de Israel e os egípcios (Êx 11.7), Jesus ensina que  “ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos”(Mt 5.45).

 

A questão que deve ser afirmada é: o sofrimento faz parte dos propósitos divinos. Não  é uma excrescência ao seu plano. Não se pode eliminar o sofrimento enquanto o homem estiver na terra. O messias sofreu e seu sofrimento foi vicário, mas pedagógico e também padrão.

 

O versículo 3 mostra a sede como efeito da febre, produto do sofrimento causado pela cruz. Comentado anteriormente, quando da observação do Salmo 22, pode ser posto de lado sem mais exegeses. Mostra-nos que o sofrimento físico do messias de Deus foi real e angustiante. A dor cruel está na vida do fundador do cristianismo e ensinador do evangelho de Deus.

 

O segundo bloco de versículos vai do 7 ao 9. Trata de algo que pode ser entendido como mais doloroso e angustiante que o sofrimento físico, como já dito, o sofrimento moral. No versículo 7, ele suportou “afrontas” e está sendo “confuso”, no sentido de estar sendo envergonhado, confundido. Ele aceita sofrer na alma, na psiquê, na sua interioridade. O ensino bíblico é que o sofrimento faz parte da vida, e isso não apenas com o sofrimento físico, do corpo, mas  também o sofrimento psíquico. Corpo e psiquê sofrem. Não há redoma de vidro para proteger os fiéis, imunizando-os contra qualquer tipo de sofrimento. O futuro messias sofrerá no corpo e no espírito. Até mesmo sua família o rejeitará, criando-lhe uma situação constrangedora: a de não ter apoio doméstico. Quando o mundo se volta contra uma pessoa, mas tem ela o apoio do seu lar, é possível para ela encontrar forças para lutar e vencer. Mas quando, dentro da própria casa, ela encontra uma hostilidade tão grande como a da rua, a situação se torna desesperadora. E é esta a situação de muito crente no Senhor Jesus, que enfrenta as contrariedades da vida pela sua fé, que sofre o assédio do pecado, e, muitas vezes, por causa de sua fé, encontra oposição dentro de sua própria casa. A situação de muitos cristãos não é tão rósea como se pinta. Mas esta condição foi antecipada pelo messias. Ele enfrentou a oposição de toda a elite dirigente de seu país e, em casa, mais oposição, a ponto de seus irmãos presumirem que ele estava louco e desejaram prendê-lo (Mc 3.21). Muitas vezes a oposição da família se abate sobre uma pessoa justamente porque ela se comprometeu com o evangelho. O evangelho não traz toda tranquilidade do mundo para alguém. Pode desencadear perseguições e hostilidades.

 

Uma curiosidade: o versículo 8 é a única declaração da Bíblia que permite entender que Maria teve filhos seus, de seu ventre, e não de um casamento anterior de José: “um estranho para os meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe”. O autor deste trabalho pode ilustrar isso em sua família.  Seu pai casou-se duas vezes. Com sua mãe e, depois do falecimento desta, com sua madrasta. Tem ele uma irmã, filha de sua mãe, e quatro meio-irmãos, filhos de sua madrasta. Pode dizer  “meus irmãos” referindo-se aos filhos de sua madrasta. São seus irmãos, filhos do seu pai. Mas, filha da sua mãe, há apenas uma. Pois bem, o poeta-profeta tornou-se um estranho  para os filhos de sua mãe, não de seu pai. Sua mãe teve filhos e não apenas os “herdou” em casamento com um viúvo.

 

Passada a curiosidade, voltemos ao texto em si. O versículo 9 diz “pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que afrontam caíram sobre mim”. É oportuno voltar a considerar o comentarista Kidner, neste contexto. Diz ele: “O fato de que ambas as metades do versículo 9 haveriam de se cumprir em Cristo (Jo 2.17; Rm 15.3), coloca o assunto num contexto tão novo que o leitor tem dificuldades em sentir como Davi se achava desorientado, além da dor que sentia. A ‘fraqueza de Deus’ agora faz sentido, pois é redentora; e ‘sofrer afrontas por esse Nome’ (At 5.41) é, apesar do seu alto custo, um elogio”. [3]

 

A identificação do cristão com o seu Senhor e Salvador no sofrimento pela fidelidade, por exemplo, é sinal de prestígio, de qualidade espiritual, e não um demérito. É a honra da  identificação. O Fiel por excelência sofreu sem pecado. Os fiéis não devem pensar que não sofrerão. Pelo contrário, uma prova de sua fidelidade é exatamente o sofrimento. “E na verdade, todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3.12). Não somos chamados para nos identificarmos com o Salvador na sua glória, porque não a temos, porque ainda não entramos nela. Mas somos chamados a nos identificar com ele no sofrimento. Diz bem 1Pedro 4.13: “mas regozijai-vos por serdes participantes  das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis”. O sofrimento por amor a Cristo é medalha no peito de um combatente espiritual. Sobre esta questão voltaremos a falar mais à frente, quando apresentarmos a visão da teologia da prosperidade sobre enfermidades, de forma mais específica.

 

Os versículos 19-21 receberam de Kidner o título de “A taça do sofrimento”. O versículo 19 traz três substantivos que mostram a dor moral do messias por vir: opróbrio, vergonha e ignomínia. Vale a pena, mais uma vez, citar o aludido comentarista aqui:  “Na sociedade de relacionamentos estreitos do Antigo Testamento, a vergonha pública era ainda mais devastadora do que na nossa” [4].

 

Essa vergonha pública, antecipada no Salmo 22 (versículos 6-8, principalmente), e ratificada aqui, se cumpriu muito bem na vida de Jesus, como mostram Mateus 27.39-44. Mas as expressões “fel” e  “vinagre”, encontradas no Salmo 69.21, são, na Septuaginta, as mesmas encontradas no Novo Testamento. A descrição do escárnio, feita no Salmo 69, lembra muito de perto a zombaria da cruz: “Afrontas quebraram-me o coração, e estou debilitado. Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei”. A zombaria da cruz mostra outra faceta do sofrimento, a moral. Não é muito diferente da zombaria que enfrenta um estudante universitário, por exemplo, no Brasil. E muito parecido com a hostilidade que este autor viu os crentes cubanos sofrerem nas mãos da elite dirigente do país, toda ela membro do Partido Comunista. A depreciação, a falta de oportunidades, a situação de estar sempre como culpado antes de poder provar sua inocência (e por vezes, mesmo provando sua inocência), toda uma situação de exposição ao ridículo e tratamento como um ser inferior. A vergonha do ridículo e o enfrentamento de zombaria são constantes em situações assim. O messias sofrerá no corpo, mas, mais ainda, será objeto de zombaria e escárnio.

 

UM RESUMO – Não tão extenso nem tão rico como o Salmo 22, o Salmo 69 nos mostra mais alguns aspectos do sofrimento do messias. O sofrimento físico foi acompanhado do moral e a estes dois se juntou algo mais pungente: a dor da rejeição da própria família. Dissabores estão alistados na vida do servo e do messias.  E também fazem parte do contexto da fé cristã. São, na realidade,  a terra fértil de onde brotará o cristianismo. Este não ensina como se livrar do sofrimento, e nem mesmo acena com uma vida de triunfos constantes, sem jamais conhecer algum dissabor. Mas sim como saber viver no sofrimento. Um cristão não é aquele que não sofre. É aquele que sabe como enfrentar o sofrimento.

 

 



[1] KIDNER, Derek. Salmos 1-72. S. Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1980. p. 267.

[2] WEISER, Arthur. Os Salmos. S. Paulo: Paulinas, 1994, p. 370.

[3] KIDNER, op. cit., p. 268

[4] KIDNER, op. cit., p. 269